quarta-feira, 8 de abril de 2026

Ricardo Antunes: Contra a jornada 6×1 – não por dádiva!

Em artigo publicado em agosto de 2025, ao tratar da Inteligência artificial (de)generativa, indiquei, sem desenvolver, seis pontos a favor do fim da jornada 6X1 e nenhum contra. Agora que o tema ressurge com força no centro das discussões, vou indicar seus significados mais essenciais para a humanidade.

Primeiro Ponto: a redução da jornada diária – contra a escala 6×1 – ao longo da história do trabalho, no Brasil e no mundo, se configura como uma das questões mais vitais, desde os primórdios de Revolução Industrial na Inglaterra, quando as jornadas eram ilimitadas, chegando por vezes a 16 horas ou mais, inclusive para mulheres e crianças. Foi através de uma longa batalha pelo controle do tempo de trabalho que a classe trabalhadora, mais de um século depois, conquistou a jornada de 8 horas diárias. E o fez através de muitas batalhas, em quase todos os cantos do mundo, que se mantem até os dias atuais, a partir da explosão celerada da ciberindústria, dos algoritmos e da Inteligência artificial (de)generativa. Como o capital e o trabalho, desde suas gêneses, travam embates diuturnos pelo controle do tempo de trabalho e de vida, foi através dessa ação coletiva, ao longo da história, que se pode confrontar e se contrapor à exploração ilimitada do trabalho humano.

Segundo ponto: a luta pela redução da jornada ou tempo de trabalho encontra-se no centro das ações do mundo do trabalho contemporâneo, em escala nacional e global, visando a reduzir o desemprego que é consequência da lógica destrutiva do capital e de seu sistema de metabolismo antissocial. Foi assim que a luta pela redução da jornada de trabalho converteu-se em poderoso antídoto frente ao monumental processo de redução do trabalho vivo, de modo a reduzir o desemprego. Trabalhar menos, para todos/as trabalharem e assim reduzir o desemprego, minimizando o sofrimento do exército sobrante de força de trabalho que se tornou supérfluo e descartável.

Terceiro ponto: se reduzir a jornada ou tempo de trabalho foi um passo importante para a redução do desemprego, tornou-se também substantivamente relevante para se avançar na autodeterminação, no processo de autonomia real do trabalho. Isto porque, ao lutar pela redução da jornada de trabalho, pode-se indagar e refletir acerca da redução do tempo opressivo existente do espaço laborativo, seja contra o despotismo predominantemente fabril de ontem, seja contra o despotismo invisível dos algorítmicos de nosso tempo, cuja inteligência artificial programadora, também invisível, faz do ritmo e do tempo do capital um biruta tresloucado que avassala o mundo do trabalho, com o olhar certeiro na monetização e na geração da sua sagrada mais-valia.

Quarto ponto: assim, com a eclosão do movimento VAT/Vida além do Trabalho, contra a escala 6×1, foi recuperada uma dimensão crucial que nos leva a refletir e avançar mais decisivamente acerca dos sentidos que presidem nossas vidas no trabalho. E, ao assim fazer, melhor compreender os mecanismos de funcionamento do controle opressivo do capital, que cada vez mais se converte o trabalho no tempo dos adoecimentos, acidentes, assédios, depressões, burnouts, suicídios. Dá para entender, então, porque as grandes corporações financeiras (especialmente no sul do mundo) recusam, ao longo da história, tanto a redução da jornada, como os direitos conquistados nas lutas e ações da classe trabalhadora. Debate que vemos se repetir, que hoje não é diferente! Imaginam ser possível sonhar com a eternização dos ilimitadas dos privilégios.

Uma indagação central, cuja resposta podemos encontrar embrionariamente em nossa história pré-colonial, nos ajuda a melhor entender esse ponto central: por que as comunidades originarias aqui existentes não se exauriam no labor, trabalhavam somente o necessário para viver? A resposta é cristalina: elas assim atuavam porque almejavam uma vida dotada de sentido, tanto no trabalho, como fora dele, almejando simultaneamente a felicidade, o regozijo e a fruição. Tudo muito diferente da sociedade colonial aqui instaurada, que nos introduziu a aberração da escravização e, posteriormente, da produção de mercadorias com base na exploração para a acumulação.

Quinto ponto: aqui adentramos em outro aspecto crucial, profundamente articulado com o anterior. Se o objetivo do trabalho (e do sistema de metabolismo humano-social) estiver voltado essencialmente para o bem-estar da humanidade, a vida cheia de sentido fora do trabalho estará umbilicalmente conectada com uma vida dotada de sentido dentro do trabalho. O que nos leva à uma conclusão áspera: não é possível compatibilizar trabalho assalariado, fetichizado e alienado com tempo verdadeiramente livre. Em outras palavras: uma vida desprovida de sentido no trabalho acaba por obliterar e obstar uma vida cheia de sentido fora do trabalho. Em alguma medida, a vida fora do trabalho estará maculada pela rudeza do espaço laborativo. É por isso que a desfetichização da sociedade do consumo tem como corolário necessário a desfetichização do mundo do trabalho.

