O
senador da liberdade de expressão que processa quem critica ele
O
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, entrou
com um processo contra a rede social X pedindo que a plataforma entregue dados
pessoais de cinco usuários que o criticaram publicamente. O pedido inclui CPF,
número de telefone e endereço de e-mail. O argumento: as críticas teriam
ultrapassado os limites da liberdade de expressão e configurariam uma “campanha
difamatória e caluniosa”.
A
ironia não passou despercebida. O mesmo campo político que durante anos usou o
discurso da liberdade de expressão como escudo contra regulamentações de
plataformas digitais agora recorre ao Judiciário para identificar e
potencialmente expor usuários que usaram esse mesmo direito para criticar um
senador da República.
A
plataforma recusou o pedido. Em sua manifestação, o X argumentou que a quebra
do anonimato exige justificativa robusta e proporcional, caso a caso, e que não
é possível apontar os abusos cometidos por cada perfil sem uma análise
individualizada. A empresa citou diretamente direitos fundamentais como a
liberdade de manifestação do pensamento e o discurso político.
O X
também trouxe à tona decisões do Supremo Tribunal Federal. A empresa mencionou
o entendimento do ministro Luís Roberto Barroso de que figuras públicas,
especialmente políticos, devem suportar críticas mais duras do que cidadãos
comuns. Para a plataforma, as postagens questionadas integram um debate
político em curso e não há base para uma quebra automática de sigilo.
Em
nota, a assessoria de Flávio tentou enquadrar o caso como uma questão de
legalidade, não de censura. “Flávio Bolsonaro é um defensor da liberdade de
expressão e entende que a Justiça brasileira tem as ferramentas necessárias
para agir quando há crime. E, neste caso, tudo o que se quer é fazer valer a
lei e retirar do ar as mentiras publicadas pela esquerda”, diz o texto.
A
resposta do X foi direta. “Evidentemente, manifestações que configurem ameaça,
imputação sabidamente falsa de fato determinado ou abuso manifesto podem
ensejar responsabilização. Contudo, não é possível presumir a ilicitude a
partir da mera contundência da linguagem ou do desconforto gerado por críticas
políticas”, afirmou a empresa.
A
plataforma ainda levantou um alerta sobre o risco de assédio judicial, prática
em que figuras com poder institucional usam processos para intimidar críticos,
mesmo sem intenção real de levá-los a julgamento. A exposição de dados pessoais
de usuários, sem comprovação de envolvimento em condutas ilícitas, criaria um
ambiente de autocensura nas redes.
No
plano legal, o X argumentou que o Marco Civil da Internet obriga plataformas a
manter apenas dados de acesso dos últimos seis meses. IPs de login e registros
de conexão estão dentro dessa obrigação. CPF, telefone e e-mail, porém, são
outra categoria e só podem ser fornecidos mediante decisão judicial específica
e fundamentada.
O
pedido de sigilo do processo, feito por Flávio, foi negado pelo juiz Marcello
Filho, da 2ª Vara Cível da Pavuna. O magistrado determinou que o X se
manifestasse. A plataforma recorreu da decisão, e o processo está parado,
aguardando nova avaliação.
O
episódio tem peso simbólico além dos autos. Durante o governo Bolsonaro, a
narrativa dominante da direita era de que qualquer regulação de plataformas
digitais equivalia à censura estatal. O argumento foi usado para bloquear
projetos de lei, atacar o STF e construir uma base eleitoral calcada na ideia
de que a internet era o último território livre. Agora, um dos principais
herdeiros desse discurso usa o aparato judicial para tentar descobrir quem são
os anônimos que o criticam online.
Para o
leitor brasileiro, o caso importa por uma razão concreta: o resultado desse
processo pode estabelecer precedentes sobre até onde um político pode ir para
identificar críticos nas redes sociais. Se o pedido de Flávio fosse aceito,
qualquer pessoa que criticasse um parlamentar com linguagem dura, mas sem
cometer crime, poderia ter seus dados entregues à assessoria do próprio
criticado.
