Saúde,
Cuba! Donald Trump age como um bandoleiro do velho oeste
Silvio
Rodríguez, o cantor cubano, revolucionário até os ossos, entrevistado pelo
jornal espanhol El país, na semana passada, falou de política. Sempre fala, mas
indiretamente. Foi direto, porém, desta vez. Comentou a situação internacional
e os efeitos internos, em seu país. O título da entrevista dá o tom: “O mundo
está sendo dirigido por um regime autoritário, belicista e ladrão. E não é
Cuba”.
Cuba
segue sob o implacável bloqueio econômico dos Estados Unidos, intensificado
desde que, logo após o triunfo da Revolução Cubana (1959), o governo liderado
por Fidel Castro decidiu nacionalizar, sem indenização, empresas de propriedade
de estadunidenses. A resposta dos EUA às nacionalizações foi decretar, em 1960,
embargo às exportações para Cuba, excetuando-se inicialmente alimentos e
medicamentos.
Mas o
democrata John Kennedy, três semanas após sua posse na presidência dos EUA,
ocorrida em 20/1/1961, ampliou o embargo que se tornou o instrumento político
que estrangula Cuba até hoje. Atinge alimentos, medicamentos, equipamentos e
instrumentos de saúde. De 1961 até o momento as relações entre EUA e Cuba só
pioraram.
Nesses
primeiros meses de 2026, ao estrangulamento econômico causado pelo bloqueio,
juntaram-se insatisfações populares motivadas por sucessivos cortes de energia
elétrica e pela escassez de produtos de primeira necessidade. Há algum tempo o
governo vem convivendo com manifestações e protestos. Mas segue reprimindo
quando o tom sobe e há risco de as manifestações evoluírem para violência de
rua. De acordo com o El país, em 11 de julho de 2025 foram detidos entre 1.000
e 1.500 manifestantes.
Bloqueio
e insatisfações produziram um cenário que, hoje, mata crianças, idosos, doentes
crônicos… Mata de fome e de falta de remédios e assistência médica. A situação
é dramática e há risco de se criar na ilha caribenha um cenário similar ao de
Gaza. Não é exagero falar em uma mortandade iminente, pois se houver invasão,
haverá resistência. Armada. E as consequências são, como sempre nessas
situações, imprevisíveis. É urgente construir uma solução política para o
problema, envolvendo governos, países e organismos internacionais.
É cruel
o quadro cubano, pois após a vitória da Revolução o país construiu, ao longo
das últimas décadas, um sistema de saúde com acesso universal e assistência
gratuita, de excelente qualidade, reconhecido como um dos melhores do mundo. Os
resultados são bem conhecidos, com impacto sobre os principais indicadores de
saúde, como a mortalidade infantil, a mortalidade materna, a cobertura vacinal
e a prevenção e controle de doenças.
Cuba
tem sido, em todas as ocasiões de catástrofes em outros países – inclusive nos
EUA, por ocasião do furacão Katrina, em agosto de 2005 –, um país solidário,
que nunca mediu esforços para enviar profissionais de saúde e outros recursos
em socorro das vítimas. Não obstante, crianças estão morrendo em Cuba, hoje,
agora.
E a
causa das mortes não se localiza internamente, em Havana ou algum outro ponto
da ilha. Está mais ao norte, em Washington, de onde emanam as ordens de Donald
Trump. O presidente estadunidense, que na campanha eleitoral prometeu “levar a
paz a todos os países” segue espalhando guerra, sofrimento e morte. Sem limites
ao que supõe ser um poder imperial inerente ao presidente dos EUA, Donald Trump
age como um bandoleiro do velho oeste, num mundo cheio de problemas.
Desrespeita o direito internacional, ignora as leis, viola a soberania dos
países.
Com
suas ações belicistas, não contribui para resolver nenhum problema e, com sua
política internacional, cria muitos outros. Analistas políticos o consideram
refém do governo colonialista de Israel, pois Benjamin Netanyahu teria em mãos
informações estratégicas do “dossiê Epstein”, comprometedoras de Donald Trump
como pedófilo – o que o desmoralizaria internamente e poderiam levar o
Congresso dos EUA a aprovar seu impeachment.
Porém,
a despeito do modus operandi de Donald Trump, o fato histórico é que os EUA têm
um retrospecto de intervenções na América Latina e no Caribe. Muitas
intervenções, militares ou, mais recentemente, institucionais, levaram à
deposição de presidentes legitimamente eleitos em seus países, como, dentre
outros, João Goulart (Brasil, 1964), Salvador Allende (Chile, 1973), Isabelita
Perón (Argentina, 1976), Hugo Chávez (Venezuela, 2002), Jean-Bertrand Aristide
(Haiti, 2004), Manuel Zelaya (Honduras, 2009), Fernando Lugo (Paraguai, 2012) e
Dilma Rousseff (Brasil, 2016).
Os EUA
jamais respeitaram as escolhas dos povos latino-americanos e caribenhos sobre
os destinos dos seus países. Neste período histórico, Donald Trump, por assim
dizer, “segue a linha”. Segue, portanto, “tocando o terror” e matando, de Gaza
a Teerã, passando por Caracas.
O
movimento “No Kings” é uma reação, no interior dos EUA, para pará-lo. Suas
sandices mobilizam forças políticas internas naquele país, preocupadas com o
rumo do governo, dentro e fora do país, e as consequências, duradouras nas
relações internacionais, dos atos praticados pelo bandoleiro de Washington. Até
onde irá o No Kings não se consegue avaliar neste momento. Mas vem crescendo o
apoio, tanto interno quanto internacional, ao movimento que expressa uma
importante reação da cidadania dos EUA.
