Kakay
e a Lava Jato: A acareação que não houve. Mas que resultou em arquivamentos de
inquéritos
Era o
início da operação Lava Jato e a força-tarefa estava se empoderando. 2014. Era
o começo das prisões para forçar delações. O jogo de poder já estava sendo
jogado pela república de Curitiba. As delações atendiam a interesses do juiz,
chefe da operação e de seus procuradores adestrados. E de fortes grupos
financeiros, como se comprovou depois.
Vários
clientes do meu escritório foram delatados. Numa das delações o Paulo Roberto,
diretor da Petrobras, disse que o Youssef tinha entregado um montante em
dinheiro para um senador e uma governadora. Ambos meus clientes. Indignados,
eles negaram terem recebido qualquer montante.
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O
Youssef negou que tivesse entregue dinheiro ao senador e à governadora. Eram as
tramas da operação Lava Jato. A contradição era evidente. Inquestionável.
O
procurador-geral anuncia que iria ouvir os citados. A oitiva seria
espetacularizada e o prejuízo político, evidente.
Liguei
para um jornalista amigo e disse que iria pedir uma acareação e iria
desmoralizar o delator encomendado. O jornalista deu a nota sobre meu pedido de
acareação.
Assim
que a nota saiu eu ligo na procuradoria. Imediatamente o PGR volta atrás e pede
o arquivamento dos 2 inquéritos que haviam acabado de ser abertos só com a
palavra do delator de encomenda.
Uma
acareação quase nunca resulta em nada. Cada um mantém sua versão. Neste caso a
notícia de um pedido de acareação, que iria expor os conluios lavajatistas,
resultou no arquivamento de 2 inquéritos.
• Lava Jato: Hardt arquivou suspeições
contra si após pegar processos do gabinete de Appio em segredo
Em um
relato explosivo presente no livro “Tudo por dinheiro: A ganância da Lava Jato
segundo Eduardo Appio”, de Sálvio Kotter, o juiz Eduardo Appio afirma que
processos ligados ao advogado Rodrigo Tacla Duran foram ilegalmente retirados
de seu gabinete e entregues à juíza Gabriela Hardt, que, segundo ele, arquivou
indevidamente ações que questionavam sua imparcialidade e impôs sigilo aos
documentos. À época, Appio atuava como juiz titular da 13ª Vara Federal de
Curitiba.
O
episódio, ocorrido na Quarta-feira de Cinzas de 2023, revelou, de acordo com
Appio, uma atuação subterrânea e coordenada para blindar interesses da Lava
Jato e impedir o andamento das suspeições contra Hardt, que ele chama de
“extensão de Moro”, em referência ao ex-juiz parcial Sergio Moro.
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A juíza
enfrenta atualmente um possível processo na Procuradoria-Geral da República
(PGR) por envolvimento em suposta organização criminosa ligada à Lava Jato,
além de já ter sido afastada da 13ª Vara Federal de Curitiba, por decisão do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
• Tacla Duran continua amordaçado, apesar
da decisão que trancou seus processos. Por Joaquim de Carvalho
O juiz
Guilherme Renan Borges, que hoje é o titular da 13a. Vara Federal de Curitiba,
que já foi de Sergio Moro, trancou as ações penais contra Rodrigo Tacla Duran.
Num primeiro momento, a notícia foi celebrada como uma derrota da Lava Jato. Só
que não é bem assim. Tacla Duran continua refém daquele setor do Judiciário,
com reflexos no sistema de justiça da Espanha, onde vive desde 2016.
Tacla
Duran não tem se manifestado publicamente, mas afirmou a um colega, advogado
como ele, com quem tem conversado no Brasil, que estuda apresentar uma
reclamação ao Supremo Tribunal Federal contra o juiz, por descumprimento da
decisão de dois ministros.
Antes
de se aposentar na corte suprema, Ricardo Lewandowski, hoje ministro da
Justiça, anulou todas as provas da Odebrecht, usadas como base para os
processos contra Tacla Duran, por serem “imprestáveis”. Dias Toffoli, que
sucedeu Lewandowski na Segunda Turma do STF, reiterou a decisão.
