Governo
barra entrada de ‘campeã do asfalto’ na Lista Suja da escravidão
PELA
QUARTA VEZ em seis meses, o Ministro do Trabalho — Luiz Marinho — chamou para
si próprio a palavra final sobre uma fiscalização e anulou um auto de infração
que responsabilizava a LCM Construção por trabalho escravo em uma obra no
estado de Goiás.
“Campeã
do asfalto” no terceiro mandato de Lula, a empreiteira de Minas Gerais tem ao
menos R$ 8,3 bilhões em contratos assinados com o governo federal, e é alvo de
investigação da Polícia Federal por suspeita de superfaturamento e formação de
cartel, segundo reportagem de O Globo.
Ao
jornal, a empresa negou irregularidades e afirmou que sua “capacidade técnica”
a levou ao topo do ranking das obras pagas pelo poder público federal. A
empreiteira informou ainda que vem esclarecendo “questionamentos sobre suas
atividades” aos órgãos competentes.
Com a
decisão de Marinho, oficializada em 31 de março, a LCM deixou de ser incluída
na última atualização da chamada Lista Suja do Trabalho Escravo, publicada na
segunda-feira (6).
O
cadastro oficial do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) torna públicos os
dados de pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas pela prática. A relação
é usada pelo setor produtivo e por instituições financeiras em análises de
risco e serve de baliza para a concessão de financiamentos, por exemplo.
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MPT e entidades da sociedade civil veem risco de ‘politização’ do combate ao
trabalho escravo no país
Segundo
o sistema de consulta pública da Secretaria de Inspeção do Trabalho, Marinho
fez uso da chamada “avocação”, no último dia de março, para anular um auto de
infração contra a LCM. O instrumento confere ao ministro o poder de desfazer
atos administrativos de servidores da pasta.
Conforme
apurado pela Repórter Brasil, o auto de infração apontava um consórcio liderado
pela LCM como responsável pela submissão de trabalhadores a condições análogas
às de escravo, durante fiscalização ocorrida entre março e abril de 2025, em
Goiás.
Antes
da LCM, a JBS Aves, a Santa Colomba Agropecuária e a Apaeb (Associação
Comunitária de Produção e Comercialização do Sisal) já haviam tido seus casos
tratados individualmente pelo ministro, que impediu a inclusão dos nomes na
Lista Suja.
Entidades
da sociedade civil e o MPT (Ministério Público do Trabalho) — órgão autônomo,
sem vinculação com o governo federal — têm contestado as avocações feitas por
Marinho, por enxergarem risco de politização do sistema de combate ao trabalho
escravo.
“Estamos
diante de um precedente extremamente perigoso: empresas com grande porte
econômico podem ter seus casos de trabalho escravo retirados da esfera técnica
e transferidos para negociação política”, afirmou Luciano Aragão, procurador do
MPT, em entrevista concedida à Repórter Brasil em setembro de 2025.
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O que dizem o Ministério do Trabalho e a LCM Construção
Procurado,
o MTE não se manifestou até o fechamento desta reportagem.
Em
posicionamentos anteriores sobre o tema, a assessoria de imprensa da pasta
justificou as avocações afirmando que o ministro “exerceu sua prerrogativa
legal” com o objetivo de “garantir segurança jurídica e reforçar o trabalho dos
auditores-fiscais do Trabalho, evitando problemas futuros na Justiça e
assegurando que as ações continuem firmes e eficazes”.
Em
nota, a LCM afirma que “a anulação total do auto de infração pelo próprio
Ministério do Trabalho e Emprego foi uma decisão absolutamente técnica e
objetiva, que restabeleceu a verdade sob o devido processo legal em
contraditório, mediante o acolhimento da defesa da empresa, apresentada nos
termos da lei”.
O
posicionamento sustenta ainda que a empresa “registra profundo respeito pelo
MTE pela importante atividade de combate ao trabalho análogo à escravidão, sem
nunca descurar da imprescindível garantia da ampla defesa, que permitiu neste
caso o reconhecimento do equívoco do auto de infração mediante a sua anulação
total”.
