O
mistério de quem foi Maria Madalena e qual seu papel no feriado da Páscoa
Prostituta,
santa, apóstola, feminista, esposa de Jesus. Os rótulos usados para definir
Maria Madalena — fruto de interpretações de textos canônicos, de evangelhos
apócrifos ou simplesmente expressões de crenças populares — fazem dela uma das
mais enigmáticas personagens bíblicas.
Citada
nominalmente 17 vezes na Bíblia, Maria Madalena, ao que tudo indica, era uma
entre tantas pessoas que se encantaram com as pregações de Jesus e passaram a
segui-lo.
A
principal pista sobre sua origem está no seu nome: originalmente, Maria de
Magdala, ou seja, nascida em Magdala, uma vila de pescadores próxima ao Mar da
Galileia, localizada a 10 km de Cafarnaum, a cidade que foi a base de Jesus na
vida adulta.
O
primeiro contato entre eles está narrado no capítulo 8 do Evangelho de Lucas:
Cristo encontra Maria Madalena e expulsa dela sete demônios. Sete é um número
simbólico e, na Bíblia, significa a totalidade. A partir de então, ela se torna
uma seguidora do pregador.
Madalena
é citada como uma das mulheres que testemunharam a crucificação de Jesus e, de
acordo com o evangelista Marcos, ela teria visto onde o seu corpo foi
sepultado.
A
Bíblia relata ainda que ela foi a primeira a encontrar o sepulcro de Cristo
vazio e, portanto, se tornou a anunciadora da ressurreição de Jesus aos outros
discípulos.
É
justamente esse conjunto de acontecimentos que dá origem às celebrações da
Semana Santa, período em que os cristãos relembram a morte e a ressurreição de
Jesus e que inclui datas como a Sexta-feira Santa, também conhecida como
Sexta-feira da Paixão.
No
Brasil, a Sexta-feira Santa é considerada feriado nacional, o que significa
que, pela legislação trabalhista, há suspensão de atividades no setor público e
privado. Já o domingo de Páscoa, quando se celebra a ressurreição de Cristo,
não é feriado.
Outras
datas da Semana Santa, como a quinta-feira, costumam ser consideradas ponto
facultativo, ficando a critério do empregador a suspensão das atividades.
Apesar
da importância de Maria nesses acontecimentos, seu nome desaparece do livro
sagrado depois disso. Nos relatos presentes em Atos dos Apóstolos e nas
epístolas, dos primeiros anos da Igreja, é como se Madalena não tivesse
existido.
"O
silêncio dos apóstolos trouxe aos exegetas diferentes interpretações e, para o
imaginário coletivo, muitas histórias que ainda hoje pairam sobre a imaginação
de homens e mulheres do mundo cristão ocidental", pontua a pesquisadora
Wilma Steagall De Tommaso, Doutora em Ciências da Religião e professora da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
"Crentes
ou ateus, todos conhecem alguma história sobre Maria Madalena."
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Relacionamento amoroso
São
muitas as histórias sobre Maria Madalena.
Um
exemplo bastante difundido é que ela era uma prostituta e, ao ser resgatada por
Jesus, acabou virando sua amante. Os dois teriam se casado e, quando ele foi
crucificado, Madalena esperava um filho dele. Então, ela fugiria para a França,
onde daria à luz.
Os
descendentes dessa linhagem seriam os membros da dinastia Merovíngia, que
governou os francos de 478 a 751.
Este
enredo aparece na literatura em O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, de Michael
Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, publicado em 1982.
Um
relacionamento amoroso entre Cristo e Madalena também é narrado tanto no livro
O Segredo dos Templários, escrito por Lynn Picknett e Clive Prince e lançado em
1997, quanto no best-seller O Código Da Vinci, de Dan Brown.
Neles,
a conspiração envolve o gênio renascentista Leonardo Da Vinci (1452-1519), que
teria retratado Maria Madalena, de forma cifrada, ao lado direito de Jesus em
sua representação da Última Ceia.
No
tratado hagiográfico Legenda Áurea, publicado em 1293, o frade dominicano
Jacopo de Varazze (1230-1298) conta que 14 anos depois da morte de Jesus,
Madalena e um grupo de cristãos acabaram expulsos da Judeia. Embarcados à
força, foram atracar no porto de Marselha, no sul da França.
Lá,
Maria Madalena teria pregado e convertido muitas pessoas. Mais tarde, ela se
retirou à gruta de Sainte Baume, onde terminaria se dedicando por 30 anos à
penitência e à contemplação.
Verdade
ou não, o local celebra esta história.
"Nos
anos 1950, morei quatro anos no sul da França, onde se encontram a gruta em que
se recolheu Maria Madalena e seu túmulo, na cripta da grande basílica, hoje
museu. Havia uma grande festa provençal em sua honra, no dia 22 de julho",
recorda-se o teólogo Francisco Catão.
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Lendas
As
versões populares sobre quem teria sido Madalena são muitas.
Há quem
acredite que ela tenha sido uma mulher que decidiu fugir com um soldado romano.
