Cessar-fogo
com Irã abre porta para Trump sair da guerra — mas custo é alto
No fim,
o bom senso prevaleceu — pelo menos por enquanto.
Às
19h32 (horário de Brasília), o presidente Donald Trump publicou em sua rede
social que os Estados Unidos e o Irã estavam "muito avançados" em um
acordo de paz "definitivo" e que havia concordado com um cessar-fogo
de duas semanas para
permitir o avanço das negociações.
Não foi
exatamente no último minuto, mas, com o prazo imposto por Trump — de até às 21h
para que um acordo fosse alcançado, sob ameaça de ataques massivos à
infraestrutura energética e de transporte do Irã — chegou bem perto disso.
Tudo
isso depende de que o Irã também suspenda as hostilidades e reabra
completamente o Estreito de Ormuz ao tráfego
comercial — algo que o país disse que vai fazer.
Mas
esse avanço parecia distante na manhã de terça-feira (7/4), quando Trump ameaçou a morte da civilização
iraniana, "para nunca mais ser ressuscitada".
Não
está claro se uma ameaça tão extrema de um presidente americano pressionou o
Irã a concordar com um cessar-fogo que antes havia rejeitado. O que é evidente
é que a declaração surpreendente e inflamatória de Trump — apenas dois dias
depois de uma exigência semelhante — não tem precedentes entre líderes modernos
dos EUA.
E,
mesmo que o cessar-fogo de duas semanas leve a uma paz duradoura, a guerra com
o Irã — e as recentes declarações de Trump — podem ter alterado profundamente a
forma como o resto do mundo vê os Estados Unidos.
Uma
nação que antes se apresentava como uma força de estabilidade global agora está
abalando os fundamentos da ordem internacional. Um presidente que aparentemente
se deleitava em quebrar normas e tradições na política interna, agora faz o
mesmo no cenário mundial.
Os
democratas foram rápidos em condenar as declarações de Donald Trump na
terça-feira, com alguns chegando a pedir sua destituição do cargo.
"Está
claro que o presidente continua em declínio e não está apto para liderar,"
escreveu o congressista Joaquin Castro na rede X.
Chuck
Schumer, principal líder democrata no Senado, afirmou que qualquer republicano
que não votasse pelo fim da guerra com o Irã "será responsável por todas
as consequências disso, seja lá qual forem".
Embora
muitos dentro do próprio partido de Trump tenham se mantido ao seu lado, o
apoio esteve longe de ser unânime, como costuma acontecer.
O
congressista republicano da Geórgia Austin Scott, membro sênior do Comitê de
Serviços Armados da Câmara, criticou duramente as ameaças sobre a morte de uma
civilização.
"Os
comentários do presidente são contraproducentes", disse à BBC. "Não
concordo com eles."
O
senador de Wisconsin Ron Johnson, geralmente leal a Trump, afirmou que seria um
"grande erro" levar adiante a campanha de bombardeios. Já o
congressista do Texas Nathaniel Moran escreveu nas redes sociais que não apoia
"a destruição de uma 'civilização inteira'".
"Isso
não é quem somos", escreveu. "E não é consistente com os princípios
que orientam a América."
A
senadora do Alasca Lisa Murkowski, que frequentemente discorda do presidente,
também foi direta, afirmando que a ameaça "não pode ser justificada como
uma tentativa de ganhar vantagem nas negociações com o Irã".
No
entanto, a Casa Branca provavelmente argumentará que essa estratégia de pressão
funcionou.
Em sua
publicação no Truth Social anunciando o cessar-fogo, Trump afirmou que os
Estados Unidos "atingiram e superaram" todos os seus objetivos
militares.
As
capacidades militares do Irã foram significativamente enfraquecidas. Embora o
regime fundamentalista islâmico ainda esteja no poder, muitos de seus
principais líderes foram mortos em bombardeios.
Mas,
neste momento, muitos dos objetivos declarados pelos Estados Unidos ainda
permanecem incertos. O destino do urânio enriquecido do Irã — base de seu
programa nuclear — é desconhecido.
O país
também continua exercendo influência sobre grupos armados regionais, como os
rebeldes houthis no Iêmen.
E mesmo
que o Irã reabra totalmente o Estreito de Ormuz — sem impor o pagamento de
pedágios ou outras condições — sua capacidade de controlar esse ponto
estratégico geopolítico está mais clara do que nunca.
