quinta-feira, 9 de abril de 2026


 

Mariana Cabral Campos: Covid, 6 anos - anjos da memória e do esquecimento

Exatamente seis anos atrás, no dia 12 de março de 2020, morria na zona leste da cidade de São Paulo a primeira vítima da covid-19 no Brasil: Rosana Aparecida Urbano, diarista de 57 anos, falecida no mesmo hospital em que visitou sua mãe no dia anterior. Até 2023 somaram-se 700 mil mortes por covid-19 reportadas, vítimas do projeto negacionista do ex-presidente Jair Bolsonaro que transformou o país com o maior sistema público de saúde do mundo em um laboratório a céu aberto, no qual estratégias comprovadamente falsas – como a “imunidade de rebanho” ou o “tratamento precoce” – deixaram rastros de destruição.

Ainda em 2021, os esforços investigativos da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia (ou CPI da Pandemia) recomendaram o indiciamento de dezenas de pessoas ligadas ao governo Bolsonaro. Os últimos atos de relevância foram o anúncio, pelo Ministério da Saúde, da criação do “Memorial da Pandemia de Covid-19”, no Rio de Janeiro, e a instauração do Grupo de Trabalho dedicado ao aprimoramento das estratégias brasileiras de resposta às emergências de saúde. É marcante, porém, que nenhuma dessas iniciativas tenha se traduzido ainda em iniciativas tangíveis .

<><> O Anjo marca o lugar

Firmou-se como símbolo da pandemia no Brasil a cidade de Manaus, palco de uma das faces mais marcantes da crise pela abertura de covas coletivas em 2020 e pelo esgotamento dos suprimentos de oxigênio que resultou na morte por asfixia de pelo menos 40 pessoas. O caso foi um dos focos principais das investigações realizadas pela CPI da covid-19, que revelou depoimentos e documentos que comprovaram a negligência do Centro de Coordenação das Operações do Comitê de Crise da covid-19 (CCOP), então responsável pela resposta federal à pandemia, e dos demais órgãos competentes.

O documento revelou, por exemplo, que a empresa responsável pela maior parte do suprimento de oxigênio disponível em Manaus havia feito inúmeras tentativas de contato com o Governo Federal para notificar sobre a escassez de recursos – a última em 11 de janeiro de 2021, três dias antes dos estoques de oxigênio se esgotarem. No entanto, o governo federal buscou responsabilizar a população manauara pela falta de adesão ao “tratamento precoce”.

Apesar desse atravessamento dramático entre a pandemia e a cidade de Manaus, o primeiro memorial financiado pela Prefeitura surgiu apenas em 2025. A praça Anjo da Esperança foi inaugurada no dia 02 de novembro como parte das homenagens do Dia de Finados. Localizada na entrada do cemitério Nossa Senhora Aparecida, o monumento central é a representação de um anjo (de fisionomia próxima a imagem clássica de Jesus) com três metros de altura, no rosto a máscara facial e nas mãos pulmões – “símbolo do respiro da humanidade”.

O artesão, o gari Luiz Cláudio Azevedo da Silva, é responsável por outras esculturas presentes na sede da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (SEMULSP), entre elas a réplica do touro dourado de Wall Street. A iniciativa foi apresentada pela Secretaria como uma “homenagem às vítimas da covid-19 e aos profissionais da saúde que atuaram na linha de frente durante a pandemia”.

<><> Disputas pelas lembranças

A inauguração teve pouca repercussão na mídia nacional. Um memorial já havia sido prometido durante as campanhas eleitorais do ex-prefeito Arthur Virgílio Neto (à época no PSDB) e do atual prefeito David Almeida (Avante) nas eleições de 2020 e era uma demanda ativa de familiares de vítimas da covid-19 ao longo dos anos.

Ainda assim, não existem documentos ou notícias que identifiquem algum tipo de iniciativa de participação da população e/ou das associações de vítimas na idealização e realização do monumento ou na inauguração, na qual reporta-se apenas a fala do vice-prefeito Renato Junior (Avante). Vale notar ainda que, meses antes da inauguração, o Ministério Público do Estado do Amazonas havia formalizado uma investigação contra a SEMULSP pelo descaso com a limpeza e manutenção das covas no cemitério que viria a sediar o memorial, principalmente na seção onde estão as covas coletivas abertas para receber as vítimas da covid-19.

