Degradação
ambiental
Dentre
comportamentos exóticos da sociedade contemporânea, o uso belicoso de redes
sociais em contextos de guerra traz, sem dúvida, seus próprios absurdos. Seja
por meio de propaganda que combina deep fakes, filmagens de bombardeio e
músicas do AC/DC, passando por postagens de órgãos de Estado que rotulam o
inimigo como o Império de Pedófilos, até, finalmente, os inevitáveis memes que
acompanham nosso cotidiano.
Nessa
forma moderna de comunicação, quiçá a mais democrática já surgida, memes rasos
e profundos, reaças e comunas, punks e cristãos coexistem em busca de
engajamento em feeds alheios. Foi neste cenário, onde o que era bizarro
tornou-se mundano, que me deparei com um meme qualquer, de tom ambiental,
relacionado à guerra no Oriente Médio.
Dizia,
acompanhado de imagens de copos de refrigerante, calças jeans e bombardeiros
B-2 explodindo a paisagem, algo como “eu aqui, usando canudo mole de papel e
guardando embalagens no bolso para jogar no próximo cesto de lixo, enquanto
líderes mundiais fazem isso”.
A
comparação bem-humorada, ainda que com um bocado de exagero argumentativo,
desperta reflexão legítima quanto à sustentabilidade da espécie humana em meio
a conflitos armados de grande escala. Vale, inclusive, para outras atividades
que não a guerra. Também podemos indagar sobre a utilidade do canudo de papel
enquanto líderes rifam todo e qualquer recurso natural ao seu alcance em troca
de receitas mais gordas do que as do ano anterior.
Analisar
a faceta ecológica de situações como essa levam a novos absurdos. Por que
detentores do poder insistem no combate bélico em vez de combaterem crises
globais dadas como certas? Nem Albert Camus saberia responder. Afinal, se a
única questão filosófica válida é “devemos seguir vivendo amanhã?”, a
humanidade parece tender à resposta negativa, algo que Sísifo lamenta muito.
Não sou
o maior fã da palavra sustentabilidade, mais uma das cooptadas pelo
corporativismo. Somam-se a ela outros termos, como governança, créditos de
carbono, energia limpa e transição energética. A maioria pode ser entendida
pela lente da inocência – que resulta na ideia de que “ruim com eles, pior sem
eles” -, ou por lentes que revelam o teor político por trás da forma como a
linguagem é moldada para tratar da interação planeta-sociedade.
Esse
tratamento, típico das últimas décadas, culmina em fenômenos como “a Empresa A
já preservou uma Bélgica inteira na Amazônia por meio de contratos financeiros”
ou “zeramos nossas emissões de CO2 através da compra de créditos verdes”. Ao
mesmo tempo, mercantilizar a preservação ambiental reduz o valor de
ecossistemas ao de um ativo financeiro, de modo que preservar uma Bélgica na
Amazônia equivale a preservar alguns milhões de dólares num banco. Com uma
simples regra de três, trazemos ao dicionário ambiental unidades como $/hectare
em pé. Ao fim do dia, até mísseis de milhões de dólares são convertidos em pés
de eucalipto que poderiam ser plantados no lugar deles.
A
partir da mesma lógica, o tal “cidadão comum” mantém-se compelido a guardar
todo papel de chiclete no bolso, fazendo assim a parte dele. Não sou diferente,
também me é asquerosa a ideia de poluir a rua só porque sim. Se até a empresa
de petróleo está preocupada com sua pegada ecológica, não serei eu que vou ter
o espírito de porco de usar canudo de plástico.
Ironias
à parte, e mantendo em mente que, de fato, há disrupções ambientais em curso
muito mais graves do que cidadãos comuns sujando o chão, pode-se concluir que,
não só o prisma econômico é insuficiente para a percepção do valor intrínseco
do meio ambiente, que, mais do que objeto, mostra-se sujeito; mas também o
momento atual da ecologia terrestre é crítico, pois reúne uma série de
indicadores robustos que apontam em direções semelhantes – a do abismo.
Tais
indicadores, justiça seja feita, já demonstram degradação ambiental há décadas.
Ainda assim, para dar aquele empurrãozinho final que vai além do desmatamento
sistêmico, dependência inseparável de combustíveis fósseis e impactos da
poluição (mesmo a oriunda de guerras) a humanidade demonstra impressionante
sanha ao flertar com o mais insustentável fenômeno físico já descoberto até
aqui, o da radioatividade.
Afinal,
para um reles átomo de urânio-238 emitir metade de suas partículas até virar
chumbo-206, leva toda a idade do planeta Terra, não sobrando ambientalista
algum para ver a segunda metade decair. Na ciência da radioatividade e da
energia nuclear, há aplicações nobres e canalhas para uma propriedade tão
especial da natureza, e não faltam exemplos de ambos.
Assim
como o meme do canudo e do B-2, deve-se compreender a relação da sociedade com,
possivelmente, o “absurdo final”: poderíamos apenas guerrear contra células
cancerígenas, mas há um clube VIP que decide pelo desvio da tecnologia para
fins anti-humanos, antinaturais, cuja consequência pode levar à autodestruição.
Didaticamente,
a defesa de armas nucleares não é um privilégio capitalista. O termo dissuasão,
um dos favoritos dos defensores da ideia de que os países necessitam ogivas
para não terem seus chefes sequestrados ou explodidos, esquentou nos últimos
anos. Na hora H, quando territórios e segurança estão em jogo, não há pretensão
sustentável que se sustente.
O
pragmatismo continuará a ditar as regras, o que sugere, pelo andar da
carruagem, sentenciar à morte o homo sapiens, pelo crime de ter sido incapaz de
educar adequadamente os seus expoentes que vieram a assinar papéis com canetas.
Aqui, não se trata de simples ressentimento com “como as coisas são no mundo
real”, tampouco de pessimismo exacerbado quando na verdade tudo pode voltar aos
eixos. Trata-se de lamentar e esperançar, ao mesmo tempo, a respeito da
compreensão míope da natureza pelo ser humano.
Não
bastassem eventos climáticos inéditos em sua intensidade e frequência, não
bastasse o acúmulo recorde de energia nos oceanos na forma de calor, que
resulta em uma máquina termal que funcionará por décadas como motor de mais
mudança climática, o ano de 2026 apresenta também um dos maiores absurdos em
curso – o de que há guerras, há bombas nucleares, e há gente querendo a
sobrevivência das gerações futuras e guardando a embalagem no bolso até
encontrar um lixo.
Fonte:
Por Marcelo Camargo, em A Terra é Redonda

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