Sexto Ponto: ao chegarmos a este ponto, adentramos, quase sem perceber, em uma dimensão decisiva e que hoje é ainda mais vital, uma vez que diz respeito à sobrevivência da humanidade. Dá para entender porque as corporações recusam essa batalha: na história, inicialmente, as empresas sempre foram contra a redução da jornada; repudiavam os direitos do trabalho e recusavam-se aos aumentos salariais e hoje não é diferente. Parece, então, verossímil indagar: se vamos trabalhar menos, para vivermos melhor, o que devemos produzir? E para quem? Faz sentido produzir mais energia fóssil? Aumentar ainda mais o aquecimento global, ampliar o extrativismo, as queimadas, gerando mais destruição ambiental? Produzir mais bombas para o regozijo das grandes corporações da guerra?

Então, uma vez mais, será pela ação e pressão popular que esta questão vital poderá ser efetivamente conquistada. E não por dádiva. Por certo, um pragmático sempre dirá, mas isso é utopia! Utopos, sim. Mas, nesta era de terror e temor em que adentramos a possibilidade de uma nova guerra mundial, que enseja, uma vez mais, o espectro do fim da humanidade, será também uma completa utopia?

•        Carga tributária: privilégios e benefícios aos ricos e desassossego aos pobres. Por Davis Sena Filho

A riqueza dos bilionários disparou, conforme os dados colhidos e divulgados pela Ong internacional Oxfam. Os índices subiram mais de 16% em 2025, ou seja, nos últimos cinco anos a riqueza dos ricos e muito ricos triplicou no Brasil e com uma rapidez nunca antes registrada. Trata-se de uma realidade que expressa privilégios e benefícios àquelas pessoas que têm muito dinheiro e patrimônio e, por isso, a nação brasileira, composta em sua maioria por trabalhadores, aposentados e estudantes, fica à mercê de um sistema tributário historicamente regressivo, porque os tributos pesam mais sobre o consumo e a produção do que sobre a renda e o patrimônio.

A verdade é que a maior parte da carga tributária recai sobre o consumo, fator que impacta diretamente os trabalhadores e penaliza, de forma desproporcional, as pessoas negras, as mulheres e as famílias de baixa renda — os pobres em geral. Para que os ricos continuem a ter isenções, a maior parte da carga tributária incide sobre os alimentos, que ficam muito caros, além de outros produtos necessários para tocar o dia a dia de cada brasileiro, que quando entra nos mercados levam sustos com a carestia, que é fruto da ganância desmedida dos grandes empresários, que sabotam todas as ações governamentais que têm por propósito moderar os preços por meio de negociações, evidentemente.

As renúncias fiscais (redução de tributos, isenções e subsídios) concedidos exageradamente pelos governos, geralmente de espectros “conservadores”, que impreterivelmente dão prioridade aos interesses do grande empresariado, sem praticamente exigir contrapartidas, enriquecem ainda mais os que são ricos, que passam a pagar impostos muito abaixo do que deveriam pagar ou simplesmente não pagam, porque além desses benefícios surreais, muitos empresários sonegam impostos, uma prática criminosa que atinge em cheio toda a sociedade brasileira, principalmente as pessoas socialmente e economicamente mais frágeis e carentes.

Esse processo despótico e intransigente prejudica a população, que para ter acesso a investimentos públicos fica a ver navios, porque o dinheiro destinado à melhoria das condições de vida de uma população de determinado município, por exemplo, não chega com rapidez na ponta, porque os recursos foram simplesmente desviados para outros segmentos e setores, a transformar o Estado em apenas um instrumento de atendimento e garantia dos interesses das classes ricas e muito ricas, as classes privilegiadas, as principais responsáveis pela luta de classes, mas que não pagam os impostos que obrigatoriamente deveriam pagar, conforme o tamanho da renda e riqueza que controlam.

Por sua vez, os governos perdem a capacidade de investir e de fiscalizar por falta de recursos, sendo que o empresariado deita e rola e ainda comete escárnios contra a sociedade civil, a reagir fortemente a qualquer mudança tributária por meio de pressão política e econômica para manter seus benefícios indevidos e seus privilégios dignos de xeiques ou de bilionários ocidentais, que têm por princípio manterem-se no topo do que chamam de establishment.

