Michel
Aires de Souza Dias: Lula x Flávio Bolsonaro – dois projetos de nação
Nessas
eleições devemos escolher entre dois projetos de nação: o modelo neoliberal da
extrema direita ou o modelo nacional desenvolvimentista de esquerda. O futuro
de nosso país dependerá de uma escolha bastante consciente entre esses dois
modelos. Seremos obrigados a escolher entre o modelo de um país agrário
exportador de commodities e de terras raras, com trabalhadores precarizados,
subservientes aos Estados Unidos; ou um país focado em desenvolvimento
autônomo, industrializado, articulado geopoliticamente através de blocos
econômicos como o Brics e o Mercosul.
Se o
modelo neoliberal se fundamenta na superexploração do trabalho e na
transferência de riqueza para o Norte-Global; o modelo desenvolvimentista apoia
a parceria com o Sul-Global (Rússia, Índia, Irã, China, África do Sul)
desafiando a hegemonia das potências tradicionais dos EUA e Europa, promovendo
um mundo multipolar.
Se o
modelo neoliberal da extrema direita for escolhido nas eleições de 2026, nós
podemos inferir o que pode acontecer. O alinhamento com os Estados Unidos deve
radicalizar a ideia de Estado mínimo, permitindo que o mercado se estenda a
todas as esferas da sociedade, substituindo a governança pública pela
iniciativa privada. Nesse modelo, a economia vê o mercado a partir de “leis
naturais”, que se autorregularia sem a “intervenção” política.
Em
razão disso, o Estado tende a assumir sua face mais autoritária com as
políticas neoliberais, uma vez que pode reduzir os direitos sociais e
trabalhistas, assim como as políticas redistributivas, além de reprimir os
movimentos populares. Tal como na Argentina, poderá haver uma maior
flexibilização do trabalho, aumentando a carga horária do trabalhador, a
implementação do banco de horas e o fim das férias. Além de se acabar com a
política de valorização do salário-mínimo, pois isto já foi dito pela cúpula
bolsonarista.
Para os
neoliberais, a mão de obra sempre foi uma commodity, uma mercadoria barata. As
elites para controlar a classe trabalhadora historicamente sempre mantiveram um
exército de reserva de desempregados. Ao gerar uma alta taxa de desemprego, a
burguesia deve manter os salários baixos, aumentando a acumulação de capital e
inibindo as reivindicações trabalhistas.
No
âmbito da política externa, o Brasil deve continuar sendo o celeiro do mundo e
exportador de commodities, dependente de produtos industrializados de outros
países. Há fortes indícios de que seremos subjugados pelos interesses
norte-americanos, fornecendo minerais críticos e terras raras para as suas
indústrias, que precisam urgentemente de matérias primas essenciais para a
transição energética e alta tecnologia como baterias, defesa militar e
tecnologia aeroespacial.
O
grande problema que teremos que enfrentar é a manipulação do ambiente social e
político para aumentar a riqueza dos grupos poderosos. Esse fenômeno é chamado
pelos cientistas políticos de rent-seeking (obtenção de renda). Em governos
neoliberais, a prática de obter vantagens econômicas por grupos de interesses
ou conglomerados econômicos, por meio de lobbies, subsídios, sonegação de
impostos, licenças exclusivas e licitações fraudadas, é uma constante. No
Brasil a captura do Estado pelas elites tornou-se parte da cultura das
instituições.
Com os
neoliberais no poder, a desregulamentação das atividades econômicas e a
privatização das instituições governamentais relativos à saúde, educação, aos
transportes, à energia e à previdência devem ser prioridades da política
econômica. O objetivo é tornar o Brasil dependente do capital externo, em
particular do Norte-Global e de suas empresas. Há indícios de que se pretendem
acabar com o SUS – Sistema Único de Saúde e privatizar as universidades
públicas, pois já tentaram no passado.
