Em
marcha, povos indígenas confrontam Congresso: os territórios indígenas não
estão à venda
Com
cantos, cartazes e símbolos de luta e resistência, os milhares de indígenas
reunidos em Brasília para a 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL)
marcharam nesta quarta-feira (7) pelas ruas da capital federal rumo ao
Congresso Nacional, em um ato em defesa de seus direitos e contra propostas
legislativas que atacam diretamente seus territórios e modos de vida.
A
marcha “Congresso inimigo dos povos: nosso futuro não está à venda” abriu a
programação do segundo dia de ATL, e foi seguida por duas plenárias que
pautaram a demarcação, o direito originário aos territórios e a atuação
governamental na política indigenista.
A
mobilização ocorre em meio ao avanço de propostas que buscam restringir
direitos constitucionais e abrir as Terras Indígenas (TIs) à exploração
econômica, além de flexibilizar suas garantias legais. “Marchamos com uma
mensagem muito clara”, assegura o coordenador executivo da Articulação dos
Povos Indígenas do Brasil (Apib), Dinamam Tuxá ao destacar a ofensiva do
Congresso aos direitos indígenas.
Segundo
levantamento da Apib, em 2026, ao menos seis propostas anti-indígenas têm sério
risco de avançar no Congresso Nacional.
Entre
estas medidas em tramitação estão a Proposta de Emenda Constitucional (PEC)
48/2023, que pretende instituir a tese do marco temporal para a demarcação das
terras indígenas por meio de Emenda Constitucional, e pretende vedar a correção
da demarcação dos territórios e criar novos entraves para o processo
demarcatório.
“As
ameaças promovidas pelo Congresso Nacional, como a PEC 48, integram uma pauta
anti-indígena e antiambiental, que busca abrir os territórios indígenas para
grandes empreendimentos e flexibilizar o usufruto exclusivo dos povos
indígenas”
“As
ameaças promovidas pelo Congresso Nacional, como a PEC 48, integram uma pauta
anti-indígena e antiambiental, que busca abrir os territórios indígenas para
grandes empreendimentos e flexibilizar o usufruto exclusivo dos povos
indígenas”, reforça o coordenador da Apib.
Também
os Projetos de Decreto Legislativo (PDLs) 717/2024, 1121/2025, 1126/2025 e
1153/2025, que buscam anular a demarcação das TIs Morro dos Cavalos (SC), Toldo
Imbu (SC), Tupinambá de Olivença (BA), Comexatibá (BA) e Ibirama La-Klanô (SC),
que estão sob análise da Presidência da Câmara.
O PDL
717/2024, que foi aprovado no Senado e enviado à Câmara, é ainda mais grave.
Além de anular as demarcações das TIs Morro dos Cavalos e Toldo Imbu, a
proposição pretende sustar trechos do Decreto nº 1.775/1996, que regulamenta o
procedimento de demarcação de terras indígenas, impactando povos em todo país.
A
demora na demarcação dos territórios indígenas tem sido apontada pelas
lideranças como fator gerador de conflitos e da criminalização das lideranças.:
“Que os
territórios sejam demarcados, para que as mortes parem de acontecer, e que
fazendeiros e latifundiários sejam criminalizados pelas mortes e pelas invasões
dos nossos territórios. Isso tem ocorrido por ação desses latifundiários.
Nossas terras estão sendo invadidas, negociadas, e nosso bioma está sendo
destruído por quem não tem nenhuma responsabilidade nem respeito pela Mãe
Terra”, cobrou Bruno Tupinambá, liderança indígena da Bahia.
As
propostas anti-indígenas destacadas pela Apib também contemplam o Projeto de
Lei (PL) nº 6050/2023, que propõe a abertura das TIs para exploração comercial,
a exemplo do arrendamento, mineração e energia. O projeto encontra-se na
Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado.
O PL
6093/2023, chamado pelos indígenas de “PL do Agro”, também ataca os direitos
territoriais indígenas. Além de propor a aplicação do marco temporal, já
julgado inconstitucional pelo STF, a proposição altera o último ato do processo
de demarcação de Decreto para Medida Provisória, ou seja, condiciona a
finalização das demarcações à aprovação do Congresso Nacional.
