quinta-feira, 26 de junho de 2025

Vijay Prashad: Os ataques dos Estados Unidos ao Irã aumentarão a proliferação de armas nucleares

Em 21 de junho, os Estados Unidos atacaram três localidades no Irã com a sua imensa força militar. Os alvos foram Fordow, Isfahan e Natanz — três áreas onde o Irã abriga suas instalações de energia nuclear. É importante destacar que as instalações nucleares iranianas são legais e continuam a ser inspecionadas e validadas pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

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O Irã ingressou na AIEA em 1958, pouco depois da criação da agência da ONU. Desde então, tem sido um membro da AIEA e seguido as diretrizes gerais estabelecidas para o uso pacífico da energia nuclear. Apesar da enorme pressão do Norte Global sobre a AIEA para que sancione o Irã, os relatórios da agência têm sido claros: o Irã não violou as regras e não é um Estado detentor de armas nucleares. Além disso, o Irã não ameaçou os Estados Unidos nem atacou o país ou os seus interesses. Simultaneamente, não houve nenhuma resolução do Conselho de Segurança da ONU sob o Capítulo VII da Carta das Nações Unidas que autorizasse os EUA a atacar o Irã. Portanto, os Estados Unidos e Israel violaram o direito internacional ao conduzirem uma guerra de agressão contra o Irã.

O Irã afirmou que não há contaminação nuclear nas áreas das instalações, o que indica que os Estados Unidos não conseguiram penetrar esses centros altamente protegidos. Até agora, parece haver pouco interesse no governo Trump em expandir essa campanha de bombardeios e levar a sua guerra agressiva às cidades do Irã, como fez o governo Bush no Iraque.

Mas não há garantias de que a guerra não se ampliará, indo além dos ataques às instalações de energia nuclear. Se o Irã não se render nas negociações previstas, é bem possível que os Estados Unidos e Israel bombardeiem Teerã, tentem assassinar a liderança iraniana e busquem derrubar o governo.

Tanto os Estados Unidos quanto Israel subestimaram o Irã. A World Values Survey mostra que os iranianos respondem com clareza e em grande número a perguntas que refletem orgulho nacional: 83% disseram que têm orgulho de seu país, e 72% afirmaram que estão prontos para lutar por sua pátria (nos EUA, esse percentual é de apenas 59). Nos comícios anuais da Revolução de 11 de Fevereiro, um número enorme de pessoas comparece e marcha com entusiasmo. Os ataques ao Irã não enfraqueceram essa determinação — pelo contrário, parecem tê-la aumentado.

Apesar dos ataques, as pessoas têm ido às ruas para demonstrar a sua raiva e sua resolução em combater quem quer que ataque o Irã e sua soberania. Não será fácil para os Estados Unidos e Israel desestabilizarem a República Islâmica e colocar no poder seus aliados, como Reza Pahlavi, descendente do xá do Irã, que vive em Los Angeles, nos EUA.

O alto índice de patriotismo no Irã e a determinação do povo iraniano impedirão os Estados Unidos de tentar invadir o país (a população do Irã é de 90 milhões, enquanto a do Iraque é de 45 milhões; como os EUA não conseguiram subjugar o Iraque, é improvável que consigam dominar uma população duas vezes maior e extremamente jovem — com idade média de 33 anos). Um bombardeio covarde ao Irã já é uma coisa, mas uma invasão militar está fora de questão para países que não querem enfrentar uma resistência vigorosa, de rua em rua.

O maior incentivo à proliferação de armas nucleares será esse ataque ao Irã. A destruição do Estado líbio pela OTAN e pelos EUA (2011) e agora esse ataque estadunidense-israelense ao Irã provam para países como a Coreia do Norte que o escudo nuclear é necessário. De fato, a recusa da Coreia do Norte em desnuclearizar o seu aparato militar mostra ao Sul Global que, se quiserem proteger a sua soberania, um exército convencional não é suficiente. É provável que o Irã se retire do Tratado de Não Proliferação Nuclear (1968), suspenda a sua cooperação com a AIEA e desenvolva uma arma nuclear. Egito, Arábia Saudita e Turquia provavelmente seguirão o mesmo caminho, desestabilizando totalmente o Oriente Médio, enquanto Mianmar deve aumentar a sua cooperação com a Coreia do Norte para obter mísseis e uma arma nuclear. É um escudo lógico para países que veem a soberania do Irã ser violada não por ter uma arma nuclear, mas por não ter uma.

