quarta-feira, 8 de abril de 2026

Michel Aires de Souza Dias: Lula x Flávio Bolsonaro – dois projetos de nação

Nessas eleições devemos escolher entre dois projetos de nação: o modelo neoliberal da extrema direita ou o modelo nacional desenvolvimentista de esquerda. O futuro de nosso país dependerá de uma escolha bastante consciente entre esses dois modelos. Seremos obrigados a escolher entre o modelo de um país agrário exportador de commodities e de terras raras, com trabalhadores precarizados, subservientes aos Estados Unidos; ou um país focado em desenvolvimento autônomo, industrializado, articulado geopoliticamente através de blocos econômicos como o Brics e o Mercosul.

Se o modelo neoliberal se fundamenta na superexploração do trabalho e na transferência de riqueza para o Norte-Global; o modelo desenvolvimentista apoia a parceria com o Sul-Global (Rússia, Índia, Irã, China, África do Sul) desafiando a hegemonia das potências tradicionais dos EUA e Europa, promovendo um mundo multipolar.

Se o modelo neoliberal da extrema direita for escolhido nas eleições de 2026, nós podemos inferir o que pode acontecer. O alinhamento com os Estados Unidos deve radicalizar a ideia de Estado mínimo, permitindo que o mercado se estenda a todas as esferas da sociedade, substituindo a governança pública pela iniciativa privada. Nesse modelo, a economia vê o mercado a partir de “leis naturais”, que se autorregularia sem a “intervenção” política.

Em razão disso, o Estado tende a assumir sua face mais autoritária com as políticas neoliberais, uma vez que pode reduzir os direitos sociais e trabalhistas, assim como as políticas redistributivas, além de reprimir os movimentos populares. Tal como na Argentina, poderá haver uma maior flexibilização do trabalho, aumentando a carga horária do trabalhador, a implementação do banco de horas e o fim das férias. Além de se acabar com a política de valorização do salário-mínimo, pois isto já foi dito pela cúpula bolsonarista.

Para os neoliberais, a mão de obra sempre foi uma commodity, uma mercadoria barata. As elites para controlar a classe trabalhadora historicamente sempre mantiveram um exército de reserva de desempregados. Ao gerar uma alta taxa de desemprego, a burguesia deve manter os salários baixos, aumentando a acumulação de capital e inibindo as reivindicações trabalhistas.

No âmbito da política externa, o Brasil deve continuar sendo o celeiro do mundo e exportador de commodities, dependente de produtos industrializados de outros países. Há fortes indícios de que seremos subjugados pelos interesses norte-americanos, fornecendo minerais críticos e terras raras para as suas indústrias, que precisam urgentemente de matérias primas essenciais para a transição energética e alta tecnologia como baterias, defesa militar e tecnologia aeroespacial.

O grande problema que teremos que enfrentar é a manipulação do ambiente social e político para aumentar a riqueza dos grupos poderosos. Esse fenômeno é chamado pelos cientistas políticos de rent-seeking (obtenção de renda). Em governos neoliberais, a prática de obter vantagens econômicas por grupos de interesses ou conglomerados econômicos, por meio de lobbies, subsídios, sonegação de impostos, licenças exclusivas e licitações fraudadas, é uma constante. No Brasil a captura do Estado pelas elites tornou-se parte da cultura das instituições.

Com os neoliberais no poder, a desregulamentação das atividades econômicas e a privatização das instituições governamentais relativos à saúde, educação, aos transportes, à energia e à previdência devem ser prioridades da política econômica. O objetivo é tornar o Brasil dependente do capital externo, em particular do Norte-Global e de suas empresas. Há indícios de que se pretendem acabar com o SUS – Sistema Único de Saúde e privatizar as universidades públicas, pois já tentaram no passado.

