Eduardo
S. Vasconcelos: O sangue da hidra
Há
conflitos que não podem ser lidos apenas como disputa militar, controvérsia
diplomática ou choque de interesses imediatos. Há conflitos que exigem uma
chave interpretativa mais funda, capaz de articular poder, mito, matéria,
ideologia e história. O caso do Irã pertence a essa ordem.
Para
compreendê-lo, não basta reproduzir o vocabulário habitual da segurança
internacional, da proliferação nuclear ou da estabilidade regional. É preciso
ir além da superfície estratégica e perguntar pela forma do poder, pela lógica
da violência e pela estrutura simbólica que organiza a narrativa dos vencedores
e dos vencidos.
Uma
analogia ajuda a abrir essa camada mais profunda: a da Hidra de Lerna. Na
mitologia grega, a hidra era o monstro que renascia a cada golpe. Cortava-se
uma cabeça; outras surgiam. Não era um inimigo que se derrotava por simples
superioridade física. Era preciso impedir sua regeneração. Héracles só a vence
com a ajuda de Iolau, que cauteriza os pescoços decepados e bloqueia o
mecanismo de retorno. Mas a lenda não termina com a vitória. Depois de matar a
hidra, o herói mergulha suas flechas no sangue venenoso do monstro. Mais tarde,
é esse mesmo veneno, por vias indiretas, que retorna e o destrói.
Tal
narrativa contém uma filosofia política condensada. Ela ensina duas coisas ao
mesmo tempo. Primeiro, que certos poderes não sobrevivem por força bruta
isolada, mas por capacidade de recomposição. Segundo, que o vencedor que
transforma a substância do inimigo em instrumento de domínio pode acabar
intoxicado por aquilo que julgava controlar.
É nesse
ponto que a analogia se torna especialmente fecunda para pensar o Irã e também
para pensar aqueles que, em nome da ordem, da estabilidade ou da civilização,
se atribuem o direito de contê-lo, discipliná-lo ou submetê-lo. Aqui, Estados
Unidos e Israel aparecem não como simples atores estratégicos, mas como figura
histórica específica: o Hércules civilizador.
A
expressão não é casual. Ela nomeia uma forma de poder que se vê a si mesma como
portadora da ordem, da racionalidade e da legitimidade universal. O Hércules
civilizador não age apenas; ele narra sua ação como necessidade moral. Não
apenas combate; define quem é o monstro. Não apenas intervém; converte a
intervenção em dever histórico.
Trata-se
de uma velha estrutura de autolegitimação do poder imperial: a violência se
apresenta como tutela, a exceção como responsabilidade, a força como defesa da
civilização. O problema é que toda vez que um centro de poder se investe desse
papel, ele deixa de apenas administrar conflitos e passa a produzir uma
gramática moral que autoriza a escalada permanente.
É aqui
que a analogia com a hidra ilumina a forma do poder iraniano. O Irã
contemporâneo não pode ser compreendido apenas como um Estado nacional comum,
nem como mera ditadura, nem como simples teocracia tradicional. Sua estrutura é
mais complexa. A República Islâmica foi organizada para sobreviver à simples
troca de nomes e cargos. O eixo do velayat-e-faqih instituiu uma soberania
teológico-política em que a legitimidade não decorre apenas da vontade popular,
mas de uma tutela superior, religiosamente qualificada, que vigia e enquadra a
política ordinária.
Ao
redor desse centro se articulam instituições de filtragem, coerção, arbitragem
e reprodução: liderança suprema, conselhos, clero, aparato judicial, redes de
mobilização moral, forças securitárias e complexos econômicos associados ao
poder.
A
analogia da hidra funciona porque o regime iraniano não repousa numa única
cabeça. Ele foi desenhado como sistema de redundância e continuidade. Se uma
liderança enfraquece, outra absorve a função. Se uma crise se abre, a máquina
tenta metabolizá-la. Se a legitimidade oscila em um ponto, ela é compensada por
coerção, religiosidade política, burocracia ou nacionalismo defensivo em outro.
A hidra iraniana, portanto, não é um caos multicéfalo; é uma pluralidade
hierarquizada de centros de recomposição. Sua força não está apenas no número
de cabeças, mas no princípio que lhes permite voltar.
Essa
leitura, porém, só fica completa quando se acrescenta outro elemento da lenda:
o sangue. No mito, o sangue da hidra é veneno e arma. No plano geopolítico, a
imagem ganha densidade quando esse sangue passa a ser lido como o petróleo
iraniano. Não porque tudo se explique pelo petróleo, mas porque ele expressa,
de maneira material e concentrada, a substância vital que sustenta o corpo do
Estado e, ao mesmo tempo, desperta cobiça, interesse e disputa. O sangue da
hidra, aqui, é a seiva estratégica que faz do Irã não apenas uma ameaça, mas um
objeto de cálculo, captura e contenção.
