Quando
a taxa de juros faz terapia
O
consultório tinha paredes desmaiadas — um bege que outrora fora neutro — agora
apenas cansado. A luz desferia-se de forma irregular sobre o divã, indecisa
quanto ao que deveria iluminar.
A taxa
de juros chegou pontual.
Sentou-se
com cuidado. Anunciou que ficaria pouco. Tinha compromissos.
—
Podemos iniciar — disse o analista.
— Eu
reajo. Reajo reativamente.
O
analista anotou.
Reagia
à inflação.
Reagia
às expectativas.
Reagia
ao clima.
Era o
que dizia. E, por um tempo, parecia suficiente.
Havia
ali um certo orgulho.
Diferentemente
de alguns de seus primos estrangeiros — mais dados a antecipar, a sinalizar, a
conduzir — a taxa insistia em sua natureza reativa. Não guiava. Acompanhava.
Mas, ao
alinhar as reações com o que vinha ocorrendo, surgiu um descompasso discreto —
não um erro, algo mais difícil de esquadrinhar.
Subia —
mesmo quando o investimento fraquejava.
Subia —
quando o crescimento desacelerava e a incerteza aumentava.
E, ao
subir, não a debelava. No máximo, reorganizava seu semblante.
— Não
produzo isso — disse.
—
Apenas respondo.
— E, ao
responder, o que acontece?
A
pergunta pairou um tanto desamparada.
Do lado
de fora — ou talvez a partir dali — ninguém identificou um ponto de início.
Não
houve ruptura. Nem anúncio. Apenas continuidade.
Formou-se
um setor.
Em
economias como a brasileira, ganhou escala.
Não
produzia bens.
Tampouco
serviços, ao menos no sentido prosaico da palavra.
Sua
função era outra: intermediar o que não existe.
Ou, por
vezes, o que infelizmente existe — mas não produz.
Fluxos
eram registrados antes de ocorrer.
Rendimentos,
antecipados antes de serem gerados.
Expectativas
circulavam como ativos líquidos — e, com o tempo, passaram a render.
Não
havia fábrica. Nem máquina.
Nem
trabalhador com rosto.
Ainda
assim, havia lucros.
Robustos.
E, sobretudo, justificáveis.
Tentou-se
descrevê-lo.
Dizia-se
que organizava o que ainda não havia acontecido.
Que
dava forma à incerteza.
Que
permitia decisões onde antes havia apenas espera.
Tudo
isso parecia coerente — desde que não se observasse por muito tempo.
Porque,
à medida que crescia, o setor não reduzia a incerteza.
Passava
a depender dela.
E mais:
começou a produzir algo específico.
Não
bens.
Não
serviços.
Mas
necessidade de intermediação.
Quanto
mais incerto o ambiente, maior sua relevância.
Quanto
maior sua relevância, mais difícil se tornava prescindir dele.
Na
segunda sessão, a taxa de juros foi mais cautelosa.
— Eu
estabilizo — proclamou.
— O
quê?
— O
sistema.
— Qual
sistema? Metabólico?
Houve
uma pausa curta, suficiente para não parecer hesitação.
— O que
está dado.
O
analista anotou, dessa vez sem levantar os olhos.
Ao
elevar-se, reorganizava decisões.
Adiava
investimentos.
Reordenava
fluxos.
Recompensava
posições que não dependiam da produção.
E, ao
fazê-lo, reforçava o ambiente em que o próprio setor — aquele que intermedia o
que não existe — se tornava necessário.
— Então
você participa do processo? — perguntou o analista.
— Eu
reajo a ele.
A
diferença parecia pequena. Não era.
Do lado
de fora, a economia mantinha suas formas reconhecíveis.
Havia
produção, ainda que irregular.
Havia
investimento, ainda que hesitante.
Havia
trabalho, ainda que pressionado.
Mas
isso já não organizava o restante.
Ou
apenas servia de referência para algo que operava por outros critérios.
Na
última sessão, a taxa chegou no mesmo horário.
Deitou-se.
Ajustou-se.
O
analista esperou.
Nada.
Então,
quase como um reflexo — ou um gesto aprendido — a taxa ensaiou uma leve queda.
Discreta.
Quase imperceptível.
Nada
que alterasse o quadro.
Apenas
o suficiente para sugerir melhora.
Por um
instante, pareceu responder menos ao sistema do que à própria cena.
Não
havia mais o que esclarecer — não porque estivesse resolvido, mas porque a
explicação deixara de ser necessária.
Do lado
de fora, os fluxos seguiam circulando.
Sem
origem que importe.
Sem
destino que organize.
E,
sobretudo, sem a necessidade de passar por aquilo que, por muito tempo, se
chamou de produção.
No
prontuário, não havia diagnóstico.
Apenas
registros de variação.
E,
ainda assim, os sinais — curiosamente — seguiam estáveis.
Fonte:
Por Henrique Morrone, em Outras Palavras

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