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Auditores fiscais entregaram cargos em protesto contra decisão de Marinho
Além de
críticas de entidades da sociedade civil e de uma ação judicial movida pelo MPT
contra as avocações que retiraram as empresas da Lista Suja do Trabalho
Escravo, a cúpula do Ministério do Trabalho também vem enfrentando resistências
internas na pasta.
Em
setembro, auditores fiscais do MTE deixaram cargos de coordenação regional de
combate ao trabalho escravo em todo o país. A renúncia coletiva foi um protesto
contra a decisão de Marinho de puxar para si próprio a decisão final sobre o
caso da JBS Aves.
A
inexistência de um coordenador regional não inviabiliza, mas prejudica e atrasa
o planejamento de operações de resgate de trabalhadores e a articulação com
outros órgãos públicos envolvidos nessas ações, como a Polícia Federal e o
Ministério Público do Trabalho.
• Cantor Amado Batista e BYD entram na
Lista Suja do Trabalho Escravo
O
CANTOR Amado Batista e a montadora chinesa de carros elétricos BYD estão entre
os 169 novos nomes incluídos na atualização da chamada Lista Suja do Trabalho
Escravo, do governo federal.
Divulgada
nesta segunda-feira (6) pelo MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), a nova
versão do cadastro torna públicos os dados de pessoas físicas e jurídicas
responsabilizadas por trabalho escravo, após exercerem o direito de defesa na
esfera administrativa em duas instâncias.
Uma vez
incluídos, os empregadores permanecem na lista por dois anos, mas podem ter
seus nomes retirados antes desse prazo, caso assinem um acordo de regularização
com o MTE e passem a integrar uma lista de observação. Com a atualização, a
lista chega a 613 empregadores. Confira aqui a relação.
Criada
em novembro de 2003, a Lista Suja é atualizada semestralmente pelo governo
federal. O cadastro não gera punições aos empregadores, mas é usado por
empresas e setor financeiro para gerenciamento de riscos — na aprovação de
financiamentos, por exemplo. A relação é considerada pela ONU (Organização das
Nações Unidas) um dos mais relevantes instrumentos de combate ao trabalho
escravo no mundo.
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Amado Batista foi autuado em duas operações em Goiás
Amado
Batista foi autuado em duas fiscalizações distintas, em atividades relacionadas
ao cultivo de milho, conforme os dados divulgados na Lista Suja. Ambas
operações foram realizadas em 2024 no estado de Goiás.
A
Repórter Brasil apurou que as autuações ocorreram em uma propriedade rural do
cantor e em outra arrendada por ele. Ao todo, 14 trabalhadores estavam
submetidos a condições análogas à escravidão nas duas autuações, segundo o
Ministério do Trabalho e Emprego.
Em um
dos casos apurados pela reportagem, a infração identificada foi a de jornada
exaustiva, já que os lavradores começariam a trabalhar de madrugada e
continuariam até o período noturno. A Consolidação das Leis do Trabalho
determina, no artigo 66, o descanso mínimo obrigatório de 11 horas entre duas
jornadas.
A
jornada exaustiva (esgotamento físico ou mental do trabalhador, dado à
intensidade da exploração) é uma das quatro situações que configuram trabalho
escravo no Brasil, segundo o artigo 149 do Código Penal. Os outros três
elementos são: trabalho forçado (cerceamento do direito de ir e vir); servidão
por dívida (cativeiro atrelado a dívidas, muitas vezes fraudulentas); e
condições degradantes (trabalho que nega a dignidade humana, colocando em risco
a saúde e a vida).
O
governo federal aponta que houve resgate de quatro trabalhadores na área
arrendada por Batista. Já na área de propriedade do cantor, não houve resgate,
apenas a responsabilização do artista por trabalho escravo de dez pessoas, uma
vez que a caracterização ocorreu após a fiscalização com a análise dos
depoimentos tomados e documentos obtidos.