Em
comunicado divulgado após a mensagem de cessar-fogo de Donald Trump, o ministro
das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que o país suspenderá
suas "operações defensivas" e permitirá a passagem segura pelo
estreito "em coordenação com as Forças Armadas do Irã".
Ele
acrescentou que os EUA aceitaram a "estrutura geral" do plano
iraniano de 10 pontos.
Esse
plano inclui a retirada das forças militares americanas da região, a suspensão
das sanções econômicas, o pagamento de indenizações por danos de guerra e a
manutenção do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz. É difícil imaginar
que Trump concorde com todas essas condições — um sinal de que as próximas duas
semanas de negociações podem ser delicadas.
Por
ora, no entanto, trata-se de uma vitória política para Trump. Ele fez uma
ameaça dramática e obteve o resultado desejado. Mas o cessar-fogo representa
apenas uma pausa, não um acordo definitivo.
O custo
de longo prazo das declarações e ações do presidente — e da guerra como um todo
— ainda precisa ser totalmente avaliado.
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O cessar-fogo garante a Trump uma gratificação
instantânea, mas o Irã pode entrar nas negociações em posição de vantagem.. Por
Julian Borger
O
anúncio de um cessar-fogo de duas semanas permitiu que Donald Trump saudasse a
reabertura do Estreito de Ormuz como o alvorecer vitorioso de uma nova era de
ouro, mas é o Irã que entra nas
negociações de paz em posição de vantagem.
O
regime de Teerã chega às negociações planejadas para
sexta-feira no
Paquistão ensanguentado, mas intacto. Ainda detém um estoque de urânio
altamente enriquecido (UAE) – o cerne original do conflito com os EUA, Israel e
seus aliados – e agora reivindica pelo menos o controle parcial do estreito,
tendo demonstrado sua capacidade de fechar a estreita passagem marítima e
manter o mundo refém.
Trump
obteve gratificação instantânea. Ele conseguiu permanecer como o ator central
do drama, tendo aterrorizado o mundo com sua ameaça de que “uma civilização
inteira morrerá”, antes de afirmar, algumas horas depois, ter revertido
drasticamente o curso e estar “bem encaminhado” rumo a uma paz duradoura no
Oriente Médio.
Com as
palavras do presidente, o preço do petróleo caiu e as ações globais mostraram
sinais de recuperação, demonstrando que ele ainda tinha o poder, pelo menos, de
influenciar os mercados no curto prazo.
No
entanto, os termos reais do cessar-fogo permanecem incertos, com diversas
interpretações em circulação. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif,
afirmou que o cessar-fogo abrangia "todo o país, incluindo o Líbano",
mas seu homólogo israelense, Benjamin Netanyahu, o contradisse prontamente,
prometendo que a campanha de Israel em sua fronteira norte continuaria.
Trump
afirmou que o cessar-fogo estava condicionado à “abertura completa, imediata e
segura do Estreito de Ormuz”. Teerã concordou que a navegação passaria a
ocorrer pela hidrovia, mas com a ressalva de que a passagem estaria sob o
controle das forças armadas iranianas.
Relatos
da região sugerem que Teerã planeja implementar sua proposta anterior de
compartilhar o controle do estreito com Omã e dividir a receita dos pedágios,
fixados em US$ 2 milhões (R$ 1,5 milhão) por navio. Isso representaria uma
mudança significativa em relação ao status quo pré-guerra, no qual o estreito
era uma via navegável livre, consolidando o papel de Teerã como guardiã e
fornecendo-lhe uma fonte de renda totalmente nova.
A
incerteza quanto ao futuro do estreito sugere que as centenas de navios presos
no Golfo devido ao conflito tentarão sair, mas muito menos entrarão pelo
Estreito de Ormuz, dada a incerteza e o receio de ficarem retidos. Os armadores
também temem que o pagamento de taxas ao Irã viole as sanções americanas.
Durante
as cinco semanas de guerra, Trump fez ameaças cada vez mais grotescas,
culminando em seu alerta genocida de que provocaria o fim da civilização
iraniana, na clara esperança de pressionar Teerã a fazer concessões de última
hora.
Isso
parece não ter funcionado. No momento decisivo, foi o plano de
10 pontos do Irã, e não o seu próprio plano de 15 pontos, que Trump mencionou
ao saudar o cessar-fogo na noite de terça-feira, chamando-o de "uma base
viável para negociar".
