quarta-feira, 8 de abril de 2026

Arthur Moura: Pode ter piscina no comunismo?

Já tem um tempo que venho apontando questões pertinentes à construção da comunicação produzida em podcasts, entre youtubers e figuras públicas que se pretendem “formadores de opinião”. As pautas elencadas como capazes de projetar essas figuras, que nadam em suas misérias, correspondem aos seus anseios políticos e teóricos, à pobreza efetiva de seu repertório histórico e ao tipo de público que desejam produzir e administrar. Justificam a barbárie enquanto propagam um besteirol supostamente politizado.

A questão não se resume à precariedade intelectual de certas perguntas, nem no oportunismo rasteiro dos que as lançam ao ar como se estivessem descobrindo o nervo do tempo; o que se deixa ver aí é uma forma social da comunicação, uma maquinaria já ajustada ao ritmo do algoritmo, à ansiedade da repercussão imediata e à necessidade permanente de transformar qualquer assunto em peça de consumo ligeiro.

A questão mais vulgar, quando atravessa esse circuito, deixa de ser uma simples banalidade e adquire estatuto de “acontecimento discursivo”, não porque carregue alguma densidade, mas porque se encaixa perfeitamente nas exigências de uma esfera pública degradada, rebaixada ao nível do corte, da reação e do riso fácil.

Uma pergunta como “pode ter piscina no comunismo?” só parece absurda num ambiente ainda orientado por algum compromisso com a razão histórica; dentro do ecossistema atual, ela é exemplar, porque concentra em poucas palavras a infantilização da política, a redução da crítica social ao universo do consumo privado e a submissão integral da imaginação ao horizonte estreito da propriedade.

A miséria da comunicação é, portanto, um fenômeno histórico. O empobrecimento do debate brota de uma estrutura material que seleciona, premia e multiplica formas cada vez mais simplificadas de apreensão do mundo, e é nesse terreno que os chamados webcomunistas encontram sua função objetiva, não como sujeitos exteriores a essa lógica, mas como operadores internos de sua reprodução ampliada.

Sua atuação não pode ser compreendida apenas em termos de intenção política ou de alinhamento ideológico declarado, porque o que os define com maior precisão é a forma pela qual se inserem no circuito da visibilidade, aceitando como dado o rebaixamento do debate e adaptando a crítica às exigências da circulação, convertendo conceitos densos em unidades discursivas rapidamente assimiláveis, moldadas para performar bem em vídeos curtos, cortes virais e discussões superficiais.

Nesse movimento, a crítica deixa de tensionar a realidade em sua totalidade e passa a orbitar em torno de temas previamente formatados, respondendo a provocações que já carregam em si o limite do que pode ser pensado.

Há, portanto, uma espécie de especialização regressiva em curso. Esses comunicadores se apresentam como tradutores do marxismo para o grande público, mas operam frequentemente rebaixando o debate, ajustando o pensamento crítico à gramática da indústria cultural, onde a clareza é confundida com simplificação extrema e a acessibilidade com empobrecimento.

A linguagem é progressivamente depurada de suas mediações, a história é comprimida em exemplos imediatos e a teoria é reorganizada como repertório de respostas prontas para perguntas mal formuladas. O resultado não é exatamente a vulgarização no sentido clássico, que ainda implicaria algum esforço de mediação, mas uma adaptação direta à lógica do consumo, na qual o conteúdo precisa ser imediatamente utilizável, compartilhável e reconhecível.

Essa dinâmica produz um efeito paradoxal. Ao mesmo tempo em que amplia o alcance de certos temas, ela redefine os termos em que esses temas podem aparecer, restringindo seu potencial crítico. O comunismo, por exemplo, deixa de ser apresentado como ruptura histórica com a forma social do capital e passa a ser discutido como um conjunto de características compatíveis ou incompatíveis com o cotidiano do indivíduo consumidor.

Perguntas como a da piscina surgem como expressões coerentes desse ambiente, e a insistência em respondê-las reforça sua centralidade, como se nelas estivesse contido algum núcleo legítimo de problematização, quando na verdade trata-se de uma troca onde webcomunistas ganham projeção proliferando um chorume discursivo.

Do ponto de vista da teoria crítica, tem-se a integração da crítica ao circuito da indústria cultural em sua forma mais recente, digitalizada e interativa. A negatividade do pensamento, sua capacidade de romper com o dado, é gradualmente absorvida por um sistema que exige constante produção de conteúdo e rápida renovação de temas, impedindo a sedimentação de processos reflexivos mais longos.

A crítica se torna fluxo, e no fluxo perde parte de sua força de interrupção. O que se mantém é sua aparência, circulação e capacidade de gerar engajamento, enquanto seu conteúdo é progressivamente domesticado.