O X,
por ora, segurou a linha.
• Abin paralela: União é alvo de ação
civil inédita por espionagem ilegal de jornalistas. Por Thiago Domenici
Nesta
terça-feira, 7 de abril, Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Associação Brasileira
de Jornalismo Investigativo (Abraji), Artigo 19 Brasil, Federação Nacional dos
Jornalistas (FENAJ) e Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São
Paulo ingressaram com uma ação civil pública conjunta contra a União.
O
processo denuncia o uso da máquina pública para o monitoramento ilegal de
jornalistas e comunicadores, por meio da ação de uma organização criminosa
instalada no âmbito da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o
mandato do então presidente Jair Messias Bolsonaro.
A ação
quer responsabilizar o Estado pelo funcionamento da chamada “Abin paralela”,
estrutura clandestina que, segundo a petição, usou ferramentas de vigilância
digital para monitorar ilegalmente jornalistas, opositores e autoridades
durante o governo do ex-presidente, que está em prisão domiciliar condenado a
27 anos e 3 meses de detenção por tentativa de golpe de Estado.
O
processo sustenta que o caso não diz respeito apenas a desvios administrativos
ou ao uso irregular de aparelhos de inteligência. Para as entidades autoras,
trata-se de uma violação direta a garantias constitucionais que protegem o
exercício do jornalismo e, por consequência, o direito da sociedade de ser
informada.
A peça
lembra que a liberdade de imprensa e a democracia mantêm, nas palavras do
Supremo Tribunal Federal (STF), uma relação de mútua dependência, a ponto de
terem sido descritas, no julgamento da ADPF 130, como “irmãs siamesas”. O
julgamento da ADPF 130 pelo STF, em 30 de abril de 2009, consolidou a liberdade
de imprensa no Brasil ao declarar que a Lei de Imprensa (Lei 5.250/1967) não
foi recepcionada pela Constituição Federal de 1988. A decisão proibiu a censura
prévia, assegurando a livre circulação de informações e o pensamento crítico.
A
argumentação também se apoia em parâmetros internacionais. A petição cita o
entendimento consolidado da Corte Interamericana de Direitos Humanos, segundo o
qual a liberdade de expressão é uma pedra angular da vida democrática, e
recorda que uma sociedade mal informada não é plenamente livre. O documento
ainda reproduz trecho de relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para
os Direitos Humanos que alerta para o efeito inibitório da vigilância sobre a
imprensa: “quando jornalistas e suas fontes passam a temer monitoramento, o
debate público se retrai e o ambiente democrático se deteriora”.
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Abin Paralela sob Bolsonaro
É nesse
ponto que a ação conecta o caso da “Abin paralela” ao recente histórico de
hostilidade contra a imprensa no país. A FENAJ registrou 208 casos de violência
contra jornalistas em 2019, 428 em 2020 e 430 em 2021. No mesmo período, a
Abraji apontou uma alta expressiva nos alertas de agressões contra
profissionais de imprensa, enquanto o Brasil aparecia na 92ª posição no Ranking
Mundial da Liberdade de Imprensa de 2023, elaborado pela RSF. Para as
organizações, esse ambiente de ataques, intimidação e desinformação ajuda a
explicar por que a espionagem de repórteres por estruturas estatais não pode
ser tratada como um episódio isolado.
Na
ação, as entidades também buscam demonstrar sua legitimidade para levar o caso
à Justiça. A FENAJ invoca o artigo 8º, inciso III, da Constituição para
defender, judicialmente, os interesses coletivos da categoria. O Sindicato dos
Jornalistas de São Paulo destaca sua trajetória histórica: foi fundado em 1937
e possui registro sindical desde 1941. Já a RSF, criada internacionalmente em
1985 e atuante no Brasil desde 2016, reafirma sua missão de proteger a
liberdade e a independência do jornalismo. A Artigo 19 Brasil recorda sua
atuação em defesa da liberdade de expressão e do acesso à informação, com
status consultivo junto à ONU desde 1991. A Abraji, fundada em 2002 após o
assassinato do repórter Tim Lopes, informa que hoje reúne 463 jornalistas
associados, professores e estudantes de jornalismo em 23 estados brasileiros.
