O
que sucesso de assistente de IA na China diz sobre ambições do país
"Você
é uma lagosta?" foi a primeira questão de Wang para a BBC.
Ele
esteve tão imerso no uso do assistente de inteligência artificial (IA) OpenClaw
(conhecido na China pelo nome de "lagosta") que não sabia se estava
falando com IA ou com jornalistas.
Depois
de respondermos que não era o caso, o jovem engenheiro de TI explicou como
havia "mergulhado" na IA e, especialmente, no OpenClaw.
Incentivada
pela liderança chinesa, a segunda maior economia do mundo abraçou a
inteligência artificial, despertando curiosidade e preocupação.
Criado
pelo desenvolvedor austríaco Peter Steinberger, o OpenClaw é um exemplo deste
fenômeno.
Construído
com dados e tecnologia em domínio público, o código é disponível para quem
quiser personalizá-lo para trabalhar com modelos chineses de IA. Esta é uma
enorme vantagem, pois os modelos ocidentais não são acessíveis na China, como
o ChatGPT e o Claude.
Por
isso, o OpenClaw despertou um frenesi no país, com cada vez mais pessoas
experimentando o código.
Wang
foi uma dessas pessoas. Ele não compartilhou seu nome completo porque mantém,
como negócio paralelo, uma loja online que vende gadgets digitais no TikTok, o
que é proibido na China.
Ele diz
que ficou impressionador quando percebeu, pela primeira vez, o que sua
"lagosta" (construída com o código do OpenClaw e alterada para seu
uso) podfia fazer.
Carregar
produtos na loja do TikTok é trabalhoso. Ele precisa adicionar imagens,
escrever títulos e descrições, definir preços e descontos, se inscrever em
campanhas e enviar mensagens para influenciadores. Normalmente, ele consegue
administrar cerca de 12 listagens por dia.
Mas a
sua "lagosta", ainda em fase de testes, pode fazer até 200 listagens
em apenas dois minutos, segundo ele.
"É
assustador, mas também é fascinante", ele conta. "Minha lagosta é
melhor nisso do que eu."
"Ela
escreve melhor e pode comparar meus preços instantaneamente com cada
concorrente, algo que eu nunca teria tempo de fazer."
O
OpenClaw já havia explodido na comunidade global de tecnologia. O CEO
(diretor-executivo) da Nvidia, Jensen Huang, chamou a ferramenta
de "o próximo ChatGPT". Seu desenvolvedor, Peter Steinberger, entrou
recentemente para a OpenAI.
Mas o
entusiasmo que transformou o OpenClaw em tendência foi "exclusivamente
chinês", segundo Wendy Chang, do centro de estudos MERICS.
Wang
chamou a OpenClaw de "a resposta da era da IA para as pessoas
comuns". E as gigantes chinesas da tecnologia aparentemente concordam, já
que estão publicando aplicativos construídos com base no OpenClaw.
Do
centro de tecnologia de Shenzhen, no sul do país, até a capital, Pequim,
centenas de pessoas fizeram fila no lado de fora da sede das empresas Tencent e
Baidu, em busca de versões personalizadas gratuitas.
Entre
os interessados estavam desde estudantes do ensino médio até aposentados.
Muitos deles estavam curiosos para saber mais sobre as "lagostas".
Alguns
usuários online contam que as usaram para investir em ações. As
"lagostas" analisaram qual o melhor momento para comprar e vender e
até fecharam os negócios, mesmo correndo o risco de terem prejuízo.
Outros
afirmam que as ferramentas foram ótimas para fazer múltiplas tarefas e
economizar tempo.
O
famoso escritor e comediante chinês Li Dan contou aos seus milhões de
seguidores no Douyin (a versão chinesa do TikTok) que ficou tão
imerso no OpenClaw que chegava a sonhar que falava com sua lagosta.
O CEO
da Cheetah Mobile, Fu Sheng, compartilhou incansavelmente nas redes sociais
como ele "criou sua lagosta" — a expressão adotada para descrever o
treinamento do assistente para atender necessidades específicas.
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Anos de investimento
A China
já estava sendo tomada pela febre da IA há algum tempo.
