Jamil
Chade: Trump começa a promover ingerência em eleições com participação da
extrema direita
O
presidente Donald Trump decidiu que votações fora de seu país que envolvam a
extrema direita são também eleições de seu interesse. Nesta semana, a Casa
Branca decidiu despachar o vice-presidente JD Vance para a Hungria, numa
operação para tentar salvar o líder ultraconservador e considerado como um
modelo para Bolsonaro, Javier Milei, José Antonio Kast e tantos outros.
Orbán,
no poder há 16 anos, vive uma encruzilhada. Pela primeira vez, as pesquisas de
opinião mostram que ele pode perder a eleição que ocorre no dia 12 de abril.
A
visita de Vance, que começa na terça-feira, incluirá encontros com Orbán e um
discurso público, justamente na reta final de uma acirrada campanha eleitoral.
A cidade será praticamente fechada, inclusive uma ala do aeroporto.
Não é a
primeira vez que Trump decide se fazer presente numa eleição. O secretário do
Tesouro, Scott Bessent, agiu para apoiar o presidente Javier Milei antes das
eleições de meio de mandato, inclusive com um cheque de US$ 20 bilhões. No
Japão, a eleição também revelou um ação direta dos EUA.
Honduras,
Polônia, Romênia e vários outros países sentiram o que representa ter seu
processo eleitoral no foco de Washington nos últimos meses.
Mas, no
caso da Hungria, o que está em jogo é o futuro de um dos principais aliados do
movimento MAGA em toda a Europa.
A
relação entre a Casa Branca e Orbán, porém, foi marcada por desencontros. Em
novembro, tentando repetir o cheque recebido por Milei, o húngaro foi até
Washington para ser recebido por Trump. O húngaro chegou a anunciar a aprovação
de um pacote financeiro, negado dias depois pela Casa Branca.
Mesmo
assim, Budapeste modificou sua narrativa para explicar que, de fato, o pacote
estava “disponível” caso o país precisasse.
O
mal-estar foi superado com uma viagem de Marco Rubio, secretário de Estado
norte-americano, para a Hungria em fevereiro.
A ação
não se limita às visitas oficiais. Apesar de todos os institutos de sondagem
darem a vitória ao opositor de Orbán, aliados de Trump divulgaram há poucas
semanas um resultado diferente. A McLaughlin & Associates, conhecida como a
“pesquisa de opinião preferida de Trump”, publicou um levantamento dizendo que
Orbán vencerá a eleição com seis pontos de vantagem.
Peter
Magyar, o opositor, vem usando a ingerência dos EUA na eleição para alertar
sobre o preço que Trump poderá cobrar pelo apoio, insinuando acordos militares
não divulgados e sugerindo que Washington pode buscar concessões em troca de
seu apoio. “Tanto a ajuda do Leste quanto a do Oeste têm um preço”, disse.
¨
Flávio Bolsonaro expõe o projeto de entrega do Brasil a
Trump. Por Gustavo Tapioca
Em
coluna publicada nesta segunda-feira, 30 de março, a jornalista Natália Viana,
da Agência Pública, sintetizou no próprio título o núcleo do escândalo: “O
‘moderado’ Flávio Bolsonaro pediu intervenção dos EUA nas eleições”. No palco
do CPAC, nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro pediu “pressão diplomática” para
que as instituições brasileiras “funcionem adequadamente”.
O
episódio deixou de ser apenas leitura de uma coluna quando ganhou confirmação e
repercussão em outros veículos. O Metrópoles informou que, no evento, Flávio
fez apelo para que os Estados Unidos exercessem “pressão diplomática” sobre as
eleições no Brasil.
A CNN
registrou que ele disse não querer “interferência estrangeira”, mas, ao mesmo
tempo, pediu justamente “pressão diplomática” para que o pleito tivesse, em
suas palavras, “valores de origem americana”. O Terra também noticiou que ele
pediu que americanos “monitorem a liberdade de expressão” no Brasil e
pressionem diplomaticamente o país por “eleições justas”.
A
partir daí, a controvérsia entrou de vez no centro da política nacional. O
InfoMoney, reproduzindo conteúdo de O Globo, informou que Lula disse a
ministros ver na ida de Flávio ao CPAC uma busca de interferência de Donald
Trump nas eleições brasileiras e afirmou que o Brasil não pode aceitar
ingerência de outro país em seu processo eleitoral.