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Por que isso importa?
• Em janeiro deste ano, a
Controladoria-Geral da União (CGU) recomendou a demissão de 14 oficiais de
inteligência e policiais federais via processos administrativos disciplinares
(PAD) por suposto envolvimento no caso da “Abin Paralela”.
• Já a Polícia Federal, em junho do ano
passado, concluiu as investigações sobre a “Abin Paralela” citando entre os
integrantes o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu filho Carlos Bolsonaro e o
ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem.
O
núcleo factual da ação está ancorado nas investigações da Polícia Federal (PF)
sobre o uso do software First Mile, adquirido sem licitação por R$ 5,7 milhões.
Segundo a petição, a ferramenta permitia rastrear, em tempo real, a localização
de telefones celulares, sem autorização judicial, por meio da exploração da
infraestrutura crítica da rede móvel. A Operação Vigilância Aproximada
identificou 60.734 registros de buscas e descreveu a existência de uma
organização criminosa complexa na Abin, voltada ao desvio de recursos e à
utilização clandestina de meios de inteligência para fins particulares e
políticos.
O
parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR) mencionado na ação reforça
esse diagnóstico ao afirmar que as consultas eram realizadas, em grande parte,
sem ordens formais e de modo a evitar rastros materiais. Para as entidades
autoras, isso mostra que o monitoramento não se deu em zona cinzenta, mas à
margem do controle judicial e em afronta direta à chamada reserva de
jurisdição. A PF, citada na petição, conclui que o uso do termo “First Mile”
constituiu uma “grave distorção do conceito de inteligência”.
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Jornalistas espionados
A peça
enumera nove jornalistas monitorados e descreve como a vigilância alcançou
profissionais que haviam produzido reportagens críticas ou sensíveis. Entre
eles está Alice Maciel, à época repórter da Agência Pública, atualmente no ICL
Notícias, que foi monitorada em maio de 2022. Conversas reproduzidas no
processo mostram investigadores tentando identificar sua posição política e
“ver o lado que a jornalista joga”.
O texto
também cita Pedro Cesar Batista, monitorado 43 vezes antes da organização de um
ato do movimento Fora Bolsonaro; Luiza Alves Bandeira, que passou a ser alvo
após publicar um estudo sobre desinformação e teve até a mãe rastreada; além de
Mônica Bergamo, Leandro Demori e Vera Magalhães, todos mencionados como alvos
de monitoramento ou de campanhas correlatas de perseguição e intimidação.
Para as
entidades, o efeito mais grave dessa engrenagem vai além da devassa sobre a
vida privada dos profissionais. Quando o Estado monitora jornalistas, atinge
também o sigilo da fonte, garantia prevista no artigo 5º, inciso XIV, da
Constituição, considerada essencial à produção de reportagens de interesse
público. A própria petição sustenta que proteger a origem da informação não é
um privilégio corporativo, mas uma condição prática para que fatos de
relevância coletiva venham à tona.
Dentre
os pedidos finais da ação, destaca-se a indenização por danos morais coletivos
à categoria dos jornalistas. O objetivo é a responsabilização histórica da
União pelas graves violações praticadas por agentes da Abin, além da inclusão
de representantes da sociedade civil no mecanismo externo de controle da Abin,
atualmente efetuado apenas pelo Poder Legislativo. A Ação pede ainda a inclusão
de cursos de formação para agentes da Abin, voltados à proteção e às garantias
do exercício do trabalho jornalístico.
