Vijay
Prashad: Os ataques dos Estados Unidos ao Irã aumentarão a proliferação de
armas nucleares
Em 21
de junho, os Estados Unidos atacaram três localidades no Irã com a sua imensa
força militar. Os alvos foram Fordow, Isfahan e Natanz — três áreas onde o Irã
abriga suas instalações de energia nuclear. É importante destacar que as
instalações nucleares iranianas são legais e continuam a ser inspecionadas e
validadas pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
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O Irã
ingressou na AIEA em 1958, pouco depois da criação da agência da ONU. Desde
então, tem sido um membro da AIEA e seguido as diretrizes gerais estabelecidas
para o uso pacífico da energia nuclear. Apesar da enorme pressão do Norte
Global sobre a AIEA para que sancione o Irã, os relatórios da agência têm sido
claros: o Irã não violou as regras e não é um Estado detentor de armas
nucleares. Além disso, o Irã não ameaçou os Estados Unidos nem atacou o país ou
os seus interesses. Simultaneamente, não houve nenhuma resolução do Conselho de
Segurança da ONU sob o Capítulo VII da Carta das Nações Unidas que autorizasse
os EUA a atacar o Irã. Portanto, os Estados Unidos e Israel violaram o direito
internacional ao conduzirem uma guerra de agressão contra o Irã.
O Irã
afirmou que não há contaminação nuclear nas áreas das instalações, o que indica
que os Estados Unidos não conseguiram penetrar esses centros altamente
protegidos. Até agora, parece haver pouco interesse no governo Trump em
expandir essa campanha de bombardeios e levar a sua guerra agressiva às cidades
do Irã, como fez o governo Bush no Iraque.
Mas não
há garantias de que a guerra não se ampliará, indo além dos ataques às
instalações de energia nuclear. Se o Irã não se render nas negociações
previstas, é bem possível que os Estados Unidos e Israel bombardeiem Teerã,
tentem assassinar a liderança iraniana e busquem derrubar o governo.
Tanto
os Estados Unidos quanto Israel subestimaram o Irã. A World Values Survey
mostra que os iranianos respondem com clareza e em grande número a perguntas
que refletem orgulho nacional: 83% disseram que têm orgulho de seu país, e 72%
afirmaram que estão prontos para lutar por sua pátria (nos EUA, esse percentual
é de apenas 59). Nos comícios anuais da Revolução de 11 de Fevereiro, um número
enorme de pessoas comparece e marcha com entusiasmo. Os ataques ao Irã não
enfraqueceram essa determinação — pelo contrário, parecem tê-la aumentado.
Apesar
dos ataques, as pessoas têm ido às ruas para demonstrar a sua raiva e sua
resolução em combater quem quer que ataque o Irã e sua soberania. Não será
fácil para os Estados Unidos e Israel desestabilizarem a República Islâmica e
colocar no poder seus aliados, como Reza Pahlavi, descendente do xá do Irã, que
vive em Los Angeles, nos EUA.
O alto
índice de patriotismo no Irã e a determinação do povo iraniano impedirão os
Estados Unidos de tentar invadir o país (a população do Irã é de 90 milhões,
enquanto a do Iraque é de 45 milhões; como os EUA não conseguiram subjugar o
Iraque, é improvável que consigam dominar uma população duas vezes maior e
extremamente jovem — com idade média de 33 anos). Um bombardeio covarde ao Irã
já é uma coisa, mas uma invasão militar está fora de questão para países que
não querem enfrentar uma resistência vigorosa, de rua em rua.
O maior
incentivo à proliferação de armas nucleares será esse ataque ao Irã. A
destruição do Estado líbio pela OTAN e pelos EUA (2011) e agora esse ataque
estadunidense-israelense ao Irã provam para países como a Coreia do Norte que o
escudo nuclear é necessário. De fato, a recusa da Coreia do Norte em
desnuclearizar o seu aparato militar mostra ao Sul Global que, se quiserem
proteger a sua soberania, um exército convencional não é suficiente. É provável
que o Irã se retire do Tratado de Não Proliferação Nuclear (1968), suspenda a
sua cooperação com a AIEA e desenvolva uma arma nuclear. Egito, Arábia Saudita
e Turquia provavelmente seguirão o mesmo caminho, desestabilizando totalmente o
Oriente Médio, enquanto Mianmar deve aumentar a sua cooperação com a Coreia do
Norte para obter mísseis e uma arma nuclear. É um escudo lógico para países que
veem a soberania do Irã ser violada não por ter uma arma nuclear, mas por não
ter uma.