<><>
O que foi dito é grave demais para virar folclore
Em
qualquer democracia minimamente séria, um candidato que sobe a um palco
estrangeiro para pedir vigilância internacional e “pressão diplomática” sobre
as instituições do seu próprio país cruza uma linha política perigosa. Não é
mera bravata. Não é só retórica de guerra cultural. É a exportação do conflito
interno brasileiro para uma arena ligada ao trumpismo, com apelo explícito à
influência externa sobre o processo nacional.
Natália
Viana sustentou que nenhum presidenciável havia pedido de forma tão clara que
os EUA “pressionem” as instituições brasileiras. Esse é o ponto decisivo. A
fala não apenas agride. Ela revela. Rasga o verniz do suposto “moderado” e
mostra um projeto forjado no eixo Eduardo Bolsonaro, Steve Bannon e a extrema
direita dos Estados Unidos.
<><>
Da ingerência eleitoral à entrega econômica
Se o
primeiro alerta é democrático, o segundo é geopolítico. No mesmo discurso,
Flávio Bolsonaro apresentou o Brasil como peça estratégica dos Estados Unidos
na guerra global por minerais críticos. O Estado de Minas destacou a frase mais
reveladora: “O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério
será decidido, porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência
da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras.”
A CNN
tratou o tema como um problema político nacional ao registrar que a base
governista viu “traição à pátria” na fala sobre terras raras. O R7 informou que
a declaração virou munição da campanha de Lula para frear o avanço eleitoral de
Flávio, associando-o a interesses estrangeiros e a questionamentos sobre a
soberania nacional.
<><>
Terras raras: o subsolo na nova guerra global
Terras
raras e minerais críticos estão no centro da disputa por tecnologia, defesa,
transição energética e autonomia industrial. Por isso a frase de Flávio tem
peso explosivo. Ao dizer que o Brasil é a “solução dos EUA”, ele desloca o
debate do interesse nacional brasileiro para a conveniência estratégica de
Washington. Não é um detalhe semântico. É um enquadramento político.
A
sequência do discurso é devastadora porque condensa, em poucos minutos, duas
operações no mesmo gesto: primeiro, pede pressão externa sobre as eleições
brasileiras; depois, oferece o país como plataforma estratégica dos Estados
Unidos na disputa com a China. O que aparece ali não é apenas subserviência
retórica. É uma visão de poder.
<><>
O bolsonarismo troca soberania por tutela
A fala
ajuda a decifrar o projeto bolsonarista em 2026. Não se trata apenas de
conservadorismo, liberalismo econômico ou guerra cultural. O que se vê é algo
mais profundo: a disposição de subordinar a disputa interna, a narrativa
eleitoral e até ativos estratégicos do país a uma engrenagem internacional
comandada pela extrema direita dos Estados Unidos.
Quando
um presidenciável pede que potências estrangeiras monitorem e pressionem as
instituições do Brasil, e em seguida apresenta o país como fornecedor
estratégico para os EUA, a fronteira entre alinhamento ideológico e dependência
política deixa de ser tênue. Ela desaparece.
<><>
Politicamente, o dano é imenso
Do
ponto de vista estritamente jurídico, essas falas, isoladamente, não produzem
automaticamente crime ou inelegibilidade. Para isso, seria necessário algo além
do discurso: prova de atos concretos, articulação material ou ilícitos
eleitoralmente tipificados. Mas essa limitação do direito não reduz a gravidade
política do episódio. Ao contrário: reforça a centralidade da disputa pública.
O escândalo, aqui, não depende de sentença para existir. Ele já está dado nas
frases, no contexto e no palco em que foram pronunciadas.
É por
isso que a reação foi tão dura. A CNN registrou a leitura da base governista de
que a fala sobre terras raras configurou “traição à pátria”. O InfoMoney
mostrou Lula tratando o episódio como tentativa de buscar interferência
estrangeira na eleição. O que está em disputa não é apenas a legalidade formal
de uma declaração, mas a legitimidade de um projeto que se mostra confortável
em pedir tutela externa sobre o voto brasileiro e em enquadrar as riquezas
estratégicas do país a partir dos interesses de outra potência.