Nesse sentido, a função dos webcomunistas se inscreve numa divisão do trabalho comunicacional própria do capitalismo contemporâneo, em que até mesmo a crítica radical encontra seu lugar como segmento de mercado, nicho de audiência e identidade discursiva consumível operando como mediadores que tornam o discurso crítico compatível com as formas dominantes de circulação, garantindo sua presença, mas também sua limitação, contribuindo para que o pensamento revolucionário apareça dentro de um horizonte já previamente neutralizado.

O problema, portanto, não está apenas no conteúdo que produzem, mas na forma social que ajudam a consolidar. Ao aceitar as regras do jogo sem tensioná-las de maneira consequente, acabam por reforçar a própria estrutura que transforma a política em espetáculo, a teoria em opinião e a crítica em mais um elemento da engrenagem da comunicação empobrecida.

A plataforma precisa de atrito superficial, de polêmica instantânea, de frases que possam ser retiradas do conjunto e circular sozinhas, amputadas de contexto, de mediação e de negatividade. O pensamento, quando ingressa nesse espaço, já entra coagido a se converter em desempenho. A exposição de uma ideia torna-se inseparável de sua rentabilidade simbólica.

O que se recompensa não é a elaboração, mas a capacidade de adequar o enunciado às métricas da circulação. A comunicação passa então a operar como setor avançado da própria reificação: ela converte conceitos em iscas, conflitos históricos em temas de entretenimento e antagonismos de classe em pequenas cenas de auditório digital.

Sob a sociabilidade capitalista, as relações entre os homens assumem a forma fantasmagórica de relações entre coisas. A mesma inversão comparece, com força renovada, no plano da linguagem pública contemporânea. As perguntas já aparecem fetichizadas, desprendidas das determinações reais que lhes dariam sentido.

Não se pergunta pela abolição da propriedade privada dos meios de produção, pela socialização da riqueza ou extinção das relações de exploração; pergunta-se pela piscina, pelo carro, conforto individual, direito de conservar pequenos emblemas do mundo burguês dentro de um horizonte supostamente transformado. A forma da pergunta já contém a prisão ideológica.

O comunismo surge como variação administrativa do consumo, como se uma transformação revolucionária pudesse ser avaliada segundo a preservação ou não de signos privados de distinção. O problema histórico referente à emancipação humana é relegado ao ostracismo enquanto a imaginação, já colonizada pela mercadoria, torna-se incapaz de figurar a liberdade fora do repertório do proprietário.

A indústria cultural, tal como Theodor Adorno e Max Horkheimer a descreveram, conforma previamente a experiência, amolda a percepção, ensina o público a desejar o mesmo, a rir nos mesmos pontos, a reconhecer como “relevante” aquilo que melhor se acomoda à lógica da repetição e da equivalência.

O podcast politizado de baixa voltagem, esse teatro contínuo da pseudoespontaneidade, é um desdobramento contemporâneo dessa matriz. Seu aspecto aparentemente livre, informal, acessível, despojado, serve com frequência à mesma função disciplinadora: introduzir a política no interior de uma linguagem em que nada pode aparecer com excesso de história, de dor, de contradição ou de totalidade.

Tudo precisa ser reformatado em conversa leve, em curiosidade digerível, em provocação simpática. O efeito geral é devastador. O que poderia abrir fissuras na consciência termina reorganizado como experiência domesticada, como participação imaginária num debate cuja estrutura já exclui, de saída, qualquer encontro mais sério com a negatividade do real.

Por isso a banalidade da pergunta não deve ser lida apenas como sintoma de ignorância; ela é também produto de uma pedagogia regressiva. Durante décadas, a ordem burguesa trabalhou para associar qualquer pensamento anticapitalista a imagens caricaturais, fantasias administrativas, ameaças ao conforto individual e restrições absurdas da vida cotidiana.

O que hoje aparece em tom de “meme” ou de chacota reciclada possui longa sedimentação ideológica. A novidade está no dispositivo técnico de sua circulação. O que antes se espalhava por caricaturas de jornal, panfletos anticomunistas ou programas de televisão, agora ganha agilidade molecular, reaparece como corte, comentário, react, shorts, postagem, trending topic.

A estupidez deixou de ser apenas um conteúdo reacionário e passou a se apresentar como forma dominante de participação. Ela já não precisa convencer pela coerência; basta ocupar o espaço, antecipar o enquadramento, definir os termos do debate e obrigar o interlocutor a mover-se dentro deles. Daí a gravidade política da cena. Quando uma figura pública responde seriamente a uma pergunta desse tipo, surge uma contradição real.