Aos
poucos, grupos cada vez maiores de pessoas têm ido às ruas, horrorizadas com as
implicações desse ataque hiperimperialista de Israel e dos Estados Unidos.
Declarações de grupos ao redor do mundo condenam esses ataques e reafirmam que
paz e desenvolvimento são os desejos dos povos, não guerra e retrocesso. Não há
dúvida entre os povos do Sul Global: esse ataque de Israel e dos EUA não tem
relação com o comportamento do Irã, mas tudo a ver com os objetivos de guerra
do Norte Global de dominar o Oriente Médio.
¨
Netanyahu declara "vitória" contra o Irã, mas
programa nuclear da República Islâmica continua de pé
O
primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse nesta terça-feira (24)
que Israel, em seus 12 dias de guerra contra o Irã, removeu o que qualificou
como "ameaça de aniquilação nuclear". Ele afirmou que estava
determinado a frustrar qualquer tentativa de Teerã de reativar seu programa
nuclear e classificou a suposta vitória como histórica, segundo a agência
Reuters.
"Removemos
duas ameaças existenciais imediatas para nós--a ameaça de aniquilação nuclear e
a ameaça de aniquilação por 20.000 mísseis balísticos", disse ele em
comentários em vídeo divulgados por seu gabinete.
"Se
alguém no Irã tentar reviver esse projeto, trabalharemos com a mesma
determinação e força para impedir qualquer tentativa. Repito, o Irã não terá
armas nucleares", disse.
No
entanto, em pronunciamento divulgado pela imprensa estatal iraniana, o
presidente Masoud Pezeshkian classificou o desfecho como uma “grande vitória”
para o país e afirmou que a guerra foi “imposta ao Irã pelo aventurismo de
Israel”.
Um
cessar-fogo instável começou a se estabelecer entre Israel e Irã nesta
terça-feira, sob pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
aumentando as esperanças de um fim para o maior confronto militar da história
entre os arqui-inimigos do Oriente Médio.
Trump
repreendeu ambos os lados por violações iniciais da trégua que ele anunciou,
mas dirigiu críticas especialmente contundentes ao aliado próximo de
Washington, Israel, sobre a escala de seus ataques, dizendo-lhe para "se
acalmar agora".
Mais
tarde, ele disse que Israel cancelou outros ataques sob seu comando para
preservar o acordo que pôs fim a uma guerra aérea de 12 dias com o Irã.
Tanto o
Irã quanto Israel enviaram sinais de que o conflito havia terminado, pelo menos
por enquanto.
Apesar
das declarações de Netanyahu, a República Islâmica parece ter obtido vantagem
após a troca de ataques de mísseis. Os ataques dos EUA neste fim de semana
contra instalações nucleares iranianas não desmantelaram o programa nuclear do
país, mas provavelmente o atrasaram em alguns meses, informou a emissora CNN
mais cedo nesta terça-feira, citando uma avaliação preliminar da inteligência
norte-americana.
Três
pessoas informadas sobre a avaliação afirmaram que os ataques não destruíram
componentes centrais do programa nuclear de Teerã, mas acrescentaram que a
análise da Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos ainda está em
andamento.
Ao
mesmo tempo, duas dessas fontes disseram que o estoque de urânio enriquecido do
Irã não foi destruído, enquanto outra pessoa afirmou que as centrífugas nas
instalações atingidas permaneceram em grande parte “intactas”.
¨
Trump e Hegseth já admitem dúvidas sobre o nível de danos
às instalações nucleares do Irã
Donald
Trump e o secretário de defesa dos EUA, Pete Hegseth , admitiram ter algumas dúvidas sobre a
escala dos danos causados às instalações nucleares do Irã
pelo bombardeio dos EUA no fim de semana, depois que uma avaliação
vazada do Pentágono disse que o programa iraniano havia sido atrasado em
apenas alguns meses.
"A
inteligência foi muito inconclusiva", disse Trump a jornalistas em uma
cúpula da OTAN em Haia, introduzindo um elemento de incerteza pela primeira vez
após vários dias de declarações enfáticas de que a destruição havia sido total.
"A inteligência diz que não sabemos. Poderia ter sido muito grave. É o que
a inteligência sugere."
