Evangélicos
e protestantes são a mesma coisa?
Ser
evangélico é o mesmo que ser protestante? Dizer que alguém é crente é
pejorativo? E o que é ser pentecostal ou neopentecostal?
Esses
são termos cada vez mais comuns nos debates públicos brasileiros, considerando
que nas primeiras duas décadas do século 21 houve um crescimento histórico da
população daqueles que se declaram cristãos evangélicos e, na seara política,
há termos como "bancada evangélica" — e a imprensa costuma rotular de
"pauta evangélica" muitas propostas de natureza mais conservadora.
"Os
evangélicos podem ser vistos como protestantes, mas nem todos os protestantes
podem ser vistos como evangélicos", diz o teólogo e arqueólogo Guilherme
Brasil de Souza, professor no Seminário Latinoamericano de Teologia no Centro
Universitário Adventista de Ensino do Nordeste, e pesquisador-doutorando no
Seminário Teológico de Princeton. Isso porque, de certa maneira, os evangélicos
integram igrejas cristãs que se desdobraram a partir das protestantes.
"No
Brasil, o termo evangélico ganhou contornos no jargão popular como um título
para todos aqueles cristãos não católicos."
Mas há
algumas nuances nesse raciocínio. O jornalista e teólogo Gutierres Fernandes
Siqueira lembra que, se nos Estados Unidos um protestante de linha mais
histórica jamais se nomeia como evangélico, no Brasil "é comum" que
este o faça — porque por aqui muitas vezes ambos os termos são tratados como
sinônimos.
Siqueira,
que é membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, e autor de, entre outros
livros, Quem Tem Medo dos Evangélicos? e Igreja Polarizada, explica que há
motivos históricos e teológicos para que nem todo protestante seja rotulado
como evangélico.
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De Lutero para a América
A raiz
do cristianismo não-católico é o movimento de reforma desencadeado pelo monge
alemão Martinho Lutero (1483-1546) em 1517. A partir daí surgiram, no Ocidente,
as igrejas cristãs não alinhadas à centralidade de Roma.
Na
esteira de Lutero, outros religiosos impetraram reformas naquela época. João
Calvino (1509-1564) se tornou dissidente em 1520, o rei britânico Henrique 8º
(1491-1547) romperia com a Igreja em 1534, e assim por diante.
Curiosamente,
os luteranos eram chamados de "evangélicos" — antes de ganharam o
nome de protestantes. Siqueira comenta que é por isso que, até hoje na Europa,
sobretudo na Alemanha, os cristãos que seguem essa linha costumam se
identificar como evangélicos.
Mas é a
vertente cristã que começa a surgir no século 18 que traz no bojo a ideia de
evangélico no sentido atual do termo.
Souza
esclarece que o "evangelicalismo" é um "movimento de reviramento
religioso que surgiu dentro do protestantismo". E isto tem a ver com um
contexto específico: era uma resposta ao "Iluminismo europeu", ou
seja, ao racionalismo do chamado "século das luzes".
Tanto
no Reino Unido quanto nas então 13 colônias britânicas no continente americano,
religiosos cristãos começaram a promover os chamados avivamentos. No jargão
teológico cristão, o termo é utilizado para eventos de grande fervor e
conversão espiritual.
"O
evangélico vem daquele movimento posterior ao protestantismo, nascido de um
contexto principalmente nos EUA, a partir dos avivamentos", explica o
pastor evangélico, escritor e psicanalista Guilherme Boccaletti.
De
acordo com Souza, a primeira leva, ocorrida nos anos 1730 e 1740, tinha
"forte teor calvinista", com ênfase na predestinação divina. A
segunda, quase cem anos mais tarde, valorizava o livre-arbítrio.
O
teólogo comenta que de "maneira geral", o movimento evangélico se
caracteriza "por uma leitura literal da Bíblia", o
"biblicismo", pela "ênfase na piedade pessoal e na busca por
conversos, ou seja, pela evangelização, além da ênfase no sacrifício expiatório
de Cristo".