Quando
o aplicativo chinês DeepSeek
explodiu no mundo da IA, no início do ano passado, parecia que
muitas pessoas haviam sido pegas de surpresa. Ele também é uma plataforma de
código aberto, desenvolvida por engenheiros do país, formados em universidades
chinesas de elite.
O
DeepSeek surgiu após anos de investimentos para desenvolver tecnologia básica,
incluindo a IA, que só aumentaram após o sucesso do aplicativo.
O que a
ferramenta demonstrou foi o apetite inovador dos chineses para buscar
oportunidades de pesquisa e inovação, apesar das restrições à importação de
tecnologia avançada. E também comprovou como as pessoas estão ansiosas para
adotar plataformas de código aberto.
Tudo
isso formou o cenário perfeito para a chegada do OpenClaw.
Sua
popularidade não passou despercebida pelo governo chinês. Diversas cidades e
regiões forneceram incentivos para que os empresários usassem o OpenClaw nas
suas companhias.
A
cidade de Wuxi, no leste do país, ofereceu até cinco milhões de yuans (US$ 726
mil, cerca de R$ 3,7 milhões) para usos do aplicativo, como em robôs, na
produção industrial.
"Todos
na China sabem que o governo define o passo e diz a você onde estão as
oportunidades", explica Rui Ma, fundador da newsletter Tech Buzz China.
"É
prático para a maioria das pessoas. Provavelmente, é um plano melhor,
simplesmente seguir as diretrizes do governo, em vez de tentar realmente
descobrir sozinho."
Por
isso, quando Pequim sinaliza suas prioridades, o mercado segue.
Nos
últimos anos, as companhias de tecnologia, grandes e pequenas, partiram para a
corrida pela IA, apoiadas por subsídios para aluguel de escritórios, subvenções
e empréstimos.
Da
fabricação ao transporte, da assistência médica aos eletrônicos domésticos, as
empresas chinesas buscam integrar a IA aos seus produtos e operações.
"Este
é o espírito da AI Plus", afirma Chang, em referência à estratégia
nacional chinesa de integração da IA pelas indústrias. "Pegue a IA e
aplique em toda parte."
Mas a
concorrência é acirrada. A imprensa chinesa apelidou de "Guerra dos 100
Modelos" o processo que levou ao surgimento de mais de 100 modelos de IA
desde 2023, com apenas 10 ainda em contenção.
As
plataformas chinesas de IA ainda estão atrás das suas concorrentes ocidentais,
segundo os especialistas. Mas a distância está diminuindo.
Por
isso, para as autoridades chinesas, promover a OpenClaw é uma medida
estratégica, segundo a ex-pesquisadora da OpenAI, Jenny Xiao.
Grande
parte do entusiasmo inicial diminuiu, quando os usuários começaram a calcular
os custos envolvidos (já que a interação com o assistente ocasiona gastos) e
devido às preocupações de segurança.
No mês
passado, autoridades de cibersegurança de Pequim alertaram sobre os sérios
riscos relacionados à instalação e ao uso inadequado do OpenClaw. Desde então,
cada vez mais agências governamentais começaram a proibir os funcionários de
instalar a ferramenta.
Com
isso, a tendência logo deixou de ser a oferta de instalação, mas sim a sua
remoção. E este tipo de contradição não é incomum no sistema vertical chinês,
segundo Ma.
Muitas
vezes, os governos concorrem pela aprovação de Pequim, adotando ferramentas
alinhadas aos desejos da liderança do Partido Comunista, mas acabam
retrocedendo quando surgem as dificuldades.
"É
desordem com controle", define Ma. Ele destaca que a intervenção de Pequim
não sinaliza desnecessariamente seu desestímulo.
Para
começar, as startups de IA podem ajudar a combater um problema importante no
país, que é a taxa de desemprego entre os jovens, de mais de 16%.
Muitos
incentivos governamentais relacionados ao OpenClaw (alguns deles com subsídios
de até 10 milhões de yuans, cerca de US$ 1,5 milhão ou R$ 7,5 milhões)
mencionam "empresas individuais" — ou seja, start-ups, administradas
por uma pessoa, com a ajuda da IA.
"Quem
tem mais probabilidade de criar uma empresa individual? Provavelmente, os
jovens que enfrentam um mercado de trabalho difícil", explica Xiao.
