Portão
estourado, luzes acesas: uma história de tortura no Rio Grande do Sul
Os
últimos gritos que os vizinhos ouviram foram de Guilherme Moisés de Jesus
chamando pela mãe. O quarto filho de Sandra Helena não costumava sair muito de
casa e, segundo eles, não foi diferente naquele dia.
“Ele
era meu protetor”, diz a mãe. Aos 26 anos, o rapaz que trabalhava como
segurança e “chapa”, fazendo a carga e descarga de caminhões, estava
desempregado. Desde o dia anterior estava capinando o pátio – como os gaúchos
chamam o quintal – e passava bastante tempo no computador. A mãe conta que ele
vivia rodeado dos sobrinhos e era bem próximo da família.
Ocupada
com a filhinha de três meses, Ana, a irmã mais velha, não viu que Jesus tinha
mandado mensagem por volta das 19 horas daquele inesquecível 16 de janeiro de
2026. No status dele no Whatsapp, atualizado às 20h30, havia uma mensagem de
“Boa Noite”. Já passava das 21 horas quando Ana tentou falar com o irmão, mas
as mensagens ficaram sem resposta.
Não
muito longe dali, Sandra estava ajudando a filha “a cuidar da guriazinha”,
quando recebeu um telefonema da vizinha, que morava bem perto da casa onde
morava com o filho, no bairro Cabo Luiz Quevedo, em Uruguaiana, cidade gaúcha
de 120 mil habitantes na fronteira do Brasil com a Argentina. “Sandra, vem pra
cá, a “choque” invadiu sua casa”, disse.
“A
choque” é como os moradores chamam o 6º Batalhão de Choque da Brigada Militar
(a PM gaúcha), responsável pelo policiamento na cidade. Criado em 2021 por um
decreto do governador Eduardo Leite (PSD), é um dos seis batalhões
“superespecializados”, segundo o governo gaúcho, que patrulham o interior do
estado. Em comentários nas redes sociais e em conversas com moradores, a
truculência da “choque” é citada com frequência, bem como a reivindicação de
que – a exemplo da Brigada Militar da região metropolitana de Porto Alegre – os
policiais do interior também sejam obrigados a usar câmeras corporais.
Um dia
antes de Jesus ser brutalmente torturado e assassinado por sete homens e uma
mulher do 6º Batalhão de Choque, 18 policiais do 5º Batalhão de Choque e do 4º
Batalhão da Polícia Militar invadiram uma chácara em Pelotas. Marcos Nornberg,
um agricultor de 48 anos, foi morto pela polícia e sua esposa, Raquel, foi
torturada.
Depois
da mobilização dos familiares, que incluiu uma carta da viúva ao governador, a
polícia reconheceu que havia cometido “um equívoco”: teria seguido uma pista
falsa de uma quadrilha de traficantes. Mas não se desculpou pela violência
extrema – como se tivesse sido empregada contra criminosos fosse legítima.
No caso
de Jesus, embora a motivação do crime não esteja clara para ninguém, não há
engano possível. Um dos policiais que participou dos atos bárbaros que levaram
à morte de Jesus conhecia a vítima desde que ele frequentava o cybercafé de seu
pai. “O Gui devia ter uns nove anos, então eu deixava ele jogando videogame, e
quando acabava o tempo dele, o pai desse que hoje é policial me ligava e eu ia
buscar”, lembra Sandra.
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Portão arrebentado, luzes acesas
Naquela
noite em que o filho seria morto, a mãe achou que os policiais tinham errado de
endereço. Afinal, o filho nunca foi preso e não tem antecedentes criminais, e
ela sabia que ele estava sozinho em casa – nem tinha levado a chave. Ainda
assim, tentou conseguir um carro de aplicativo ou uma carona para ver o que
tinha acontecido. Logo depois, porém, a vizinha ligou novamente para dizer que
os policiais já tinham ido embora.
Mesmo
achando que tinha sido um engano, Sandra ligou para o irmão, Dinho, para pedir
que ele fosse com ela até a sua casa na rua Marechal Floriano. Sua filha, Ana,
foi junto.
“A mãe
parou um pouco antes de casa pra ir nos vizinhos perguntar o que tinha
acontecido, aí, quando a gente chegou, o portão estava arrebentado, e a porta
entreaberta, mas tinha uma luz ligada no quarto dele. Eu desci do carro e
chamei por ele umas três vezes. E aí o meu tio falou: “não, ele não está aqui,
vamos na delegacia, devem ter levado ele pra lá”.