Aos poucos, grupos cada vez maiores de pessoas têm ido às ruas, horrorizadas com as implicações desse ataque hiperimperialista de Israel e dos Estados Unidos. Declarações de grupos ao redor do mundo condenam esses ataques e reafirmam que paz e desenvolvimento são os desejos dos povos, não guerra e retrocesso. Não há dúvida entre os povos do Sul Global: esse ataque de Israel e dos EUA não tem relação com o comportamento do Irã, mas tudo a ver com os objetivos de guerra do Norte Global de dominar o Oriente Médio.

¨      Netanyahu declara "vitória" contra o Irã, mas programa nuclear da República Islâmica continua de pé

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse nesta terça-feira (24) que Israel, em seus 12 dias de guerra contra o Irã, removeu o que qualificou como "ameaça de aniquilação nuclear". Ele afirmou que estava determinado a frustrar qualquer tentativa de Teerã de reativar seu programa nuclear e classificou a suposta vitória como histórica, segundo a agência Reuters. 

"Removemos duas ameaças existenciais imediatas para nós--a ameaça de aniquilação nuclear e a ameaça de aniquilação por 20.000 mísseis balísticos", disse ele em comentários em vídeo divulgados por seu gabinete.

"Se alguém no Irã tentar reviver esse projeto, trabalharemos com a mesma determinação e força para impedir qualquer tentativa. Repito, o Irã não terá armas nucleares", disse. 

No entanto, em pronunciamento divulgado pela imprensa estatal iraniana, o presidente Masoud Pezeshkian classificou o desfecho como uma “grande vitória” para o país e afirmou que a guerra foi “imposta ao Irã pelo aventurismo de Israel”.

Um cessar-fogo instável começou a se estabelecer entre Israel e Irã nesta terça-feira, sob pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aumentando as esperanças de um fim para o maior confronto militar da história entre os arqui-inimigos do Oriente Médio.

Trump repreendeu ambos os lados por violações iniciais da trégua que ele anunciou, mas dirigiu críticas especialmente contundentes ao aliado próximo de Washington, Israel, sobre a escala de seus ataques, dizendo-lhe para "se acalmar agora".

Mais tarde, ele disse que Israel cancelou outros ataques sob seu comando para preservar o acordo que pôs fim a uma guerra aérea de 12 dias com o Irã.

Tanto o Irã quanto Israel enviaram sinais de que o conflito havia terminado, pelo menos por enquanto.

Apesar das declarações de Netanyahu, a República Islâmica parece ter obtido vantagem após a troca de ataques de mísseis. Os ataques dos EUA neste fim de semana contra instalações nucleares iranianas não desmantelaram o programa nuclear do país, mas provavelmente o atrasaram em alguns meses, informou a emissora CNN mais cedo nesta terça-feira, citando uma avaliação preliminar da inteligência norte-americana.

Três pessoas informadas sobre a avaliação afirmaram que os ataques não destruíram componentes centrais do programa nuclear de Teerã, mas acrescentaram que a análise da Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos ainda está em andamento.

Ao mesmo tempo, duas dessas fontes disseram que o estoque de urânio enriquecido do Irã não foi destruído, enquanto outra pessoa afirmou que as centrífugas nas instalações atingidas permaneceram em grande parte “intactas”.

¨      Trump e Hegseth já admitem dúvidas sobre o nível de danos às instalações nucleares do Irã

Donald Trump e o secretário de defesa dos EUA, Pete Hegseth , admitiram ter algumas dúvidas sobre a escala dos danos causados ​​às instalações nucleares do Irã pelo bombardeio dos EUA no fim de semana, depois que uma avaliação vazada do Pentágono disse que o programa iraniano havia sido atrasado em apenas alguns meses.

"A inteligência foi muito inconclusiva", disse Trump a jornalistas em uma cúpula da OTAN em Haia, introduzindo um elemento de incerteza pela primeira vez após vários dias de declarações enfáticas de que a destruição havia sido total. "A inteligência diz que não sabemos. Poderia ter sido muito grave. É o que a inteligência sugere."