O medo
de ficar para trás também é forte na China, considerando a intensa concorrência
pelos empregos.
"Alguns
afirmam que, em 2026, se você não 'criar lagostas', já perdeu na linha de
partida", diz um comentário publicado no jornal estatal People's Daily.
"É
realmente apavorante", afirma o programador de TI Jason. Sua equipe só
contrata pessoas com experiência no uso de ferramentas de IA. "A maioria
das pessoas está saindo e muito poucos contratados estão chegando."
Wang
concorda que esta é uma época assustadora. "Qualquer pessoa pode ser
substituída", mas ele não parece extremamente preocupado.
'Provavelmente
não vou precisar trabalhar e este pode se tornar meu emprego em tempo
integral", ele conta, em referência aos seus negócios no TikTok.
E se as
"lagostas" puderem administrar suas próprias lojas e o expulsarem?
"Vou usar a IA para encontrar outro negócio."
¨
Inteligência artificial acelera avanço quântico e expõe
vulnerabilidades globais
Em um
movimento que promete redefinir as fronteiras da tecnologia e segurança
cibernética, pesquisadores revelaram que a inteligência artificial desempenhou
um papel crucial no desenvolvimento de algoritmos para computadores quânticos.
De acordo com um artigo da Time, esses computadores podem, em breve, ameaçar os
protocolos de criptografia que garantem a segurança da internet.
O
estudo, realizado pela startup quântica Oratomic e o gigante tecnológico
Google, sugere que essas máquinas, capazes de realizar cálculos incrivelmente
rápidos, podem surgir mais cedo do que se imaginava. Bas Westerbaan,
pesquisador da Cloudflare, expressou sua preocupação, afirmando que a
comunidade global precisa acelerar seus esforços para se preparar para essa
eventualidade.
A
pesquisa contou com a colaboração de inteligência artificial para otimizar
algoritmos que, até então, eram considerados inviáveis. Dolev Bluvstein, um dos
autores do estudo, destacou a importância da AI no processo, afirmando que sem
ela, o avanço não teria sido possível. Essa colaboração resultou em um
algoritmo que reduz significativamente o número de partículas necessárias para
construir um computador quântico atômico.
Embora
os computadores quânticos atuais sejam pequenos demais para representar uma
ameaça, a pesquisa aponta que uma mudança pode ocorrer na próxima década. O
Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST) estabeleceu um prazo
até 2035 para que os sistemas estejam prontos para enfrentar essas máquinas,
mas as descobertas da Oratomic e do Google podem antecipar esse cronograma.
Para
John Preskill, pioneiro na computação quântica, a redução no número de qubits
necessária foi surpreendente, embora os humanos ainda sejam fundamentais para
direcionar as perguntas certas e guiar a AI em busca de respostas úteis. A
equipe da Oratomic, consciente das implicações sociais de seu trabalho, já
alertou autoridades governamentais dos EUA sobre suas descobertas.
Esse
avanço não apenas desafia a criptografia atual, mas também abre portas para
descobertas em física e no desenvolvimento de novos medicamentos e materiais.
Contudo, até que a transição para a criptografia pós-quântica ocorra, o risco
de vazamentos de dados e extorsões é real, conforme alerta Westerbaan.
Em um
mundo onde quase todos os sistemas se tornariam vulneráveis a um ataque
quântico, a corrida para desenvolver soluções de segurança adequadas está mais
urgente do que nunca. A pesquisa da Oratomic, embora ainda não revisada por
pares, levanta questões não apenas tecnológicas, mas também éticas e sociais,
sobre o futuro da computação e da segurança global.
O papel
da inteligência artificial no avanço da computação quântica está se tornando
cada vez mais evidente. À medida que a AI continua a evoluir, sua capacidade de
otimizar processos complexos e acelerar descobertas tecnológicas se expande,
proporcionando novos horizontes para a ciência e a inovação. No entanto, esse
progresso também traz consigo um conjunto de desafios éticos e de segurança que
precisam ser endereçados para garantir que a tecnologia seja usada de maneira
responsável.