Ao
acordar na manhã de quarta-feira, o presidente parece ter sido informado de que
os 10 pontos do Irã incluem o levantamento de todas as sanções, o pagamento de
reparações de guerra e o reconhecimento do direito do Irã de enriquecer urânio,
condições que até então estavam além das linhas vermelhas de Washington.
Em suas
primeiras postagens do dia, Trump tentou reformular o cessar-fogo em termos
mais favoráveis. Ele insinuou, em uma publicação no Truth Social, que o plano
se baseava em seus 15 pontos, e que muitos deles “já haviam sido acordados”.
Mais importante, disse ele, seria que “não haveria enriquecimento de urânio” e
que os EUA trabalhariam com o Irã para extrair o estoque de urânio altamente
enriquecido (HEU) iraniano, ao qual se referiu como “poeira nuclear”.
Por sua
vez, o governo de Teerã incluiu o direito de enriquecimento na versão em farsi
dos termos do cessar-fogo, mas não na tradução para o inglês, sugerindo que foi
inserido para consumo interno, enquanto o regime se vangloriava da vitória.
Parece
não haver dúvidas de que o Irã fará desse direito uma linha vermelha nas
negociações para um acordo de longo prazo, como tem feito em todas as suas
negociações com o Ocidente, e sua posse de 440 kg de urânio altamente
enriquecido (o suficiente, em teoria, para fabricar uma dúzia de ogivas
nucleares) será uma poderosa moeda de troca.
Nas negociações que foram interrompidas pelo ataque
conjunto dos EUA e de Israel ao Irã em 28 de fevereiro, Teerã aparentemente
estava disposta a entregar esse arsenal. Essa é apenas uma das maneiras pelas
quais os EUA saíram da guerra em uma posição mais frágil do que na última
rodada de negociações em Genebra, dois dias antes do início do conflito.
A
delegação de Teerã chegará a Islamabad tendo demonstrado ao mundo e ao povo
iraniano que o regime pode sobreviver ao pior que seus inimigos possam lhe
infligir, apesar das severas perdas, incluindo a morte do líder supremo. As
forças iranianas permaneceram em combate no momento em que o cessar-fogo foi
declarado, contrariando as alegações de que haviam sido aniquiladas, com
mísseis ainda sendo disparados contra Israel e outros aliados dos EUA.
As
negociações também começarão sob a sombra de um novo status quo, com o Irã como
co-guardião e beneficiário do Estreito de Ormuz. A delegação americana pode até
se mostrar indignada e ameaçar abandonar as negociações devido às condições
impostas pelo Irã, mas estará ciente de que seu adversário possui a capacidade
comprovada de infligir grandes prejuízos ao governo Trump por meio de seu
poder sobre os postos de gasolina.
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Irã chama Netanyahu de “cachorro raivoso” e ameaça
retaliar Israel em nova escalada da guerra
O Irã
afirmou que Donald Trump não controla Benjamin Netanyahu. Teerã prometeu
retaliações diretas contra Israel após novos ataques no Líbano.
A
declaração marca um novo nível de tensão no conflito. Autoridades iranianas
passaram a tratar Israel como alvo imediato, e não apenas como aliado indireto
dos Estados Unidos.
A frase
usada foi direta e incomum no tom diplomático. Em mensagem oficial, o Irã
afirmou: “se você não tem uma coleira para o cachorro raivoso, Israel, devemos
conseguir uma para você?”.
O
contexto é a continuidade de ataques israelenses contra o Hezbollah no Líbano.
Mesmo com negociações de cessar-fogo em curso, Tel Aviv manteve operações
militares.
Donald
Trump afirmou que essas ações não fazem parte do acordo de trégua. A declaração
reforçou a percepção iraniana de descontrole ou permissividade dos EUA.
A
resposta de Teerã foi imediata. Segundo fontes ligadas à Guarda Revolucionária,
o país já está “identificando alvos” militares israelenses para possíveis
operações de dissuasão.
O termo
“dissuasão” indica mais do que retórica. Na prática, significa preparação para
ataques calculados, com objetivo de impor custo direto ao adversário.
Há
também sinal de ruptura no cessar-fogo. Autoridades iranianas indicaram que
podem abandonar a trégua caso os bombardeios israelenses continuem.
