quinta-feira, 9 de abril de 2026

Degradação ambiental

Dentre comportamentos exóticos da sociedade contemporânea, o uso belicoso de redes sociais em contextos de guerra traz, sem dúvida, seus próprios absurdos. Seja por meio de propaganda que combina deep fakes, filmagens de bombardeio e músicas do AC/DC, passando por postagens de órgãos de Estado que rotulam o inimigo como o Império de Pedófilos, até, finalmente, os inevitáveis memes que acompanham nosso cotidiano.

Nessa forma moderna de comunicação, quiçá a mais democrática já surgida, memes rasos e profundos, reaças e comunas, punks e cristãos coexistem em busca de engajamento em feeds alheios. Foi neste cenário, onde o que era bizarro tornou-se mundano, que me deparei com um meme qualquer, de tom ambiental, relacionado à guerra no Oriente Médio.

Dizia, acompanhado de imagens de copos de refrigerante, calças jeans e bombardeiros B-2 explodindo a paisagem, algo como “eu aqui, usando canudo mole de papel e guardando embalagens no bolso para jogar no próximo cesto de lixo, enquanto líderes mundiais fazem isso”.

A comparação bem-humorada, ainda que com um bocado de exagero argumentativo, desperta reflexão legítima quanto à sustentabilidade da espécie humana em meio a conflitos armados de grande escala. Vale, inclusive, para outras atividades que não a guerra. Também podemos indagar sobre a utilidade do canudo de papel enquanto líderes rifam todo e qualquer recurso natural ao seu alcance em troca de receitas mais gordas do que as do ano anterior.

Analisar a faceta ecológica de situações como essa levam a novos absurdos. Por que detentores do poder insistem no combate bélico em vez de combaterem crises globais dadas como certas? Nem Albert Camus saberia responder. Afinal, se a única questão filosófica válida é “devemos seguir vivendo amanhã?”, a humanidade parece tender à resposta negativa, algo que Sísifo lamenta muito.

Não sou o maior fã da palavra sustentabilidade, mais uma das cooptadas pelo corporativismo. Somam-se a ela outros termos, como governança, créditos de carbono, energia limpa e transição energética. A maioria pode ser entendida pela lente da inocência – que resulta na ideia de que “ruim com eles, pior sem eles” -, ou por lentes que revelam o teor político por trás da forma como a linguagem é moldada para tratar da interação planeta-sociedade.

Esse tratamento, típico das últimas décadas, culmina em fenômenos como “a Empresa A já preservou uma Bélgica inteira na Amazônia por meio de contratos financeiros” ou “zeramos nossas emissões de CO2 através da compra de créditos verdes”. Ao mesmo tempo, mercantilizar a preservação ambiental reduz o valor de ecossistemas ao de um ativo financeiro, de modo que preservar uma Bélgica na Amazônia equivale a preservar alguns milhões de dólares num banco. Com uma simples regra de três, trazemos ao dicionário ambiental unidades como $/hectare em pé. Ao fim do dia, até mísseis de milhões de dólares são convertidos em pés de eucalipto que poderiam ser plantados no lugar deles.

A partir da mesma lógica, o tal “cidadão comum” mantém-se compelido a guardar todo papel de chiclete no bolso, fazendo assim a parte dele. Não sou diferente, também me é asquerosa a ideia de poluir a rua só porque sim. Se até a empresa de petróleo está preocupada com sua pegada ecológica, não serei eu que vou ter o espírito de porco de usar canudo de plástico.

Ironias à parte, e mantendo em mente que, de fato, há disrupções ambientais em curso muito mais graves do que cidadãos comuns sujando o chão, pode-se concluir que, não só o prisma econômico é insuficiente para a percepção do valor intrínseco do meio ambiente, que, mais do que objeto, mostra-se sujeito; mas também o momento atual da ecologia terrestre é crítico, pois reúne uma série de indicadores robustos que apontam em direções semelhantes – a do abismo.

Tais indicadores, justiça seja feita, já demonstram degradação ambiental há décadas. Ainda assim, para dar aquele empurrãozinho final que vai além do desmatamento sistêmico, dependência inseparável de combustíveis fósseis e impactos da poluição (mesmo a oriunda de guerras) a humanidade demonstra impressionante sanha ao flertar com o mais insustentável fenômeno físico já descoberto até aqui, o da radioatividade.

Afinal, para um reles átomo de urânio-238 emitir metade de suas partículas até virar chumbo-206, leva toda a idade do planeta Terra, não sobrando ambientalista algum para ver a segunda metade decair. Na ciência da radioatividade e da energia nuclear, há aplicações nobres e canalhas para uma propriedade tão especial da natureza, e não faltam exemplos de ambos.

Assim como o meme do canudo e do B-2, deve-se compreender a relação da sociedade com, possivelmente, o “absurdo final”: poderíamos apenas guerrear contra células cancerígenas, mas há um clube VIP que decide pelo desvio da tecnologia para fins anti-humanos, antinaturais, cuja consequência pode levar à autodestruição.

Didaticamente, a defesa de armas nucleares não é um privilégio capitalista. O termo dissuasão, um dos favoritos dos defensores da ideia de que os países necessitam ogivas para não terem seus chefes sequestrados ou explodidos, esquentou nos últimos anos. Na hora H, quando territórios e segurança estão em jogo, não há pretensão sustentável que se sustente.

O pragmatismo continuará a ditar as regras, o que sugere, pelo andar da carruagem, sentenciar à morte o homo sapiens, pelo crime de ter sido incapaz de educar adequadamente os seus expoentes que vieram a assinar papéis com canetas. Aqui, não se trata de simples ressentimento com “como as coisas são no mundo real”, tampouco de pessimismo exacerbado quando na verdade tudo pode voltar aos eixos. Trata-se de lamentar e esperançar, ao mesmo tempo, a respeito da compreensão míope da natureza pelo ser humano.

Não bastassem eventos climáticos inéditos em sua intensidade e frequência, não bastasse o acúmulo recorde de energia nos oceanos na forma de calor, que resulta em uma máquina termal que funcionará por décadas como motor de mais mudança climática, o ano de 2026 apresenta também um dos maiores absurdos em curso – o de que há guerras, há bombas nucleares, e há gente querendo a sobrevivência das gerações futuras e guardando a embalagem no bolso até encontrar um lixo.

 

Fonte: Por Marcelo Camargo, em A Terra é Redonda

 

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