Thiago
Mota: Na era do digital, o capital é você
O
capitalismo contemporâneo não pode ser compreendido apenas como um sistema
econômico baseado na produção e circulação de mercadorias. Ele é uma forma
difusa de organização da vida, um regime que atravessa as práticas cotidianas,
as relações sociais e a constituição dos sujeitos. Nesse contexto, emerge uma
figura central que sintetiza as transformações em curso: o empresário de si
info-precário e espetacular. Trata-se de um sujeito que administra a própria
existência como um empreendimento, ao mesmo tempo em que vive sob condições
estruturais de precariedade e exposição permanentes.
A
mutação fundamental que caracteriza esse cenário é a dissolução progressiva das
fronteiras entre trabalho e vida. O que antes se distinguia como tempo
produtivo e tempo livre passa a integrar um mesmo contínuo. A conexão
permanente, mediada por dispositivos digitais, transforma cada gesto em
potencial atividade produtiva.
Produz-se
valor ao comunicar, ao interagir, ao expor-se. A vida, em sua totalidade,
torna-se matéria-prima de processos de valorização. Nesse sentido, o
trabalhador não é apenas aquele que executa tarefas específicas, mas aquele que
mobiliza sua atenção, sua afetividade e sua presença como recursos econômicos.
É nesse
ambiente que se consolida o info-precariado. Diferentemente das formas
clássicas de trabalho, esse novo contingente não se organiza a partir de
vínculos estáveis nem de identidades coletivas bem definidas. Ele é composto
por trabalhadores intermitentes, conectados, frequentemente isolados, que
dependem de plataformas digitais para obter renda e reconhecimento. Sua
condição é marcada pela instabilidade, pela ausência de garantias e pela
dependência de sistemas de avaliação contínua. Ainda assim, esses indivíduos
são incitados a se perceberem como autônomos, responsáveis pelo próprio sucesso
ou fracasso.
Essa
autonomia alienada constitui um dos mecanismos mais eficazes de governo
contemporâneo. Ao internalizar a lógica empresarial, o sujeito passa a gerir a
si mesmo como um capital. Ele investe em sua formação, em sua imagem, em sua
rede de contatos. Ele calcula riscos, otimiza desempenhos, monitora resultados.
O que se apresenta como liberdade é, na verdade, uma forma sofisticada de
autoexploração. O controle não se exerce apenas de fora, por meio de
instituições visíveis, mas de dentro, através de práticas de autogestão e
autovigilância.
A
dimensão espetacular desse processo intensifica ainda mais essa dinâmica. Não
basta produzir; é preciso aparecer. A visibilidade torna-se condição de
existência social e econômica. Cada indivíduo é chamado a construir uma imagem
de si, a performar uma identidade atraente, a transformar sua própria vida em
conteúdo. A exposição constante não é apenas uma escolha, mas uma exigência
social. Aqueles que não se mostram tendem a desaparecer, tanto simbolicamente
quanto materialmente.
Essa
espetacularização implica uma forma específica de alienação. O sujeito passa a
se relacionar consigo mesmo como objeto. Ele observa, avalia e ajusta sua
própria imagem conforme critérios externos, frequentemente mediados por
algoritmos. Curtidas, compartilhamentos, avaliações e métricas diversas
tornam-se indicadores de valor. A experiência de si é filtrada por essas
mediações, produzindo uma relação instrumental com a própria existência.
Ao
mesmo tempo, essa lógica está profundamente articulada com formas
contemporâneas de poder que operam em múltiplas escalas. No plano individual,
observa-se a emergência de práticas de autocoerção, nas quais o sujeito
disciplina a si mesmo em função de metas de desempenho. No plano coletivo,
essas mesmas racionalidades sustentam políticas que reforçam a competição, a
desigualdade e a exclusão. A precariedade deixa de ser um desvio e passa a ser
uma condição normalizada, distribuída de maneira desigual, mas amplamente
disseminada.
Essa
configuração também cria condições favoráveis à emergência de formas
autoritárias de organização social. A insegurança material e simbólica,
combinada com a responsabilização individual, tende a produzir ressentimento e
busca por soluções simplificadoras. Discursos que prometem ordem, estabilidade
e identificação encontram terreno fértil em contextos marcados pela
instabilidade permanente. A combinação entre racionalidade econômica
individualizante e autoritarismo político revela uma convergência que define
muitos dos conflitos atuais.