O
presidente então pareceu voltar à sua afirmação de que "foi muito grave.
Houve aniquilação".
Trump
também comparou o uso de enormes bombas destruidoras de bunkers pelos EUA nos
locais de enriquecimento de urânio de Fordow e Natanz ao impacto das armas
nucleares dos EUA lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki na Segunda Guerra
Mundial, usando a comparação especificamente em referência ao seu impacto no
fim de um conflito.
Acompanhando
Trump na cúpula, Hegseth também pareceu rebaixar sua declaração anterior de que
a capacidade do Irã de fabricar armas nucleares no futuro havia sido
"obliterada".
Na
quarta-feira, o secretário de Defesa descreveu os danos às instalações
nucleares do Irã pelos bombardeios dos EUA e de Israel como "moderados a
severos". Ele prometeu que haveria uma investigação do FBI sobre os
vazamentos do Pentágono, mas também afirmou que as informações vazadas eram
"falsas".
Enquanto
isso, o exército israelense disse que ainda estava tentando avaliar os danos
causados pela campanha de
bombardeio, mas um oficial sênior insistiu:
"Nós os empurramos anos para trás".
Na
terça-feira à noite, a CNN noticiou sobre uma
avaliação inicial vazada da Agência de Inteligência de Defesa (DIA), que
concluiu provisoriamente que o sítio profundamente enterrado de Fordow e as
instalações subterrâneas em Natanz não foram destruídas e que componentes-chave
do programa nuclear, incluindo centrífugas, poderiam ser reiniciados em poucos
meses.
O
relato da CNN sobre o vazamento foi confirmado de forma independente pelo Guardian e outros
veículos de comunicação. O Washington Post observou que o vazamento foi
classificado como "de baixa confiança", embora uma fonte tenha dito
ao Guardian que uma análise mais aprofundada poderia encontrar danos ainda
menores do que a estimativa inicial do DIA.
A
avaliação da DIA também descobriu que grande parte do estoque de urânio
altamente enriquecido do Irã, que forneceria o combustível para a fabricação de
qualquer futura ogiva nuclear, havia sido movido antes dos ataques e pode ter
sido transferido para outras instalações nucleares secretas mantidas pelo Irã.
Durante
vários anos, uma nova instalação foi escavada sob uma montanha, ao sul da
instalação original de Natanz.
Fornecendo
uma perspectiva israelense na quarta-feira, o porta-voz da IDF, Brig Gen Effie
Defrin, disse que os resultados dos bombardeios da força aérea foram
"ainda melhores do que esperávamos".
“Posso
dizer agora que a estimativa é que desferimos um golpe significativo na
infraestrutura nuclear [do Irã]”, disse Defrin. “Posso dizer que os empurramos
anos para trás.”
A CNN
informou que as estimativas da inteligência israelense sobre o retrocesso
infligido às aspirações nucleares do Irã eram de dois anos.
Embora
as avaliações tenham diferido sobre os danos causados às
instalações subterrâneas de Fordow e
Natanz, pareceu haver aceitação geral de que o
estoque de 400 kg de urânio enriquecido a 60% do Irã havia desaparecido e
não estava mais sendo monitorado pelo órgão
de fiscalização da ONU, a Agência Internacional de
Energia Atômica (AIEA).
Especialistas
nucleares descreveram o desenvolvimento como um desastre potencial para os
esforços de não proliferação e alertaram para os perigos de o Irã
decidir expulsar os inspetores da AIEA restantes no país e abandonar o Tratado
de Não Proliferação Nuclear (TNP) de 1968. O tratado obriga o Irã e outros
países sem armas nucleares a se absterem de qualquer esforço para fabricar uma
bomba e a se submeterem a monitoramento e verificação.
O
parlamento do Irã está preparando um projeto de lei abrindo caminho para a
saída do TNP.
¨
Após cessar-fogo, Israel diz que campanha contra Irã
continua e 'foco' retorna a Gaza
O chefe
do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla
em inglês), Eyal Zamir, declarou nesta terça-feira (24/06) que o cessar-fogo
“concluiu um capítulo importante, mas a campanha contra o Irã não acabou”.
“Estamos
entrando em uma nova fase que se baseia nas conquistas da operação atual.