Dois
anos depois, aquele que ocupa a cadeira que foi de Moro, trancou as ações
penais, mas, ao contrário do que o Supremo determinou, não anulou os atos
decisórios do ex-juiz, de resto julgado suspeito e parcial pelos ministros que
compõem a mais alta instância da Justiça no Brasil.
Uma das
consequências é que Tacla Duran continua a responder a uma ação na Espanha,
aberta por ato de Moro, que dividiu o processo e remeteu parte dele para o país
europeu, para que ele fosse julgado lá.
Essa
ação também deveria ter se encerrado, e Tacla Duran deveria receber seu
passaporte espanhol de volta. A Fiscalia General del Estado, o Ministério
Público de lá, se recusa a atender à requisição do Brasil para devolução do
processo.
Parece
haver uma disputa política entre os procuradores espanhóis e o governo do
primeiro-ministro Pedro Sanchez, colocado numa situação embaraçosa, porque, na
prática, a Espanha está se recusando a cumprir o tratado de cooperação com o
Brasil para fins judiciais.
A
anulação de todos os atos de Moro, inclusive o que remeteu parte do processo ao
Reino da Espanha, reforçaria a ilegitimidade da ação da Fiscalia General del
Estado.
Nos
três meses em que atuou como titular da 13a. Vara Federal, Eduardo Appio
analisou o caso de Tacla Duran, entre tantos outros, e encontrou aberrações
jurídicas e suspeitas de crimes cometidos por aqueles que deveriam zelar pela
observância das leis.
Era
tamanho descalabro que Appio representou para o Conselho Nacional de Justiça
(CNJ) e foi aberta uma investigação que teve atuação direta do corregedor da
época, Luís Felipe Salomão.
Ao
final, Salomão concluiu que os juízes Gabriela Hardt e Danilo Pereira Júnior
deveriam ser afastados, assim como dois desembargadores do TRF-4, Thompson
Flores e Loraci Flores de Lima.
Sergio
Moro não era mais magistrado, mas, assim como três daqueles quatro, foi
incluído no rol dos processos administrativos disciplinares (PADs) abertos,
pelas decisões ilegais que tomou quando titular da 13a. Vara Federal.
Além
deles, o desembargador Marcelo Malucelli também deveria responder a um PAD.
Malucelli, pai do sócio de Sergio e Rosângela Moro em uma sociedade de
advogados, agiu para proteger o casal das denúncias que Tacla Duran faria na
Polícia Federal e na Câmara dos Deputados.
O filho
de Malucelli também mantinha união estável com a filha do casal Moro quando o
desembargador tomou uma decisão que o site do Tribunal Regional Federal da 4a.
Região publicou como sendo uma ordem de prisão de Tacla Duran.
A
notícia foi publicada no site quando Tacla Duran já tinha agendado sua viagem
ao Brasil, para prestar os depoimentos. Por conta disso e também pela ação
ilegítima da Fiscalía General del Espanha, Tacla Duran desistiu da vinda ao
país.
Na
bagagem, ele prometia trazer documentos que comprometem Rosângela Moro, o
advogado Marlus Arns e Carlos Zucolotto Júnior, este amigo de longa data de
Moro e supostamente seu intermediário num caso de extorsão contra Tacla Duran.
Malucelli
fez um acordo com o CNJ, em que reconheceu erros, e assim obteve o arquivamento
do PAD. Esse acordo, firmado em agosto do ano passado, é mantido sob sigilo até
hoje.
“Tacla
Duran é um cabra marcado para não falar”, disse o juiz Eduardo Appio a um
amigo. Tacla Duran já era testemunha protegida do governo brasileiro quando
Malucelli tomou aquela decisão, na véspera de seu depoimento.
Logo
depois de descobrir a sociedade entre o filho de Malucelli e o casal Moro e de
tomar o único depoimento que Tacla Duran prestou à Justiça, Appio foi afastado
pelo TRF-4, sem direito à defesa prévia.