O presidente então pareceu voltar à sua afirmação de que "foi muito grave. Houve aniquilação".

Trump também comparou o uso de enormes bombas destruidoras de bunkers pelos EUA nos locais de enriquecimento de urânio de Fordow e Natanz ao impacto das armas nucleares dos EUA lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki na Segunda Guerra Mundial, usando a comparação especificamente em referência ao seu impacto no fim de um conflito.

Acompanhando Trump na cúpula, Hegseth também pareceu rebaixar sua declaração anterior de que a capacidade do Irã de fabricar armas nucleares no futuro havia sido "obliterada".

Na quarta-feira, o secretário de Defesa descreveu os danos às instalações nucleares do Irã pelos bombardeios dos EUA e de Israel como "moderados a severos". Ele prometeu que haveria uma investigação do FBI sobre os vazamentos do Pentágono, mas também afirmou que as informações vazadas eram "falsas".

Enquanto isso, o exército israelense disse que ainda estava tentando avaliar os danos causados ​​pela campanha de bombardeio, mas um oficial sênior insistiu: "Nós os empurramos anos para trás".

Na terça-feira à noite, a CNN noticiou sobre uma avaliação inicial vazada da Agência de Inteligência de Defesa (DIA), que concluiu provisoriamente que o sítio profundamente enterrado de Fordow e as instalações subterrâneas em Natanz não foram destruídas e que componentes-chave do programa nuclear, incluindo centrífugas, poderiam ser reiniciados em poucos meses.

O relato da CNN sobre o vazamento foi confirmado de forma independente pelo Guardian e outros veículos de comunicação. O Washington Post observou que o vazamento foi classificado como "de baixa confiança", embora uma fonte tenha dito ao Guardian que uma análise mais aprofundada poderia encontrar danos ainda menores do que a estimativa inicial do DIA.

A avaliação da DIA também descobriu que grande parte do estoque de urânio altamente enriquecido do Irã, que forneceria o combustível para a fabricação de qualquer futura ogiva nuclear, havia sido movido antes dos ataques e pode ter sido transferido para outras instalações nucleares secretas mantidas pelo Irã.

Durante vários anos, uma nova instalação foi escavada sob uma montanha, ao sul da instalação original de Natanz.

Fornecendo uma perspectiva israelense na quarta-feira, o porta-voz da IDF, Brig Gen Effie Defrin, disse que os resultados dos bombardeios da força aérea foram "ainda melhores do que esperávamos".

“Posso dizer agora que a estimativa é que desferimos um golpe significativo na infraestrutura nuclear [do Irã]”, disse Defrin. “Posso dizer que os empurramos anos para trás.”

A CNN informou que as estimativas da inteligência israelense sobre o retrocesso infligido às aspirações nucleares do Irã eram de dois anos.

Embora as avaliações tenham diferido sobre os danos causados ​​às instalações subterrâneas de Fordow e Natanz, pareceu haver aceitação geral de que o estoque de 400 kg de urânio enriquecido a 60% do Irã havia desaparecido e não estava mais sendo monitorado pelo órgão de fiscalização da ONU, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Especialistas nucleares descreveram o desenvolvimento como um desastre potencial para os esforços de não proliferação e alertaram para os perigos de o Irã decidir expulsar os inspetores da AIEA restantes no país e abandonar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) de 1968. O tratado obriga o Irã e outros países sem armas nucleares a se absterem de qualquer esforço para fabricar uma bomba e a se submeterem a monitoramento e verificação.

O parlamento do Irã está preparando um projeto de lei abrindo caminho para a saída do TNP.

¨      Após cessar-fogo, Israel diz que campanha contra Irã continua e 'foco' retorna a Gaza

O chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), Eyal Zamir, declarou nesta terça-feira (24/06) que o cessar-fogo “concluiu um capítulo importante, mas a campanha contra o Irã não acabou”.

“Estamos entrando em uma nova fase que se baseia nas conquistas da operação atual. Atrasamos o projeto nuclear do Irã por anos e o mesmo vale para seu programa de mísseis”, disse o tenente-general israelense no âmbito do Fórum do Estado-Maior, de acordo com as IDF.

