quinta-feira, 9 de abril de 2026

Cessar-fogo com Irã abre porta para Trump sair da guerra — mas custo é alto

No fim, o bom senso prevaleceu — pelo menos por enquanto.

Às 19h32 (horário de Brasília), o presidente Donald Trump publicou em sua rede social que os Estados Unidos e o Irã estavam "muito avançados" em um acordo de paz "definitivo" e que havia concordado com um cessar-fogo de duas semanas para permitir o avanço das negociações.

Não foi exatamente no último minuto, mas, com o prazo imposto por Trump — de até às 21h para que um acordo fosse alcançado, sob ameaça de ataques massivos à infraestrutura energética e de transporte do Irã — chegou bem perto disso.

Tudo isso depende de que o Irã também suspenda as hostilidades e reabra completamente o Estreito de Ormuz ao tráfego comercial — algo que o país disse que vai fazer.

Mas esse avanço parecia distante na manhã de terça-feira (7/4), quando Trump ameaçou a morte da civilização iraniana, "para nunca mais ser ressuscitada".

Não está claro se uma ameaça tão extrema de um presidente americano pressionou o Irã a concordar com um cessar-fogo que antes havia rejeitado. O que é evidente é que a declaração surpreendente e inflamatória de Trump — apenas dois dias depois de uma exigência semelhante — não tem precedentes entre líderes modernos dos EUA.

E, mesmo que o cessar-fogo de duas semanas leve a uma paz duradoura, a guerra com o Irã — e as recentes declarações de Trump — podem ter alterado profundamente a forma como o resto do mundo vê os Estados Unidos.

Uma nação que antes se apresentava como uma força de estabilidade global agora está abalando os fundamentos da ordem internacional. Um presidente que aparentemente se deleitava em quebrar normas e tradições na política interna, agora faz o mesmo no cenário mundial.

Os democratas foram rápidos em condenar as declarações de Donald Trump na terça-feira, com alguns chegando a pedir sua destituição do cargo.

"Está claro que o presidente continua em declínio e não está apto para liderar," escreveu o congressista Joaquin Castro na rede X.

Chuck Schumer, principal líder democrata no Senado, afirmou que qualquer republicano que não votasse pelo fim da guerra com o Irã "será responsável por todas as consequências disso, seja lá qual forem".

Embora muitos dentro do próprio partido de Trump tenham se mantido ao seu lado, o apoio esteve longe de ser unânime, como costuma acontecer.

O congressista republicano da Geórgia Austin Scott, membro sênior do Comitê de Serviços Armados da Câmara, criticou duramente as ameaças sobre a morte de uma civilização.

"Os comentários do presidente são contraproducentes", disse à BBC. "Não concordo com eles."

O senador de Wisconsin Ron Johnson, geralmente leal a Trump, afirmou que seria um "grande erro" levar adiante a campanha de bombardeios. Já o congressista do Texas Nathaniel Moran escreveu nas redes sociais que não apoia "a destruição de uma 'civilização inteira'".

"Isso não é quem somos", escreveu. "E não é consistente com os princípios que orientam a América."

A senadora do Alasca Lisa Murkowski, que frequentemente discorda do presidente, também foi direta, afirmando que a ameaça "não pode ser justificada como uma tentativa de ganhar vantagem nas negociações com o Irã".

No entanto, a Casa Branca provavelmente argumentará que essa estratégia de pressão funcionou.

Em sua publicação no Truth Social anunciando o cessar-fogo, Trump afirmou que os Estados Unidos "atingiram e superaram" todos os seus objetivos militares.

As capacidades militares do Irã foram significativamente enfraquecidas. Embora o regime fundamentalista islâmico ainda esteja no poder, muitos de seus principais líderes foram mortos em bombardeios.

Mas, neste momento, muitos dos objetivos declarados pelos Estados Unidos ainda permanecem incertos. O destino do urânio enriquecido do Irã — base de seu programa nuclear — é desconhecido.

O país também continua exercendo influência sobre grupos armados regionais, como os rebeldes houthis no Iêmen.

E mesmo que o Irã reabra totalmente o Estreito de Ormuz — sem impor o pagamento de pedágios ou outras condições — sua capacidade de controlar esse ponto estratégico geopolítico está mais clara do que nunca.