Por isso, lutar por justiça social é também lutar por justiça tributária. São questões intrínsecas, inerentes à própria sobrevivência das populações, que podem propiciar uma divisão mais equânime das riquezas brasileiras produzidas por mais de 103 milhões de trabalhadores, conforme divulgação do Ministério do Trabalho e da CUT em 2024/2025, a terem como referência para o número de empregados a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE.

Todo governo que abre mão da carga tributária que é devida pelos ricos empresários enfraquece o Estado e significa que os produtos, os serviços e a folha de pagamento serão altamente taxados, independente do lucro da empresa, bem como da capacidade financeira dos trabalhadores, da população e do consumidor. Cobrar o que é devido do andar de cima, é também fortalecer a democracia e o Estado de Direito Democrático em prol de desenvolver, de maneira mais uniforme, todos os setores e segmentos da sociedade brasileira. Manter a atual carga tributária injusta como é a do Brasil, significa perpetuar os privilégios e os benefícios para a classe dos ricos em detrimento da grande maioria da população.

Cobrar impostos, conforme a renda e a riqueza do bolso de cada um, principalmente dos ricos, é a forma mais objetiva e ampla para que se possa combater a desigualdade, a pobreza e a injustiça, que obviamente é causada pela brutal concentração de riqueza e renda que acontece no Brasil desde que foi invadido pelos portugueses, que roubaram com extrema violência as terras dos indígenas, que viviam em todo o território brasileiro com uma população somada que chegava ao número de cinco milhões, segundo estimativas da Funai e de historiadores.

Afirmar que os portugueses descobriram o Brasil é farsa e mentira, porque os indígenas já habitavam nessas terras há milênios. Havia no Brasil uma enorme população multicultural e racial, com seus respectivos idiomas e formas de viver a vida. Os portugueses roubaram e mataram. Cometeram genocídios e a história burguesa e hegemônica dos brancos tratou de romantizar o inenarrável genocídio e pilhagem de riquezas minerais e naturais contra vários povos e nações indígenas, que ainda tiveram suas culturas e religiões censuradas, oprimidas e reprimidas com extrema violência física e moral.

Para finalizar e rememorar, afirmo que a riqueza disparou entre os que são milionários e bilionários, de acordo com a Oxfam, o que certamente é uma realidade. A riqueza dos ricos cresceu em média 16% em 2025, o que denota que tal crescimento é três vezes mais rápido do que a economia geral experimentou nesses últimos anos, em relação às inúmeras atividades econômicas. O que chama a atenção é que a explosão de riquezas, a exploração dos trabalhadores e a vertiginosa elevação dos preços e dos juros, principalmente os de consumo comum aos trabalhadores, aconteceram no período da pandemia do Novo Coronavírus (Covid-19), a partir de 2020.

As elevações de preços e carestias foram somadas aos processos governamentais elitistas e de concentração de renda dos políticos golpistas e usurpadores Michel Temer e Jair Bolsonaro, que impuseram ao povo brasileiro uma agenda ultraneoliberal, que favoreceu como nunca os donos dos meios de produção, o mercado de capitais (banqueiros) e grandes comerciantes, ou seja, os ricos e os muitos ricos. Resumo da ópera: a carga tributária privilegia e beneficia os ricos, que apostam na desigualdade para manter o status quo.

Os pobres são submetidos a essa lógica perversa, que é a pirâmide social e econômica invertida, cuja base, os pobres, carregam o pesado fardo dos impostos e tributos, como o imposto de renda e sobre o salário etc. cobrado diretamente na fonte, que pune cruelmente a classe média, enquanto os ricos recebem lucros e dividendos, que praticamente são isentos. A balança é cruelmente desigual e pende para os ricos, que ficam a se deleitar e a contar suas fortunas sem cooperar decisivamente para o desenvolvimento do País e da melhoria de vida da população. A desigualdade é o combustível da riqueza. Desassossego. É isso aí.

¨      A reforma trabalhista em dois eixos: o regime 5×2 e a redução da carga horária semanal. Por Francis Bogossian

A reforma das condições de trabalho no Brasil não se esgota em uma única medida. A substituição do regime 6×1 pelo modelo 5×2 e a redução da carga horária semanal de 44 para 40 horas constituem avanços necessários e complementares, cada qual com seus fundamentos e seus méritos próprios. Ambas respondem a um diagnóstico comum: o de que o modelo vigente compromete a saúde, a vida familiar e o desenvolvimento humano do trabalhador brasileiro — e que os custos dessa realidade, distribuídos silenciosamente pela sociedade, superam em muito os custos das reformas que se propõem a corrigi-la. Defendo a adoção de ambas as medidas, inclusive nos setores de maior exigência física, como a construção civil e as obras em geral, área em que sou empreendedor e onde a urgência da mudança é, se possível, ainda mais evidente.