O
Senado Federal também deu passos na destruição dos direitos originários ao
criar o Grupo de Trabalho (GT) de mineração em terras indígenas, presidido pela
senadora ruralista Tereza Cristina (PP/MS). Criado após determinação do STF, o
GT tem até o dia 30 de maio para apresentar uma proposta de regulamentar a
exploração mineral em territórios indígenas.
O tema
foi denunciado por Auricélia Arapiun, liderança da região Baixo Tapajós (PA),
durante a marcha.; “O Congresso tem insistido em liberar a mineração nos nossos
territórios, e nós estamos levando caveiras e realizando esta manifestação pela
garantia dos direitos dos povos indígenas. Também dizemos: fora Congresso
Nacional, fora Belo Sun, fora Cargill, fora todos os empreendimentos que afetam
nossas vidas”, listou.
“Esta
terra tem dono: direito originário e territórios livres de exploração”
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Esta terra tem dono
As
reivindicações e denúncias expressas na marcha foram reforçadas durante a
plenária “Esta terra tem dono: direito originário e territórios livres de
exploração”. Um dos pontos destacados na plenária foram os desdobramentos da
aprovação da Lei 14.701/2023.
Promulgada
pelo então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD/MG), durante o recesso
parlamentar em dezembro de 2023, a lei passou a vigorar em sua integralidade,
causando insegurança física e jurídica para todos os povos indígenas do Brasil
e instaurando uma situação de conflito constitucional: a ação do Congresso
inseriu no ordenamento legal brasileiro uma norma legislativa que é
inconstitucional em seu conteúdo e em sua forma.
As
ações que discutiam a constitucionalidade da Lei 14.701 foram julgadas pelo STF
em dezembro de 2025. A decisão julgou passagens da norma inconstitucionais, mas
estabeleceu um conjunto de dispositivos cuja aplicação ainda é incerta.
“Apesar
de ter reafirmado o direito originário dos povos indígenas sobre os territórios
que tradicionalmente habitam, declarando pela segunda vez a
inconstitucionalidade do marco temporal, [a decisão do STF] criou inúmeros
empecilhos para a demarcação dos territórios indígenas”, destacou o coordenador
Jurídico da Apib, Ricardo Terena.
Durante
a plenária, lideranças dos povos Guarani e Kaiowá, Mura, Tupiniquim, Karipuna e
Tuxá relataram como empreendimentos hidrelétricos e de mineração já instalados
ou em processo de instalação vem impactando a vida de seus povos de norte a sul
do país.
“O que
eles não entendem é que o que eles chamam de invasão à propriedade privada, nós
chamamos de retomada”
Vilma
Guarani, liderança do povo Avá-Guarani, expôs os impactos enfrentados até hoje
pela população da TI Tekohá Guasu Guavira, no oeste do Paraná, com o alagamento
causado pela construção da hidrelétrica Itaipu Binacional.
“O meu
povo foi expulso do seu território no início do alagamento feito pela Itaipu. E
hoje, quando se fala da busca pela reparação histórica para o meu povo, ela
traz muito mais violência do que reparação”, denuncia Vilma.
Construída
durante a ditadura militar, a hidrelétrica alagou a maior parte do território
Avá-Guarani. Até hoje sem acesso à água potável, a população reivindica a
reparação e se vive em retomadas que ocupam uma pequena parcela de sua terra.
“Nós
sofremos duas vezes esse impacto: a partir do momento em que o nosso povo foi
expulso e teve que sair do seu território, e a partir do momento em que elas
tiveram que retornar para o seu território. O que eles não entendem é que o que
eles chamam de invasão à propriedade privada, nós chamamos de retomada”,
relatou Vilma.
Outros
povos que até hoje aguardam por reparação são os Guarani Mbya e Tupiniquim de
Espírito Santo. A TI Tupiniquim, no Espírito Santo, fica na parada final do
rastro de destruição deixado pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana
(MG). Esses povos tiveram seu principal meio de subsistência, a pesca e a
coleta de marisco, inviabilizado pela contaminação dos mananciais de água na
foz do Rio Doce.