Em comunicado divulgado após a mensagem de cessar-fogo de Donald Trump, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que o país suspenderá suas "operações defensivas" e permitirá a passagem segura pelo estreito "em coordenação com as Forças Armadas do Irã".

Ele acrescentou que os EUA aceitaram a "estrutura geral" do plano iraniano de 10 pontos.

Esse plano inclui a retirada das forças militares americanas da região, a suspensão das sanções econômicas, o pagamento de indenizações por danos de guerra e a manutenção do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz. É difícil imaginar que Trump concorde com todas essas condições — um sinal de que as próximas duas semanas de negociações podem ser delicadas.

Por ora, no entanto, trata-se de uma vitória política para Trump. Ele fez uma ameaça dramática e obteve o resultado desejado. Mas o cessar-fogo representa apenas uma pausa, não um acordo definitivo.

O custo de longo prazo das declarações e ações do presidente — e da guerra como um todo — ainda precisa ser totalmente avaliado.

¨      O cessar-fogo garante a Trump uma gratificação instantânea, mas o Irã pode entrar nas negociações em posição de vantagem.. Por Julian Borger

O anúncio de um cessar-fogo de duas semanas permitiu que Donald Trump saudasse a reabertura do Estreito de Ormuz como o alvorecer vitorioso de uma nova era de ouro, mas é o Irã que entra nas negociações de paz em posição de vantagem.

O regime de Teerã chega às negociações planejadas para sexta-feira no Paquistão ensanguentado, mas intacto. Ainda detém um estoque de urânio altamente enriquecido (UAE) – o cerne original do conflito com os EUA, Israel e seus aliados – e agora reivindica pelo menos o controle parcial do estreito, tendo demonstrado sua capacidade de fechar a estreita passagem marítima e manter o mundo refém.

Trump obteve gratificação instantânea. Ele conseguiu permanecer como o ator central do drama, tendo aterrorizado o mundo com sua ameaça de que “uma civilização inteira morrerá”, antes de afirmar, algumas horas depois, ter revertido drasticamente o curso e estar “bem encaminhado” rumo a uma paz duradoura no Oriente Médio.

Com as palavras do presidente, o preço do petróleo caiu e as ações globais mostraram sinais de recuperação, demonstrando que ele ainda tinha o poder, pelo menos, de influenciar os mercados no curto prazo.

No entanto, os termos reais do cessar-fogo permanecem incertos, com diversas interpretações em circulação. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, afirmou que o cessar-fogo abrangia "todo o país, incluindo o Líbano", mas seu homólogo israelense, Benjamin Netanyahu, o contradisse prontamente, prometendo que a campanha de Israel em sua fronteira norte continuaria.

Trump afirmou que o cessar-fogo estava condicionado à “abertura completa, imediata e segura do Estreito de Ormuz”. Teerã concordou que a navegação passaria a ocorrer pela hidrovia, mas com a ressalva de que a passagem estaria sob o controle das forças armadas iranianas.

Relatos da região sugerem que Teerã planeja implementar sua proposta anterior de compartilhar o controle do estreito com Omã e dividir a receita dos pedágios, fixados em US$ 2 milhões (R$ 1,5 milhão) por navio. Isso representaria uma mudança significativa em relação ao status quo pré-guerra, no qual o estreito era uma via navegável livre, consolidando o papel de Teerã como guardiã e fornecendo-lhe uma fonte de renda totalmente nova.

A incerteza quanto ao futuro do estreito sugere que as centenas de navios presos no Golfo devido ao conflito tentarão sair, mas muito menos entrarão pelo Estreito de Ormuz, dada a incerteza e o receio de ficarem retidos. Os armadores também temem que o pagamento de taxas ao Irã viole as sanções americanas.

Durante as cinco semanas de guerra, Trump fez ameaças cada vez mais grotescas, culminando em seu alerta genocida de que provocaria o fim da civilização iraniana, na clara esperança de pressionar Teerã a fazer concessões de última hora.

Isso parece não ter funcionado. No momento decisivo, foi o plano de 10 pontos do Irã, e não o seu próprio plano de 15 pontos, que Trump mencionou ao saudar o cessar-fogo na noite de terça-feira, chamando-o de "uma base viável para negociar".