Atrasamos o projeto nuclear do Irã por anos e o mesmo vale para seu programa de
mísseis”, disse o tenente-general israelense no âmbito do Fórum do
Estado-Maior, de acordo com as IDF.
Zamir
classificou as ofensivas de Tel Aviv contra Teerã como “extraordinárias”, mas
que ainda assim seria necessário “manter os pés no chão”. Em seguida, afirmou
que gradativamente voltará a se concentrar nas operações militares voltadas ao
território palestino, sob alegação de “desmantelar o Hamas”.
“Agora,
o foco retorna a Gaza, para trazer os reféns para casa e derrubar o governo do
Hamas”, afirmou.
¨
Irã
fala em ‘vitória’
Por
outro lado, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, ressaltou nesta terça-feira
que sua nação foi responsável pelo encerramento de uma guerra
iniciada por um país “terrorista”, referindo-se a Israel.
“Embora
o iniciador desta guerra imposta tenha sido o inimigo terrorista, seu fim foi
determinado pela vontade e autoridade da grande nação iraniana”, enfatizou,
anunciando formalmente o fim da “guerra de 12 dias”.
“Meus
queridos compatriotas; querido e fervoroso povo do Irã! Hoje, após a corajosa
resistência de sua grande nação, que fez história, testemunhamos um cessar-fogo
e a cessação da guerra de 12 dias imposta à nação iraniana pelo aventureirismo
e incitamento do regime sionista”, acrescentou.
Horas
antes, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã (SNSC, na sigla em
inglês) declarou que o governo israelense foi forçado à “cessação unilateral”
do conflito.
O órgão
afirmou que Teerã saiu vitorioso graças à “defesa firme” das Forças Armadas
Iranianas e “os ataques retaliatórios esmagadores” contra Tel Aviv que
“forçaram o inimigo a sentir remorso, confessar a derrota e aprovar a cessação
unilateral do ataque”.
O SNCS
também garantiu que as forças do país “não confiam no inimigo” e estão
“totalmente preparadas, com o dedo no gatilho, para dar uma resposta esmagadora
a qualquer ato hostil de agressão”.
¨ Cebrapaz saúda
vitória do Irã contra EUA e Israel: “Triunfo da dignidade sobre o imperialismo”
Em
comunicado divulgado nesta segunda-feira (24), o Centro Brasileiro de
Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) manifestou solidariedade e
apoio à República Islâmica do Irã diante dos recentes confrontos com os Estados
Unidos e Israel. A nota, assinada pelo presidente da entidade, José Reinaldo
Carvalho, afirma que o Irã obteve uma "gloriosa vitória" frente às
agressões de "caráter imperialista" e saúda o povo iraniano por seu
“heroísmo, dignidade e coragem”.
Segundo
o documento, o mundo "testemunha hoje, com admiração e respeito, o
heroísmo demonstrado pelo povo do Irã, por suas instituições legítimas, por
suas Forças Armadas e pela valorosa Guarda Revolucionária Islâmica". Para
o Cebrapaz, a resistência iraniana diante das ofensivas militares e pressões
políticas lideradas por Washington e Tel Aviv é prova de que "o
compromisso inabalável com a justiça é mais poderoso do que qualquer arsenal
militar".
<><>
Reconhecimento à liderança iraniana
O texto
também faz referência direta às principais autoridades do país persa. É
endereçado ao líder supremo, Aiatolá Ali Khamenei, ao recém-eleito presidente
Masud Pezeshkian e à população do país. O Cebrapaz enaltece a postura da
liderança iraniana durante o conflito, destacando sua “serenidade”, “clareza
estratégica” e “fidelidade aos interesses do povo iraniano”.
"Esta
vitória não pertence apenas ao Irã, mas a todos os povos que se recusam a se
ajoelhar diante do imperialismo e do sionismo", diz o comunicado. Para a
entidade brasileira, a reação do Irã é uma "lição inestimável" e
demonstra que vale a pena resistir contra a dominação estrangeira.
<><>
Crítica à fragilidade moral do imperialismo
A nota
também critica com veemência a ideologia e os métodos de dominação dos
adversários do Irã. “O sionismo e o imperialismo, por mais que ostentem poderio
militar e tecnológico, são politicamente, ideologicamente e moralmente frágeis.
São fortes nas armas, mas fracos nas ideias e nos valores", escreve o
presidente do Cebrapaz.
Fonte: Brasil
247/The Guardian/Opera Mundi

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