O
relato foi trazido por Paulo Tupiniquim, coordenador geral da Articulação dos
Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo
(Apoinme). “Estudos comprovaram, no caso lá do Espírito Santo, que no rio
Piraqueaçu foram detectados diversos tipos de metais pesados que desceram com o
rejeito. Dentre eles, um que é altamente tóxico, que é o arsênio. E foi
detectado no peixe uma quantidade de 30% a mais de arsênio no organismo do
pescado do que aquilo que é permitido pela Anvisa”, relatou.
“Não
houve um processo da consulta livre, prévia e informada para se chegar a uma
definição de um acordo, de um valor que deveria ser pago pelo dano causado às
comunidades”
Uma das
denúncias feitas pela população Tupiniquim foi a falta de consulta e discussão
prévia com todas as comunidades impactadas para a definição de um acordo de
indenização.
“Não
houve um processo da consulta livre, prévia e informada para se chegar a uma
definição de um acordo, de um valor que deveria ser pago pelo dano causado às
comunidades”, explicou a liderança. “Porque, na verdade, tinha que se pensar
medidas que viessem trazer de novo a autossustentação da comunidade. E não
tinha nada disso dentro do acordo que foi feito”.
A mesma
falta de consulta vem acontecendo com o povo Mura da TI Lago do Soares, no
município amazonense de Autazes. O território Mura está em fase de estudos de
identificação e delimitação pela Funai e, atualmente, se encontra ameaçado por
um megaprojeto da mineradora Potássio do Brasil, que já avança sobre o
território indígena com licenças de instalação fornecidas pelo governo estadual
do Amazonas.
Se
entrar em operação, o projeto de mineração de potássio poderá resultar na
formação de pilhas de rejeito com um volume total cinco vezes maior do que o
despejado pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. É o que prevê o
Estudo de Impacto Ambiental do projeto, que admite também o risco de
salinização das águas próximas ao empreendimento.
Em meio
a denúncias de coação e ausência de consulta aos indígenas, principais
afetados, a Potássio do Brasil já começou a desmatar áreas da TI reivindicada
pelos Mura para a instalação do empreendimento, conforme apurado pelo Cimi.
“o
nosso rio vai ser salinizado porque eles querem deixar duas pilhas de sal em
plena floresta amazônica, em cima da nossa aldeia.”
Milena
Mura, coordenadora da Organização das Mulheres Indígenas Mura (OMIM), expressou
uma preocupação que vai além dos limites do território: “o nosso rio vai ser
salinizado porque eles querem deixar duas pilhas de sal em plena floresta
amazônica, em cima da nossa aldeia. Por esse motivo nós estamos sempre lutando,
mas principalmente porque a gente não está pensando só em nós, enquanto povo. A
gente está pensando em vocês também, porque, uma vez que a Potássio comece a
fazer essa exploração, abre o precedente para outros territórios serem também
explorados”.
Para o
professor Carlos Frederico Marés, ex-presidente da Funai e especialista em
direitos indígenas e socioambientais, essa luta é imprescindível. “Não é
possível manter a Constituição e interpretar bem a Constituição sem a luta do
povo indígena”, sustentou.
O
jurista recordou o que diz o capítulo sobre os povos indígenas na Constituição
Federal de 1988, e que representa uma conquista da luta indígena. “As terras
indígenas são um direito originário e sobre as terras indígenas quem decide
sobre mineração são os povos indígenas. Não só sobre a mineração. Sobre a
mineração, a extração de madeira, a pesca, todas as riquezas da terra. Quem
decide é o povo que está ali. Isso diz a Constituição”, lembrou.
Encerrando
a programação de debates do dia, foi realizada a plenária “Terra Demarcada:
Vida Garantida: Atuação governamental na política indigenista”, que contou com
a presença do ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, das ministras da
Igualdade Racial e dos Direitos Humanos e da Cidadania, Rachel Barros e Janine
Mello dos Santos, além da nova presidenta da Funai, Lucia Alberta Baré, entre
outros servidores e parlamentares.
