Mulheres
trans têm vantagens injustas no esporte?
A
controvérsia sobre atletas transgêneros em esportes competitivos já transcorre
há anos. Em 2025, nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump assinou em um
decreto proibindo a participação trans em nível nacional.
Nesta
semana, foi a vez de o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciar que
apenasatletas mulheres "biológicas", reconhecidas por um teste
genético, poderão participar de provas da categoria feminina daqui em diante.
Na
prática, as novas regras impedem atletas transgênero ou com diferenças no
desenvolvimento sexual de competir em provas femininas nos Jogos Olímpicos.
Antes, elas podiam competir caso fossem liberadas por suas federações.
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Há diferenças no desempenho físico?
Homens
e mulheres são avaliados separadamente na maioria dos esportes. Em 2023,
cientistas fizeram uma declaração conjunta que consolidou esse entendimento:
"Em eventos atléticos e esportes que dependem de resistência, força
muscular, velocidade e potência, os homens normalmente superam as mulheres
devido a diferenças sexuais fundamentais ditadas por seus cromossomos sexuais e
hormônios sexuais na puberdade, em particular a testosterona".
Mulheres
trans – designadas como do sexo masculino ao nascer, mas que se identificam
como mulheres – também contam com essas vantagens. Se forem submetidas a
terapia hormonal, as diferenças em relação às mulheres cisgênero são reduzidas.
Mas mesmo assim ainda têm vantagens.
Além
disso, a identidade trans é muito confundida no debate público com a
intersexualidade. No caso das pessoas intersexuais, elas têm características
sexuais masculinas e femininas desde o nascimento – que não é o caso das trans.
Num
estudo de 2024, publicado na revista científica British Journal of Sports
Medicine (BJSM), a força absoluta de preensão manual de 23 atletas trans
analisados (que haviam passado por pelo menos um ano de terapia hormonal) foi
menor do que a dos 19 homens cis participantes, mas maior do que a das 21
mulheres cis. A força de preensão manual é considerada um indicador da força
muscular geral.
As
mulheres trans que participaram também tiveram uma vantagem em parâmetros como
o índice de massa magra e o consumo máximo absoluto de oxigênio (VO2 max), uma
medida de condicionamento físico.
Em
algumas modalidades, no entanto, tiveram desempenho pior do que as mulheres
cis, por exemplo no salto vertical por estocada (chamado também de salto de
contramovimento absoluto). De acordo com os autores do estudo, isso mostra a
complexidade da fisiologia das atletas trans. Os pesquisadores alertam contra
uma exclusão preventiva.
"As
mulheres trans, como grupo populacional, são mais altas, maiores e, num sentido
absoluto, mais fortes do que as mulheres cis", explica Joanna Harper,
física médica da Universidade de Loughborough, no Reino Unido. "No
entanto, depois de passar pela terapia hormonal, seus corpos se movem com
capacidade aeróbica e massa muscular reduzidas."
Isso
pode implicar desvantagens em termos de velocidade, recuperação e resistência.
Pessoas trans enfrentam ainda uma carga de preconceito, violência e
discriminação que pode afetar sua saúde mental e não deve ser subestimado como
componente do desempenho atlético, destacam os pesquisadores.
Vantagens
trans mesmo após terapia hormonal
Um
estudo de 2020 realizado pelo médico Timothy Roberts e colegas da Universidade
de Missouri-Kansas City examinou militares dos EUA que se submeteram a cirurgia
de afirmação de gênero.
Após um
ano de terapia hormonal, as trans tiveram melhor desempenho nos esportes do que
as cis. Depois de dois anos, o desempenho praticamente se igualou. De acordo
com os autores do estudo, isso seria uma indicação de que é breve demais o
período de um ano de terapia hormonal, prescrito por algumas associações
esportivas como pré-requisito para participação.
Em
2021, Alun Williams e outros pesquisadores da Associação Britânica de Ciências
do Esporte e Exercícios concluíram, com base nos indícios científicos
disponíveis, que a terapia hormonal só elimina uma parte da vantagem masculina,
mesmo após dois anos. Não há, portanto, uma unanimidade sobre o tema entre
pesquisadores.
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Cromossomos, diferenças sexuais e puberdade
Antes
da puberdade, meninos e meninas são fisiologicamente muito mais parecidos em
termos de desempenho atlético. As diferenças se tornam particularmente claras
quando o nível de testosterona se multiplica nos meninos, por volta dos 11 anos
de idade. Entretanto, algumas pesquisas sobre os primeiros anos de vida mostram
que as diferenças antes da puberdade são maiores do que se supunha
anteriormente.