Em nota
enviada nesta terça-feira (7), a assessoria de imprensa de Amado Batista
declarou que não houve resgate de trabalhadores na propriedade do cantor e que
“todos os funcionários continuam trabalhando na propriedade normalmente”.
E
reconhece a fiscalização que ocorreu em uma fazenda arrendada por Amado Batista
para o plantio de milho, onde foram identificadas irregularidades na
contratação de quatro trabalhadores de uma terceirizada contratada para
preparação da área para o plantio.
“O fato
ocorreu em 2024, foi assinado um TAC [Termo de Ajustamento de Conduta] com MPT
[Ministério Público do Trabalho], na qual todas as obrigações dos colaboradores
foram integralmente pagas e quitadas. Outrossim, já estão sendo tomadas todas
as providências administrativas para o encerramento de todo e qualquer
procedimento de autuação”, conclui a nota.
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BYD foi responsabilizada após resgate de 163 trabalhadores em fábrica da
montadora na Bahia
A BYD
foi incluída na Lista Suja por ser considerada diretamente responsável pela
submissão de 163 trabalhadores chineses a condições análogas à escravidão
durante a construção de sua fábrica em Camaçari, na Bahia. O número foi
identificado na primeira operação de fiscalização, realizada por uma
força-tarefa em dezembro de 2024. Posteriormente, com o avanço das apurações, o
total de trabalhadores resgatados chegou a 224.
Os
auditores fiscais do MTE não acataram a alegação da empresa de que os
trabalhadores eram de uma terceirizada e, portanto, não estavam sob sua
responsabilidade. Também apontaram a montadora chinesa como a empregadora dos
trabalhadores resgatados e afirma que a companhia estabeleceu vínculo
empregatício direto com eles.
Contratos
analisados pela fiscalização previam jornada de dez horas por dia, seis dias
por semana, com possibilidade de extensão — o que levaria a uma jornada semanal
de 60 a 70 horas, muito maior do que o limite legal no Brasil de 44 horas.
Também
foram constatadas condições degradantes nos alojamentos. Um deles contava com
um único vaso sanitário para 31 trabalhadores. Segundo a fiscalização, muitos
dormiam sem colchões. Também não havia armários: os alimentos se misturavam a
roupas e pertences pessoais, criando um ambiente insalubre.
A BYD
foi procurada nesta segunda-feira pela Repórter Brasil, mas não respondeu até o
fechamento deste texto. O posicionamento da empresa será incluído assim que for
recebido. Anteriormente, a montadora declarou, em nota, manter “compromisso
inegociável com os direitos humanos e trabalhistas, pautando suas atividades
pelo respeito à legislação brasileira e às normas internacionais de proteção ao
trabalho”.
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O que é a Lista Suja?
A Lista
Suja é o cadastro oficial do governo federal que reúne os nomes de empregadores
flagrados mantendo pessoas em condições análogas à escravidão. O cadastro é
coordenado pelo Ministério do Trabalho e Emprego e funciona como uma forma de
dar transparência à sociedade sobre quem já foi responsabilizado por esse tipo
de violação. A cada atualização, empresas e pessoas físicas que tiveram
decisões administrativas concluídas aparecem na relação.
Para
que um nome entre na lista, é preciso que fiscais do trabalho tenham realizado
uma operação, lavrado autos de infração e concluído o processo administrativo,
assegurando o direito de defesa do empregador. Só depois desse trâmite é que o
caso se torna público. O nome fica na lista por, no mínimo, dois anos, período
em que a empresa ou a pessoa precisa cumprir todas as obrigações determinadas
pelo governo, como pagamento de multas e indenizações aos trabalhadores
resgatados.
A
publicação da lista tem efeitos diretos no mercado. Bancos públicos e privados,
além de grandes compradores de commodities, usam o cadastro como critério para
restringir crédito e romper contratos com empregadores que aparecem na relação.
Assim, além de informar a sociedade sobre casos de trabalho escravo, a lista
também funciona como um instrumento de pressão econômica para que empresas e
produtores adotem melhores práticas e respeitem a legislação trabalhista.
Fonte:
Reporter Brasil

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