A
aplicação de inteligência artificial na computação quântica representa um marco
significativo na evolução tecnológica, mas também destaca a necessidade de uma
governança robusta e de políticas que acompanhem o ritmo das inovações. À
medida que os computadores quânticos se aproximam da realidade prática, a
pressão sobre governos e organizações para desenvolverem estratégias de
segurança eficazes aumenta exponencialmente.
Além
disso, a integração de inteligência artificial na pesquisa quântica pode
acelerar o desenvolvimento de soluções para problemas globais, como a
descoberta de novos medicamentos e materiais, e a melhoria de processos
industriais. No entanto, essa mesma tecnologia pode ser usada de maneira
maliciosa, caso caia nas mãos erradas, evidenciando a importância de uma
regulamentação adequada.
O
potencial impacto dos computadores quânticos na segurança cibernética global
não pode ser subestimado. Com a capacidade de quebrar algoritmos de
criptografia que atualmente protegem dados sensíveis, esses dispositivos
representam uma ameaça significativa para a privacidade e a segurança das
informações. Portanto, a transição para sistemas de segurança pós-quânticos é
essencial para mitigar os riscos associados a essa nova era tecnológica.
Em
resumo, a colaboração entre inteligência artificial e computação quântica está
abrindo novas possibilidades para a inovação e o progresso científico. No
entanto, também está expondo vulnerabilidades críticas que precisam ser
abordadas para garantir que a tecnologia seja utilizada de forma segura e
ética. A comunidade global deve se unir para desenvolver soluções que protejam
a segurança das informações e promovam o uso responsável da tecnologia,
garantindo que os avanços beneficiem a sociedade como um todo.
¨
DeepSeek impulsiona ‘onda’ de IAs chinesas mais baratas e
competitivas
Há
pouco mais de um ano, a DeepSeek mudou o cenário da inteligência artificial na
China. A empresa apresentou uma IA capaz de competir com sistemas
estadunidenses, como o ChatGPT, por um custo de treinamento muito menor, mesmo
diante de restrições relacionadas a chips impostas pelos EUA. O lançamento
demonstrou que era possível criar tecnologias avançadas sem investimentos
bilionários, e o impacto foi imediato no mercado global.
O
sucesso da DeepSeek motivou outras empresas chinesas a acelerar seus projetos.
Segundo relatos recentes, rivais locais preparam uma série de novos modelos
para coincidir com o Festival da Primavera, que começa em 15 de fevereiro e é o
período mais movimentado do país. Entre as iniciativas anunciadas estão:
• A
Zhipu AI promete avanços em codificação e execução prolongada de tarefas sem
intervenção humana.
• A
ByteDance apresentou o Seedance 2.0, voltado à criação rápida de vídeos de alta
qualidade, e deve atualizar o chatbot Doubao, líder no mercado local.
• A
própria DeepSeek prepara o lançamento do modelo V4.
• A
Alibaba trabalha na série Qwen 3.5, com foco em raciocínio matemático e
programação.
O
impacto da DeepSeek também provocou mudanças na indústria chinesa. Antes
focadas em modelos de código fechado, empresas como Baidu passaram a liberar
partes de seus sistemas, e o código aberto se tornou uma ferramenta para
acelerar desenvolvimento, aumentar o acesso e reduzir custos. Plataformas como
a Hugging Face começaram a abrigar lançamentos de diversas empresas chinesas,
incluindo gigantes e startups.
Enquanto
a DeepSeek continua priorizando pesquisa e aprimoramento de desempenho, seus
concorrentes buscam integrar inteligência artificial a serviços voltados ao
consumidor, evidenciando a pressão por monetização em um setor que exige
grandes investimentos em infraestrutura. A estrutura da DeepSeek, associada a
um fundo de hedge liderado por Liang Wenfeng, permite que a empresa foque em
desenvolvimento com menos exigência por resultados imediatos.
Especialistas
do setor destacam que a China consolidou sua posição na corrida global de IA,
mostrando que é capaz de lançar modelos competitivos mesmo sob restrições
externas. O próximo desafio é manter o ritmo de inovação e sustentar o avanço
tecnológico em um mercado cada vez mais competitivo, com o Festival da
Primavera servindo como palco simbólico para os novos anúncios.
Fonte: BBC
News/O Cafezinho/fenati.org

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