Ao acordar na manhã de quarta-feira, o presidente parece ter sido informado de que os 10 pontos do Irã incluem o levantamento de todas as sanções, o pagamento de reparações de guerra e o reconhecimento do direito do Irã de enriquecer urânio, condições que até então estavam além das linhas vermelhas de Washington.

Em suas primeiras postagens do dia, Trump tentou reformular o cessar-fogo em termos mais favoráveis. Ele insinuou, em uma publicação no Truth Social, que o plano se baseava em seus 15 pontos, e que muitos deles “já haviam sido acordados”. Mais importante, disse ele, seria que “não haveria enriquecimento de urânio” e que os EUA trabalhariam com o Irã para extrair o estoque de urânio altamente enriquecido (HEU) iraniano, ao qual se referiu como “poeira nuclear”.

Por sua vez, o governo de Teerã incluiu o direito de enriquecimento na versão em farsi dos termos do cessar-fogo, mas não na tradução para o inglês, sugerindo que foi inserido para consumo interno, enquanto o regime se vangloriava da vitória.

Parece não haver dúvidas de que o Irã fará desse direito uma linha vermelha nas negociações para um acordo de longo prazo, como tem feito em todas as suas negociações com o Ocidente, e sua posse de 440 kg de urânio altamente enriquecido (o suficiente, em teoria, para fabricar uma dúzia de ogivas nucleares) será uma poderosa moeda de troca.

Nas negociações que foram interrompidas pelo ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irã em 28 de fevereiro, Teerã aparentemente estava disposta a entregar esse arsenal. Essa é apenas uma das maneiras pelas quais os EUA saíram da guerra em uma posição mais frágil do que na última rodada de negociações em Genebra, dois dias antes do início do conflito.

A delegação de Teerã chegará a Islamabad tendo demonstrado ao mundo e ao povo iraniano que o regime pode sobreviver ao pior que seus inimigos possam lhe infligir, apesar das severas perdas, incluindo a morte do líder supremo. As forças iranianas permaneceram em combate no momento em que o cessar-fogo foi declarado, contrariando as alegações de que haviam sido aniquiladas, com mísseis ainda sendo disparados contra Israel e outros aliados dos EUA.

As negociações também começarão sob a sombra de um novo status quo, com o Irã como co-guardião e beneficiário do Estreito de Ormuz. A delegação americana pode até se mostrar indignada e ameaçar abandonar as negociações devido às condições impostas pelo Irã, mas estará ciente de que seu adversário possui a capacidade comprovada de infligir grandes prejuízos ao governo Trump por meio de seu poder sobre os postos de gasolina.

¨      Irã chama Netanyahu de “cachorro raivoso” e ameaça retaliar Israel em nova escalada da guerra

O Irã afirmou que Donald Trump não controla Benjamin Netanyahu. Teerã prometeu retaliações diretas contra Israel após novos ataques no Líbano.

A declaração marca um novo nível de tensão no conflito. Autoridades iranianas passaram a tratar Israel como alvo imediato, e não apenas como aliado indireto dos Estados Unidos.

A frase usada foi direta e incomum no tom diplomático. Em mensagem oficial, o Irã afirmou: “se você não tem uma coleira para o cachorro raivoso, Israel, devemos conseguir uma para você?”.

O contexto é a continuidade de ataques israelenses contra o Hezbollah no Líbano. Mesmo com negociações de cessar-fogo em curso, Tel Aviv manteve operações militares.

Donald Trump afirmou que essas ações não fazem parte do acordo de trégua. A declaração reforçou a percepção iraniana de descontrole ou permissividade dos EUA.

A resposta de Teerã foi imediata. Segundo fontes ligadas à Guarda Revolucionária, o país já está “identificando alvos” militares israelenses para possíveis operações de dissuasão.

O termo “dissuasão” indica mais do que retórica. Na prática, significa preparação para ataques calculados, com objetivo de impor custo direto ao adversário.

Há também sinal de ruptura no cessar-fogo. Autoridades iranianas indicaram que podem abandonar a trégua caso os bombardeios israelenses continuem.