Diante
desse cenário, torna-se necessário compreender a articulação entre exploração
econômica e produção de subjetividades. Não se trata apenas de denunciar
condições materiais adversas, mas de analisar os modos pelos quais os
indivíduos são levados a participar ativamente de sua própria sujeição. O
empresário de si info-precário e espetacular não é apenas vítima de um sistema;
ele é também operador de suas lógicas, na medida em que as incorpora e as
reproduz em sua própria conduta.
Essa
ambiguidade não elimina a possibilidade de resistência, mas a torna mais
complexa. Resistir não significa apenas recusar determinadas condições
externas, mas também problematizar as formas de relação consigo mesmo que foram
naturalizadas. Implica questionar a equivalência entre valor pessoal e
desempenho, entre visibilidade e existência, entre autonomia e autoexploração.
Implica, ainda, reconstruir formas coletivas de vida que escapem à lógica da
concorrência.
O que
está em jogo é a redefinição das relações entre trabalho, vida e subjetividade.
O desafio consiste em romper com a naturalização de um modelo que transforma a
existência em empreendimento permanente e que converte cada indivíduo em gestor
de sua própria precariedade.
Pensar
alternativas exige recuperar a possibilidade de experiências que não sejam
integralmente capturadas pela lógica da performance, da visibilidade e do
cálculo. Trata-se de reabrir o campo do possível, afirmando que outras formas
de organização social e de constituição do sujeito são não apenas desejáveis,
mas necessárias.
• O apocalipse como método. Por Fernando
Lionel Quiroga
A
violência que sustenta a colonização — aqui compreendida em suas múltiplas
fases e faces, notadamente aquelas protagonizadas pelas potências europeias
(França, Inglaterra, Espanha e Portugal), e, posteriormente, pela hegemonia
estadunidense no cenário pós-Segunda Guerra Mundial — constitui, em termos
teóricos, aquilo que se convencionou nomear como barbárie. Entretanto, essa
nomeação revela-se insuficiente. O colonialismo não apenas encarna a barbárie:
ele a normaliza, a racionaliza e a inscreve como fundamento da própria
modernidade. Por isso, talvez nunca tenha sido possível escrever, em sentido
pleno, uma história da modernidade. O que se legou, em seu lugar, foi uma
narrativa reiterada da violência colonial — uma história atravessada por
sucessivos eventos de devastação que, mais do que episódios isolados,
configuram uma série de apocalipses locais.
Apocalipses,
aqui, não como ruptura redentora, mas como dispositivo contínuo de destruição:
a cada ciclo, a promessa de renovação dos tempos se ergue sobre a aniquilação
de corpos, territórios e mundos. O que se apresenta como origem é, na verdade,
ruína reiterada — uma maquinaria genocida que, ao mesmo tempo em que destrói,
legitima-se como condição de possibilidade do novo.
Não há
dúvidas de que, para que isso se consolidasse como característica nuclear da
acumulação capitalista, o uso de tecnologias específicas se fez necessário,
sobretudo aquelas voltadas ao controle e à administração das almas — isto é, à
regulação do espírito e dos saberes. Tal processo operou, em grande medida, por
meio da religião (neste caso, o cristianismo) e da ciência. Por intermédio
desses dois pilares — distintos, ainda que frequentemente articulados —, o
capitalismo, em suas dimensões epistemológica e religiosa, pôde colonizar e
servir-se, simultaneamente, da exploração da terra e do trabalho escravizado.
A
consequência disso seria, enfim, a produção da diferença como algo mensurável
em termos de valor. É nesse ponto que o racismo emerge como um dos principais
mecanismos de exploração do homem pelo homem. Racismo e sexismo configuram-se,
assim, como estruturas centrais do colonialismo, em correspondência com uma
minoria ultrapotente de homens brancos, europeus e ricos — “senhores”, por
assim dizer. Trata-se de um desdobramento perverso da dialética bíblica: se, de
um lado, o homem é concebido como imagem e semelhança de Deus, de outro, sob um
efeito de inversão reflexiva, passa a se afirmar como imagem e semelhança de si
próprio enquanto divindade — senhor do universo.
Tudo
isso é o que qualquer consciência minimamente lúcida reconhece como resultado
da história moderna. Há, contudo, algo que se torna ainda mais perturbador
quando observado de perto: trata-se da própria marca da modernidade e de seu
potencial destrutivo — aquilo que acaba por produzir um fenômeno relativamente
inédito, a saber, lapsos de descontinuidade histórica, espécies de “buracos” na
camada de ozônio da história.