Quando
os dois estavam saindo, viram uma viatura parada mais à frente e fizeram a
volta para falar com os policiais. “Aí eles ligaram o carro, vieram subindo, e
meu tio atacou [abordou] eles e perguntou o que tinha acontecido com o rapaz
daquela casa. O policial perguntou quem ele era, quem eu era, mandou descer do
carro. E aí o policial me perguntou se o Guilherme sofria do coração ou tomava
algum remédio controlado. Eu falei que não, ele não sofria de nada. E aí eu
perguntei ‘por que, o que aconteceu?’ Aí ele falou que ele tinha passado mal e
que eles tinham levado para o Pronto Socorro da Santa Casa. Eu liguei pra mãe
pra avisar e fomos pro hospital”, lembra Ana.
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Deixado morto no hospital
Antes
mesmo de entrar na Santa Casa da Caridade de Uruguaiana, Ana e o tio
descobriram que Jesus estava morto. “A gente perguntou pro guarda do hospital
se ele sabia para onde tinham levado o rapaz que a choque socorreu, e ele
respondeu: “Como? O rapaz que deixaram aqui, eles já deixaram ele a óbito”.
Ana
correu para o carro para avisar a tia, ainda com esperança de que poderia não
se tratar do irmão. As duas entraram no hospital, cheio de policiais, e a tia
voltou lá de dentro com uma enfermeira.
— “É
ele? A polícia matou ele?”, Ana perguntou, em desespero.
“A enfermeira balançou sim com a cabeça, e me
abraçou”, ela contou.
Ana
repetiu a pergunta dessa vez para o médico que a levou até o corpo do irmão.—
“A polícia matou meu irmão?”, perguntou.— “Ele me falou bem assim, ‘ó, entra
ali, maninha, pra tu ver como eles deixaram ele aqui’.”
Ana não
podia acreditar que aquele corpo era o do seu irmão.
“Ele
tava sem camisa. O tórax dele estava roxo, e tinha um hematoma grande, tipo uma
paulada, perto do coração. O rosto dele também estava roxo, muito inchado, a
cabeça muito, muito inchada. As mãos estavam queimadas em vários pontos, os
pulsos muito machucados. Mas no corpo dele não tinha sangue, a calça estava
limpa. E ele estava com os olhos e a boca entreabertos, eu vi que tinha sangue
por dentro da boca e que as narinas dele estavam tapadas de terra.”
As
fotos do corpo, que revelam as marcas da tortura, foram feitas já com maquiagem
funerária, antes do enterro, já que a Ana, em choque, nem pensou em fotografar
o corpo no hospital. “Até as palmas das mãos dele, que estavam queimadas,
tiveram que ser maquiadas”, conta Ana. Ainda assim, as marcas de tortura são
bem visíveis nas fotos da funerária enviadas por dona Sandra para a Pública –
que não serão publicadas nesta reportagem em respeito ao público.
Mas o
que a Pública, e colegas da imprensa gaúcha, vimos não dá margem à dúvida:
Guilherme de Jesus foi barbaramente torturado dentro da sua casa invadida por
oito policiais do 6º Batalhão de Choque.
“Morte
violenta”, registra laconicamente a certidão de óbito, o único documento
relacionado à morte de Jesus a que a família teve acesso até o momento. A hora
da morte – 22h – coincide com o horário de sua chegada à Santa Casa da Caridade
de Uruguaiana.
Além
das marcas no corpo, e de evidências negligenciadas pela perícia na casa de
Sandra e Jesus – como a bermuda encontrada molhada dentro do box do chuveiro,
ainda com o maço de cigarros, também molhado, dentro do bolso, sugerindo que o
corpo dele foi lavado – e o desaparecimento da cama em que ele dormia, um dos
vizinhos gravou em vídeo um depoimento com o que ele viu e ouviu na noite do
crime.
