Lições
de Darwin para o planejamento urbano
O
estudo das cidades como organismos vivos sujeitos às regras da vida e da
evolução remonta pelo menos à segunda metade do século XIX, quando Patrick
Geddes, um botânico escocês nascido em 1854 e um dos pais fundadores do
urbanismo, começou a teorizar que as cidades e seu planejamento deveriam ser
tratados em termos evolutivos. Era inevitável que isso acontecesse. Geddes não
poderia ter passado ileso ao fascínio revolucionário da teoria da evolução. Os
anos de sua juventude, na verdade, são os anos em que a teoria da evolução de
Darwin (A origem das espécies foi publicada pela primeira vez em 24 de novembro
de 1859) muda literalmente o mundo ao explicar não só a origem e a evolução das
espécies como ao fornecer uma nova chave de leitura para toda a realidade. Além
disso, de 1874 a 1879, Geddes estudou em Londres com o influente filósofo e
biólogo Thomas Huxley, um dos mais fervorosos defensores do evolucionismo, – a
ponto de se apelidado de “buldogue de Darwin” –, e sobre o qual Darwin escreveu
com entusiasmo em sua autobiografia: “Sua inteligência é rápida como um
relâmpago e afiada como uma navalha. Ele é o melhor orador que conheço e as
coisas que escreve nunca são banais. Pela sua conversa, ninguém suspeitaria que
ele pudesse lidar com seus oponentes de forma tão incisiva e decisiva. É um
grande amigo, sempre pronto a enfrentar qualquer tipo de problema por mim. […]
Um homem maravilhoso, que sempre trabalhou pelo bem da humanidade”. Era
impossível sair da escola de Huxley sem uma sólida formação evolucionista.
Patrick
Geddes participa da revolução darwiniana e abraça plenamente suas conclusões,
incluindo a nova luz que ela lança sobre todos os campos do conhecimento
humano. Tudo parece perfeitamente projetado para descrever de maneira inédita
até mesmo algo tão antigo quanto uma cidade, só falta alguém que traduza as
descobertas de Darwin para o planejamento urbano. Esse alguém acabou sendo o
próprio Geddes, que em seu livro Cidades em evolução, de 1915, elabora a ideia
de que a cidade deve ser concebida não como um conjunto de estruturas
inorgânicas montadas pelo homem, mas como um organismo cujo desenvolvimento é
determinado pelo meio em que ele vive e que, por sua vez, exerce influência
direta no ambiente a seu redor. Uma cidade que é “semelhante à ramificação de
um grande recife de coral — ambos têm um esqueleto de pedra do qual emergem
pólipos vivos. Vamos chamá-la, se preferirem, de madrépora humana”. Hoje a
analogia entre as cidades e os seres vivos pode parecer bastante familiar, mas
na época foi uma verdadeira revolução. Geddes, com sua abordagem evolucionista,
tornou-se o intérprete de uma nova forma de conceber o planejamento urbano —
uma atividade integrada capaz de compreender as necessidades de uma cidade
viva.
“As
cidades são organismos vivos; elas nascem, desenvolvem-se, desintegram-se e
morrem. […] Em seu sentido acadêmico e tradicional, o planejamento urbano se
tornou obsoleto. Ele deve ser substituído pela biologia urbana”, declarou o
arquiteto e urbanista José Luís Sert em 1942 durante o Congresso Internacional
de Arquitetura Moderna. Mas embora saibamos que o estudo e a compreensão do
metabolismo e do catabolismo das cidades trariam consequências decisivas para o
meio ambiente e proporcionariam enormes melhorias no âmbito de sua eficiência,
a visão de Geddes, embora apresentasse todos os requisitos para mudar o
planejamento urbano moderno, não vingou.
Parte
da responsabilidade por essa revolução fracassada deve ser atribuída ao próprio
Geddes, cuja interpretação original da evolução poderia, na época em que ele a
escreveu, ser considerada não alinhada de todo à ortodoxia darwiniana. Mas eram
apenas detalhes; a maior parte das ideias sobre a evolução que ele sugeria
aplicar à teoria do planejamento urbano era, na verdade, perfeitamente coerente
com a teoria darwiniana. Ele estava convencido de que o homem é parte da
evolução e todos seus comportamentos foram moldados por sua história evolutiva;
que as cidades são como organismos complexos cujos comportamentos adaptativos
evoluem e se adaptam ao ambiente de forma realmente autônoma, em grande medida
alheia ao controle de seus projetistas; que o espaço urbano influencia e pode
atuar na evolução social e cultural de seus habitantes. Entretanto, o que
infringia a ortodoxia era sua ênfase na importância da cooperação no
desenvolvimento das cidades, em contraposição à luta pela existência, então
considerada um dos impulsos fundamentais da evolução, o único darwinianamente
aceitável. Nunca lhe perdoaram que, enquanto aluno de Huxley — o principal
divulgador da ideia de que a vida não passa de uma luta contínua à qual apenas
alguns sobrevivem –, ousasse ter uma concepção tão heterodoxa da evolução.