Nas redes sociais da SEMULSP, entre os comentários elogiosos, existem comentários que questionam a homenagem, refletindo o sentimento de insatisfação quanto ao potencial do monumento de representar o que aconteceu na cidade durante a pandemia. Em depoimento, familiares de vítimas afirmaram que o memorial deveria ter sido idealizado “não apenas para ser visto, mas para ser sentido.”

É marcante que nesse campo santo estão 74,94% (4.679) de todas as vítimas da covid-19 enterradas em cemitérios públicos da cidade, muitas dessas em covas coletivas com demarcações degradadas ou ausentes. De fato, o “Anjo da Esperança” e a sua praça não foram capazes de nomear as vítimas ali representadas, o que aconteceu com elas e, principalmente, os motivos que centralizam a crise que levou à sua morte. Nesse sentido, nos resta perguntar sobre qual versão do passado a esperança do anjo representado está construída.

Uma maneira de justificar essa pergunta é entender o anjo através do simbolismo comparado ao anjo da história de Walter Benjamin, representado na pintura de Paul Klee Angelus Novus. O anjo nega, para Benjamin, a história linear no qual os acontecimentos encadeados se orientam ao progresso; olhando involuntariamente para o passado, “ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés”. Esse olhar contínuo do anjo permite que se faça surgir o passado no presente, conexão que se evidencia através do testemunho.

É o testemunho sobre o passado que permite que a ação no presente aconteça, contrariando a renúncia ao fatalismo do que já se foi, protagonista de uma perspectiva linear da história. Pensando sobre a relação dos países latino-americanos com a memória após as suas ditaduras militares, José Carlos M. da Silva Filho remonta essa alegoria para explicar que: “Não se trata de reproduzir o fato com documentos, mas sim de fazer justiça escutando quem fala [as testemunhas] do seu sofrimento”. No caso da pandemia, reivindicar uma política de memória demanda significar essas mortes para além do choque quantitativo, tornando presente o testemunho dos mortos e dos vivos sobre as suas tragédias.

“Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”

Ainda nas palavras do Professor Silva Filho, “recuperar o passado é tarefa da memória, de uma memória que se põe à escuta daquilo que foi esquecido”. Sob ela está a responsabilidade da humanidade sobre as suas mazelas e aqueles que sofrem as suas consequências. Como ecoa o lema da justiça de transição que temos repetido, a memória serve para que não se repitam os erros, as negligências, as ignorâncias e os crimes do passado.

Nisso é necessário considerar que “a política da memória não é monopólio do Estado” (ou de nenhum dos seus representantes) e, sim, parte de uma rede complexa e ampla de diferentes testemunhos que juntos constroem a história. Por isso, familiares de vítimas, ativistas e especialistas da saúde se unem hoje, novamente na demanda por justiça e na luta contra o esquecimento.

Como marcou Deisy Ventura em entrevista ao Outra Saúde, é necessária uma “cultura de reconhecimento das violações de direitos ocorridas”, aliada e constituinte dessa política. Afinal, os responsáveis hoje presos não o foram pelos crimes cometidos durante a pandemia, seis anos após a primeira morte por covid-19 no Brasil. O olhar do “Anjo da Esperança” precisa ser reorientado da rua para dentro do cemitério, reconhecendo e nomeando as consequências de escolhas cruéis.

Será o esquecimento necessário para o “respiro da humanidade”? Ou precisamos considerar se é possível respirar sem lembrar?

        Memorial da covid: quando a memória fala do futuro. Por Túlio Batista Franco

7 de abril de 2026, Dia Mundial da Saúde, foi reaberto o Centro Cultural do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro, com uma homenagem às vítimas da pandemia de covid-19. São três esculturas e um parquinho com símbolos do Zé Gotinha, entre os quais perfilaram representantes do movimento social, academia, artistas, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha e a ex-ministra Nísia Trindade.

Faltava até então um memorial que contasse o sofrimento das milhões de pessoas, e a morte de mais de 700 mil durante a maior tragédia sanitária do país. Há vítimas que continuam entre nós, mais de 100 mil órfãos, pessoas com sequelas, famílias que tiveram suas economias devastadas. A presença da pandemia é uma realidade para milhares, que carregam efeitos para o resto das suas vidas. Um lugar de memória não é feito para atualizar o que passou, mas lembrar do que levou àquela experiência trágica. Esse não esquecimento deve ser o salvo conduto para um futuro em que episódios como este nunca mais se repitam.