“Moro
na rua Marechal Floriano, e eu vi a polícia chegar. Dois policiais invadiram, e
seis quebraram o portão. Eu não vi o rapaz entrar nem sair de casa; espancaram
o rapaz lá dentro, eu não sei porquê. O que vi foi que uma caminhonete parou na
frente de casa, a outra um pouquinho mais pra frente, nunca na frente da casa
desse rapaz, entendeu? E ali eles entraram, bateram nele, bateram muito nele,
pelos gritos, sabe? E depois, as últimas palavras que eu ouvi, que ele falou
ali, ele gritou por socorro duas vezes e chamou pela mãe dele, entendeu? E
depois silenciou completamente. Daqui a um pouquinho eu vi que duas
caminhonetes vieram e entraram de bunda, de bunda que eu digo de ré, pra lá
onde eles estavam batendo no rapaz lá, entendeu? Acho que levaram o corpo do
rapaz, mas aí eles voltaram depois, mais uma vez, não sei o que vieram fazer”,
contou.
Até
hoje nem Ana, nem os profissionais de saúde foram chamados a depor no inquérito
civil, aberto na 1ª Delegacia de Polícia Civil de Uruguaiana.
Também
esse vizinho, que gravou o vídeo em frente à delegacia, onde familiares e
amigos se reuniram depois da morte de Jesus para pedir esclarecimentos,
denunciou não ter sido ouvido pela polícia, embora seu nome e sobrenome constem
na gravação. A Pública não divulgou os nomes aqui a pedido da família dele, que
ficou assustada depois que ele não foi chamado para depor.
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Dúvidas, versões insustentáveis e inquérito que não anda
Dias
depois do crime, a Brigada Militar publicou a versão dos policiais em uma nota
enviada à imprensa. De acordo com eles, “durante um patrulhamento tático
motorizado”, a equipe do 6º Batalhão de Polícia de Choque, “visualizou um
indivíduo em atitude suspeita que ao perceber a presença policial empreendeu
fuga em direção ao interior de uma residência, portando na cintura objeto com
características semelhantes às de uma arma de fogo, desobedecendo às ordens
legais de parada emanadas pela guarnição (…). Após a contenção física e
algemação, o indivíduo apresentou mal súbito, vindo a perder a consciência. De
imediato, a guarnição prestou atendimento pré-hospitalar, realizando manobras
de ressuscitação cardiopulmonar (RCP), e procedeu o encaminhamento ao Pronto
Socorro. Após o referido atendimento médico, foi constatado o óbito”.
Até
hoje a família diz não compreender porque Jesus foi torturado, ainda mais
porque ele não tinha envolvimento com o crime – como atestam a ficha criminal
limpa e os que conviviam com ele. “Não teria informações pra tirar dele, nem
[chance] dele ter revidado já que eram oito policiais que o amarraram,
queimaram, bateram, como mostra o corpo dele. Tava rendido, se quisessem levar
preso tinham levado”, diz Sandra.
A
hipótese da família é que foi um crime premeditado, por vingança pessoal,
embora não saibam dizer o que Jesus teria feito ou visto para atrair o ódio dos
policiais – um dos membros da equipe envolvida no assassinato já foi flagrado
pedindo dinheiro para livrar um suspeito da prisão, mas não foi afastado do
batalhão. Também se falou, entre os policiais, que o jovem teria sido morto
como queima de arquivo, segundo uma fonte relatou a um familiar de dona Sandra.
“Um mês
antes do crime, o Guilherme postou nas redes sociais uma foto dessas feitas com
inteligência artificial em que ele estava com uma farda do Batalhão de Choque,
e escreveu: “Mais um dia de trabalho no 6º Batalhão de Choque kkk”. Não sei se
eles se ofenderam com isso”, diz dona Sandra, afirmando que o filho postou a
foto porque se achou bonito de farda. À irmã, que comentou que parecia que ele
trabalhava mesmo no batalhão, respondeu em tom de brincadeira: “Quem disse que
eu não trabalho?”.
Ele
também contou à família que uma policial da “choque” tinha mandado um convite
de amizade por uma rede social, lembra Ana. “Ele me mostrou a foto, era uma
mulher branca de cabelos pretos, mas nem prestei muita atenção porque era tarde
eu já estava com sono”, ela diz. Eu falei que ela podia ser casada, ele ia
arrumar encrenca, e ele falou “é, pode ser uma armação pra cima de mim” e
apagou a foto do Instagram.
Dias
depois ele apagou a foto também do seu perfil no WhatsApp e contou para a mãe
que estava vendo uma caminhonete branca passando devagarinho na porta de casa
várias vezes, que ele disse que “era a viatura civil da choque”. Mas não
relatou outras ameaças à família nem o que poderia ter irritado os policiais.