• Mulheres camponesas indígenas,
ribeirinhas e agentes da CPT em Itacoatiara/AM fortalecem o protagonismo em
seus territórios
No dia
07 de março de 2026, foi realizado no Centro Pastoral São Paulo VI, em
Itacoatiara (AM), o Encontro Alusivo ao Dia Internacional das Mulheres,
reunindo mulheres camponesas e mulheres da Comissão Pastoral da Terra (CPT),
oriundas de diferentes territórios e comunidades, entre eles a Aldeia
Correnteza, na Terra Indígena Rio Urubu; a Comunidade Nossa Senhora Aparecida
do Jamanã; o Quilombo Sagrado Coração de Jesus; a Comunidade Rondon; a
Comunidade Aparecida do Jamanã; a Comunidade Centenário; a Comunidade Santa Fé
do Canaçari; e a Comunidade São João do Araçá, no Rio Arari. A atividade foi
promovida pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), em parceria com a Prelazia de
Itacoatiara.
O
encontro teve como objetivo fortalecer o protagonismo das mulheres em seus
territórios, incentivando sua permanência no campo, nas águas e nas florestas,
bem como reafirmando a importância da organização coletiva, da defesa dos
direitos e da valorização de seus modos de vida. A programação também ressaltou
a importância do cultivo da terra, da produção de alimentos saudáveis, da
proteção da floresta e da defesa de uma vida digna, em contraposição às
diversas formas de exclusão.
Ao
longo da programação, foram promovidos momentos de escuta, reflexão, partilha e
roda de diálogo, orientados por mulheres da Comissão Pastoral da Terra, que
abordaram temas centrais à realidade vivida pelas participantes. Entre os
assuntos discutidos, destacaram-se a violência contra a mulher, seus sinais,
formas de denúncia e redes de apoio; o trabalho escravo contemporâneo e outras
formas de exploração no trabalho; os direitos e políticas públicas para
mulheres nos territórios, com ênfase no acesso à documentação, benefícios,
saúde, educação e assistência; além da importância do autocuidado e da saúde
integral da mulher, considerando corpo, mente e espiritualidade.
As
discussões evidenciaram desafios concretos enfrentados pelas mulheres em seus
contextos, como a violência e suas múltiplas manifestações, a precarização do
trabalho, a negação de direitos básicos, a dificuldade de acesso a políticas
públicas e a ausência de atendimento adequado em áreas essenciais, como saúde e
educação. Ao mesmo tempo, reforçaram-se caminhos de proteção, resistência e
organização coletiva, com destaque para a importância das redes de apoio, dos
espaços de formação e da denúncia como instrumentos de enfrentamento das
violações de direitos.
No
período da tarde, as participantes vivenciaram momentos de autocuidado,
acolhimento e valorização, por meio de uma ação social que contou com a
presença da UNIPLAN, representada por professores e alunos dos cursos de
Enfermagem, Fisioterapia e Pedagogia. Foram realizados serviços de verificação
de sinais vitais, massagens relaxantes, acolhimento e atividades de integração,
fortalecendo esse momento de cuidado, escuta e atenção às mulheres presentes. O
Salão Tulipas também esteve presente, contribuindo para esse momento de
bem-estar e valorização.
A
realização do encontro contou com o importante apoio da Prelazia de
Itacoatiara, que colaborou para a concretização da atividade e reafirmou seu
compromisso com a promoção, o cuidado e a valorização das mulheres. O evento
contou ainda com a presença de importantes instituições e organizações, como a
UNIPLAN, a União Brasileira de Mulheres (UBM), o Instituto de Defesa das
Mulheres e Meninas Casa de Maria, a Rede Um Grito pela Vida, o grupo Alcoólicos
Anônimos, além de outras representações da sociedade civil.
Mais do
que uma atividade alusiva à data, o encontro constituiu-se como um espaço de
formação, escuta, denúncia, fortalecimento e reconhecimento da dignidade das
mulheres, reafirmando o compromisso com a valorização das mulheres camponesas e
com a construção de territórios mais justos, sustentáveis e livres de
violência.
Fonte:
Cimi/CPT

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