Mas esses objetivos serão alcançados aos poucos, primeiro pelo sucateamento das instituições, depois pelas parcerias com a iniciativa privada. No governo passado de Jair Bolsonaro houve duas tentativas respectivamente. O decreto 10.530/2020 colocou as Unidades Básicas de Saúde (UBS) no Programa de Parcerias de Investimento (PPI), como uma tentativa de privatizar, com a alegação de fazer estudos para concessão, construção e gestão dessas unidades pela iniciativa privada.

Contudo, o decreto foi revogado pela forte reação e polêmica que gerou na sociedade civil, acusando o governo de privatizar o SUS. Na educação, o Programa “Future-se” lançado em 2019, pelo MEC, foi outra tentativa de começar o processo de privatização das universidades públicas. O objetivo do programa era reestruturar as universidades públicas e institutos federais para uma maior autonomia financeira e incentivar a captação de recursos privados. Mas o projeto enfrentou forte resistência da sociedade civil, da comunidade acadêmica e dos sindicatos, sendo rejeitada após as discussões no congresso. É fato que a direita e a extrema-direita não devem desistir de acabar com o SUS e com as Universidades públicas.

Ao limitar o poder do Estado, os neoliberais desejam que o mercado se torne a única instituição na coordenação da economia. O resultado disso é que o Estado perde sua função de sistema de constituição legal, como instrumento de ação coletiva capaz de fazer justiça social, proteger o trabalhador, reduzir as desigualdades, melhorar os padrões de vida e defender o meio ambiente. No sistema neoliberal, os indivíduos surgem como marionetes das forças impessoais do mercado, tornando a vontade e as ações humanas impotentes diante do poder econômico.

Ao contrário da perspectiva neoliberal, se o modelo desenvolvimentista do Partido dos Trabalhadores (PT) for eleito, o Estado deve intervir de forma mais efetiva na economia, para induzir o crescimento, com foco no mercado interno, nas políticas sociais de distribuição de renda e no fortalecimento dos acordos multilaterais, visando a cooperação em áreas técnicas, econômicas e de defesa. O grande objetivo será o de reverter a democracia formal, que só existe no papel, em uma democracia substancial.

Desse modo, o governo deve fazer grandes investimentos públicos (PAC) em infraestrutura, habitação e saneamento para estimular a economia e o emprego. Com a possível queda da taxa de juros, a expansão do crédito deve possibilitar um aumento exponencial de investimentos privados, gerando mais empregos e aumentando a massa salarial.

O governo deve também continuar sua política de aumento real do salário-mínimo e das políticas públicas, focadas na transferência de renda. Por meio dessas estratégias, a política-econômica deve promover o consumo de massa, reduzindo as desigualdades e incentivando a industrialização. Além disso, o Brasil deve assumir seu papel de protagonista no mundo, pois tem influência política em vários blocos de cooperação como os BRICS, a ALADI (Associação Latino-Americana de Integração), a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) e o Mercosul (Mercado Comum do Sul), além de vários acordos bilaterais com outras nações.

O grande objetivo do governo petista deve ser a continuidade das políticas sociais redistributivas. No seu terceiro mandato, o governo Lula estruturou o Bolsa Família, condicionando seu recebimento de forma mais efetiva à educação e à saúde. Criou o auxílio gás, beneficiando milhares de famílias carentes. Deu continuidade a valorização do salário-mínimo, beneficiando diretamente os trabalhadores, aposentados e beneficiário do BPC (Benefício de Prestação Continuada).

Isentou os trabalhadores do Imposto de Renda que recebem até R$ 5.000 reais, com a redução da carga tributária para faixas superiores. Deu continuidade ao Programa Brasil Sem Fome, retirando pela segunda vez o país do mapa da fome da ONU (Organização das Nações Unidas). Criou o Pé de Meia para manter as crianças e adolescentes na escola, evitando a exploração do trabalho infantil. Deu continuidade ao Pronaf (Programa Nacional de fortalecimento da Agricultura Familiar) destinada a financiar os agricultores familiares.