Em
estudo publicado em 2024, o cientista esportivo Gregory Brown, da Universidade
de Nebraska, e pesquisadores da Universidade de Essex, no Reino Unido,
analisaram o desempenho de crianças com 8 anos ou menos e entre 9 e 10 anos nas
provas de corrida de 100, 200, 400, 800 e 1.500 metros, assim como no arremesso
de peso, lançamento de dardo e salto em distância.
"Os
meninos estavam correndo mais rápido do que as meninas, estavam arremessando
mais rápido, saltando mais rápido", explica Brown. "E, é claro,
calculamos a diferença percentual e chegamos à conclusão de que, na corrida, a
diferença era de cerca de 3% a 6%, dependendo do evento. No salto em distância,
cerca de 5%; para os eventos de arremesso, de 20% a 30%."
De
acordo com Brown, as diferenças pré-pubertárias podem também estar relacionadas
à assim chamada minipuberdade dos meninos nos primeiros meses de vida, bem como
ao cromossomo Y ou ao gene SRY. O Y é um dos dois cromossomos sexuais. As
mulheres geralmente têm dois cromossomos X (XX), e os homens, um X e um Y (XY).
O
cromossomo Y carrega muitos genes associados ao desenvolvimento e à reprodução
masculina. O gene SRY é particularmente importante para o desenvolvimento
sexual masculino, responsável por acionar o desenvolvimento das características
físicas masculinas.
Para
Brown, a descoberta de uma vantagem contínua, mesmo antes da puberdade, lança
ainda mais dúvidas sobre se a terapia hormonal poderia compensar as vantagens
físicas de atletas trans e nivelar as condições de competição, pois a vantagem
masculina iria além dos hormônios e da puberdade.
Os
resultados também lançam dúvidas sobre se seria suficiente, para fins
esportivos, não ter passado pela puberdade masculina. A Associação Mundial de
Atletismo tem se baseado nesse requisito para a participação em competições
femininas desde 2023. Na prática, a regra acaba por excluir atletas trans em
geral, já que a grande maioria não toma medidas de redesignação de gênero antes
da puberdade.
Em
muitos países, bloqueadores de puberdade e cirurgia de mudança de sexo
pré-pubertária são controversos, e o acesso a esses procedimentos é restrito.
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Vantagem de mulheres trans sobre cis nos esportes é injusta?
As
opiniões divergem sobre até que ponto é possível uma competição justa entre
atletas trans e cisgêneros do sexo feminino. Mas os especialistas concordam que
há grande necessidade de mais estudos sobre o desempenho atlético de pessoas
trans em esportes de elite.
Joanna
Harper discorda – em contraste com a avaliação de Brown e Williams – que a
ciência sugira o banimento de mulheres trans das competições femininas: para
ela, a terapia hormonal bastaria.
De
qualquer forma, não existe justiça absoluta no esporte, defende a física
médica: "Há atletas que são talentosos por natureza e, como se sabe, é
justo que atletas menos talentosos tenham que enfrentá-los. Portanto, os
esportes são inerentemente injustos."
"Contudo,
o objetivo de subdividir os esportes em categorias é que as diferenças
biológicas não suplante aquilo que a gente busca nos esportes. Assim, por
exemplo, os boxeadores grandes têm uma vantagem tão enorme sobre os de menor
porte, que segregamos esse esporte por categorias de peso, para que os
boxeadores pequenos possam ganhar alguma coisa", argumenta Harper.
O
exemplo do boxe mostra como pode ser complexa a busca por categorias de
competição que não sejam demasiado, mas suficientemente diferenciadas. A
vantagem masculina também tem efeitos distintos no esporte. Embora crie
diferenças importantes em modalidades que envolvem força, como levantamento de
peso, a situação é diferente em esportes de tiro ou dança.
Por
último, mas não menos importante, a questão da equidade não deve tirar de cena
a da inclusão. O próprio COI manifesta que "Toda pessoa tem o direito de
praticar esportes sem discriminação e de uma forma que respeite sua saúde,
segurança e dignidade. Ao mesmo tempo, a credibilidade do esporte competitivo –
e particularmente das competições esportivas organizadas de alto nível –
depende de uma igualdade de condições."
Fonte:
DW Brasil

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