• Entenda o racha entre Eduardo Bolsonaro
e Nikolas Ferreira! Valdemar tenta apagar incêndio no PL
O
bolsonarismo está em guerra consigo mesmo. O presidente do PL, Valdemar Costa
Neto, precisou intervir pessoalmente para tentar conter o atrito público entre
os deputados Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG), numa crise
que expõe a fragilidade do movimento às vésperas de um ano eleitoral. Valdemar
confirmou que vai se reunir com Eduardo nos Estados Unidos e conversar
diretamente com Nikolas para tentar unificar o discurso do grupo. “Vou
conversar com o Nikolas e também com Eduardo em Miami. Vamos acertar isso”,
disse. A avaliação do chefe do partido é de que o momento não permite luxos.
“Essa eleição vai ser na casca”, afirmou.
O
estopim foi um atrito nas redes no último sábado (4). Eduardo criticou Nikolas
por não apoiar a pré-candidatura de seu irmão Flávio Bolsonaro à presidência.
Nikolas respondeu com um simples “kkk”. A reação de Eduardo foi longa, pessoal
e reveladora de uma tensão acumulada há meses.
“Risinho
de deboche para mim, @nikolas_dm? Ao que parece, não há limites para seu
desrespeito comigo e minha família. Triste ver essa versão caricata de si
mesmo. Não é, nem de longe, o menino que conheci, apoiei e acreditei. Os
holofotes e a fama te fizeram mal, infelizmente. Demorei muito para acreditar
que você trabalhava o algoritmo das suas redes para dar visibilidade a quem
deseja a morte de meu pai, a quem comemora a prisão dele e a todos os que
odeiam a mim e a minha família. Foi com bastante tristeza que vi você trabalhar
ativamente contra quem acreditou e apoiou você, quando era um assessor
desconhecido e com um sonho na mente”, escreveu o deputado.
O texto
revela o que está em disputa: o controle sobre o ambiente digital da direita
brasileira. Nikolas acumulou um alcance nas redes que nenhum outro nome do
campo bolsonarista conseguiu replicar. Eduardo interpreta esse poder como uma
moeda que deveria estar sendo usada em favor da família.
A
crise, porém, tem raízes mais profundas. Michelle Bolsonaro e Nikolas apostavam
em Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) como o candidato natural da direita em
2026. Com Tarcísio fora da disputa, os dois se distanciaram da pré-campanha de
Flávio, escolhido por Jair Bolsonaro como herdeiro político. A postura irritou
Eduardo, que passou a acusar Michelle e Nikolas de “amnésia” e de “jogar o
mesmo jogo”.
A
lógica é conhecida: o bolsonarismo sempre foi menos um projeto político do que
uma disputa por lealdade pessoal à família Bolsonaro. Qualquer figura que
cresça demais fora desse eixo vira ameaça.
Flávio
Bolsonaro tentou suavizar o conflito em entrevista ao podcast Inteligência
Ltda, na segunda-feira (6). “Respeito o tempo de todo mundo, porque o Nikolas é
a maior potência digital. Ele tá comigo, 100%. É um moleque de ouro. Apesar da
idade, é um cara maduro, inteligente, que entende o jogo político, que ajuda
demais expondo o PT, esfregando a verdade sobre o PT. São vídeos maravilhosos”,
afirmou.
O
discurso conciliador de Flávio contrasta com a agressividade de Eduardo e
evidencia a divisão interna: enquanto um tenta manter alianças, o outro cobra
fidelidade irrestrita. No centro do ringue, Nikolas observa, calcula e responde
com um “kkk”.
Para o
Brasil, o racha importa. Um bolsonarismo fragmentado altera o tabuleiro
eleitoral de 2026, redistribui apoios e pode abrir espaço para candidaturas
fora do controle da família. Valdemar sabe disso. Por isso viajou.
Fonte:
O Cafezinho/Agência Pública

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