O governo também contratou dois milhões de moradias que devem ser entregues até o final de 2026, além de ter quitado um milhão de moradias dos beneficiários do BPC e Bolsa família. Essas políticas devem ser continuadas se Lula for eleito, impactando diretamente no PIB (Produto Interno Bruto), fortalecendo a economia brasileira.

Diante desse diagnóstico, a escolha eleitoral deixa de ser apenas entre candidatos e se torna mais uma decisão histórica sobre o futuro do país e o tipo de nação que queremos.

Ou vamos escolher uma nação dependente, submissa aos interesses externos, exportadora de commodities e de mão de obra barata; ou seremos protagonistas de nossa própria história, um estado de bem-estar social, de classe média, como uma grande potência econômica capaz de superar economias como a do Reino Unido e a da França, como já ocorreu no passado de grande expansão econômica.

O nosso futuro dependerá da capacidade crítica dos eleitores em avaliar as implicações de longo prazo de cada projeto.

¨      É hora de Lula assumir o bastão de maestro. Por Luís Nassif

É curioso o malabarismo do anti-lulismo.

Primeiro, normalizam a candidatura do amigo Flávio. Ele seria menos radical que o pai Jair. Aí surge o governador Ronaldo Caiado. Ele seria menos radical que o amigo Flávio. No horizonte, aparece a candidatura de Eduardo Leite. Aí, já é chamado de centro-esquerda.

Somados, não dão nem meio Lula, nem meio Bolsonaro.

Mas insistem no anti-lulismo militante, endossando fake news, como a quebra de sigilo do filho de Lula, praticando o exercício diuturno do pessimismo, do mau agouro, esperando que, do horizonte flácido, nasça um sir Galahad da 3ª via. Seria isso?

E se o galante cavalheiro não se apresentar? Insistiram no amigo Flávio? Amigo que é amigo não repara nas abundantes provas de lavagem de dinheiro, de rachadinhas, de ligações com milícias, com o Escritório do Crime. Afinal, o Brasil é uma nação extrativista, cuja única utilidade é permitir o enriquecimento rápido dos que conseguem a tacada – termo com que o cunhado de Rui Barbosa designava as grandes jogadas especulativas.

É incrível a falta de ambição de construir uma grande nação. Em tempos que não voltam mais, lembro-me de conversas com grandes banqueiros, como Walther Moreira Salles e Aloysio Faria, grandes industriais, como Jorge Gerdau, Paulo Cunha, todos ambicionando serem grandes empresários de um grande país.

É impressionante o que a ultra financeirização fez com o sentimento de país, com a ideologia industrialista. As federações de indústrias se transformaram em reduto do bolsonarismo, o mais anti-industrial dos governos que já tivemos. A bancada agrícola não consegue entender a relevância das boas relações com a China, inclusive no aprimoramento da infraestrutura agrícola.

Essa perda de coesão se deve a três fatores.

O primeiro, o esvaziamento dos partidos políticos. Nenhum deles ousa um projeto nacional. É curioso, porque o PT tem o Instituto Perseu Abramo, já montou grupos relevantes de discussão de políticas públicas, mas nenhuma delas chegou ao nível federal, uma proposta de partido, menos ainda uma proposta de governo.

Um segundo fator de consciência seria a mídia. Mas, dela não se pode esperar nada, a não ser o imediatismo mais superficial e interessado.

Já não existem think tanks. A Universidade produz diagnósticos, estudos, mas descolados, sem um centro aglutinador das ideias.

Nesse marasmo total, a única forma de coordenação seria da Presidência da República. O país possui enorme potencial de ativos para montar políticas públicas. Há as universidades, os centros de pesquisa, as entidades representativas da indústria, comércio, agricultura e serviços, o cooperativismo, a agricultura familiar, as associações de municípios, o SUS, os conselhos de secretários estaduais.