Mas
esses objetivos serão alcançados aos poucos, primeiro pelo sucateamento das
instituições, depois pelas parcerias com a iniciativa privada. No governo
passado de Jair Bolsonaro houve duas tentativas respectivamente. O decreto
10.530/2020 colocou as Unidades Básicas de Saúde (UBS) no Programa de Parcerias
de Investimento (PPI), como uma tentativa de privatizar, com a alegação de
fazer estudos para concessão, construção e gestão dessas unidades pela
iniciativa privada.
Contudo,
o decreto foi revogado pela forte reação e polêmica que gerou na sociedade
civil, acusando o governo de privatizar o SUS. Na educação, o Programa
“Future-se” lançado em 2019, pelo MEC, foi outra tentativa de começar o
processo de privatização das universidades públicas. O objetivo do programa era
reestruturar as universidades públicas e institutos federais para uma maior
autonomia financeira e incentivar a captação de recursos privados. Mas o
projeto enfrentou forte resistência da sociedade civil, da comunidade acadêmica
e dos sindicatos, sendo rejeitada após as discussões no congresso. É fato que a
direita e a extrema-direita não devem desistir de acabar com o SUS e com as
Universidades públicas.
Ao
limitar o poder do Estado, os neoliberais desejam que o mercado se torne a
única instituição na coordenação da economia. O resultado disso é que o Estado
perde sua função de sistema de constituição legal, como instrumento de ação
coletiva capaz de fazer justiça social, proteger o trabalhador, reduzir as
desigualdades, melhorar os padrões de vida e defender o meio ambiente. No
sistema neoliberal, os indivíduos surgem como marionetes das forças impessoais
do mercado, tornando a vontade e as ações humanas impotentes diante do poder
econômico.
Ao
contrário da perspectiva neoliberal, se o modelo desenvolvimentista do Partido
dos Trabalhadores (PT) for eleito, o Estado deve intervir de forma mais efetiva
na economia, para induzir o crescimento, com foco no mercado interno, nas
políticas sociais de distribuição de renda e no fortalecimento dos acordos
multilaterais, visando a cooperação em áreas técnicas, econômicas e de defesa.
O grande objetivo será o de reverter a democracia formal, que só existe no
papel, em uma democracia substancial.
Desse
modo, o governo deve fazer grandes investimentos públicos (PAC) em
infraestrutura, habitação e saneamento para estimular a economia e o emprego.
Com a possível queda da taxa de juros, a expansão do crédito deve possibilitar
um aumento exponencial de investimentos privados, gerando mais empregos e
aumentando a massa salarial.
O
governo deve também continuar sua política de aumento real do salário-mínimo e
das políticas públicas, focadas na transferência de renda. Por meio dessas
estratégias, a política-econômica deve promover o consumo de massa, reduzindo
as desigualdades e incentivando a industrialização. Além disso, o Brasil deve
assumir seu papel de protagonista no mundo, pois tem influência política em
vários blocos de cooperação como os BRICS, a ALADI (Associação Latino-Americana
de Integração), a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) e o Mercosul (Mercado
Comum do Sul), além de vários acordos bilaterais com outras nações.
O
grande objetivo do governo petista deve ser a continuidade das políticas
sociais redistributivas. No seu terceiro mandato, o governo Lula estruturou o
Bolsa Família, condicionando seu recebimento de forma mais efetiva à educação e
à saúde. Criou o auxílio gás, beneficiando milhares de famílias carentes. Deu
continuidade a valorização do salário-mínimo, beneficiando diretamente os
trabalhadores, aposentados e beneficiário do BPC (Benefício de Prestação
Continuada).
Isentou
os trabalhadores do Imposto de Renda que recebem até R$ 5.000 reais, com a
redução da carga tributária para faixas superiores. Deu continuidade ao
Programa Brasil Sem Fome, retirando pela segunda vez o país do mapa da fome da
ONU (Organização das Nações Unidas). Criou o Pé de Meia para manter as crianças
e adolescentes na escola, evitando a exploração do trabalho infantil. Deu
continuidade ao Pronaf (Programa Nacional de fortalecimento da Agricultura
Familiar) destinada a financiar os agricultores familiares.