Na
audiência, Appio não permitiu que Tacla Duran fizesse denúncias contra Moro, já
eleito senador e, portanto, com prerrogativa de foro no STF. O juiz determinou
que ele fosse ouvido pela Polícia Federal, para posterior análise da corte
suprema.
O que
Appio fez em três meses abalou as estruturas de uma repartição pública
contaminada, segundo a Corregedoria do CNJ, por corrupção e outras
ilegalidades.
E pagou
um preço alto, mesmo antes de tomar o depoimento de Tacla Duran. Uma das
funcionárias da secretaria da 13a. Vara, que tinha trabalhado com Moro,
subtraiu petição que deveria ser analisada por ele, e a entregou para Gabriela
Hardt.
A
funcionária foi afastada por Appio, mas isso não impediu que Gabriela Hardt,
substituta na 13a. Vara, julgasse que ela própria não era suspeita para atuar
no caso de Tacla Duran.
Tony
Garcia, que revelou a existência de um vídeo que registra orgia de
desembargadores do TRF-4 com prostitutas de Curitiba, só se encorajou a fazer
suas denúncias bombásticas depois que Appio assumiu a jurisdição que foi de
Sergio Moro.
O lugar
de Appio, no entanto, foi ocupado logo depois por Danilo Pereira Júnior, que
tem ligações notórias com Moro, de quem foi longa manus.
Em
2003, recém-empossado juiz federal, Danilo Pereira Júnior teve atuação decisiva
em uma fraude que levou Tony Garcia à prisão, como Moro queria.
Com
essa prisão, que tem como fundamento de origem uma inexistente ameaça de morte
a um antigo gestor do consórcio Garibaldi, Tony Garcia se tornou agente
infiltrado de Moro e dos procuradores da república Carlos Fernando dos Santos
Lima e Januário Paludo.
Danilo
Pereira Júnior é que, à época, deveria ter sido investigado, por
comprovodamente se beneficiar de desvio do consórcio, do qual foi advogado.
Mas
Danilo se tornou juiz federal e levou um ex-gestor do Garibaldi a Moro, para
que ele fizesse uma denúncia mentirosa, como o próprio ex-gestor admitiria mais
tarde, judicialmente.
Danilo
não só foi poupado por Moro como, mais tarde, com a armadilha que resultou no
afastamento de Appio, ocupou a cadeira da 13a. Vara e, nessa condição, sonegou
provas a um delegado da Polícia Federal que investigou as denúncias de Tony
Garcia.
Uma
dessas provas é uma caixa amarela onde estava o processo em que o advogado
Sérgio Costa, que hoje vive fora do Brasil, admitiu ter registrado em vídeo a
orgia dos desembargadores.
Moro e
seus aliados arruinaram a economia brasileira e feriram as instituições da
república, como a Presidência, gerando o ambiente que resultou no impeachment
de Dilma Rousseff sem crime de responsabilidade e na prisão política de Lula.
Pavimentaram
o caminho para a ascensão da extrema direita ao poder e, por razões que ainda
não estão esclarecidas, esses agentes públicos suspeitos de crime foram todos
promovidos. Ou enriqueceram. Às vezes, como é o caso de Moro, atingiram os dois
objetivos
Por sua
vez, Danilo Pereira Júnior foi para o Tribunal Regional Federal da 4a. Região
na véspera de seu afastamento da 13a. Vara por sonegar provas ao delegado da
Polícia Federal.
Pensou-se
na época que Danilo Pereira Júnior ficaria em algum posto obscuro. Mas não.
Esta semana, começaram a ser distribuídos os convites para a posse dos novos
dirigentes do TRF-4, no dia 4 de julho. Para muitos, a surpresa: um dos que
assinam o convite é ele, na condição de vice-diretor daquele tribunal.
O
antigo advogado do Garibaldi, longa manus de Moro, caiu para cima, como até
aqui ocorreu todos aqueles flagrados como cúmplices do antigo chefe da Lava
Jato.
Tacla
Duran é mesmo um cabra marcado para não falar?
Fonte:
Brasil 247

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