“Eu até disse pra ele, mas tu não deve nada, por que eles viriam atrás de ti?”,
ele não falou nada”.
Até o
momento não há sinal de que os policiais envolvidos vão revelar como e porquê
Jesus foi torturado e morreu dentro de casa. O inquérito civil caminha a passos
de tartaruga, embora a advogada da família, Franciele Botelho, tenha enviado
fotos, vídeos e pedidos de depoimentos que poderiam esclarecer o caso, de
acordo com Sandra.
Até
hoje a família não recebeu nem o laudo do exame de corpo delito – a perícia do
corpo foi feita em um posto médico legal que fica no hospital e foi levado de
lá para a funerária. No chip do celular de Jesus, recuperado pela família na
operadora, há um acesso à 1h20 da madrugada do dia 17 de janeiro, quando ele já
estava morto. Segundo, Ana, todos os emails foram apagados.
“O
delegado disse que só vai deixar a gente ver os laudos quando todos ficarem
prontos”, diz Sandra. “A advogada entrou com uma ação (cautelar inominada)
porque a polícia civil não fez nenhum tipo de diligência, pedimos os laudos e o
depoimento das testemunhas”. A advogada afirma que não pode dar entrevistas
sobre o caso nem comentar o inquérito, que é sigiloso.
Segundo
Sandra, os únicos depoimentos que constam no inquérito até o momento são os
dela mesma e o dos policiais. “Eu mesma enviei para a delegacia as provas que a
perícia não pegou na minha casa, a bermuda que o Guilherme estava usando, um
lençol e um chinelo com sangue, meu vestido queimado”, conta. “O delegado tirou
férias três dias depois do crime, ficou um mês fora e tirou outra licença,
voltou só na semana passada”, reclama.
Extraoficialmente,
a família já teve informações que nem a arma nem a cocaína que teriam sido
encontradas na casa pelo Batalhão de Choque teriam as digitais de Jesus. O
exame para a presença de álcool também teria dado negativo. A suspeita da
família é que a droga tenha sido “enxertada” na casa dele, como dizem os
moradores, acostumados a casos desse tipo – Uruguaiana fica na entrada da ponte
sobre o rio Uruguai que leva à Argentina, e é um porto seco de grande
movimentação, atraindo o tráfico de drogas e o contrabando.
Na
semana em que lembramos o golpe militar de 1964, a história de Jesus mostra, na
prática, o que disse à Pública a professora Maria Gorete Marques de Jesus, da
UFSCar: há um cenário bastante parecido ao dos familiares de vítimas da
ditadura, que ficaram com a responsabilidade de produzir o ônus da prova dos
crimes cometidos pelo Estado (veja reportagem nesse link). “Eu estou cansada,
desconfiada, me sentindo sozinha, mas vou até o fim por justiça para o meu
filho”, diz Sandra.
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Outro lado
A
Pública tentou insistentemente ouvir o delegado Vinícius Seolin, responsável
pelo inquérito civil, mas nenhum dos números da delegacia divulgados no site da
Secretaria de Segurança Pública funcionava. Os contatos diretos também foram
recusados. A assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública do Rio
Grande do Sul, que centraliza a comunicação da Polícia Civil, disse que há um
Inquérito Policial e um Inquérito Policial Militar (IPM) sobre o caso e repete
o teor da nota já citada, que foi divulgada pela Brigada Militar.
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Veja a íntegra da nota
A
Brigada Militar esclarece que uma equipe do 6º Batalhão de Polícia de Choque
(6º BPChq) realizava patrulhamento quando um homem fugiu ao perceber a presença
policial. O indivíduo portava na cintura objeto posteriormente identificado
como arma de fogo. Ao ser abordado, o homem ofereceu resistência, não acatando
ordens verbais dos agentes e investiu fisicamente contra os policiais
militares. Diante da situação, foi realizada contenção física e algemação. Após
a contenção, o indivíduo apresentou mal súbito e perdeu a consciência. De
imediato, a equipe prestou atendimento pré-hospitalar, com manobras de
ressuscitação cardiopulmonar (RCP), e o levou ao pronto socorro. Após o
atendimento médico, foi constatado o óbito. A Brigada Militar reforça que a
apuração rigorosa dos fatos ocorre em observância aos protocolos legais e ao
compromisso institucional com os valores da transparência e do compromisso com
a sociedade.
Fonte:
Por Marina Amaral, da Agencia Pública

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