Essa
inflexão é decisiva. Ela impede que o conflito seja narrado apenas em termos
idealizados, como luta entre segurança e perigo, democracia e autoritarismo,
estabilidade e desordem. O petróleo inscreve o Irã na geopolítica da energia,
das rotas marítimas, das cadeias de abastecimento, da precificação global e da
hegemonia regional.
Em
outras palavras, o monstro não é combatido somente porque assusta. Ele também é
combatido porque carrega, em suas veias, algo que o torna valioso. O Hércules
civilizador não quer apenas conter a Hidra; quer condicionar a circulação do
seu sangue, vigiar seus usos, limitar sua autonomia e impedir que sua
substância alimente ordens regionais não subordinadas ao centro hegemônico.
É
exatamente nesse ponto que a analogia se abre para uma leitura sociológica. O
poder, como ensinou Max Weber, nunca se sustenta apenas pela força; ele requer
legitimidade. Mas a legitimidade moderna raramente se apresenta em estado puro.
Ela é produzida por instituições, narrativas, procedimentos, símbolos e,
sobretudo, pela capacidade de definir a normalidade.
Michel
Foucault mostrou que o poder moderno não opera apenas pelo interdito, mas pela
produção de regimes de verdade. Quem define o que é ameaça define também as
fronteiras do aceitável. Quem monopoliza a linguagem da segurança tende a
monopolizar, por extensão, a linguagem da exceção. O Hércules civilizador é,
nesse sentido, um produtor de verdade política: ele nomeia a Hidra, estabelece
seu grau de monstruosidade e apresenta sua própria violência como racionalidade
defensiva.
Mas a
sociologia do poder também ensina outra coisa: nenhuma dominação é
completamente estável. Todo regime de poder depende de trabalho contínuo de
reprodução. Isso vale para o Irã e vale igualmente para seus adversários. A
República Islâmica precisa reproduzir sua legitimidade por meio de religião
política, narrativa anti-imperial, coerção e administração das lealdades.
O
Hércules civilizador, por sua vez, precisa reproduzir a crença de que sua força
é diferente da força dos outros, de que sua violência tem fins superiores, de
que sua hegemonia é proteção e não império. Nessa disputa, não se enfrentam
apenas exércitos ou Estados; enfrentam-se regimes concorrentes de legitimação.
Hannah
Arendt observou que violência e poder não são idênticos. A violência pode
destruir poder, mas não consegue criá-lo de forma duradoura. Essa distinção é
crucial. O Hércules civilizador frequentemente confunde capacidade destrutiva
com autoridade histórica. Imagina que a superioridade militar lhe permite
reorganizar a realidade sem corroer os fundamentos simbólicos de sua própria
ordem. Essa é a forma moderna da hybris. Na tragédia grega, hybris não é mero
orgulho. É desmedida. É a cegueira do poderoso que acredita poder atravessar
limites sem pagar o preço. É a ilusão de que a força basta porque se julga
portadora de um mandato superior.
A
tragédia política começa precisamente aí. Quando o Hércules civilizador ataca a
Hidra, ele não se limita a tentar destruí-la. Ele se aproxima também do seu
sangue. Quer usá-lo, administrá-lo, neutralizá-lo como recurso do adversário e,
se possível, integrá-lo ao seu próprio cálculo estratégico. Em linguagem
contemporânea, isso significa transformar guerra, sanção, excepcionalismo e
pressão permanente em instrumentos normais de governo regional.
O
problema é que nenhuma potência manipula indefinidamente o veneno sem ser
alterada por ele. A violência reiterada molda instituições, mentalidades,
economias e imaginários. O uso permanente da exceção degrada o senso de limite.
O aparato de segurança tende a expandir sua centralidade. A guerra, apresentada
como técnica, torna-se ecossistema.
É aqui
que a mitologia encontra a categoria moderna do blowback. O termo designa o
retorno imprevisto ou deslocado das ações de poder contra quem as produziu. O
que foi lançado para fora volta para dentro. O que parecia instrumento
controlável reaparece como custo difuso, corrosão moral, dependência
estratégica ou crise sistêmica. O sangue da Hidra, transformado em arma,
torna-se fator de autointoxicação do próprio vencedor.
No caso
do Irã, esse retorno pode assumir formas diversas: radicalização do conflito,
fortalecimento das alas mais duras do regime, fechamento de frestas
reformistas, nacionalismo defensivo, instabilidade energética, erosão de
legitimidade internacional e ampliação da dependência da força como método.