Há, de um lado, a necessidade de disputar consciências num terreno adverso, alcançando pessoas cuja formação é marcada precisamente por esse repertório. Há, de outro, o risco permanente de legitimar a própria moldura que reduz a política à trivialidade espetacularizada. O problema não se esgota na resposta correta ou incorreta. A armadilha está na forma da convocação. Quem responde pode até esclarecer momentaneamente uma dúvida, mas ao fazê-lo reafirma a centralidade daquilo que nunca deveria ter ocupado o centro.

O capitalismo contemporâneo é hábil em produzir esse tipo de captura: ele não proíbe a crítica, antes a absorve, a miniaturiza, a transforma em conteúdo compatível com seu metabolismo. A crítica circula, viraliza, rende visualização, desperta aplauso, mas frequentemente retorna ao sistema como energia já neutralizada.

A tese de Pierre Bourdieu acerca da inexistência da “opinião pública”, ao denunciar a fabricação artificiosa de consensos e a imposição de problemáticas prontas, ajuda a iluminar esse cenário. O que esses comunicadores chamam de debate público costuma ser apenas a reprodução ampliada de questões pré-formatadas por interesses econômicos, afetos ideológicos e dispositivos de visibilidade.

O público é tratado como reserva de atenção a ser mobilizada, excitada, organizada estatisticamente e não como massa pensante e crítica. Em vez de uma esfera de deliberação, temos um mercado de enunciados concorrentes cujo valor depende de sua capacidade de capturar tráfego. A forma-mercadoria penetra o debate político não apenas como tema, mas como princípio organizador de sua própria inteligibilidade.

A figura do “formador de opinião”, nesse ambiente, adquire um sentido particularmente degradado. Já não se trata do intelectual orgânico, do jornalista rigoroso, do agitador popular ou do pesquisador capaz de articular experiência social e elaboração conceitual. Surge em seu lugar o gestor de atenção, o operador de tendências, o sujeito treinado para flutuar sobre assuntos diversos sem jamais afundar em nenhum, alguém cuja força não reside na consistência de uma interpretação, mas na habilidade de converter simplificações em capital simbólico.

Essa figura, ao invés de pensar o seu tempo acaba surfando nele e crescendo exponencialmente a partir da conciliação. Sua aparente desenvoltura esconde uma submissão profunda à lógica dominante. Mesmo quando toca em temas graves, o faz sob a forma de mercadoria conversacional, dissolvendo antagonismos em entretenimento e oferecendo ao público a impressão confortável de estar “refletindo” enquanto consome mais uma rodada de banalidades socialmente validadas.

A piscina, nesse contexto, é um detalhe e um emblema. Um detalhe, porque poderia ser qualquer outro objeto de conforto privado elevado à condição de grande problema filosófico. Um emblema, porque ela condensa o imaginário de classe média, o sonho murado do bem-estar individual, o pequeno luxo convertido em medida universal da liberdade.

Quando o comunismo entra em cena apenas para responder sobre a piscina, o que se põe em marcha é a redução de toda a história da luta de classes à ansiedade patrimonial de sujeitos incapazes de pensar a sociedade fora da gramática do condomínio. Não se trata de simples ridículo. Há nisso uma violência ideológica miúda e persistente. A emancipação humana é coagida a comparecer perante o tribunal do proprietário imaginário. O que está em jogo, portanto, ultrapassa em muito o mau gosto desses programas ou a pobreza espiritual de seus anfitriões.

Trata-se de compreender que a degradação da comunicação acompanha a degradação mais ampla da vida social sob o capitalismo tardio. Quanto mais a experiência coletiva é fragmentada, mais a política aparece como coleção de temas dispersos; quanto mais a consciência é invadida por formas mercantis, mais a liberdade é confundida com acesso individual a bens; quanto mais o espetáculo organiza a sensibilidade, mais difícil se torna sustentar discursos que exijam duração, memória, abstração e totalidade. A miséria da comunicação é uma de suas expressões mais funcionais, uma de suas tecnologias de contenção, um de seus métodos cotidianos de estreitar o horizonte histórico.

Talvez por isso a tarefa de uma crítica consequente da comunicação não consista apenas em denunciar conteúdos falsos ou personagens medíocres, embora isso também seja necessário, mas em atacar a própria forma social que torna possível e lucrativa essa miséria. É preciso desnaturalizar o circuito, romper a passividade diante dos enquadramentos prontos, restituir à linguagem sua espessura histórica, recolocar a política no terreno da totalidade social e da experiência concreta dos explorados.

Sem isso, continuaremos assistindo à cena melancólica de uma época em que a barbárie avança, a vida se deteriora, a exploração se intensifica e o debate público, cada vez mais domesticado, se ocupa em perguntar à revolução se ela permitirá piscina.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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