Segundo
explica Siqueira, esse contexto acabou adaptando a natureza cristã
anglo-saxônica, conferindo a ela uma forte ênfase em trabalhos de evangelização
de massas e também da piedade individual. Passou-se a valorizar a mudança de
vida — a conversão. Havia, afinal, um novo continente a ser conquistado para
Deus, pela lógica desses religiosos.
Eis a
gênese do termo "evangélico" no sentido atual.
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Diversidade crente
Diante
da enormidade de denominações cristãs que existem hoje, com suas semelhanças e
diferenças, é impreciso agrupá-las sob um mesmo guarda-chuva.
Mas
historicamente se considera como a linha principal do protestantismo aquelas
igrejas que representam uma continuidade teológica daquele cisma com o
catolicismo do século 16. Siqueira classifica como tais os anglicanos, os
luteranos, os metodistas, os presbiterianos e, em parte, os batistas.
Para o
teólogo, em comum esses cristãos costumam enfatizar pautas sociais e comungam
uma visão mais humanista e secularizada do mundo.
Nos
Estados Unidos do século 19 nasceram grupos religiosos vistos como
fundamentalistas protestantes, em reação ao avanço do liberalismo. Conforme
explica Siqueira, eles passaram a mergulhar de forma literal na leitura
bíblica, como forma de recuperar o que entendiam ser a essência do
cristianismo.
Os
evangélicos, por sua vez, seriam a versão protestante mais facilmente
capilarizada nos extratos sociais — uma religiosidade capaz de juntar crenças,
rituais e liturgias.
Para o
teólogo, o marco histórico dessa vertente é um evento ocorrido no Reino Unido
em 1846, chamado de Evangelical Alliance. O encontro reuniu diversas igrejas
protestantes, buscando ações que pudessem ser criadas de forma cooperativa. Em
comum, havia um descontentamento frente à autoridade central da igreja estatal,
no caso a Anglicana.
Entre
os princípios mais visíveis dos evangélicos estão o fervor missionário,
expresso nos esforços em evangelizar e converter mais gente. E a crença da
Bíblia como palavra inspirada por Deus, muito mais do que literatura.
"Os
evangélicos são uma versão mais popular dos protestantes, os que deram uma
guinada ao chamado liberalismo teológico. Em outras palavras, foi uma
secularização intensa do protestantismo", analisa Siqueira.
O
teólogo explica que no século 19 houve uma consolidação da última fase dos
avivamentos que vinham ocorrendo desde quase 200 anos antes.
"O
que caracteriza esses pregadores é um teor Evangelístico muito grande: a ideia
de evangelizar, de converter, de promover 'novos nascimentos'. Esta é uma marca
muito presente, que diferencia o evangélico do protestante", argumenta
Siqueira.
Esse
tal "novo nascimento" é o que legitima discursos de pessoas que mudam
estilo de vida por conta da fé, como por exemplo o que estava perdido em vícios
e se "transforma em homem de família".
"A
ênfase era esta", pontua o teólogo.
A
relação com a Bíblia permite fazer um paralelo, segundo o teólogo, entre o
grupo dos protestantes históricos e dos evangélicos que surgem nessa época.
Ambos valorizam muito o livro sagrado do cristianismo.
Mas se
aqueles protestantes da reforma entendiam ser importante um retorno à Bíblia
como única fonte de autoridade, de doutrina, no século 19 a disputa era sobre a
legitimidade da autoria da Bíblia. No pós-iluminismo, se tornou corrente a
contestação de que os textos haviam sido feitos por inspiração divina — muitos
passaram a entender a Bíblia apenas como expressão literária.
"Este
debate também surge no seio do protestantismo. E os evangélicos se apegam à
Bíblia como depósito da revelação de Deus. Isto se torna marca identitária
desse grupo", comenta Siqueira.
Assim,
nas palavras do teólogo, ambos os grupos, cada qual a seu tempo, efetuou um
"resgate" do valor da Bíblia — mas sob argumentos ligeiramente
diferentes.
"O
resgate dos evangélicos é mais performático do que concreto", admite
Siqueira. "No meio evangélico, até hoje, muito se exalta a Bíblia mas
pouco se estuda a Bíblia. É uma marca do evangélico a exaltação da Bíblia como
palavra de Deus."