É
preciso ter em mente que, para Thomas Huxley, o conceito de luta pela
existência, do qual Darwin se vale de forma sobretudo metafórica, representa a
verdadeira e tangível contrapartida natural do “estado de contínua inimizade”
descrito por Hobbes no Leviatã, que induz os homens a viver “na situação e
postura dos gladiadores, com armas em riste e os olhos fixos uns nos outros”.
Devemos a Huxley a difusão da imagem do gladiador mais próxima de uma ideia de
evolução conforme a qual, fora das “relações familiares limitadas e
temporárias, a guerra hobbesiana de todos contra todos” constitui “o modelo
normal da existência”; uma posição que foi muito popular e prontamente adotada
e difundida pelos chamados darwinistas sociais. Em breve, a imagem da vida como
uma arena de gladiadores decididos a massacrar uns aos outros se tornaria a
representação banal e errônea pela qual a teoria da evolução seria conhecida
entre o grande público. Essa visão produziria, e infelizmente continua a
produzir, enormes danos, tendo sido criticada publicamente, na época de Geddes,
apenas por pouquíssimos intelectuais.
Um
desses personagens, relevante para nossa história porque ligado a Patrick
Geddes por sentimentos de estima e amizade mútua, é Élisée Reclus, geógrafo
francês muito conhecido e autor, entre 1876 e 1894, de uma monumental Nouvelle
Géographie universelle. Crítico feroz dos darwinistas sociais e de sua visão
gladiatória da vida, escreveu que “eles dizem isso com uma espécie de raiva,
como se ver sangue os incitasse a matar”. Sua ideia de evolução, plenamente
compartilhada com Patrick Geddes, é muito diferente. Ele não enfatiza a
evolução do mais apto através da luta individual com unhas e dentes, mas o
valor da solidariedade, graças à qual assistimos à associação de forças
espontâneas e coordenadas que levam ao progresso. Nas palavras de Reclus, a lei
da luta cega e brutal pela existência, tão exaltada pelos adoradores do
sucesso, está subordinada a uma segunda lei, a do agrupamento de
individualidades frágeis em organismos cada vez mais desenvolvidos, que
aprendem a se defender das forças inimigas, a reconhecer e até mesmo criar
recursos do próprio ambiente. Sabemos que, se nossos descendentes atingirem seu
elevado destino de ciência e liberdade, isso será devido ao encontro cada vez
mais íntimo, à colaboração incessante, à ajuda mútua a partir da qual a fraternidade
cresce gradualmente.
É a
esse tipo de evolução que Geddes se refere com sua concepção evolucionária da
cidade. Uma evolução que não age através da luta total de todos contra todos,
mas que retira sua força fundamental da cooperação entre seus habitantes.
Uma
visão que sabemos ser respaldada por sólidas evidências científicas a partir
das importantes pesquisas da bióloga Lynn Margulis. De fato, a cooperação, o
apoio mútuo ou, como dizemos hoje, a simbiose, é verdadeiramente um dos
principais motores da evolução, cuja ação afeta indiferentemente os indivíduos,
as comunidades e até o desenvolvimento das cidades.
Além da
amizade com Reclus, Geddes foi beneficiado pela proximidade com Kropotkin, a
quem conhecia pessoalmente e estimava, e que desempenhou um papel decisivo
sobre suas considerações a respeito da cooperação como fator de evolução. Em
1902, o príncipe russo Piotr Alekseiévitch Kropotkin, filósofo, cientista, um
dos pais do pensamento anarquista, e sobretudo grande biólogo evolucionista
contrário às teses simplistas de Huxley, publicou um volume decisivo intitulado
Ajuda mútua: um fator de evolução, cujo início diz:
Dois
aspectos da vida animal me impressionaram particularmente durante as viagens
que fiz quando jovem à Sibéria Oriental e ao norte da Manchúria. O primeiro foi
a extrema dureza da luta pela sobrevivência que quase todas as espécies animais
tinham que enfrentar contra uma natureza inclemente; a enorme destruição da
vida ocorrida periodicamente por causas naturais; e a consequente escassez de
vida no vasto território que tive a oportunidade de observar. O outro aspecto
era não ter conseguido encontrar, mesmo procurando incessantemente, até
naqueles poucos lugares onde havia muita vida animal, aquela tal luta feroz
pelos meios de subsistência entre animais pertencentes à mesma espécie, que a
maioria dos darwinistas (mas nem sempre o próprio Darwin) considerou a
característica dominante da luta pela vida e o principal fator da evolução.