O
cenário se agrava com impacto energético. O Irã já restringiu o tráfego no
Estreito de Ormuz após os ataques, afetando uma das principais rotas do
petróleo global.
Isso
conecta o conflito militar à economia mundial. Qualquer interrupção prolongada
nessa rota pressiona preços e amplia o risco inflacionário global.
No
plano geopolítico, o episódio revela um deslocamento importante. O Irã passa a
tratar Israel como agente direto da guerra, e não apenas como extensão da
estratégia americana.
Ao
mesmo tempo, a fala sobre Trump indica desgaste da autoridade dos EUA sobre
aliados na região. A crítica implícita é de perda de controle estratégico.
Para o
Brasil, o impacto é imediato. A tensão no Golfo afeta o preço do petróleo,
encarece combustíveis e pressiona toda a cadeia econômica.
Há
também efeito estrutural. Crises desse tipo aceleram mudanças no sistema
global, incluindo novas alianças e rearranjos de poder no Oriente Médio.
O
episódio marca mais um passo na escalada. A guerra deixa de ser indireta e
passa a envolver ameaças explícitas entre Estados centrais do conflito.
O
resultado é um cenário mais instável, com risco crescente de confronto direto
entre Irã e Israel, com efeitos globais imediatos.
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Irã promete retaliar Israel e EUA por ataques no Líbano
O Corpo
da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (CGRI) emitiu um alerta contundente
aos Estados Unidos e a Israel, declarando que qualquer continuidade nas
agressões contra o Líbano será respondida com medidas drásticas.
Em
comunicado oficial, o CGRI condenou o que descreveu como uma ‘ação brutal’ em
Beirute, ocorrida logo após tentativas de estabelecer uma trégua na região. A
declaração reforça a posição da República Islâmica de não tolerar violações de
acordos ou ataques a territórios aliados.
As
Forças de Defesa de Israel (FDI) confirmaram ter realizado uma série de
operações no Líbano, descritas como parte de uma campanha militar de grande
escala contra alvos associados ao Hezbollah.
Autoridades
libanesas reportaram que os bombardeios resultaram em centenas de vítimas,
entre mortos e feridos, em diversas áreas do país. A ofensiva ocorre em um
contexto de fragilidade diplomática, após negociações que buscavam reduzir as
hostilidades na região.
O
primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou que as operações
continuarão até que os objetivos estratégicos sejam alcançados, rejeitando
apelos por interrupção imediata das ações militares.
Representantes
do Conselho Nacional de Segurança do Irã afirmaram que os Estados Unidos têm
responsabilidade direta sobre as ações de Israel, acusando Washington de
conivência com os ataques.
Teerã
reiterou que está preparada para agir caso as agressões persistam, embora
detalhes sobre possíveis medidas não tenham sido divulgados. A posição do
Governo do Irã foi destacada pelo portal RT, que acompanha os
desdobramentos na região.
Enquanto
isso, os Estados Unidos mantêm silêncio oficial sobre as acusações,
limitando-se a reafirmar seu apoio à segurança de Israel em comunicados
anteriores.
A
situação no Líbano se deteriora rapidamente, com a população civil enfrentando
os impactos mais severos dos confrontos. Relatos de agências internacionais
apontam para uma crise humanitária em curso, com deslocamentos em massa e
infraestrutura crítica danificada.
O
conflito entre Israel e o Hezbollah tem raízes históricas profundas, mas a
escalada recente reacende temores de um confronto regional mais amplo. O papel
dos Estados Unidos, frequentemente criticado por seu suporte incondicional a
Israel, também está sob escrutínio, especialmente diante de declarações
públicas sobre ‘paz e estabilidade’ no Oriente Médio que contrastam com o
financiamento contínuo de operações militares na área.
Analistas
observam que a retórica de ambos os lados não deixa margem para concessões
imediatas. Enquanto Israel justifica suas ações como defesa contra ameaças do
Hezbollah, o Governo do Irã posiciona-se como protetor de seus aliados
regionais, prometendo consequências severas para qualquer ataque adicional.
A
comunidade internacional acompanha os eventos com preocupação, mas até o
momento não há sinais concretos de mediação capaz de frear a violência. O
futuro da região permanece incerto, com o risco de uma escalada que pode
envolver outros atores globais.
Fonte: BBC News Mundo/The Guardian

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