O regime de escala 6×1, embora compatível com a carga horária legalmente vigente, impõe ao trabalhador uma estrutura de vida que sistematicamente inviabiliza o descanso efetivo, o convívio familiar e qualquer projeto pessoal ou formativo sustentado. Um único dia de folga semanal não configura repouso e sim tolerância à exaustão. A adoção do modelo 5×2, com dois dias consecutivos de descanso, não altera necessariamente o total de horas contratadas; altera, de forma substantiva, a qualidade da vida do trabalhador fora do trabalho.

Não se trata de uma mera liberalidade do empregador, mas o reconhecimento de que o ser humano necessita de continuidade no descanso para recuperar-se de forma plena — física, mental e socialmente. Dois dias contínuos permitem que o funcionário tenha uma presença familiar real, participação em atividades comunitárias e, de modo especialmente relevante, o acesso regular à educação e à qualificação profissional, possibilidade praticamente impossível para quem trabalha seis dias por semana.

No âmbito da construção civil, a questão assume proporções ainda mais graves. Trata-se de um setor em que a fadiga acumulada ao longo de seis dias consecutivos de trabalho físico intenso não é apenas um problema de bem-estar — é um fator documentado de acidentes, com consequências que vão da invalidez à morte. A transição para o 5×2, nesse contexto, é simultaneamente uma conquista social e uma medida elementar de segurança do trabalho. E, do ponto de vista do empregador, o impacto sobre os custos é marginal, uma vez que o total de horas contratadas permanece inalterado, exigindo apenas reorganização de turnos e escalas.

Na minha empresa, já adotamos esse regime desde a sua fundação há 54 anos, com grande sucesso, ainda que, é claro, com a manutenção da escala prevista na legislação atual de 44 horas, que discutirei a seguir.

Aqui, não se trata apenas de reorganizar o descanso, mas de reconhecer que o volume de horas hoje exigido é excessivo em face dos padrões internacionais, das evidências sobre produtividade e das transformações em curso no mundo do trabalho.

A experiência acumulada em países que já realizaram essa transição demonstra que jornadas menores tendem a produzir trabalhadores mais focados, com menor nível de faltas, menor rotatividade e melhor desempenho. O custo aparente das horas não trabalhadas é sistematicamente compensado por ganhos de eficiência, pela redução de acidentes e pelo menor dispêndio com rescisões, recontratações e afastamentos por doença. O argumento da inviabilidade econômica, quando submetido a uma análise de custos verdadeiramente integral — que inclua as externalidades sobre o sistema previdenciário, o SUS e a segurança pública —, revela-se muito menos forte do que aparenta.

Na construção civil, a diferença de quatro horas semanais representa menos de 10% da carga atual. Parte desse impacto é absorvida pelos próprios ganhos de produtividade decorrentes de trabalhadores menos esgotados; outra parte pode ser acomodada em ajustes contratuais e de planejamento. O custo real existe, mas é administrável — e deve ser ponderado em face do custo humano e econômico do modelo vigente.

Há, além disso, uma dimensão estratégica que não pode ser ignorada. A inteligência artificial e a automação já comprimem mercados de trabalho em escala global, e esse processo tende a se aprofundar de forma acelerada nas próximas décadas, atingindo não apenas funções repetitivas, mas também técnicas, administrativas e de gestão. Nesse cenário, a redução da jornada emerge como mecanismo estrutural de distribuição mais equitativa do trabalho disponível entre a população economicamente ativa — evitando a concentração de horas sobre parcela reduzida da força de trabalho enquanto outra permanece excluída. É, simultaneamente, uma resposta racional à automação e um instrumento de política de emprego com visão de futuro. O trabalhador com tempo disponível para se qualificar e se adaptar às novas exigências tecnológicas representa, ademais, um ativo estratégico para a competitividade nacional a longo prazo.

A transição do 6×1 para o 5×2 e a redução da carga horária de 44 para 40 horas são propostas que se sustentam por fundamentos próprios e que, juntas, apontam para uma organização do trabalho que respeite a integralidade da pessoa humana e reconheça, que o trabalho existe para servir à vida — e não o contrário. É precisamente por atuar na construção pesada — setor em que o trabalhador entrega diariamente o esforço do próprio corpo — que eu como empresário subscrevo, sem reservas, ambas as reformas. Não por retórica, mas pela convicção prática de que empresas que tratam bem seus trabalhadores constroem mais, constroem melhor e constroem com mais gente. Os custos dessas mudanças são reais, porém proporcionalmente modestos; os benefícios, de ordem social, produtiva e civilizatória, são de magnitude incomparavelmente superior.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Brasil 247

 

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