A
violência é a maior marca do Estado brasileiro
Passados
62 anos do golpe empresarial-militar de 1964, o Brasil continua estruturado em
torno de formas sociais violentas que encobrem a história do país. Construímos,
em termos de memória coletiva (e institucional), a narrativa de que houve um
rompimento com um regime de exceção e de violência, e de que nos voltamos para
a construção e consolidação do regime democrático por meio da conciliação.
No
entanto, podemos dizer que uma das maiores marcas do estado democrático de
direito, instalado após a aprovação da Constituição de 1988, tem sido a
violência institucional, em particular, a de Estado. São inúmeras as chacinas e
os massacres, que ocorrem de modo permanente e em diversos territórios –
presídios, bairros periféricos, campo e morros cariocas -, mas,
fundamentalmente, contra a população negra e pobre.
A
entrada em vigor da nova constituição foi marcada pelo acontecimento mais
sangrento da história do sistema prisional brasileiro: o Massacre do Carandiru.
No dia 2 de outubro de 1992, a Polícia Militar de São Paulo, seguindo ordens
diretas de seu comando central e com a anuência do então governador do estado,
Luiz Antônio Fleury, invadiu o presídio com a justificativa de conter uma
rebelião contra as más condições da prisão e assassinou 111 presos, segundo
números oficiais. Contudo, sobreviventes do massacre denunciam que o número de
mortos foi muito maior.
Essa
violência quebrou um dos direitos pétreos do novo ordenamento democrático: o
direito à vida. Dados históricos mostram que, após a fundação do estado de
direito, aumentou o número de civis mortos pela Polícia Militar em São Paulo:
em 1990, foram 585 civis mortos pela PM; em 1991, foram 1.140; e, em 1992,
1.359 (sem contar as 111 vítimas do Carandiru). Entre 2013 e 2014, 74 policiais
foram condenados pelos crimes ocorridos no Massacre do Carandiru. No entanto,
em 2024 o Tribunal de Justiça de São Paulo extinguiu as penas com base em um
indulto concedido pelo presidente golpista Jair Bolsonaro, que perdoava os
agentes do Estado que haviam cometido crimes há mais de 30 anos. Uma ação do
Ministério Público contrária ao indulto ainda aguarda julgamento no Supremo
Tribunal Federal (STF).
É
impossível não relacionar o indulto concedido a agentes do Estado que
promoveram um massacre por meio de crimes considerados hediondos, no Carandiru,
com a prática desse mesmo presidente golpista de homenagear torturadores da
ditadura. Em 2016, ainda como deputado e sob a anuência do Congresso Nacional,
Bolsonaro prestou uma homenagem pública à esposa do coronel do Exército
Brilhante Ustra, considerado um dos maiores torturadores do último regime
ditatorial. Depois, já como presidente, ele recebeu a mesma pessoa e declarou o
torturador Ustra um “herói nacional”.
Ustra,
Curió, Camarão e Metralha são alguns dos torturadores da ditadura amplamente
denunciados por suas vítimas e mantidos impunes em democracia. O Superior
Tribunal Federal (STF) entendeu que os crimes contra a humanidade praticados
por eles foram tornados inimputáveis pela Lei de Anistia de 1979, que teria
pactuado uma reconciliação da sociedade brasileira. No entanto, em nenhum
momento a lei diz que agentes do Estado responsáveis por crimes contra a vida
seriam seus beneficiários. Cabe lembrar também que essa lei foi votada por um
congresso sob o impacto de cassações, em um sistema bipartidário e sob a
vigência da constituição autoritária outorgada pela ditadura. A democracia
nunca revisou essa interpretação.
Mais de
30 anos após o Massacre do Carandiru, uma chacina, agora a céu aberto,
aterrorizou o mundo com suas imagens de corpos estendidos em praça pública. No
dia 28 de outubro de 2025, a Polícia Militar e outras forças de segurança do
estado invadiram o Complexo da Penha e territórios adjacentes, fuzilando cerca
de 130 pessoas (segundo a contagem oficial). O regime de visibilidade dos
corpos estendidos e acumulados em espaço público mostra que a política de
segurança adotada foi a da exposição da morte e do uso do terrorismo de Estado
como gramática de segurança pública. A resposta das instituições do Estado,
locais e nacionais, foi a de criar um pacote anti-facção e de militarizar ainda
mais o cotidiano das periferias e das cidades.
Esses
não foram fatos isolados. Desde a instituição do Estado colonial, a violência
tem sido sua maior marca e principal modo de atuação. Isso não se limita aos
momentos em que o Estado operou regimes chamados de exceção, como a escravidão
nos períodos colonial e imperial, ou durante as duas ditaduras do século XX – a
de Vargas e a empresarial-militar. Mesmo após a fundação da República e durante
os anos de regimes democráticos, a violência institucional continuou sendo uma
característica preponderante.
