Arthur
Moura: Pode ter piscina no comunismo?
Já tem
um tempo que venho apontando questões pertinentes à construção da comunicação
produzida em podcasts, entre youtubers e figuras públicas que se pretendem
“formadores de opinião”. As pautas elencadas como capazes de projetar essas
figuras, que nadam em suas misérias, correspondem aos seus anseios políticos e
teóricos, à pobreza efetiva de seu repertório histórico e ao tipo de público
que desejam produzir e administrar. Justificam a barbárie enquanto propagam um
besteirol supostamente politizado.
A
questão não se resume à precariedade intelectual de certas perguntas, nem no
oportunismo rasteiro dos que as lançam ao ar como se estivessem descobrindo o
nervo do tempo; o que se deixa ver aí é uma forma social da comunicação, uma
maquinaria já ajustada ao ritmo do algoritmo, à ansiedade da repercussão
imediata e à necessidade permanente de transformar qualquer assunto em peça de
consumo ligeiro.
A
questão mais vulgar, quando atravessa esse circuito, deixa de ser uma simples
banalidade e adquire estatuto de “acontecimento discursivo”, não porque
carregue alguma densidade, mas porque se encaixa perfeitamente nas exigências
de uma esfera pública degradada, rebaixada ao nível do corte, da reação e do
riso fácil.
Uma
pergunta como “pode ter piscina no comunismo?” só parece absurda num ambiente
ainda orientado por algum compromisso com a razão histórica; dentro do
ecossistema atual, ela é exemplar, porque concentra em poucas palavras a
infantilização da política, a redução da crítica social ao universo do consumo
privado e a submissão integral da imaginação ao horizonte estreito da
propriedade.
A
miséria da comunicação é, portanto, um fenômeno histórico. O empobrecimento do
debate brota de uma estrutura material que seleciona, premia e multiplica
formas cada vez mais simplificadas de apreensão do mundo, e é nesse terreno que
os chamados webcomunistas encontram sua função objetiva, não como sujeitos
exteriores a essa lógica, mas como operadores internos de sua reprodução
ampliada.
Sua
atuação não pode ser compreendida apenas em termos de intenção política ou de
alinhamento ideológico declarado, porque o que os define com maior precisão é a
forma pela qual se inserem no circuito da visibilidade, aceitando como dado o
rebaixamento do debate e adaptando a crítica às exigências da circulação,
convertendo conceitos densos em unidades discursivas rapidamente assimiláveis,
moldadas para performar bem em vídeos curtos, cortes virais e discussões
superficiais.
Nesse
movimento, a crítica deixa de tensionar a realidade em sua totalidade e passa a
orbitar em torno de temas previamente formatados, respondendo a provocações que
já carregam em si o limite do que pode ser pensado.
Há,
portanto, uma espécie de especialização regressiva em curso. Esses
comunicadores se apresentam como tradutores do marxismo para o grande público,
mas operam frequentemente rebaixando o debate, ajustando o pensamento crítico à
gramática da indústria cultural, onde a clareza é confundida com simplificação
extrema e a acessibilidade com empobrecimento.
A
linguagem é progressivamente depurada de suas mediações, a história é
comprimida em exemplos imediatos e a teoria é reorganizada como repertório de
respostas prontas para perguntas mal formuladas. O resultado não é exatamente a
vulgarização no sentido clássico, que ainda implicaria algum esforço de
mediação, mas uma adaptação direta à lógica do consumo, na qual o conteúdo
precisa ser imediatamente utilizável, compartilhável e reconhecível.
Essa
dinâmica produz um efeito paradoxal. Ao mesmo tempo em que amplia o alcance de
certos temas, ela redefine os termos em que esses temas podem aparecer,
restringindo seu potencial crítico. O comunismo, por exemplo, deixa de ser
apresentado como ruptura histórica com a forma social do capital e passa a ser
discutido como um conjunto de características compatíveis ou incompatíveis com
o cotidiano do indivíduo consumidor.
Perguntas
como a da piscina surgem como expressões coerentes desse ambiente, e a
insistência em respondê-las reforça sua centralidade, como se nelas estivesse
contido algum núcleo legítimo de problematização, quando na verdade trata-se de
uma troca onde webcomunistas ganham projeção proliferando um chorume
discursivo.
Do
ponto de vista da teoria crítica, tem-se a integração da crítica ao circuito da
indústria cultural em sua forma mais recente, digitalizada e interativa. A
negatividade do pensamento, sua capacidade de romper com o dado, é gradualmente
absorvida por um sistema que exige constante produção de conteúdo e rápida
renovação de temas, impedindo a sedimentação de processos reflexivos mais
longos.
A
crítica se torna fluxo, e no fluxo perde parte de sua força de interrupção. O
que se mantém é sua aparência, circulação e capacidade de gerar engajamento,
enquanto seu conteúdo é progressivamente domesticado.