<><>
2026 já começou no terreno da soberania
A
eleição presidencial de 2026 não será apenas uma disputa entre nomes. Será uma
disputa entre duas ideias de país. De um lado, a defesa da soberania política,
do voto sem tutela externa e do controle nacional sobre recursos estratégicos.
De outro, um campo que já mostrou, em público e no exterior, estar disposto a
internacionalizar o conflito interno e a apresentar o Brasil como solução para
os interesses estratégicos de Washington.
Flávio
Bolsonaro talvez tenha acreditado falar apenas para sua plateia internacional.
Na prática, falou para o Brasil inteiro. E, ao falar, deixou escapar o
essencial. O problema não é só o radicalismo do discurso. É o conteúdo do
compromisso. O que ele ofereceu no CPAC não foi apenas fidelidade a Trump. Foi
algo mais grave: a ideia de que a democracia brasileira pode ser observada,
enquadrada e pressionada de fora, enquanto o subsolo nacional é apresentado
como peça de reposicionamento geopolítico dos Estados Unidos.
<><>
O discurso de Flávio Bolsonaro responde à pergunta central
A fala
sobre terras raras já seria grave por si. O pedido de “pressão diplomática”
sobre as eleições brasileiras já seria escandaloso por si. Juntas, as duas
coisas compõem um retrato cristalino. O que apareceu no CPAC não foi um
candidato “moderado”. Foi um projeto de poder. Um projeto que flerta com a
tutela estrangeira sobre a democracia brasileira e com a reordenação de ativos
estratégicos do país segundo a conveniência dos Estados Unidos.
Se
havia dúvida sobre o que está em jogo em outubro de 2026, o discurso de Flávio
Bolsonaro ajudou a dissipá-la. A pergunta central da eleição começa a se impor
com nitidez brutal: quem decide o destino do Brasil — o povo brasileiro ou os
interesses externos aos quais o bolsonarismo se oferece?
¨
Articulação atua para frear lobby do clã Bolsonaro nos
EUA contra a democracia no Brasil
Entidades
da sociedade civil, observadores, empresas e até mesmo intermediários do
governo atuam nos bastidores para tentar frear o lobby de Flávio Bolsonaro nos EUA e
denunciar a ingerência externa em processos democráticos por parte de Donald
Trump.
O ICL
Notícias apurou com exclusividade que senadores e deputados democratas,
assim como técnicos do Escritório de Comércio da Casa Branca e outros
interlocutores, estão recebendo informações para desmontar os argumentos usados
pelo clã Bolsonaro para promover algum tipo de ingerência externa na eleição
brasileira.
Na
semana passada, Flávio viajou para os EUA e, em um discurso em um evento
ultraconservador no Texas, sinalizou sua vontade de atender aos interesses de
Trump em diversas áreas, caso seja eleito. Mas um dos elementos que chamou a
atenção foi sua postura de provocação para que a Casa Branca fiscalize a
eleição no Brasil, assim como a promessa de um acordo sobre terras raras e a
classificação do narcotráfico em “grupos terroristas”.
Dias
depois, O Comitê Judiciário da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos publicou
um novo relatório sobre o Brasil, com ataques contra o ministro Alexandre de
Moraes. O órgão é liderado pelo deputado Jim Jordan, da base mais radical dos
republicanos, e que recebeu, em janeiro, tanto Eduardo como Flávio Bolsonaro.
Jordan
é um velho conhecido do movimento conspiracionista. Na luta para reverter os
resultados das eleições de 2020, democratas apontam que Jordan foi “o homem de
confiança de Trump — usando seu poder no Congresso para espalhar teorias da
conspiração infundadas sobre as eleições de 2020, o que levou insurgentes a
Washington, D.C., para realizar um ataque ao Capitólio dos EUA”.
No
relatório final do Comitê que investigou os ataques de 6 de janeiro de 2021,
ele é também alvo de denúncias.“O deputado Jordan foi uma figura importante nos
esforços do presidente Trump. Ele participou de inúmeras reuniões
pós-eleitorais nas quais altos funcionários da Casa Branca, Rudolph Giuliani e
outros discutiram estratégias para contestar a eleição, principalmente
alegações de que a eleição havia sido fraudada”, disse o informe.