Contudo,
e aqui reside um elemento agravante dessa estrutura, durante a última ditadura
as Forças Armadas instituíram um modelo de violência sem precedentes. A partir
da combinação da liberação da violência como modo de organização social com a
estruturação de centros de tortura, assassinato e desaparecimento em quartéis e
instalações militares, a cultura da violência se expandiu nas principais
cidades do país, tornando-se o principal modelo de operação das instituições
ligadas à segurança pública e à privação de liberdade.
O
Estado ditatorial instaurado pelo golpe de 1964 articulou duas estratégias
fundamentais para a política da violência.
Por um
lado, com base na doutrina de combate ao inimigo interno (comunistas,
subversivos, opositores etc.), estruturou-se, inclusive nas leis e na forma de
organização do Estado, a militarização das relações entre instituições e os
indivíduos a elas submetidos ou com elas relacionados.
Dessa
forma, além da instalação dos DOI-CODI (centros de tortura) nas principais
cidades, houve a montagem de uma rede de atores da repressão estatal nos
mínimos detalhes da vida cotidiana. Com a cumplicidade e a responsabilidade do
mundo empresarial, as fábricas passaram a operar com “assessorias” de
informação e segurança diretamente ligadas aos órgãos da polícia política. A
tortura e a perseguição de qualquer dissonância se espalharam para as formas
mais básicas de relações sociais.
A
partir do mundo do trabalho, as empresas em associação criminosa com as Forças
Armadas e forças de segurança pública locais, passaram a monitorar os bairros
de regiões periféricas, onde habitavam as classes trabalhadoras, bem como
qualquer lugar em que os momentos de lazer desses indivíduos pudessem ensejar a
coletividade e qualificar uma esfera pública. Os bailes black, como eram
chamados, passaram a ser vigiados pela polícia política, pois eram vistos como
um lugar perigoso para o regime, onde se falava sobre a violência contra a
população negra e as formas de valorizar a própria cultura e, assim, resistir
ao racismo.
Foi
nesse ponto, a questão racial, que se estruturou a segunda estratégia
ditatorial de incremento de uma sociedade de controle violenta e militarizada.
A ditadura se apropriou do mito da democracia racial e institucionalizou uma
ideia que já era corrente no país: a de que o racismo era um problema menor,
pois a miscigenação das raças seria a marca da nação, e que, a partir desse
fenômeno populacional, as misturas culturais e sociais teriam feito do Brasil
um país sem a violência racial e sem os privilégios dos brancos.
Abdias
Nascimento, em um texto de introdução ao livro “Quilombismo”, de 1978,
intitulado “Mistura ou massacre? Ensaios desde dentro do genocídio de um povo
negro”, não deixa dúvidas sobre o amplo alcance da violência de Estado,
legitimada justamente pela hierarquização racial dos corpos e camuflada pelo
uso estratégico do mito da democracia racial.
O
apagamento da história, com o encobrimento do racismo, permitiu que o
Estado expandisse a violência contra os
corpos negros e periféricos em um momento no qual a atenção das denúncias de
violações de direitos estava centrada, quando era possível, na repressão contra
os militantes e opositores do regime. De modo astuto e sofisticado, montou-se
na transição para a democracia uma ideologia e/ou um discurso que apontava para
uma relação intrínseca entre criminalidade e pobreza. Com isso, e apesar de
todas as denúncias que se acumulavam contra o aparato policial e repressivo
(incluindo o sistema penitenciário), a estratégia do mito da democracia racial
escondeu e ajudou a legitimar a manutenção desse aparato de violência estatal.
Além
disso, a nova democracia avaliou e transformou em política pública a ideia de
que a humanização e a sofisticação do aparelho policial e do sistema prisional
seriam capazes de desmontar o aparato repressivo. Desse modo, por meio de um
pacto racial de silenciamento, a estrutura de violência do Estado se manteve no
novo regime e se sofisticou, atingindo níveis absurdos de mortalidade e de um
regime de militarização dos corpos e dos territórios.
Passados
62 anos do início da última ditadura, o país continua sofrendo com sua
principal patologia social e política, tendo de conviver com a violência como
modo operacional do Estado e com sua propagação nas várias esferas. Desde o
feminicídio e o crime racial até as tentativas de golpe, o contexto histórico
nos mostra que se não houver imaginação e coragem para enfrentar o problema da
violência de Estado, não me parece que seja possível construir uma democracia
ou impedir que o fascismo se aposse do Estado de direito.
Fonte:
Por Edson Teles, no Blog da Boitempo

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