Na área federal, há enorme potencial de pensamento criativo no CGCE, na Finep, no IPEA, no BNDES, na ENAP, nos ministérios.

Há um enorme ferramental para comunicação direta entre o Presidente e o povo. Franklin Delano Roosevelt promoveu uma revolução de opinião valendo-se de um programa radiofônico. Jair Bolsonaro expunha diariamente sua cavalar estupidez em lives diárias. Entrava na casa do cidadão comum com seu primarismo, mas ficava de casa.

Um plano de governo objetivo, explicado de maneira pedagógica pelo presidente, valendo-se das redes sociais e das redes de emissoras, poderia acordar o país. Há um país sedento por otimismo, borbulhando de amor próprio, descarregando suas expectativas em torcidas de filmes nacionais, de torneios, trazendo de volta a música regional.

Em suma, tem-se a receita e os ingredientes na mesa. Falta apenas o maestro condutor.

<><> A nova fase da guerra política

A guerra política de 2026 entra em um interregno.

A primeira fase foi marcada pelo início da Operação Lava Jato 2, de acordo com os seguintes indícios:

1.       Vazamento do contrato da esposa de Alexandre Moraes, nos primeiros dias de perícia dos celulares de Daniel Vorcaro. Ficou nítido o eixo PF lavajatista -> jornalista lavajatista -> Rede Globo.

2.       Ao mesmo tempo, o pedido da PF, e a autorização do Ministro André Mendonça, de quebra do sigilo de Fábio Luiz, filho de Lula, sem nenhum envolvimento com o caso Master, deixou exposto o eixo Mendonça – PF.

3.       Finalmente, o PowerPoint de Andréia Sadi, um desastre jornalístico tão amplo que obrigou a uma freada de arrumação no sistema Globo. Essa pausa foi provocada também pelo enquadramento dos PFs envolvidos com a Operação Master.

Agora, como um trio de cordas desafinado, os três diários entram no segundo tempo do jogo.

Ele consistirá, é claro, na manutenção das críticas sobre o governo Lula e do baixo astral permanente da cobertura.

Mas, ao mesmo tempo, acabou a lua-de-mel com o amigo “Flávio”. Sincronizadamente, os jornais passam a atacá-lo, na esperança de que seja substituído por algum candidato da direita, menos marcado.

O problema é que os “estadistas” da direita são de uma dimensão liliputiana.

De um lado, o governador de Minas, Romeu Zema que, além de ter arrebentado com as contas do estado, é de uma mediocridade poucas vezes vista entre governos estaduais.

O segundo candidato é o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, com uma vivência de senador e governador sofrível, tendo como única bandeira os motes da direita no campo da segurança pública.

O terceiro candidato é o governador gaúcho Eduardo Leite.

A única vantagem dos três é a absoluta blindagem que recebem da mídia do eixo Rio-São Paulo, e a condescendência dos grupos de mídia dos respectivos estados.

Seja quem for o candidato, há marcas que são indeléveis:

1.       Subordinação à política externa norte-americana.

2.       Implantação de colégios militares em toda rede federal.

3.       Enfraquecimento das universidades públicas e do sistema de financiamento à pesquisa.

4.       Empoderamento das Polícias Militares, ampliando o grau de violência.

5.       Pacto com setores lava jatistas da PF e do Judiciário.

O mesmo mal que acomete a centro-esquerda acomete o centro-direita e sua busca incessante pela terceira via. Não conseguem desenvolver um projeto de país. No caso do centro-direita e direita, escudam-se unicamente na fantasia do livre mercado e da privatização selvagem.

Nas próximas semanas, Lula colocará a campanha na rua. Não se sabe se escudada em um projeto claro de país, em um plano de metas, em uma visão de futuro, ou se será mais do mesmo.

A questão central é que a impaciência do eleitorado não aceita mais gambiarras. Ou é apresentado a um projeto de futuro, ou concentra votos na destruição final de qualquer projeto de nação.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Jornal GGN

 

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