Dyepeson
Martins: Vice-líder do Centrão usou fundo partidário em perfis fakes para
atacar governo
“Comte
uma mentira várias vezes e ela se tornará verdade”. O trocadilho gramatical,
publicado em novembro de 2025 na rede social Instagram, mirava Comte
Bittencourt, um político que é figura central no racha interno que dividia o
comando do partido Cidadania, atualmente numa disputa judicial. A autora do
comentário, identificada como Lene Aparecida, questionava a legitimidade de
Bittencourt para assumir a presidência nacional da legenda. A ironia da
situação residia no fato de que a própria Lene Aparecida era uma mentira:
tratava-se de um perfil falso, operado a mando da equipe do deputado federal
Alex Manente (Cidadania-SP), o outro postulante à presidência nacional do
Cidadania.
A conta
de Lene Aparecida não atuava de forma isolada. Documentos e registros de
conversas obtidos com exclusividade pela Agência Pública revelam que o perfil
integrava uma rede de pelo menos vinte contas inautênticas, contratadas por
Manente e financiadas com recursos do fundo partidário. Há pelo menos quatro
meses, essa milícia digital vem sendo mobilizada para inflar o engajamento do
parlamentar — que ocupa uma das vice-lideranças do bloco do Centrão na Câmara
dos Deputados — e disparar críticas coordenadas contra adversários políticos,
entre eles o governo Lula.
Procurado
pela Pública, o deputado federal não respondeu aos contatos, mesmo com seu
gabinete confirmando por telefone o recebimento dos questionamentos da
reportagem.
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Por que isso importa?
• O caso vai além de uma disputa
partidária e mostra como dinheiro público do fundo partidário pode ser usado
para fabricar uma falsa realidade política nas redes.
• Às vésperas de um novo ciclo eleitoral,
entender quem financia, opera e orienta essa engrenagem é essencial para cobrar
responsabilização e impedir sua normalização.
O
aparato de milícia digital foi montado em meio a uma crise interna no
Cidadania. Em março de 2026, alas divergentes da sigla realizaram congressos
separados com apenas dois dias de diferença, resultando na eleição simultânea
de dois presidentes: Manente e Bittencourt. O imbróglio jurídico segue sem
desfecho, lançando incertezas sobre o futuro da legenda às vésperas de um novo
ciclo eleitoral.
“Partido
que representa a maioria da população que não quer saber de briga entre direita
e esquerda agora tá passando por um escândalo desses! E ainda por cima a nota
do diretório não diz nada com nada”, diz um outro comentário na notícia a
respeito de uma nota divulgada por uma das frentes do partido em favor de
Bittencourt. O autor @pireseristeu seria mais um perfil falso contratado por
Alex Manente, segundo a documentação obtida pela reportagem.
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A operadora de Balneário Camboriú
A
engrenagem dessa rede operava a partir do litoral catarinense. A Pública
identificou que uma mulher de 27 anos, residente em Balneário Camboriú, foi
contratada exclusivamente para gerenciar as contas falsas e postar os
comentários sob orientação do gabinete do deputado em Brasília. A própria
equipe de Manente brifava ou repassava as mensagens prontas, direcionando o tom
dos ataques. O pagamento mensal de R$ 2,5 mil foi efetuado pelo diretório
municipal do Cidadania em São Bernardo do Campo (SP), reduto eleitoral de
Manente, segundo os registros das notas fiscais de pagamento.
O
parlamentar disputou a prefeitura da cidade do ABC Paulista nas eleições de
2024, campanha que recebeu R$ 834 mil da direção municipal do partido, segundo
dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Apesar do investimento, Manente foi
derrotado no segundo turno por Marcelo Lima (Podemos), conquistando 44,26% dos
votos.
Em
abril de 2023, Manente esteve entre os 192 deputados que votaram contra a
urgência do Projeto de Lei das Fake News (PL 2630/2020). Na ocasião, justificou
seu voto argumentando que a proposta extrapolava o combate à desinformação. “Um
projeto que era para tratar de fake news ultrapassou esse limite e fala muito
mais de monetização, controle de expressão e, principalmente, da possibilidade
de limitar algumas big-techs”, declarou à Jovem Pan.
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Os alvos da tropa virtual
A
atuação dos perfis falsos não se restringia às disputas do Cidadania. O Governo
Federal também figurava como alvo preferencial. Em dezembro de 2025, uma
publicação de Manente criticando a criação de 4,4 mil cargos comissionados pelo
Executivo serviu de isca para a atuação de um perfil falso.