É nesse sentido que a memória fala do futuro, no qual o cuidado com a vida deve ser a prioridade, a começar com a principal vida, do planeta, que abriga a todos nós. A pandemia foi talvez o primeiro grande evento que demonstra o colapso do modelo de desenvolvimento ganancioso do capitalismo global perpetrado nos dois últimos séculos. Torna-se urgente a tomada de consciência de que a prática extrativista predatória sobre a natureza, o desenvolvimento desenfreado com base na energia à base de carbono, o aquecimento global, e seus efeitos, elevam o sofrimento humano, e apontam para um futuro sombrio. Hoje já ultrapassamos o temido índice de 1,5 graus de temperatura da Terra, acima do que era há 200 anos. O ponto de não retorno. Estamos condenados a viver em um planeta febril, nos defendendo dos eventos climáticos extremos, que serão cada vez mais frequentes.

Tudo isto exige uma tomada de consciência de que o capitalismo e sua versão atual, neoliberal, mais radicalmente danosa aos interesses humanitários, e contrário ao desenvolvimento sustentável da economia e da vida, devem ser definitivamente combatidos. É nesse sentido que o Memorial às Vítimas da Covid-19 inaugurado agora, mais do que necessário, é oportuno. Não é feito para presentificar a tragédia, mas indicar que precisamos lutar por um futuro em que isto nunca mais se repita. Será um lugar de visitação, reflexão sobre os sentidos da vida, e educação de jovens e adultos para um mundo diferente e melhor, de paz, saúde, justiça social.

O Memorial nos remete à forte ideia de que mais do que nos prepararmos para uma nova pandemia, impedi-la é o grande objetivo. Não esquecer é também lançar luz aos crimes hediondos cometidos pelo governo brasileiro na época da pandemia. Jair Bolsonaro estava à frente, e ficou conhecido por propagar contra as medidas protetivas à vida, difamar o distanciamento social, e indicar medicamentos e terapêuticas sem efeito e nocivas à saúde. Sócio do vírus, se tornou um genocida durante a pandemia. O dito popular diz que o criminoso sempre volta à cena do crime. Este ano, 2026, haverá eleições presidenciais, e o genocida de então quer voltar à cena do crime através do seu filho e herdeiro político, Flávio Bolsonaro. E cabe ao sofrido povo brasileiro impedir que isto aconteça. E o fará.

Nosso foco nesse momento está em construir o futuro: coletivamente devemos formular projetos e propostas que ativem a esperança a milhões de pessoas. Definitivamente devemos propor um projeto de política de saúde que traga em si linhas de ruptura com a lógica do “biomercado”, e sua dinâmica de acumulação. O SUS tem na sua origem o forte componente solidário que marcou as políticas sociais formuladas no âmbito da Constituição de 1988. E é justamente a solidariedade social o antídoto à subjetividade neoliberal, esta, marcada pela construção do sujeito da concorrência, que orientou a maior reestruturação produtiva do trabalho dos últimos tempos, a chamada “uberização”, ou “capitalismo de plataforma”, no qual um trabalhador vê no outro não seu igual e parceiro, mas um concorrente com o qual compete. A este esgarçamento da solidariedade de classe apresentamos a ideia de relações comunitárias, que têm no seu pilar mestre a solidariedade, como fundamento anticapitalista e antineoliberal.

As eleições gerais de 2026, em particular a presidencial, atualiza a disputa histórica com o projeto neoliberal, que agora se apresenta na versão da ultradireita, que conta com um correspondente no governo estadunidense atual. Todo o esforço a ser feito neste ano de construção do SUS, – uma política de saúde radicalmente solidária, sustentada pelo movimento social – vem no sentido de vencer e consolidar definitivamente um país socialmente justo.

O projeto do SUS no seu formato original, traduzido para o tempo atual, deve agir como a força propulsora de um amplo movimento, de alta capilaridade em todo território nacional. A Frente pela Vida tem capitaneado este movimento, e se movimenta neste momento para organizar a 2ª Conferência Nacional Livre Democrática e Popular de Saúde, que deverá acontecer em agosto de 2026. Esta Conferência tem a missão de ativar as energias para criar uma onda a favor da vida por todo país, que vai mais uma vez dar a vitória à esperança de um Brasil vivo, saudável, solidário e em paz.

 

Fonte: Outra Saúde


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