Nesse
sentido, a função dos webcomunistas se inscreve numa divisão do trabalho
comunicacional própria do capitalismo contemporâneo, em que até mesmo a crítica
radical encontra seu lugar como segmento de mercado, nicho de audiência e
identidade discursiva consumível operando como mediadores que tornam o discurso
crítico compatível com as formas dominantes de circulação, garantindo sua
presença, mas também sua limitação, contribuindo para que o pensamento
revolucionário apareça dentro de um horizonte já previamente neutralizado.
O
problema, portanto, não está apenas no conteúdo que produzem, mas na forma
social que ajudam a consolidar. Ao aceitar as regras do jogo sem tensioná-las
de maneira consequente, acabam por reforçar a própria estrutura que transforma
a política em espetáculo, a teoria em opinião e a crítica em mais um elemento
da engrenagem da comunicação empobrecida.
A
plataforma precisa de atrito superficial, de polêmica instantânea, de frases
que possam ser retiradas do conjunto e circular sozinhas, amputadas de
contexto, de mediação e de negatividade. O pensamento, quando ingressa nesse
espaço, já entra coagido a se converter em desempenho. A exposição de uma ideia
torna-se inseparável de sua rentabilidade simbólica.
O que
se recompensa não é a elaboração, mas a capacidade de adequar o enunciado às
métricas da circulação. A comunicação passa então a operar como setor avançado
da própria reificação: ela converte conceitos em iscas, conflitos históricos em
temas de entretenimento e antagonismos de classe em pequenas cenas de auditório
digital.
Sob a
sociabilidade capitalista, as relações entre os homens assumem a forma
fantasmagórica de relações entre coisas. A mesma inversão comparece, com força
renovada, no plano da linguagem pública contemporânea. As perguntas já aparecem
fetichizadas, desprendidas das determinações reais que lhes dariam sentido.
Não se
pergunta pela abolição da propriedade privada dos meios de produção, pela
socialização da riqueza ou extinção das relações de exploração; pergunta-se
pela piscina, pelo carro, conforto individual, direito de conservar pequenos
emblemas do mundo burguês dentro de um horizonte supostamente transformado. A
forma da pergunta já contém a prisão ideológica.
O
comunismo surge como variação administrativa do consumo, como se uma
transformação revolucionária pudesse ser avaliada segundo a preservação ou não
de signos privados de distinção. O problema histórico referente à emancipação
humana é relegado ao ostracismo enquanto a imaginação, já colonizada pela
mercadoria, torna-se incapaz de figurar a liberdade fora do repertório do
proprietário.
A
indústria cultural, tal como Theodor Adorno e Max Horkheimer a descreveram,
conforma previamente a experiência, amolda a percepção, ensina o público a
desejar o mesmo, a rir nos mesmos pontos, a reconhecer como “relevante” aquilo
que melhor se acomoda à lógica da repetição e da equivalência.
O
podcast politizado de baixa voltagem, esse teatro contínuo da
pseudoespontaneidade, é um desdobramento contemporâneo dessa matriz. Seu
aspecto aparentemente livre, informal, acessível, despojado, serve com
frequência à mesma função disciplinadora: introduzir a política no interior de
uma linguagem em que nada pode aparecer com excesso de história, de dor, de
contradição ou de totalidade.
Tudo
precisa ser reformatado em conversa leve, em curiosidade digerível, em
provocação simpática. O efeito geral é devastador. O que poderia abrir fissuras
na consciência termina reorganizado como experiência domesticada, como
participação imaginária num debate cuja estrutura já exclui, de saída, qualquer
encontro mais sério com a negatividade do real.
Por
isso a banalidade da pergunta não deve ser lida apenas como sintoma de
ignorância; ela é também produto de uma pedagogia regressiva. Durante décadas,
a ordem burguesa trabalhou para associar qualquer pensamento anticapitalista a
imagens caricaturais, fantasias administrativas, ameaças ao conforto individual
e restrições absurdas da vida cotidiana.
O que
hoje aparece em tom de “meme” ou de chacota reciclada possui longa sedimentação
ideológica. A novidade está no dispositivo técnico de sua circulação. O que
antes se espalhava por caricaturas de jornal, panfletos anticomunistas ou
programas de televisão, agora ganha agilidade molecular, reaparece como corte,
comentário, react, shorts, postagem, trending topic.
A
estupidez deixou de ser apenas um conteúdo reacionário e passou a se apresentar
como forma dominante de participação. Ela já não precisa convencer pela
coerência; basta ocupar o espaço, antecipar o enquadramento, definir os termos
do debate e obrigar o interlocutor a mover-se dentro deles. Daí a gravidade
política da cena. Quando uma figura pública responde seriamente a uma pergunta
desse tipo, surge uma contradição real.