Zamir classificou as ofensivas de Tel Aviv contra Teerã como “extraordinárias”, mas que ainda assim seria necessário “manter os pés no chão”. Em seguida, afirmou que gradativamente voltará a se concentrar nas operações militares voltadas ao território palestino, sob alegação de “desmantelar o Hamas”.

“Agora, o foco retorna a Gaza, para trazer os reféns para casa e derrubar o governo do Hamas”, afirmou.

¨      Irã fala em ‘vitória’

Por outro lado, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, ressaltou nesta terça-feira que sua nação foi responsável pelo encerramento de uma guerra iniciada por um país “terrorista”, referindo-se a Israel.

“Embora o iniciador desta guerra imposta tenha sido o inimigo terrorista, seu fim foi determinado pela vontade e autoridade da grande nação iraniana”, enfatizou, anunciando formalmente o fim da “guerra de 12 dias”.

“Meus queridos compatriotas; querido e fervoroso povo do Irã! Hoje, após a corajosa resistência de sua grande nação, que fez história, testemunhamos um cessar-fogo e a cessação da guerra de 12 dias imposta à nação iraniana pelo aventureirismo e incitamento do regime sionista”, acrescentou.

Horas antes, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã (SNSC, na sigla em inglês) declarou que o governo israelense foi forçado à “cessação unilateral” do conflito.

O órgão afirmou que Teerã saiu vitorioso graças à “defesa firme” das Forças Armadas Iranianas e “os ataques retaliatórios esmagadores” contra Tel Aviv que “forçaram o inimigo a sentir remorso, confessar a derrota e aprovar a cessação unilateral do ataque”.

O SNCS também garantiu que as forças do país “não confiam no inimigo” e estão “totalmente preparadas, com o dedo no gatilho, para dar uma resposta esmagadora a qualquer ato hostil de agressão”.

¨      Cebrapaz saúda vitória do Irã contra EUA e Israel: “Triunfo da dignidade sobre o imperialismo”

Em comunicado divulgado nesta segunda-feira (24), o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) manifestou solidariedade e apoio à República Islâmica do Irã diante dos recentes confrontos com os Estados Unidos e Israel. A nota, assinada pelo presidente da entidade, José Reinaldo Carvalho, afirma que o Irã obteve uma "gloriosa vitória" frente às agressões de "caráter imperialista" e saúda o povo iraniano por seu “heroísmo, dignidade e coragem”.

Segundo o documento, o mundo "testemunha hoje, com admiração e respeito, o heroísmo demonstrado pelo povo do Irã, por suas instituições legítimas, por suas Forças Armadas e pela valorosa Guarda Revolucionária Islâmica". Para o Cebrapaz, a resistência iraniana diante das ofensivas militares e pressões políticas lideradas por Washington e Tel Aviv é prova de que "o compromisso inabalável com a justiça é mais poderoso do que qualquer arsenal militar".

<><> Reconhecimento à liderança iraniana

O texto também faz referência direta às principais autoridades do país persa. É endereçado ao líder supremo, Aiatolá Ali Khamenei, ao recém-eleito presidente Masud Pezeshkian e à população do país. O Cebrapaz enaltece a postura da liderança iraniana durante o conflito, destacando sua “serenidade”, “clareza estratégica” e “fidelidade aos interesses do povo iraniano”.

"Esta vitória não pertence apenas ao Irã, mas a todos os povos que se recusam a se ajoelhar diante do imperialismo e do sionismo", diz o comunicado. Para a entidade brasileira, a reação do Irã é uma "lição inestimável" e demonstra que vale a pena resistir contra a dominação estrangeira.

<><> Crítica à fragilidade moral do imperialismo

A nota também critica com veemência a ideologia e os métodos de dominação dos adversários do Irã. “O sionismo e o imperialismo, por mais que ostentem poderio militar e tecnológico, são politicamente, ideologicamente e moralmente frágeis. São fortes nas armas, mas fracos nas ideias e nos valores", escreve o presidente do Cebrapaz.

 

Fonte: Brasil 247/The Guardian/Opera Mundi

 

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