O
que você é quando ninguém mais precisa do seu trabalho?
Se
ninguém mais precisa do seu trabalho, duas ilusões entram em colapso ao mesmo
tempo: a de que você é necessário para o funcionamento do mundo e a de que seu
valor depende dessa necessidade. E então sobra o que sempre esteve ali - mas
encoberto.
Durante
milênios, o trabalho foi o eixo em torno do qual organizamos a existência. Não
apenas como meio de sobrevivência, mas como fonte de identidade, dignidade e
pertencimento. A pergunta “o que você faz?” tornou-se, na prática, “quem você
é?”. Já notaram que, quando somos apresentados a uma pessoa, quase
invariavelmente a primeira coisa que queremos saber é sua atividade
profissional? A partir da resposta deduzimos uma série de dados a respeito do
interlocutor. E, não raro, nosso interesse e curiosidade termina aqui.
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Esse
vício comportamental é praticamente universal. Na Índia, por exemplo, o sistema
de castas é definido sobretudo pela profissão da pessoa. Por ordem hierárquica,
a casta mais alta é a dos brâmanes (sacerdotes, intelectuais); vem a seguir a
dos kshatrias (militares, governantes); seguida pela casta dos vayshias
(mercadores, comerciantes); a seguir vem os shudras (artesãos, operários,
trabalhadores, camponeses); e finalmente a casta mais baixa, a dos dalit
(conhecidos como “intocáveis” (os que se dedicam a atividades “impuras”, como
lavagem de latrinas, criação de porcos, etc). O sistema de castas é uma das
estruturas sociais mais antigas e complexas do mundo. Ele combina, além da
profissão, religião, cultura e organização social. Tem origem há mais de 3 mil
anos - embora hoje esteja formalmente proibido pela lei indiana, ainda exerce
grande influência no cotidiano. É estrutural, está profundamente arraigado na
psique popular, como o racismo no Brasil.
Mas, na
Índia, no Brasil e no mundo todo, essa arquitetura de classificação social pelo
trabalho está ruindo - silenciosa, veloz e, sobretudo, irreversivelmente.
O
trabalho como o conhecemos está desaparecendo, e não apenas o emprego. Mas não
apenas: com eles desaparece toda uma ideia de mundo. Não se trata mais de
ciclos econômicos, crises passageiras ou reestruturações setoriais. O que está
em curso é uma mutação estrutural. A automação avançada, a inteligência
artificial e a digitalização extrema não estão apenas substituindo tarefas:
estão tornando o próprio conceito de trabalho progressivamente obsoleto em
amplos setores da economia.
A
promessa do século 20 - pleno emprego como horizonte civilizatório - tornou-se,
no século 21, uma ficção em dissolução. A onipresença das máquinas é uma das
principais causas dessa demolição. Hoje, tudo leva a crer que a máquina não
quer mais apenas ajudar – ela parece querer substituir.
A
lógica da tecnologia sempre foi ambígua: libertar o homem do esforço ou
descartá-lo como necessidade. Com a emergência de sistemas baseados em
aprendizado de máquina, essa ambiguidade começa a se resolver - e não a nosso
favor. Profissões inteiras, antes consideradas seguras, entram na zona de
risco: advogados, jornalistas, designers, analistas, médicos em determinadas
funções. Não é mais a força física que está sendo substituída, mas a capacidade
cognitiva.
O
trabalho, que já foi manual e depois intelectual, agora se vê confrontado por
uma inteligência não humana que aprende, adapta-se e executa tarefas com
eficiência crescente - e custo próximo de zero.
O que
acontece com uma sociedade quando o trabalho deixa de ser necessário? A
primeira constatação é que a crise não é econômica - é ontológica. Crise de
significado. A perda do trabalho não é apenas perda de renda. É perda de
sentido.
Desde a
ética protestante até o capitalismo contemporâneo, o trabalho foi elevado à
condição de virtude moral. Trabalhar não era apenas produzir - era justificar a
própria existência. O ócio, por outro lado, foi estigmatizado como falha de
caráter.
Se o
trabalho desaparece, o que acontece com essa moral? Entramos, então, em uma
zona de turbulência psíquica e cultural. Uma sociedade que não precisa mais
trabalhar, mas que não sabe viver sem trabalhar, corre o risco de mergulhar em
um vazio existencial profundo. Ansiedade, depressão e sensação de inutilidade
tendem a se expandir como sintomas de uma civilização que perdeu seu eixo
simbólico.
Diante
dessa ruptura, muitos pronunciam um discurso reconfortante: “novos empregos
surgirão”. É verdade – mas verdade insuficiente. A história mostra que
revoluções tecnológicas criam novas ocupações. Mas a escala e a velocidade da
atual transformação são inéditas. A cada emprego criado, vários outros são
eliminados - e, mais importante, os novos postos exigem qualificações altamente
específicas, inacessíveis à maioria.
A ideia
de que todos podem se “reinventar” indefinidamente é, no fundo, uma narrativa
meritocrática que ignora limites humanos, sociais e educacionais. Nem todos
serão programadores. Nem todos serão criadores. E, mesmo entre esses, muitos
disputarão um espaço cada vez mais estreito.
Sem o
roteiro imposto pelo trabalho, cada indivíduo é colocado diante de uma
responsabilidade inédita: dar forma à própria existência. Isso pode gerar
criação - ou paralisia. Alguns descobrirão vocações que o trabalho nunca
permitiu explorar. Outros se perderão na ausência de direção. A questão deixa
de ser “o que esperam de mim?” e passa a ser:
“o que faço com o tempo e a consciência que me foram dados?”
No
limite, você é aquilo que permanece. Se retirarmos tudo o que é externo -
profissão, renda, status - o que sobra? Sobra o modo como você percebe, sente,
se relaciona, cria sentido. Sobra aquilo que nenhuma máquina pode substituir
completamente: a experiência subjetiva de estar vivo.
Então,
o que você é quando ninguém mais precisa do seu trabalho? Talvez, pela primeira
vez, você seja apenas - e plenamente - humano. E isso, embora pareça pouco
dentro da lógica do mundo antigo, pode ser tudo no mundo que está por vir.
Fonte:
Por Luis Pellegrini, em Brasil 247

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