“Esse
desgoverno foi sempre assim, enchendo o bolso do estado e dando migalha para o
povo”, escreveu a conta @monteirooefigenia. Em seguida, o perfil @wanderlei2589
endossou o coro: “É de uma falta de respeito e até com o próprio eleitor deste
cidadão. Estamos sobrevivendo e contando os centavos neste fim de ano e o
governo esbajando”.
A
tática se repetiu em postagens sobre a área da saúde. Quando o deputado
criticou a ausência da vacina contra herpes-zóster no Sistema Único de Saúde
(SUS), a falsa tropa virtual entrou em ação. O mesmo @wanderlei2589 comentou
que “parece que estamos sempre trocando 6 por meia dúzia”, enquanto o perfil
@_amelia_ferraro_1965 pontuou que “o sofrimento não importa para eles, é só na
hora de dar discurso”.
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O grupo “Guerrilha”
A
orquestração dos ataques ocorria em um grupo de mensagens sugestivamente
batizado de “Guerrilha”. Era por meio desse canal que o mandato de Manente
repassava as diretrizes de atuação para a operadora das contas em Santa
Catarina.
As
mensagens obtidas pela reportagem expõem o modus operandi da equipe. Em uma das
orientações, a instrução: “Pode comentar no sentido de criticar o governo,
comentários curtos. ‘Desgoverno falindo o país. Antigamente os correios era
muito bom, mas o Lula e sua turma acabaram até com isso’”. A estratégia
envolvia criar uma falsa percepção de indignação popular em torno das pautas
levantadas pelo parlamentar.
O grupo
também servia para debater os percalços técnicos da operação. Em uma troca de
mensagens, a equipe discutia a queda de perfis bloqueados pelo Instagram. “É
melhor pedir para ele trocar esses perfis, porque quando dá erro de senha é que
já caiu”, alertou um dos membros. “Acho que tá levantando alerta de atividade
suspeita porque estamos ligando de localizações diferentes e aparelhos
diferentes também”.
A
prática, além de eticamente questionável, esbarra na legislação. Especialistas
apontam que a utilização de recursos partidários para financiar o anonimato na
internet pode configurar crime. Para Walber Agra, professor e advogado
especialista em Direito Público, o caso caracteriza “propaganda ilícita”,
sujeita a fiscalização e ressarcimento aos cofres públicos. “Gera uma série de
tipificações penais no Código Eleitoral incentivar e patrocinar fakes e
deepfakes”, afirma o jurista. “Isso é uma ilegalidade e, obviamente, pode
ensejar, pode propiciar o cometimento de crimes eleitorais”.
• As falácias de um deputado que
desconhece a História de Mato Grosso do Sul. Por Paulo M. Esselin
No dia
17 de fevereiro de 2026, o plenário da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do
Sul foi palco de uma discussão acerca da gestão do governador Eduardo Riedel e
da relevância socioeconômica do agronegócio no estado. O debate evidenciou duas
perspectivas aparentemente distintas sobre a distribuição de recursos e acerca
da estrutura produtiva sul-mato-grossense: de um lado, o deputado Zé Teixeira,
à época filiado ao PSDB; de outro, o deputado Zeca do PT.
Zé
Teixeira iniciou a argumentação sustentando que o atual cenário econômico e
político do estado é de estabilidade e crescimento. Em contrapartida, Zeca do
PT interveio pontuando que a prosperidade mencionada se concentra,
prioritariamente, no setor dos grandes latifundiários, isto é, na
“fazenderada”. Segundo o parlamentar, este segmento tem sido beneficiado por um
volume histórico de repasses e incentivos provenientes do governo federal sob a
liderança do presidente Lula.
Em sua
réplica, o deputado Zé Teixeira defendeu
o papel central dos grandes produtores rurais na composição do Produto Interno
Bruto (PIB) nacional e estadual. O parlamentar argumentou que o agronegócio
atua como um motor de externalidades positivas, haja vista que fomentaria a
economia de serviços (exemplificada pelo setor de manutenção e logística) e
impulsionaria a indústria de bens de capital, como a de máquinas e implementos
agrícolas.
Além
disso, ele destacou o setor ruralista como um expressivo gerador de empregos
diretos e indiretos. No que tange à questão indígena, o deputado sustentou que
a solvência e a assistência a essas comunidades dependem, indiretamente, da
arrecadação tributária oriunda da produção rural, que atinge alíquotas de até
40%. Concluiu sua fala afirmando que, diante de uma suposta falência
orçamentária da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), a ausência do
dinamismo econômico proporcionado pelos produtores rurais agravaria a
vulnerabilidade social dessas populações, ou seja, “o índio vai passar fome”,
como afirmou.
A bem
da verdade, o agronegócio não é o principal motor da economia brasileira e
muito menos da economia sul-mato-grossense. Segundo recente matéria assinada
pela jornalista Juliane Aguiar, do jornal Estado de Minas, em 2025 o setor
representou 7,1% do PIB brasileiro, uma participação expressiva que não se pode
negar (Aguiar, 2026). No entanto, o setor de serviços alcançou 69,5%. Este
último setor é o mais importante da atual economia brasileira e o que menos
recebe incentivos fiscais. Engloba atividades como comércio, transportes,
serviços financeiros, educação, saúde e tecnologia. A indústria, por sua vez,
com 23,4%, ocupa a segunda posição em relevância no PIB. Inclui as indústrias
extrativas, a exemplo da mineração, de transformação, construção civil, e
serviços industriais de utilidade pública (energia e água, por exemplo).
O setor
de serviços é o maior empregador do Brasil, sendo responsável por
aproximadamente 57% dos empregos formais, seguido pelo da indústria, com 25,5%,
e por último pelo agronegócio, com 23,8%. No que tange aos serviços, a presença
de universidades e faculdades públicas e privadas, apenas para citar um exemplo
pontual, também incide sobre a movimentação da economia em diversos municípios:
construção civil; prestação de serviços de educação, saúde e outros; locação de
imóveis; movimentação do comércio local (hotéis, mercados, lojas,
restaurantes).
Parece,
todavia, que o deputado Zé Teixeira quis deixar na sua mensagem que o
agronegócio carregaria a economia de Mato Grosso do Sul e do Brasil nas costas.
Ledo engano. Esta postura não se sustenta diante dos números aqui apresentados
e, portanto, não passa de mera simplificação do senso comum e uma leitura
ideologizada da situação da economia do estado e do país. Na verdade, quem
carrega o agronegócio nas costas é o povo brasileiro e não é de agora que isso
acontece.
Basta
rapidamente lembrar do Convênio de Taubaté, de 1906, que talvez seja o maior
exemplo de benefício para a formação de uma elite ruralista no Brasil do século
XX. Quando o preço do café caía no exterior, devido à superprodução, o governo
central comprava o excedente nacional com dinheiro público para que os
produtores não tivessem prejuízo: o lucro era privado e ficava apenas para uma
minoria privilegiada, mas o risco era socializado com toda a população
brasileira.
Nas
décadas de 1960 e 1970, durante a ditadura militar (1964-1985), com a
Modernização Conservadora da Agricultura e da Pecuária, abundaram os projetos
especiais, e o governo federal criou o Crédito Agrícola Subsidiado. Foram
despejados volumes massivos de recursos públicos com juros abaixo da inflação e
isso foi feito para mecanizar as grandes fazendas, o que deu origem ao
agronegócio moderno e aumentou a concentração de renda e de terras. Apenas para
lembrar, durante o Programa de Desenvolvimento dos Cerrados – Polo Centro, que
beneficiou produtores rurais de Mato Grosso do Sul, o governo central
disponibilizou bilhões em crédito com juros subsidiados (Banco Central do
Brasil, 1975). O Programa tinha prazo de 12 anos, com 6 de carência e juros
anuais de 7%. Trata-se de taxas de juros reais negativas, com subsídios
implícitos massivos, pois a inflação no período entre 1974 e 1978 era de
aproximadamente 100%. Tudo isso foi pago com impostos de toda a sociedade
brasileira. Atualmente, a renúncia fiscal do agronegócio no Brasil é estimada
em cerca de R$ 158 bilhões por ano; em Mato Grosso do Sul o valor chega a R$
11,950 bilhões. Dito de outra maneira, os governos federal e estadual adotam
uma política de beneficiar o agronegócio para uma espécie de grilagem do
orçamento público.
Além
disso, a argumentação de Zé Teixeira sobre a dependência dos povos originários
em relação aos produtores rurais é considerada, sob a minha perspectiva
acadêmica e histórica, uma simplificação retórica de um processo complexo de
perda de autonomia econômica das comunidades indígenas. Ele não reconhece que
todo o território sul-mato-grossense já era habitado por distintos povos
originários desde antes dos europeus colocarem os pés nesta parte da América do
Sul.
O
mencionado deputado desconhece, ainda, que historicamente, no início da invasão
e colonização do antigo Mato Grosso, eram os europeus que dependiam dos
indígenas para a sobrevivência nos territórios tradicionalmente ocupados. Quem
deu comida a esse “bando de paus-rodados”, como se ouve costumeiramente por aí,
que aqui chegou na condição de colonos e grileiros, foram os próprios indígenas
e não o contrário. Foi assim que aconteceu em todo o espaço atualmente
compreendido por Mato Grosso do Sul, desde fins do século XVII e meados do
XVIII até, pelo menos, os anos de 1940 e 1950. Mais recentemente, na primeira
metade do século XX, a mesma situação aconteceu e foi registrada em diversas
partes do estado. No começo, os paus-rodados (mineiros, gaúchos, paulistas
etc), todos eles pessoas brancas, eram pequenos e mantinham relações menos
assimétricas com os indígenas. Bastou crescerem um pouco, graças ao apoio
recebido dos governos federal e estadual, para retribuírem com violência ao
apoio recebido dos povos indígenas, inclusive para sua própria subsistência.
Caso
tivesse a curiosidade de pesquisar sobre o assunto, o deputado saberia que os
representantes das frentes econômicas de ocupação e colonização buscavam
proximidade com as aldeias para a obtenção de mão de obra indígena escravizada.
Os próprios indígenas escravizados eram chamados no período colonial de “negros
da terra”. Além disso, buscavam nas comunidades indígenas alimentos e guias
para conhecer e explorar diversas regiões. O pecuarista Renato Alves Ribeiro,
por exemplo, presta esclarecimento substancioso sobre o assunto. Segundo ele,
na década de 40 do século XX, quando o antigo Mato Grosso ainda se encontrava
bastante despovoado de população branca, “[…] oitenta por cento da peonada [que
trabalhava na sua propriedade] era de índios, sendo os serviços de casa sempre
exercidos por moças índias […] muitos fazendeiros aprendiam falar a sua
língua”, para melhor comunicação com eles (Ribeiro, 1984).
Em
troca da boa recepção, como de costume entre os paus-rodados, sobretudo após a
Grande Guerra entre o Paraguai e a Tríplice Aliança (1864-1870), milhares de
indígenas foram removidos de forma violenta das terras tradicionalmente
ocupadas. A partir das décadas de 1910 e 1920, diversas populações foram
confinadas em reservas diminutas, onde as atividades de caça, pesca, coleta e,
sobretudo, agricultura foram drasticamente comprometidas. Outras tantas ficaram
a viver em outras áreas a sua própria sorte.
Com
isso houve o comprometimento da autonomia econômica das comunidades indígenas,
e milhares de pessoas foram empurradas para o mercado de trabalho precário nas
fazendas, onde a exploração da mão de obra se dava de forma análoga à
escravidão por meio do conhecido sistema do barracão: os trabalhadores
indígenas labutavam arduamente nas propriedades rurais e contraíam dívidas nos
barracões das fazendas, não recebendo salário algum em espécie e mantendo um
constante e impagável endividamento pela compra de gêneros alimentícios,
tecidos, ferramentas etc. Cândido Mariano da Silva Rondon, posteriormente
conhecido como Marechal Rondon, observou com seus próprios olhos esta situação
em grande parte do antigo Mato Grosso e se empenhou na criação de áreas
destinadas ao estabelecimento de algumas comunidades indígenas no estado.
Por
outro lado, grande parte do agronegócio sul-mato-grossense se organiza
atualmente tal como fazia no período colonial: quase que exclusivamente produz
para atender ao mercado externo e ainda atribui a fome existente no Brasil
apenas à falência do órgão federal (FUNAI). Ao fazer isso, os ruralistas
paus-rodados retiram o foco da questão central: a demarcação de terras
indígenas, que permitiria o retorno às práticas de subsistência tradicionais.
Por fim, até agora o que esses senhores deram aos povos indígenas, em
retribuição ao apoio recebido inicialmente, quando aqui chegaram, foi a
violência armada e a usurpação ilícita de vastos territórios. Disso não há
qualquer dúvida.
Por
isso e muito mais é que Mato Grosso e Mato Grosso do Sul se tornaram
republiquetas dos paus-rodados que vivem às custas do erário público e posam de
salvadores da pátria. Conversa para boi dormir, como se diz no Centro-Oeste.
Fonte:
Agencia Pública/Racismo Ambiental

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