Esse
processo é ainda aperfeiçoado pela ideologia da “novidade”, particularmente
associada ao pragmatismo americano. No fundo, trata-se de uma técnica de Estado
voltada a favorecer a expansão imperial por meio da violência sistemática, não
raramente de caráter genocida.
Nesse
sentido, o drama não parece residir nos limites entre vencedores e vencidos,
solicitando, como diria Walter Benjamin, um reposicionamento histórico, mas nas
“erupções” incuráveis que irrompem na epiderme da história. Vejamos o que ele
diz em “Sobre o conceito da história”:
Articular
historicamente o passado não significa conhecê-lo “tal como ele de fato foi”.
Significa apropriar-se de uma recordação, como ela relampeja no momento de um
perigo. Para o materialismo histórico, trata-se de fixar uma imagem do passado
da maneira como ela se apresenta inesperadamente ao sujeito histórico, no
momento do perigo. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a
recebem. Ele é um e o mesmo para ambos: entregar-se às classes dominantes, como
seu instrumento. Em cada época, é preciso tentar arrancar a tradição ao
conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como
redentor; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no
passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador
convencido de que tampouco os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer.
E esse inimigo não tem cessado de vencer. (Benjamin, 2012, p. 243-244).
Walter
Benjamin tem razão ao afirmar que cabe ao historiador despertar, no passado, as
centelhas da esperança. No entanto, essa tarefa encontra um limite extremo: há
situações históricas em que não se trata apenas da captura da tradição pelo
conformismo, mas de seu apagamento quase absoluto. Nesses casos, o problema já
não é apenas arrancar o passado das mãos dos vencedores, mas lidar com aquilo
que foi tão violentamente destruído que mal deixou vestígios — como um ponto de
luz que se extingue antes mesmo de poder ser percebido.
Se,
para Benjamin, o perigo reside na apropriação da tradição pelas classes
dominantes, aqui ele parece atingir um grau mais radical: a produção
sistemática de vazios históricos, em que populações inteiras são dizimadas em
nome da acumulação, da dominação e da exploração da terra, sem que suas
experiências possam sequer ser plenamente reinscritas na memória.
Violentamente, em pouco tempo — e por razões que invariavelmente desembocam na
acumulação capitalista —, culturas milenares deixam de existir, esgotadas as
condições de reprodução de si mesmas.
Percebe-se,
então, que o apocalipse por genocídio não guarda semelhança com o texto de
Apocalipse de João: não é o apocalipse bíblico, acompanhado de trombetas,
anjos, testemunhas e uma sucessão vertiginosa de eventos em elevadíssima
excitação. Os apocalipses capitalistas, ao contrário, caracterizam-se pela
perda de força, pela fadiga e pela entrega gradual — dia após dia — do último
suspiro: uma vida que se esvai como água que evapora. O apocalipse capitalista
é apático, degenerado, depressivo, cambaleante, como o efeito lento e
irreversível de um veneno. Ele é o fim de um recuo que já não encontra mais
limites. A vida, sob tais condições, torna-se insuportável.
O
principal sintoma desse estado de coisas manifesta-se na espoliação dos
rituais. Os ritos são formas de perpetuação da percepção temporal; constituem
um dos principais mecanismos de reprodução da cultura e dos estados de
consciência — uma vez atravessado o limiar entre a animalidade e a humanidade.
Os
rituais são o conteúdo da forma temporal. Quando deixam de existir, quando a
profanação atinge seu grau máximo de saturação, é porque o apocalipse já não é
iminente: ele está em curso. É o que se pode observar em Pierre Clastres que,
após sua experiência com os índios Guayaki, já não demonstrava interesse em
retornar anos depois. Diante dos efeitos trágicos do genocídio colonial,
restavam cerca de trinta indivíduos — cambaleantes, à espera da morte, privados
das condições mínimas de reprodução cultural e ritualística. Ao fim de sua jornada entre os Guayaki,
Clastres escreve:
Nunca
mais revi os índios Guayaki, apesar de várias estadias anteriores no Paraguai.