O
governo também contratou dois milhões de moradias que devem ser entregues até o
final de 2026, além de ter quitado um milhão de moradias dos beneficiários do
BPC e Bolsa família. Essas políticas devem ser continuadas se Lula for eleito,
impactando diretamente no PIB (Produto Interno Bruto), fortalecendo a economia
brasileira.
Diante
desse diagnóstico, a escolha eleitoral deixa de ser apenas entre candidatos e
se torna mais uma decisão histórica sobre o futuro do país e o tipo de nação
que queremos.
Ou
vamos escolher uma nação dependente, submissa aos interesses externos,
exportadora de commodities e de mão de obra barata; ou seremos protagonistas de
nossa própria história, um estado de bem-estar social, de classe média, como
uma grande potência econômica capaz de superar economias como a do Reino Unido
e a da França, como já ocorreu no passado de grande expansão econômica.
O nosso
futuro dependerá da capacidade crítica dos eleitores em avaliar as implicações
de longo prazo de cada projeto.
¨
É hora de Lula assumir o bastão de maestro. Por Luís
Nassif
É
curioso o malabarismo do anti-lulismo.
Primeiro,
normalizam a candidatura do amigo Flávio. Ele seria menos radical que o pai
Jair. Aí surge o governador Ronaldo Caiado. Ele seria menos radical que o amigo
Flávio. No horizonte, aparece a candidatura de Eduardo Leite. Aí, já é chamado
de centro-esquerda.
Somados,
não dão nem meio Lula, nem meio Bolsonaro.
Mas
insistem no anti-lulismo militante, endossando fake news, como a quebra de
sigilo do filho de Lula, praticando o exercício diuturno do pessimismo, do mau
agouro, esperando que, do horizonte flácido, nasça um sir Galahad da 3ª via.
Seria isso?
E se o
galante cavalheiro não se apresentar? Insistiram no amigo Flávio? Amigo que é
amigo não repara nas abundantes provas de lavagem de dinheiro, de rachadinhas,
de ligações com milícias, com o Escritório do Crime. Afinal, o Brasil é uma
nação extrativista, cuja única utilidade é permitir o enriquecimento rápido dos
que conseguem a tacada – termo com que o cunhado de Rui Barbosa designava as
grandes jogadas especulativas.
É
incrível a falta de ambição de construir uma grande nação. Em tempos que não
voltam mais, lembro-me de conversas com grandes banqueiros, como Walther
Moreira Salles e Aloysio Faria, grandes industriais, como Jorge Gerdau, Paulo
Cunha, todos ambicionando serem grandes empresários de um grande país.
É
impressionante o que a ultra financeirização fez com o sentimento de país, com
a ideologia industrialista. As federações de indústrias se transformaram em
reduto do bolsonarismo, o mais anti-industrial dos governos que já tivemos. A
bancada agrícola não consegue entender a relevância das boas relações com a
China, inclusive no aprimoramento da infraestrutura agrícola.
Essa
perda de coesão se deve a três fatores.
O
primeiro, o esvaziamento dos partidos políticos. Nenhum deles ousa um projeto
nacional. É curioso, porque o PT tem o Instituto Perseu Abramo, já montou
grupos relevantes de discussão de políticas públicas, mas nenhuma delas chegou
ao nível federal, uma proposta de partido, menos ainda uma proposta de governo.
Um
segundo fator de consciência seria a mídia. Mas, dela não se pode esperar nada,
a não ser o imediatismo mais superficial e interessado.
Já não
existem think tanks. A Universidade produz diagnósticos, estudos, mas
descolados, sem um centro aglutinador das ideias.
Nesse
marasmo total, a única forma de coordenação seria da Presidência da República.
O país possui enorme potencial de ativos para montar políticas públicas. Há as
universidades, os centros de pesquisa, as entidades representativas da
indústria, comércio, agricultura e serviços, o cooperativismo, a agricultura
familiar, as associações de municípios, o SUS, os conselhos de secretários
estaduais.
Na área
federal, há enorme potencial de pensamento criativo no CGCE, na Finep, no IPEA,
no BNDES, na ENAP, nos ministérios.