O cenário se agrava com impacto energético. O Irã já restringiu o tráfego no Estreito de Ormuz após os ataques, afetando uma das principais rotas do petróleo global.

Isso conecta o conflito militar à economia mundial. Qualquer interrupção prolongada nessa rota pressiona preços e amplia o risco inflacionário global.

No plano geopolítico, o episódio revela um deslocamento importante. O Irã passa a tratar Israel como agente direto da guerra, e não apenas como extensão da estratégia americana.

Ao mesmo tempo, a fala sobre Trump indica desgaste da autoridade dos EUA sobre aliados na região. A crítica implícita é de perda de controle estratégico.

Para o Brasil, o impacto é imediato. A tensão no Golfo afeta o preço do petróleo, encarece combustíveis e pressiona toda a cadeia econômica.

Há também efeito estrutural. Crises desse tipo aceleram mudanças no sistema global, incluindo novas alianças e rearranjos de poder no Oriente Médio.

O episódio marca mais um passo na escalada. A guerra deixa de ser indireta e passa a envolver ameaças explícitas entre Estados centrais do conflito.

O resultado é um cenário mais instável, com risco crescente de confronto direto entre Irã e Israel, com efeitos globais imediatos.

¨      Irã promete retaliar Israel e EUA por ataques no Líbano

O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (CGRI) emitiu um alerta contundente aos Estados Unidos e a Israel, declarando que qualquer continuidade nas agressões contra o Líbano será respondida com medidas drásticas.

Em comunicado oficial, o CGRI condenou o que descreveu como uma ‘ação brutal’ em Beirute, ocorrida logo após tentativas de estabelecer uma trégua na região. A declaração reforça a posição da República Islâmica de não tolerar violações de acordos ou ataques a territórios aliados.

As Forças de Defesa de Israel (FDI) confirmaram ter realizado uma série de operações no Líbano, descritas como parte de uma campanha militar de grande escala contra alvos associados ao Hezbollah.

Autoridades libanesas reportaram que os bombardeios resultaram em centenas de vítimas, entre mortos e feridos, em diversas áreas do país. A ofensiva ocorre em um contexto de fragilidade diplomática, após negociações que buscavam reduzir as hostilidades na região.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou que as operações continuarão até que os objetivos estratégicos sejam alcançados, rejeitando apelos por interrupção imediata das ações militares.

Representantes do Conselho Nacional de Segurança do Irã afirmaram que os Estados Unidos têm responsabilidade direta sobre as ações de Israel, acusando Washington de conivência com os ataques.

Teerã reiterou que está preparada para agir caso as agressões persistam, embora detalhes sobre possíveis medidas não tenham sido divulgados. A posição do Governo do Irã foi destacada pelo portal RT, que acompanha os desdobramentos na região.

Enquanto isso, os Estados Unidos mantêm silêncio oficial sobre as acusações, limitando-se a reafirmar seu apoio à segurança de Israel em comunicados anteriores.

A situação no Líbano se deteriora rapidamente, com a população civil enfrentando os impactos mais severos dos confrontos. Relatos de agências internacionais apontam para uma crise humanitária em curso, com deslocamentos em massa e infraestrutura crítica danificada.

O conflito entre Israel e o Hezbollah tem raízes históricas profundas, mas a escalada recente reacende temores de um confronto regional mais amplo. O papel dos Estados Unidos, frequentemente criticado por seu suporte incondicional a Israel, também está sob escrutínio, especialmente diante de declarações públicas sobre ‘paz e estabilidade’ no Oriente Médio que contrastam com o financiamento contínuo de operações militares na área.

Analistas observam que a retórica de ambos os lados não deixa margem para concessões imediatas. Enquanto Israel justifica suas ações como defesa contra ameaças do Hezbollah, o Governo do Irã posiciona-se como protetor de seus aliados regionais, prometendo consequências severas para qualquer ataque adicional.

A comunidade internacional acompanha os eventos com preocupação, mas até o momento não há sinais concretos de mediação capaz de frear a violência. O futuro da região permanece incerto, com o risco de uma escalada que pode envolver outros atores globais.

 

Fonte: BBC News Mundo/The Guardian

 

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