Ao
longo do século 19, o movimento se espalhou pelos EUA. No século seguinte, eles
passaram a buscar novos povos. E o Brasil também passou a contar com uma
infinidade de igrejas evangélicas.
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Pentecostalismo e neopentecostalismo
Essa
cultura dos avivamentos, germinal do evangelismo, seguiu presente. E, segundo
Siqueira, foi por conta de um desses eventos, conhecido como o da Rua Azusa,
ocorrido em Los Angeles em 1906, que o pentecostalismo se difundiu.
O
fervor religioso ali experimentado foi intenso, de outra natureza. O movimento,
profundamente espiritualizado, acabou sendo o ponto de partida para uma série
de outras denominações religiosas cristãs evangélicas.
"É
pentecostal toda igreja que de alguma forma foi influenciada pelas doutrinas e
práticas desse avivamento de 1906", define o teólogo.
No
pentecostalismo, há uma ênfase à chamada "renovação espiritual", com
direito a manifestações, nos cultos e encontros de oração, de determinados
fenômenos místicos como a revelação de profecias e a glossolalia — tecnicamente
a produção de sons e sílabas ininteligíveis que, em determinados contextos
religiosos, é interpretada como uma oração divina.
Na
segunda metade do século 20, grupos evangélicos pentecostais deram um outro
passo. Nascia o neopentecostalismo — uma definição puramente acadêmica, já que
nem adeptos dessas denominações nem as próprias igrejas se identificam assim.
"O
neopentecostalismo, que nasce dentro das igrejas pentecostais, mas é um
rompimento destas, enfatiza não a renovação espiritual e [os dons como] falar
em línguas e profecia. Mas a prosperidade financeira, além de uma ênfase grande
no exorcismo", compara Siqueira.
Há um
espectro grande e variado de denominações desse tipo no Brasil contemporâneo,
com igrejas que vão desde a Universal do Reino de Deus até a Igreja Batista da
Lagoinha, além de centenas de outras que nem chegam a ser conhecidas do grande
público. "Todas colocadas num pacote só mas, no fundo, muito
diferentes", avalia Siqueira.
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Crente
Sobretudo
em comunidades de acentuada maioria católica, era comum até os anos 1990 chamar
o cristão não-católico de "crente". Por vezes, com uma carga
pejorativa. Mas em boa parte das situações, de forma neutra.
Eram
frases do tipo: "na minha escola, tem uma professora que é crente".
Ou algo na linha: "você soube que o Fulano 'virou' crente?".
Dentro
das igrejas protestantes, o termo nunca deixou de ser aceito. Afinal, é uma
palavra de fácil significado — e que reflete a fé. Crente é aquele que crê. Em
última instância, considerando o significado, um crente na mensagem cristã
seria todo aquele que professe qualquer uma das doutrinas cristãs — seja
católico romano, seja evangélico neopentecostal.
Mas o
termo nunca foi adotado de forma corrente pelos católicos.
Segundo
os especialistas, a não ser em contextos que evidenciem chacota, o termo em si
não é pejorativo.
"O
crente não tem problema com essa palavra. Ele usa no dia a dia. Ele se chama de
crente, ele se apresenta como crente", pontua Siqueira. "Talvez hoje
menos", admite.
Como de
forma midiática o termo evangélico acabou crescendo no falar cotidiano, acabou
sendo natural uma sobreposição identitária.
"A
palavra crente em geral é utilizada tanto por evangélicos para se referirem a
si mesmos como grupo religioso, mas também é utilizado por pessoas que são
críticas do movimento para considerá-los como um bloco que possui
características em comum", esclarece Souza.
E se o
assunto é terminologia, o pastor Boccaletti resgata uma curiosidade: no início,
"cristão" era um termo pejorativo.
"Na
língua grega [antiga], a palavra era usada para fazer uma crítica, em tom
pejorativo, àqueles que seguiam [os ensinamentos de] Cristo", comenta.
Fonte:
BBC News Brasil

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