Há, de
um lado, a necessidade de disputar consciências num terreno adverso, alcançando
pessoas cuja formação é marcada precisamente por esse repertório. Há, de outro,
o risco permanente de legitimar a própria moldura que reduz a política à
trivialidade espetacularizada. O problema não se esgota na resposta correta ou
incorreta. A armadilha está na forma da convocação. Quem responde pode até
esclarecer momentaneamente uma dúvida, mas ao fazê-lo reafirma a centralidade
daquilo que nunca deveria ter ocupado o centro.
O
capitalismo contemporâneo é hábil em produzir esse tipo de captura: ele não
proíbe a crítica, antes a absorve, a miniaturiza, a transforma em conteúdo
compatível com seu metabolismo. A crítica circula, viraliza, rende
visualização, desperta aplauso, mas frequentemente retorna ao sistema como
energia já neutralizada.
A tese
de Pierre Bourdieu acerca da inexistência da “opinião pública”, ao denunciar a
fabricação artificiosa de consensos e a imposição de problemáticas prontas,
ajuda a iluminar esse cenário. O que esses comunicadores chamam de debate
público costuma ser apenas a reprodução ampliada de questões pré-formatadas por
interesses econômicos, afetos ideológicos e dispositivos de visibilidade.
O
público é tratado como reserva de atenção a ser mobilizada, excitada,
organizada estatisticamente e não como massa pensante e crítica. Em vez de uma
esfera de deliberação, temos um mercado de enunciados concorrentes cujo valor
depende de sua capacidade de capturar tráfego. A forma-mercadoria penetra o
debate político não apenas como tema, mas como princípio organizador de sua
própria inteligibilidade.
A
figura do “formador de opinião”, nesse ambiente, adquire um sentido
particularmente degradado. Já não se trata do intelectual orgânico, do
jornalista rigoroso, do agitador popular ou do pesquisador capaz de articular
experiência social e elaboração conceitual. Surge em seu lugar o gestor de
atenção, o operador de tendências, o sujeito treinado para flutuar sobre
assuntos diversos sem jamais afundar em nenhum, alguém cuja força não reside na
consistência de uma interpretação, mas na habilidade de converter
simplificações em capital simbólico.
Essa
figura, ao invés de pensar o seu tempo acaba surfando nele e crescendo
exponencialmente a partir da conciliação. Sua aparente desenvoltura esconde uma
submissão profunda à lógica dominante. Mesmo quando toca em temas graves, o faz
sob a forma de mercadoria conversacional, dissolvendo antagonismos em
entretenimento e oferecendo ao público a impressão confortável de estar
“refletindo” enquanto consome mais uma rodada de banalidades socialmente
validadas.
A
piscina, nesse contexto, é um detalhe e um emblema. Um detalhe, porque poderia
ser qualquer outro objeto de conforto privado elevado à condição de grande
problema filosófico. Um emblema, porque ela condensa o imaginário de classe
média, o sonho murado do bem-estar individual, o pequeno luxo convertido em
medida universal da liberdade.
Quando
o comunismo entra em cena apenas para responder sobre a piscina, o que se põe
em marcha é a redução de toda a história da luta de classes à ansiedade
patrimonial de sujeitos incapazes de pensar a sociedade fora da gramática do
condomínio. Não se trata de simples ridículo. Há nisso uma violência ideológica
miúda e persistente. A emancipação humana é coagida a comparecer perante o
tribunal do proprietário imaginário. O que está em jogo, portanto, ultrapassa
em muito o mau gosto desses programas ou a pobreza espiritual de seus
anfitriões.
Trata-se
de compreender que a degradação da comunicação acompanha a degradação mais
ampla da vida social sob o capitalismo tardio. Quanto mais a experiência
coletiva é fragmentada, mais a política aparece como coleção de temas
dispersos; quanto mais a consciência é invadida por formas mercantis, mais a
liberdade é confundida com acesso individual a bens; quanto mais o espetáculo
organiza a sensibilidade, mais difícil se torna sustentar discursos que exijam
duração, memória, abstração e totalidade. A miséria da comunicação é uma de
suas expressões mais funcionais, uma de suas tecnologias de contenção, um de
seus métodos cotidianos de estreitar o horizonte histórico.
Talvez
por isso a tarefa de uma crítica consequente da comunicação não consista apenas
em denunciar conteúdos falsos ou personagens medíocres, embora isso também seja
necessário, mas em atacar a própria forma social que torna possível e lucrativa
essa miséria. É preciso desnaturalizar o circuito, romper a passividade diante
dos enquadramentos prontos, restituir à linguagem sua espessura histórica,
recolocar a política no terreno da totalidade social e da experiência concreta
dos explorados.
Sem
isso, continuaremos assistindo à cena melancólica de uma época em que a
barbárie avança, a vida se deteriora, a exploração se intensifica e o debate
público, cada vez mais domesticado, se ocupa em perguntar à revolução se ela
permitirá piscina.
Fonte:
A Terra é Redonda

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