Há,
portanto, uma dialética perversa no conflito. O Irã pode transformar ataque
externo em coesão interna. O Hércules civilizador pode transformar sua própria
pretensão civilizatória em máquina de exceção contínua. Ambos se alimentam do
conflito, mas de maneiras distintas. O primeiro o metaboliza como resistência;
o segundo o justifica como ordem. O resultado é um espelho trágico: a hidra
fortalece sua capacidade de regeneração enquanto o Hércules civilizador
aprofunda sua própria intoxicação pelo veneno que instrumentaliza.
Essa
constatação permite escapar de dois reducionismos. O primeiro é o do moralismo
fácil, que divide o mundo entre monstruosidade absoluta e civilização
redentora. O segundo é o do materialismo vulgar, que reduz tudo ao petróleo. O
conflito é mais denso. Ele envolve teologia política, formação estatal,
securitização, economia da energia, racionalidade imperial, regimes de verdade
e disputas de legitimidade.
O
petróleo é central, mas não esgota a equação; a ideologia importa, mas não
basta; a religião mobiliza, mas não explica tudo; a estratégia organiza, mas
não se move sozinha. O que há é uma totalidade contraditória em que matéria e
símbolo, violência e narrativa, soberania e recurso se entrelaçam.
Talvez
a maior força da analogia esteja justamente em obrigar a uma pergunta
desconfortável: quem é, afinal, o monstro? A resposta não pode ser simples. O
Irã não é inocente; tampouco é um corpo homogêneo. Seu regime articula coerção,
tutela religiosa e limitação da política. Mas o Hércules civilizador também não
é inocente. Seu discurso de contenção não elimina a estrutura de interesse que
o move, nem apaga a pretensão de definir, unilateralmente, os contornos da
ordem legítima. Em termos filosóficos, a analogia desmonta a autocomplacência
do poder civilizador. Mostra que a civilização, quando se converte em
justificativa para a violência sem limite, começa a carregar dentro de si uma
forma de barbárie racionalizada.
Essa é
uma lição antiga. Desde a crítica da razão instrumental até a sociologia da
dominação, sabe-se que o poder moderno é especialmente perigoso quando passa a
se perceber como tecnicamente neutro e moralmente superior ao mesmo tempo. O
Hércules civilizador encarna essa combinação. Ele não age em nome de um
interesse confessado, mas em nome de uma ordem apresentada como universal. Essa
universalidade proclamada é sua força e também seu risco. Porque quanto mais o
poder acredita ser a medida da normalidade, menos percebe o grau em que já se
tornou prisioneiro de sua própria desmedida.
No fim,
a analogia da hidra não serve para oferecer respostas fáceis, mas para
sofisticar a pergunta. O Irã é a hidra porque sua estrutura político-religiosa
foi montada para regenerar poder. Seu petróleo é o sangue porque sustenta o
corpo estatal e atrai disputa. O Hércules civilizador é a figura do poder que
se imagina autorizado a destruir o monstro e usar sua substância sem ser tocado
por ela. A tragédia começa quando essa crença se torna método.
O
ensinamento mais fundo talvez seja este: nem toda vitória política é cura
histórica. Há vitórias que já nascem contaminadas pelo instrumento que as
produz. Há triunfos táticos que carregam, desde o início, a semente da corrosão
estratégica. E há potências que, ao tentarem governar o mundo pelo veneno,
descobrem tarde demais que já não sabem mais viver fora dele. Como no mito, em
que o sangue da hidra retorna e conduz Héracles à própria destruição, também na
história o “sangue” convertido em arma – o aqui figurado no petróleo, na guerra
e na vontade de domínio – pode precipitar a queda do próprio Hércules
civilizador.
• Jogando com o extermínio. Por Eugênio
Bucci
Segundo
uma crença liberal do século passado, as guerras arrefeceriam à medida que as
sociedades de mercado prevalecessem e os regimes democráticos, minimamente
estáveis, perdurassem. Pois bem, o que se deu foi o contrário, três vezes o
contrário.
Primeiro
revertério: os regimes democráticos começaram a periclitarar e agora claudicam.
O relatório anual do Instituto V-Dem, o principal ranking da democracia no
mundo, rebaixou os Estados Unidos (até os Estados Unidos). De “democracia
liberal”, o país caiu para “democracia eleitoral”. Na terra do Tio Trump (o Tio
Sam foi deportado) os indicadores de liberdade apodrecem como detritos
burocráticos que o caminhão de lixo se esqueceu de recolher.