Em seu
livro, Kropotkin defende uma tese sugestiva fundamental para a teoria urbana.
Explica que, em suas inúmeras viagens a algumas das áreas mais inóspitas do
planeta, quase nunca encontrou entre as populações vegetais, animais e humanas
dessas áreas comportamentos que pudessem ser descritos como competitivos ou, em
geral, parecidos com aquela ideia de uma arena onde sobrevive o mais temível.
Pelo
contrário, o que lhe parecia evidente era que havia uma atitude generalizada e
consciente de apoio mútuo e que em ambientes extremos, como na Sibéria, a única
possibilidade de sobrevivência de qualquer organismo vivo era por meio da
colaboração plena e incondicional com todos os outros indivíduos da espécie e,
muitas vezes, também com aqueles de outras espécies. Certamente não era por
meio da competição. Kropotkin também escreve que, pelo que viu em suas viagens,
a competição entre indivíduos só pode existir quando ocorrem concomitantemente
dois fatores muito importantes: um ambiente favorável e estável combinado a uma
riqueza de recursos. Quando um desses requisitos não é atendido, a cooperação,
ou melhor, a ajuda mútua, é de longe o sistema mais eficiente e, portanto,
preferível pela evolução, para garantir a sobrevivência.
Trata-se
de uma intuição extraordinária que parece ir contra o senso comum. É justamente
em condição de escassez de recursos que imaginaríamos a maior competição, não
em condições de abundância. Quantas vezes pensamos que homens ou animais que
lutam com ferocidade para garantir os poucos recursos disponíveis são a
representação clara da necessidade de competir para sobreviver? A ética do
gladiador, conforme a qual apenas um permanece vivo: o mais forte. Kropotkin,
graças a suas observações oportunas e à miríade de exemplos bem documentados,
fornece pela primeira vez evidências científicas para respaldar a ideia de que
a cooperação é uma força motriz fundamental da evolução. Uma intuição que não
só sabemos ser verdadeira, mas que numa época como a nossa, caracterizada por
um ambiente instável (como o que resulta do aquecimento global) e pelo declínio
dos recursos, assume uma relevância ainda mais excepcional para a forma como
nós imaginamos e construímos nossas cidades.
Podemos,
portanto, afirmar com segurança que a ênfase na sinergia e a cooperação que
Geddes sublinha em seus escritos sobre a cidade são totalmente corroboradas
pelo conhecimento científico atual. Desse ponto de vista, sua observância dos
preceitos da evolução está salva. No entanto, onde a ortodoxia vacila um pouco,
a ponto de ser incompatível com o ensinamento darwiniano, é quando Geddes
sugere que a evolução urbana deve ser imaginada como um desdobramento gradual
de um tipo de programa de desenvolvimento inerente à própria cidade. Na
verdade, a evolução darwiniana nega essa ideia. Não há uma finalidade para a
evolução, não há um modelo a ser alcançado, tampouco um aumento de
complexidade, como às vezes se diz. Não existe isso. A evolução não pode ser prevista,
pois a mudança pode ocorrer em qualquer direção. A única certeza que podemos
ter é que ela continuará trabalhando incansavelmente, adaptando espécies, assim
como cidades, às condições de um ambiente mutável.
Uma das
ideias principais da teoria da evolução que Geddes não entende, ou talvez não
aceite, é que uma combinação de pequenas mudanças, muitas vezes completamente
desconectadas entre si, pode levar a uma grande mudança. Essa é uma das
percepções mais poderosas de Darwin. Pequenas mudanças aleatórias podem
acarretar o surgimento de uma nova ordem. A evolução não acontece por meio de
convulsões, mas por pequenas mudanças graduais. Aqui reside uma das lições mais
valiosas para os urbanistas: o destino de uma cidade não está só nas mãos de um
escritório de arquitetura ou da administração, mas nas ações de seus cidadãos,
que com seus atos e escolhas cotidianas no médio e longo prazo modificam sempre
e de forma imperceptível sua estrutura. A partir desse ponto de vista, o
trabalho daqueles que são chamados a imaginar o futuro das nossas cidades deve
levar em conta a força inexorável da evolução. Quanto um arquiteto poderia
aprender lendo A variação das plantas e animais domesticados, de Charles
Darwin! E no entanto parece que muitos urbanistas continuam entre os últimos
criacionistas, os últimos que ainda acreditam no poder criativo do projeto.
Fonte:
Por Stefano Mancuso, em Outras Palavras

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