Enquanto
não é deposto, vitimado por sua irresponsabilidade, Donald Trump segue caçando
imigrantes internamente e invadindo e ameaçando em escala global. Cuba sofre
mais do que ameaças, pois as consequências do embargo, que já há muitos anos
não se restringe “às exportações dos EUA”, atinge todos os países que, de algum
modo, se utilizam de componentes industriais produzidos por empresas
estadunidenses. Todos os países exportadores, como o Brasil, ficam impedidos de
enviar seus produtos para Cuba.
Silvio
Rodríguez disse à jornalista Noor Mahtani, do El país, que estará com seu fuzil
Kalashnikov em mãos se houver invasão da ilha cubana. Há coerência na
declaração de um músico popular que durante toda a vida cantou e saudou a
revolução, seus líderes e ideais, seus mártires e a guerrilha. “Em minhas
canções há politização, mas não propaganda” – disse, lamentando que esteja
prevalecendo no atual governo cubano uma visão “ortodoxa e fechada” no âmbito
econômico.
Dizendo-se
favorável a mudanças que mantenham o rumo do socialismo, mas que este seja
compreendido de modo menos “quadrado e idealista”, o cantor repudiou a
manifestação ocorrida em Miami em março, com cubanos pedindo que a ilha seja
invadida e o governo derrubado à força: “não vou te dizer o que penso desses
que querem que o seu próprio país seja bombardeado e invadido”. Mas o que você
pensa disso? – insistiu a jornalista. “Você pode imaginar”, respondeu o
artista.
De
vários países saíram em socorro de Cuba, do modo como puderam, no início de
2026, os integrantes do “Comboio Nossa América”. Levaram à ilha tudo o que
puderam e que o país pediu, de placas solares a medicamentos e instrumentos
cirúrgicos. Tendo em vista as enormes necessidades de Cuba, o valor das doações
é evidentemente simbólico, pois o enfrentamento dos problemas requer medidas
estruturais e soluções políticas e econômicas, que devem partir do governo e do
povo cubano e requerem o fim imediato do bloqueio imperialista.
Para a
oposição, porém, tudo não passa de “turismo ideológico”. Perguntado sobre o
comboio e a reação da oposição, Silvio Rodríguez respondeu que “me parece
lógico que os que querem afundar Cuba coloquem nomes tristes nas atitudes de
solidariedade. É parte de uma estratégia de descrédito a que estamos submetidos
há muitos anos”.
Um
livro intitulado Saúde e revolução: Cuba, edição conjunta Cebes-Achiamé foi
publicado aqui no Brasil, em 1983. Trata-se de uma antologia de autores
cubanos, cujo conteúdo relata os caminhos e mostra as bases teórica sobre as
quais Cuba foi construindo o seu sistema de saúde, num período em que pouco se
sabia sobre o que aquele país vinha fazendo na área da saúde.
Nesse
livro, e em outras produções teóricas, a experiência cubana de universalizar o
acesso e assegurar a integralidade da atenção à saúde inspirou e contribuiu, de
modo inestimável, para as lutas que, no Brasil, levaram à criação do SUS.
Temos, portanto, os que defendemos o SUS, um dever ético-político com a
manutenção e a sustentabilidade do sistema de saúde cubano, parte estratégica
do sistema de proteção social daquele país.
Cuba
segue precisando de paz e do fim do bloqueio dos EUA. Até as pedras sabem que
precisa também de reformas. Sobre isso, na entrevista ao jornal espanhol,
Silvio Rodríguez disse que “Cuba sempre se esforçou para ser um país onde todos
têm direitos, podem ir à universidade e receber qualquer tipo de cirurgia. Por
muitos anos, prosperamos, mas, por sermos ‘comunistas’, esse rótulo ficou
marcado. Eles te chamam de ‘comunista’ e você pensa: ‘Ah, é mesmo?’ Cuba
cometeu erros? Teríamos que ver como teríamos sido sem o embargo. Isso é outra
utopia. Eles não nos deixaram ver.”
No
Vietnã e na China, dois países que, como Cuba, ousaram por abaixo a ordem
capitalista e buscar novos caminhos sociais e econômicos, as relações mercantis
foram restauradas, na dimensão microeconômica, sob controle político do Estado.
O argumento principal para essa decisão é o reconhecimento de que tais relações
não são inerentes ao capitalismo, mas, historicamente, precedem esse modo de
produção.
No
socialismo, portanto, não é uma questão de princípio que o Estado seja o
proprietário nem tenha de administrar “tudo e todos”, atendo-se ao controle dos
meios fundamentais de produção e ao controle do sistema financeiro. Trata-se,
evidentemente, de um tema bastante complexo e polêmico.
Seja
como for, não cabe aos EUA, nem a qualquer outro país, intrometer-se nesses
assuntos, nem em Cuba, nem onde quer que seja. As intromissões que os EUA vêm
fazendo em países da América Latina, desde sua independência no século XVIII,
produziram apenas monstruosidades políticas.
Hoje,
agora, Cuba segue resistindo e precisa do apoio e da solidariedade de todos que
defendem a democracia socialista e a soberania dos povos. A morte de pessoas,
de todas as idades, pela asfixia do bloqueio precisa ter fim o quanto antes.
Saúde,
Cuba!
Fonte:
Por Paulo Capel Narvai, em A Terra é Redonda

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