Segundo
revertério: o que levava o nome de “sociedade de mercado”, com a livre
iniciativa e a livre concorrência dando as cartas, virou uma degenerescência. O
que temos para hoje é algo entre o crony capitalism, em que os negócios se
viabilizam na base do compadrio de governantes com bilionários (como na Rússia
ou, hoje, nos Estados Unidos), e o “tecnofeudalismo” (termo do economista grego
Yanis Varoufakis), no qual os reis das big techs comandam a vassalagem
generalizada.
Podemos
falar também em capitalismo superindustrial, como sustenta Fernando Haddad, mas
o que importa não é o nome – o que importa é que, das tais sociedades de
mercado, só resta uma carcaça decorativa para salvar as aparências (o pessoal
gosta de aparências).
Terceiro
revertério: as guerras aumentaram em quantidade, intensidade, letalidade e
abrangência. O planeta fumega, e não apenas porque o aquecimento global veio
nos dar o ar de sua graça febril. O ano 2024, considerado o mais mortífero
desde 1945, registrou 129 mil mortes em 61 conflitos armados envolvendo 36
países. O ano de 2026 poderá ser pior, ainda não se sabe. O que se sabe, isto
sim, é que o quadro está mais fora de controle do que estava há dois anos.
Já não
existe um organismo internacional capaz de desarmar o belicismo. A ONU, sem
dinheiro, sem autoridade e sem direção, mal se mantém de pé. Muitas vozes pedem
reformas no Conselho de Segurança e em toda a entidade. Em vão.
As
bestas-feras se desinibiram. Como quem comenta que precisa amarrar o sapato,
Vladimir Putin se declara pronto para acionar seus arsenais atômicos, orgulhoso
de sua “tríade nuclear” (ogivas plantadas em três bases diferentes, devidamente
engatilhadas: mísseis intercontinentais em terra, outros em submarinos soltos
pelos mares e, finalmente, bombas penduradas em monstros supersônicos que
cruzam os céus e os infernos a 16 mil metros de altura).
Nós nos
convertemos numa civilização que joga com o próprio extermínio. A possibilidade
de uma chuva de artefatos mais destrutivos do que aqueles que a Casa Branca
despejou em Hiroshima e Nagazaki pode não ser grande, mas é real.
A
jornalista Annie Jacobsen, autora do livro Guerra nuclear: um cenário, lançado
em inglês no ano passado, calcula que, se um desses doidos encastelados (como
Vladimir Putin, Donald Trump ou Benjamin Netanyahu) disparar uma ogiva
carregada contra o inimigo poderá colher um contra-ataque em cadeia que, em 72
minutos, reduzirá os vivos e os mortos a geleia radioativa.
O poder
está nas mãos dos mascates de explosivos, menos porque reúnam os meios para
construir ou erguer coisas boas, ou mesmo belas, e mais porque detêm as
ferramentas para dizimar os seres e as coisas – as feias, inclusive.
Chantagistas, terroristas de Estado, eles sequestraram tudo o que respira e
cobram o resgate diário em obediência.
A seu
favor, contam com a solicitude do capital, cujos despachantes se convenceram de
que podem prescindir da maior parte dos homens e das mulheres que habitam o
planeta. As chances de morticínios consentidos crescem dia a dia.
Um dos
vários trabalhos de Marc Chagall expostos no Museu de Arte de Zurique, o
Kunsthaus, tem o nome de A guerra. Foi pintado entre 1964 e 1966, nos Estados
Unidos. Casas devoradas pelas chamas, migrações dos desvalidos em carroças,
corpos destroçados e crianças assassinadas se espalham sobre a tela. Ao centro,
resplandece a cabeça gigante de um cavalo branco, com olhos de fria
indiferença. Para mim, o animal evoca o Apocalipse.
Em
outra sala do mesmo museu, um cavalo branco parecido, mas com o olhar de fúria,
domina outro quadro, este de 1897. O título é igual: A guerra. Ali, o
simbolista suíço Arnold Böcklin retratou explicitamente três dos cavaleiros do
Apocalipse, com feições de ódio e demência.
Consta
que Marc Chagall, em meados dos anos 1960, pensava no passado: o horror da
Segunda Guerra. Parece que Arnold Böcklin, em 1897, não olhou para trás, mas
para a frente: a matança que viria no século XX. Marc Chagall viu o Holocausto
no pretérito. Arnold Böcklin conseguiu antevê-lo no amanhã.
Por uma
janela ou por outra, as montarias do fim dos tempos assombraram os dois
artistas. Hoje, desembestadas, elas mandam avisar: a aniquilação que você
chancelou ontem voltará para arrancar a sua cabeça logo ali na esquina. Vai ser
assim, num estalar de dedos. Dedos atômicos.
Estamos
num intervalo efêmero.
Fonte:
A Terra é Redonda

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