Depois de um tempo, ele a abandonou e ela virou uma prostituta. Foi quando se
encontrou com Cristo e passou a ser sua seguidora.
Também
há a lenda de que ela tenha sido uma aristocrata, herdeira de um castelo na
região de Magdala. Vivia numa vida de luxúria até conhecer Jesus e passar a
segui-lo.
Segundo
a Bíblia, o primeiro milagre realizado por Cristo teria sido, em uma festa de
casamento, ao transformar água em vinho. A identidade dos noivos não é
revelada.
Há quem
diga que o matrimônio era entre Maria Madalena e João Evangelista. Por essa
versão, entretanto, o noivo acabaria se encantando com o gesto de Jesus — e
abandonado o casamento para se tornar discípulo. Deixada só, Madalena acabaria
vivendo como prostituta e, muito tempo depois, encontrado Jesus conforme está
nos evangelhos.
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Força da mulher
Uma das
teorias atribui ao machismo a desconstrução moral de Maria Madalena. Isto
porque ela teria tido um papel muito importante nos primeiros anos do
cristianismo, algo semelhante ao de Pedro — considerado como o primeiro papa da
Igreja Católica, o fundador do catolicismo.
Mas
quando a Igreja se tornou religião oficial de Roma, teve de dar uma atenuada
nesses aspectos, por conta do machismo do império.
"Maria
Madalena é uma figura forte desde o início do cristianismo. Mas, em uma
sociedade patriarcal, em que o Jesus ressuscitado apareceu a uma mulher em
primeiro lugar, confiando a ela a missão de anunciar aos apóstolos a sua
ressurreição, foi um problema para os homens de seu tempo", disse a
historiadora Lucetta Scaraffia em entrevista publicada no L'Osservatore Romano
em 2018.
Mais do
que os quatro evangelhos canônicos — de João, Marcos, Lucas e Mateus —, muitos
evangelhos ditos apócrifos, não reconhecidos pela Igreja Católica, tratam da
vida de Maria Madalena e são fonte de muitas das teorias sobre ela que
sobreviveram ao tempo.
Se nos
evangelhos oficiais seu papel é restrito a apenas uma entre tantos seguidores
de Cristo, nos apócrifos Maria Madalena é retratada como alguém próxima do
mestre, uma sábia que gozava de posição especial entre os primeiros cristãos.
"A
liderança de Madalena era incômoda em muitos setores do cristianismo dos
primórdios. A escolha dos livros que formam o Novo Testamento se deu num
cenário em que se procurava sufocar as lideranças femininas existentes nas
comunidades cristãs", afirma o teólogo Pedro Lima Vasconcellos, professor
da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
No
Evangelho de Tomé, ela aparece em um diálogo com Pedro no último dos 114 ditos
que essa obra atribui a Jesus. E mostra que havia uma Igreja dividida entre
essas duas lideranças.
"Simão
Pedro disse a eles: 'Maria tem de nos deixar, pois as mulheres não são dignas
de viver'", diz o trecho.
Na
sequência, Jesus responde: "Eis que eu a guiarei para torná-la masculina,
para que também ela se torne um espírito vivente, como vós, que sois homens.
Pois toda mulher que se fizer homem entrará no Reino dos Céus".
Uma das
intepretações aceitas para esse diálogo que hoje soa esquisito vem do
pesquisador Dale Martin, especialista em Religião da Universidade de Yale. Para
ele, o texto se refere a uma crença da época de que a capacidade de procriar,
inerente às mulheres, era algo ruim.
Já no
Evangelho de Maria, ela é quem anima e encoraja os apóstolos temerosos das
perseguições daqueles primeiros tempos do cristianismo. E Pedro reconhece sua
importância.
"Irmã,
sabemos que o Salvador te amava mais do que às outras mulheres. Dize-nos as
palavras do Salvador que recordas, aquelas que conheces e nós não conhecemos,
já que não as ouvimos", afirma ele.
Entre
2015 e 2016, a pesquisadora Eleonora Graziani utilizou este evangelho para
demonstrar "a autoridade da voz feminina na Igreja primitiva", quando
ela realizava seu doutorado em Estudos Femininos pela Universidade de Coimbra.
Mas o
texto apócrifo que mais suscita discussões sobre Madalena ter tido ou não um
relacionamento amoroso com Jesus é o Evangelho de Filipe. Primeiro porque o
evangelista diz que uma das Marias que "sempre caminhavam com o
Senhor" era "sua companheira".
Entretanto,
pode ser tudo uma questão de tradução. A palavra original do manuscrito, o
grego koinonôs, apesar de poder se referir a uma esposa, é mais comumente
empregada para designar duas pessoas que compartilham alguma missão ou um
trabalho, como dois parceiros comerciais.
Outra
passagem do mesmo evangelho, apesar de repleto de lacunas, diz que Jesus
"a beijava com frequência na sua boca".
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Papas
No
início, a Igreja reconhecia sua santidade. Maria Madalena era chamada de
"apóstola dos apóstolos", justamente por ter sido a primeira a
atestar a ressurreição de Cristo — o primeiro registro desta definição é
atribuído ao teólogo Hipólito de Roma (170-236).