Eu não fazia questão. Que teria com efeito encontrado? Em minha chegada a
Arroyo Moroti, eles eram em número de uma centena. Deixei-os um ano mais tarde:
não restavam mais que 75. Os outros, mortos de doença, corroídos pela
tuberculose, falta de cuidados, falta de tudo. Os sobreviventes? Destroços
desesperados por ter tido que deixar sua pré-história, lançados que foram numa
história que não lhes concernia senão para aboli-los. Trata-se na verdade de
pouca coisa: apenas uma página a mais no monótono recenseamento – com datas,
lugares e números a mais e mais precisos – da desaparição das últimas tribos
índias. Que é feito agora dos valentes caçadores Aché? Pelas últimas notícias,
obtidas em 1968, não sobreviviam mais que uns trinta. Pouco importa aliás, seu
número, se estão de todo modo condenados, eles e os outros. A empresa,
inaugurada no fim do século XV, chega agora ao seu fim; um continente inteiro
estará livre de seus primeiros habitantes, e nesse Mundo poderá logo, a justo
título, se proclamar “Novo”. (Clastres, 2020, p. 265).
Perdoe
o leitor a extensão do trecho. Mas é precisamente isso que nos permite
compreender como, sob diversos aspectos, produz-se a ideia de que existe um
hiato intransponível entre eventos históricos aparentemente irreconciliáveis.
É
preciso reconhecer: a dimensão ancestral não teria sido tão profundamente
esmagada e triturada não fosse a violência como resultado de uma ação humana
deliberada — isto é, como projeto inscrito na própria construção da
modernidade. A imagem que resta desse processo é a de um abismo entre épocas
que já não se encontram, um elo perdido entre passado e futuro — como na poesia
de Osip Mandesltam, “O século”, (1923) na bela interpretação de Giorgio Agamben
em O que é o contemporâneo?
Esse
abismo entre a dimensão ancestral — preservada, ainda que de modo frágil, por
mecanismos de reprodução cultural — pode produzir a falsa ideia de uma
descontinuidade natural, como se já não mantivéssemos qualquer relação com o
sagrado. No entanto, noções como as que articulam o sagrado e o dinheiro,
examinadas por Bernhard Laum em Heiliges Geld. Eine historische Untersuchung über den sakralen Ursprung des Geldes
(Dinheiro sagrado. Uma
investigação histórica sobre a origem sacral do dinheiro) e por Christoph
Türcke em Mehr! Philosophie des Geldes (Mais! Filosofia do dinheiro) – ambos
sem tradução, ainda, no Brasil -, revelam uma conexão persistente.
Ambos
indicam, cada um a seu modo, a relação intrínseca entre o capitalismo tardio e
aspectos da ancestralidade humana, especialmente por meio da dimensão
sacrificial. Isso nos conduz a um ponto decisivo: a ancestralidade não
permanece para além do salto abissal da violência colonial. Apesar da distância
e do tempo, ela segue atada às terminações nervosas que, desde a noite dos
tempos — por razões ainda obscuras —, nos converteram em humanos tal como ainda
hoje nos reconhecemos.
A ideia
de que a relação temporal entre presente e passado, a depender da distância,
constituiria uma descontinuidade natural não apenas é falsa, como se configura,
sobretudo, como um dos elementos constitutivos da técnica de aceleração
orientada à produção do “novo” — que, em última instância, nada mais é do que a
reprodução do próprio avanço e da intensificação da violência colonial e
imperial.
A
violência colonial — tal como aquela que, atualizada nas ditaduras modernas,
busca um apagão da consciência e da memória — visa à instauração de uma
desconexão total dos sentidos: a morte da consciência por meio da produção de
um estado de alienação permanente; a falência da percepção temporal e a
sujeição a um novo estado de animalidade, situado na rolagem infinita de um
presente contínuo, alucinado pela novidade, pela ideologia do futuro, e cada
vez mais distante da própria realidade.
Finalmente,
em face da barbárie como dado objetivo e imediato do colonialismo, nos resta
uma lição: não se pode desejar o apocalipse — como, aliás, tem sido a tônica de
certas formulações ideológicas associadas ao estágio avançado do capitalismo de
acumulação. Munido da técnica da aceleração social e, por extensão, do desvio
da atenção, esse modelo, antes assentado na exploração brutal dos recursos,
passa a apoiar-se na promessa de um apocalipse como passagem para uma sociedade
supostamente melhor — uma espécie de travessia obrigatória rumo a uma ordem
integralmente transparente, sustentada por microchips, drones e plataformas.
A
lógica do apocalipse como grande turbulência da última cena da tragédia da
exploração constitui uma das formulações mais perversas da história do capital,
pois se ancora, no fundo, no engodo de que há um futuro melhor à vista e de
que, portanto, o sacrifício de tudo — corpos, culturas, mundos — seria o preço
inevitável a pagar.
Fonte:
A Terra é Redonda

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