Há um
enorme ferramental para comunicação direta entre o Presidente e o povo.
Franklin Delano Roosevelt promoveu uma revolução de opinião valendo-se de um
programa radiofônico. Jair Bolsonaro expunha diariamente sua cavalar estupidez
em lives diárias. Entrava na casa do cidadão comum com seu primarismo, mas
ficava de casa.
Um
plano de governo objetivo, explicado de maneira pedagógica pelo presidente,
valendo-se das redes sociais e das redes de emissoras, poderia acordar o país.
Há um país sedento por otimismo, borbulhando de amor próprio, descarregando
suas expectativas em torcidas de filmes nacionais, de torneios, trazendo de
volta a música regional.
Em
suma, tem-se a receita e os ingredientes na mesa. Falta apenas o maestro
condutor.
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A nova fase da guerra política
A
guerra política de 2026 entra em um interregno.
A
primeira fase foi marcada pelo início da Operação Lava Jato 2, de acordo com os
seguintes indícios:
1. Vazamento do contrato da esposa de
Alexandre Moraes, nos primeiros dias de perícia dos celulares de Daniel
Vorcaro. Ficou nítido o eixo PF lavajatista -> jornalista lavajatista ->
Rede Globo.
2. Ao mesmo tempo, o pedido da PF, e a
autorização do Ministro André Mendonça, de quebra do sigilo de Fábio Luiz,
filho de Lula, sem nenhum envolvimento com o caso Master, deixou exposto o eixo
Mendonça – PF.
3. Finalmente, o PowerPoint de Andréia Sadi,
um desastre jornalístico tão amplo que obrigou a uma freada de arrumação no
sistema Globo. Essa pausa foi provocada também pelo enquadramento dos PFs
envolvidos com a Operação Master.
Agora,
como um trio de cordas desafinado, os três diários entram no segundo tempo do
jogo.
Ele
consistirá, é claro, na manutenção das críticas sobre o governo Lula e do baixo
astral permanente da cobertura.
Mas, ao
mesmo tempo, acabou a lua-de-mel com o amigo “Flávio”. Sincronizadamente, os
jornais passam a atacá-lo, na esperança de que seja substituído por algum
candidato da direita, menos marcado.
O
problema é que os “estadistas” da direita são de uma dimensão liliputiana.
De um
lado, o governador de Minas, Romeu Zema que, além de ter arrebentado com as
contas do estado, é de uma mediocridade poucas vezes vista entre governos
estaduais.
O
segundo candidato é o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, com uma vivência de
senador e governador sofrível, tendo como única bandeira os motes da direita no
campo da segurança pública.
O
terceiro candidato é o governador gaúcho Eduardo Leite.
A única
vantagem dos três é a absoluta blindagem que recebem da mídia do eixo Rio-São
Paulo, e a condescendência dos grupos de mídia dos respectivos estados.
Seja
quem for o candidato, há marcas que são indeléveis:
1. Subordinação à política externa
norte-americana.
2. Implantação de colégios militares em toda
rede federal.
3. Enfraquecimento das universidades
públicas e do sistema de financiamento à pesquisa.
4. Empoderamento das Polícias Militares,
ampliando o grau de violência.
5. Pacto com setores lava jatistas da PF e
do Judiciário.
O mesmo
mal que acomete a centro-esquerda acomete o centro-direita e sua busca
incessante pela terceira via. Não conseguem desenvolver um projeto de país. No
caso do centro-direita e direita, escudam-se unicamente na fantasia do livre
mercado e da privatização selvagem.
Nas
próximas semanas, Lula colocará a campanha na rua. Não se sabe se escudada em
um projeto claro de país, em um plano de metas, em uma visão de futuro, ou se
será mais do mesmo.
A
questão central é que a impaciência do eleitorado não aceita mais gambiarras.
Ou é apresentado a um projeto de futuro, ou concentra votos na destruição final
de qualquer projeto de nação.
Fonte:
A Terra é Redonda/Jornal GGN

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