Deixada
meio de lado quando a Igreja Católica se tornou oficial do Império Romano — o
que aconteceu no ano 380 —, Maria Madalena acabou relembrada de um jeito meio
torto.
Em uma
tentativa de tentar convencer os fiéis de que o arrependimento sincero bastaria
para um perdão de Deus, o papa Gregório Magno (540-604) começou a propagar, em
sermões, que algumas passagens da Bíblia se referindo a mulheres pecadoras —
anônimas — estavam, na verdade, tratando de Madalena.
Ou
seja: várias pessoas foram juntadas em um só nome Maria Madalena. Em seu artigo
Olhares de Clérigos, que integra do livro História das Mulheres no Ocidente, o
historiador francês Jacques Dalerun é categórico ao dizer que "tal como o
Ocidente a venera a santa não existe, enquanto indivíduo, nos evangelhos".
"A
identidade de Maria Madalena, — de quem Jesus expulsou sete demônios e que foi
testemunha da paixão e da Ressurreição, — fundiu-se com a da pecadora anônima,—
mulher que lavou, ungiu e secou com os cabelos os pés de Jesus na casa de
Simão, o fariseu — e também é identificada com a Maria de Betânia, irmã de
Marta e de Lázaro", resume a pesquisadora Wilma.
"Maria
de Betânia, no Evangelho de João, unge também Jesus com um valioso perfume de
nardo. A pecadora anônima que aparece no Evangelho de Lucas; Maria de Betânia e
Maria Madalena passaram a ser consideradas a mesma pessoa."
Pronto,
estava aberta a brecha para que Madalena fosse tachada como prostituta
arrependida.
Nas
últimas décadas, esta imagem foi revisada pela Igreja. Em 1969, os predicados
"penitente" e "pecadora" foram excluídos da seção dedicada
a ela no 'Breviário Romano'.
"Isto
eliminou um estigma que havia sido acentuado principalmente por ocasião da
Contrarreforma, quando Maria Madalena teve a importante função de ser o
exemplum. Completamente contra o protestantismo e sua doutrina da graça e da
predestinação, a Contrarreforma enfatizou a doutrina da penitência e do
mérito", contextualiza Wilma.
"Nessa
época, séculos XVI e XVII, Maria Madalena exerceu um importante papel como a
pecadora-penitente e como a pessoa que foi favorecida por excelência."
Em
2016, papa Francisco transformou a data de Maria Madalena, 22 de julho, em
festa litúrgica.
De
acordo com o Vaticano, a decisão foi tomada porque Francisco gostaria de
"assinalar a relevância desta mulher que mostrou um grande amor por
Cristo". Ele voltou a enfatizar seu título de "apóstola dos
apóstolos".
O
gesto, carregado de simbolismo, repercutiu entre religiosos e estudiosos.
Professor
de Novo Testamento da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, o filósofo
Régis Burnet afirmou que o ato do papa reconhece "o lugar surpreendente,
para a época, que as mulheres ocupavam junto de Jesus", ao mesmo tempo que
funciona como um "apelo a um maior reconhecimento delas na Igreja de
hoje".
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Cultura
Assim
como a Igreja, o mundo da arte e do entretenimento também já apresentou várias
facetas dessa santa.
Madalena
já apareceu em mais de 30 filmes — quase sempre como uma linda mulher,
sedutora.
Em A
Última Tentação de Cristo, obra de Martin Scorsese lançada em 1988, ela é
vivida pela atriz Barbara Hershey, que encarna a figura da prostituta e, num
devaneio épico quando Jesus está na cruz, é vista como esposa dele e grávida de
seu filho.
Em A
Paixão de Cristo, de 2004, Mel Gibson traz uma Madalena, vivida por Monica
Bellucci, coberta de lama. Em entrevista da época, Gibson afirmou: "eu
joguei lama nela; e quanto mais lama eu jogava, mais bonita ela ficava".
"Em
dois mil anos de cristianismo, não há outro personagem que tenha estimulado
tanto a imaginação de artistas, escritores e outros estudiosos como Maria
Madalena", acredita Wilma.
"Sabemos
pouco a respeito dela, no entanto, a cada período da era cristã criou-se uma
Madalena que satisfizesse suas necessidades e anseios e assim Maria Madalena
vem sendo submetida até nossos dias a uma plástica cultural."
Assim,
obras do Renascimento apresentam uma Madalena símbolo de penitência, humildade
e amor.
No
Iluminismo, a figura é de uma rameira de coração puro. No fim do século 19,
começa a ser representada de forma muito sexualizada, uma femme fatale.
Alguns
quadros que a retratam são indispensáveis para qualquer percurso da História da
Arte. Ticiano Vecellio (1490-1576) pintou Madalena Penitente e Noli Me Tangere.
Seu
contemporâneo Giampetrino (de quem não se sabe nem sequer o período exato de
vida) concebeu uma Madalena sedutora, mundana. Já a Madalena de Pietro Perugino
(1448-1523) é a imagem de uma santa.
Fonte:
BBC News Brasil

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