“Em 2
de janeiro de 2021, o deputado Jordan liderou uma teleconferência na qual ele,
o presidente Trump e outros membros do Congresso discutiram estratégias para
adiar a sessão conjunta de 6 de janeiro”, explicou.
Na
mesma semana, um documento publicado pelo USTR (escritório de representação
comercial da Casa Branca) criticou o Pix, barreiras comerciais brasileiras e
questionou projetos de lei que buscam regulamentar redes sociais.
<><>
Confidencialidade
Sem a
perspectiva ainda de um encontro na Casa Branca entre Luiz Inácio Lula da Silva
e Donald Trump, iniciativas passaram a ganhar força para tentar desmontar a
narrativa bolsonarista. A esperança é de que, com informações, uma ala mais
moderada tanto de republicanos como da oposição democrata ajude a conter
eventuais ações do presidente dos EUA, influenciado por sua base mais radical.
Em um
dos documentos que chegou aos democratas, por exemplo, o alerta é feito sobre o
relacionamento entre Flávio e a ala mais radical da administração Trump.
Os
dossiês denunciam as manobras do bolsonarismo para atrair o governo
norte-americano para a eleição brasileira e alertam sobre os riscos que isso
pode gerar para a relação entre os dois países. Em um dos documentos,
observadores sugerem que os democratas monitorem a ação de Trump no Brasil para
evitar que haja uma ingerência externa.
Os
contatos estão sendo feitos em sigilo absoluto, com a ordem de se preservar
quais parlamentares americanos estão recebendo as informações e gestões. O
objetivo é o de evitar que membros da Casa Branca ou que o clã Bolsonaro possam
agir contra a gestão desses interlocutores.
Em
2025, no auge da crise entre Trump e Lula, missões públicas que tentaram
dialogar com membros e enviados do governo Trump se depararam com uma ação
coordenada por parte dos bolsonaristas para minar o diálogo. A opção, agora, é
agir em sigilo.
Entre
as sugestões, os democratas foram alertados sobre a instrumentalização política
que o clã Bolsonaro poderia fazer diante da classificação do PCC e do Comando
Vermelho como “entidades terroristas” por parte dos EUA. Um dos pontos
levantados é que isso prejudicaria as parcerias existentes no combate ao crime
organizado ou aumentaria as tensões desnecessariamente entre os dois países.
A ação
também envolve setores da indústria e agricultura. O governo Trump deu até o
próximo dia 15 de abril para que qualquer entidade submeta suas considerações
diante das investigações abertas pela Casa Branca contra o Brasil e vários
outros países por conta da existência de trabalho forçado em suas economias. Os
EUA ameaçam impor novas tarifas de importação caso considerem que essas
práticas favorecem de forma injusta os produtores brasileiros.
O ICL
Notícias apurou que algumas associações de classe no Brasil consideram submeter
suas avaliações. Além da ação da indústria e do agronegócio, uma audiência
pública nos EUA começará a partir do dia 28 de abril com todos os envolvidos.
<><>
Ação internacional contra ingerência
A
operação também envolve o governo brasileiro. Em meados de abril, Lula irá para
a Espanha para uma reunião de líderes progressistas. Parte da iniciativa tem
como objetivo coordenar posições contra eventuais ingerências externas em
processos eleitorais pelo mundo.
A
mobilização progressista ainda contará com a presença do colombiano Gustavo
Petro, Stefan Löfven, presidente do Partido Socialista Europeu, Cyril
Ramaphosa, presidente da África do Sul, Yamandú Orsi, presidente do Uruguai,
Lars Klingbeil, vice-chanceler alemão, o presidente do Conselho Europeu,
António Costa, e pela vice-presidente da Comissão Europeia, Teresa Ribera, além
do presidente do governo da Espanha, Pedro Sanchez.
Não se
descarta ainda que a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez também
participe.
Em
paralelo, cerca de dez entidades da sociedade civil brasileira — entre elas o
Instituto Vladimir Herzog, o MST e a Coalizão Negra — também estarão presentes
para reuniões destinadas a coordenar posições contra o movimento autoritário
que ganha força em diversos países e sua ingerência em processos eleitorais,
entre eles o Brasil. A ideia é a de fortalecer a articulação internacional
contra movimentos antidemocráticos.
Fonte:
ICL Notícias/Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário