quarta-feira, 8 de abril de 2026

Jamil Chade: Trump começa a promover ingerência em eleições com participação da extrema direita

O presidente Donald Trump decidiu que votações fora de seu país que envolvam a extrema direita são também eleições de seu interesse. Nesta semana, a Casa Branca decidiu despachar o vice-presidente JD Vance para a Hungria, numa operação para tentar salvar o líder ultraconservador e considerado como um modelo para Bolsonaro, Javier Milei, José Antonio Kast e tantos outros.

Orbán, no poder há 16 anos, vive uma encruzilhada. Pela primeira vez, as pesquisas de opinião mostram que ele pode perder a eleição que ocorre no dia 12 de abril.

A visita de Vance, que começa na terça-feira, incluirá encontros com Orbán e um discurso público, justamente na reta final de uma acirrada campanha eleitoral. A cidade será praticamente fechada, inclusive uma ala do aeroporto.

Não é a primeira vez que Trump decide se fazer presente numa eleição. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, agiu para apoiar o presidente Javier Milei antes das eleições de meio de mandato, inclusive com um cheque de US$ 20 bilhões. No Japão, a eleição também revelou um ação direta dos EUA.

Honduras, Polônia, Romênia e vários outros países sentiram o que representa ter seu processo eleitoral no foco de Washington nos últimos meses.

Mas, no caso da Hungria, o que está em jogo é o futuro de um dos principais aliados do movimento MAGA em toda a Europa.

A relação entre a Casa Branca e Orbán, porém, foi marcada por desencontros. Em novembro, tentando repetir o cheque recebido por Milei, o húngaro foi até Washington para ser recebido por Trump. O húngaro chegou a anunciar a aprovação de um pacote financeiro, negado dias depois pela Casa Branca.

Mesmo assim, Budapeste modificou sua narrativa para explicar que, de fato, o pacote estava “disponível” caso o país precisasse.

O mal-estar foi superado com uma viagem de Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, para a Hungria em fevereiro.

A ação não se limita às visitas oficiais. Apesar de todos os institutos de sondagem darem a vitória ao opositor de Orbán, aliados de Trump divulgaram há poucas semanas um resultado diferente. A McLaughlin & Associates, conhecida como a “pesquisa de opinião preferida de Trump”, publicou um levantamento dizendo que Orbán vencerá a eleição com seis pontos de vantagem.

Peter Magyar, o opositor, vem usando a ingerência dos EUA na eleição para alertar sobre o preço que Trump poderá cobrar pelo apoio, insinuando acordos militares não divulgados e sugerindo que Washington pode buscar concessões em troca de seu apoio. “Tanto a ajuda do Leste quanto a do Oeste têm um preço”, disse.

¨      Flávio Bolsonaro expõe o projeto de entrega do Brasil a Trump. Por Gustavo Tapioca

Em coluna publicada nesta segunda-feira, 30 de março, a jornalista Natália Viana, da Agência Pública, sintetizou no próprio título o núcleo do escândalo: “O ‘moderado’ Flávio Bolsonaro pediu intervenção dos EUA nas eleições”. No palco do CPAC, nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro pediu “pressão diplomática” para que as instituições brasileiras “funcionem adequadamente”.  

O episódio deixou de ser apenas leitura de uma coluna quando ganhou confirmação e repercussão em outros veículos. O Metrópoles informou que, no evento, Flávio fez apelo para que os Estados Unidos exercessem “pressão diplomática” sobre as eleições no Brasil.  

A CNN registrou que ele disse não querer “interferência estrangeira”, mas, ao mesmo tempo, pediu justamente “pressão diplomática” para que o pleito tivesse, em suas palavras, “valores de origem americana”. O Terra também noticiou que ele pediu que americanos “monitorem a liberdade de expressão” no Brasil e pressionem diplomaticamente o país por “eleições justas”.  

A partir daí, a controvérsia entrou de vez no centro da política nacional. O InfoMoney, reproduzindo conteúdo de O Globo, informou que Lula disse a ministros ver na ida de Flávio ao CPAC uma busca de interferência de Donald Trump nas eleições brasileiras e afirmou que o Brasil não pode aceitar ingerência de outro país em seu processo eleitoral.  

<><> O que foi dito é grave demais para virar folclore 

Em qualquer democracia minimamente séria, um candidato que sobe a um palco estrangeiro para pedir vigilância internacional e “pressão diplomática” sobre as instituições do seu próprio país cruza uma linha política perigosa. Não é mera bravata. Não é só retórica de guerra cultural. É a exportação do conflito interno brasileiro para uma arena ligada ao trumpismo, com apelo explícito à influência externa sobre o processo nacional.  

Natália Viana sustentou que nenhum presidenciável havia pedido de forma tão clara que os EUA “pressionem” as instituições brasileiras. Esse é o ponto decisivo. A fala não apenas agride. Ela revela. Rasga o verniz do suposto “moderado” e mostra um projeto forjado no eixo Eduardo Bolsonaro, Steve Bannon e a extrema direita dos Estados Unidos.  

<><> Da ingerência eleitoral à entrega econômica 

Se o primeiro alerta é democrático, o segundo é geopolítico. No mesmo discurso, Flávio Bolsonaro apresentou o Brasil como peça estratégica dos Estados Unidos na guerra global por minerais críticos. O Estado de Minas destacou a frase mais reveladora: “O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras.”  

A CNN tratou o tema como um problema político nacional ao registrar que a base governista viu “traição à pátria” na fala sobre terras raras. O R7 informou que a declaração virou munição da campanha de Lula para frear o avanço eleitoral de Flávio, associando-o a interesses estrangeiros e a questionamentos sobre a soberania nacional.  

<><> Terras raras: o subsolo na nova guerra global 

Terras raras e minerais críticos estão no centro da disputa por tecnologia, defesa, transição energética e autonomia industrial. Por isso a frase de Flávio tem peso explosivo. Ao dizer que o Brasil é a “solução dos EUA”, ele desloca o debate do interesse nacional brasileiro para a conveniência estratégica de Washington. Não é um detalhe semântico. É um enquadramento político.  

A sequência do discurso é devastadora porque condensa, em poucos minutos, duas operações no mesmo gesto: primeiro, pede pressão externa sobre as eleições brasileiras; depois, oferece o país como plataforma estratégica dos Estados Unidos na disputa com a China. O que aparece ali não é apenas subserviência retórica. É uma visão de poder.  

<><> O bolsonarismo troca soberania por tutela 

A fala ajuda a decifrar o projeto bolsonarista em 2026. Não se trata apenas de conservadorismo, liberalismo econômico ou guerra cultural. O que se vê é algo mais profundo: a disposição de subordinar a disputa interna, a narrativa eleitoral e até ativos estratégicos do país a uma engrenagem internacional comandada pela extrema direita dos Estados Unidos.  

Quando um presidenciável pede que potências estrangeiras monitorem e pressionem as instituições do Brasil, e em seguida apresenta o país como fornecedor estratégico para os EUA, a fronteira entre alinhamento ideológico e dependência política deixa de ser tênue. Ela desaparece.  

<><> Politicamente, o dano é imenso 

Do ponto de vista estritamente jurídico, essas falas, isoladamente, não produzem automaticamente crime ou inelegibilidade. Para isso, seria necessário algo além do discurso: prova de atos concretos, articulação material ou ilícitos eleitoralmente tipificados. Mas essa limitação do direito não reduz a gravidade política do episódio. Ao contrário: reforça a centralidade da disputa pública. O escândalo, aqui, não depende de sentença para existir. Ele já está dado nas frases, no contexto e no palco em que foram pronunciadas.  

É por isso que a reação foi tão dura. A CNN registrou a leitura da base governista de que a fala sobre terras raras configurou “traição à pátria”. O InfoMoney mostrou Lula tratando o episódio como tentativa de buscar interferência estrangeira na eleição. O que está em disputa não é apenas a legalidade formal de uma declaração, mas a legitimidade de um projeto que se mostra confortável em pedir tutela externa sobre o voto brasileiro e em enquadrar as riquezas estratégicas do país a partir dos interesses de outra potência.  

<><> 2026 já começou no terreno da soberania 

A eleição presidencial de 2026 não será apenas uma disputa entre nomes. Será uma disputa entre duas ideias de país. De um lado, a defesa da soberania política, do voto sem tutela externa e do controle nacional sobre recursos estratégicos. De outro, um campo que já mostrou, em público e no exterior, estar disposto a internacionalizar o conflito interno e a apresentar o Brasil como solução para os interesses estratégicos de Washington.  

Flávio Bolsonaro talvez tenha acreditado falar apenas para sua plateia internacional. Na prática, falou para o Brasil inteiro. E, ao falar, deixou escapar o essencial. O problema não é só o radicalismo do discurso. É o conteúdo do compromisso. O que ele ofereceu no CPAC não foi apenas fidelidade a Trump. Foi algo mais grave: a ideia de que a democracia brasileira pode ser observada, enquadrada e pressionada de fora, enquanto o subsolo nacional é apresentado como peça de reposicionamento geopolítico dos Estados Unidos.  

<><> O discurso de Flávio Bolsonaro responde à pergunta central 

A fala sobre terras raras já seria grave por si. O pedido de “pressão diplomática” sobre as eleições brasileiras já seria escandaloso por si. Juntas, as duas coisas compõem um retrato cristalino. O que apareceu no CPAC não foi um candidato “moderado”. Foi um projeto de poder. Um projeto que flerta com a tutela estrangeira sobre a democracia brasileira e com a reordenação de ativos estratégicos do país segundo a conveniência dos Estados Unidos.  

Se havia dúvida sobre o que está em jogo em outubro de 2026, o discurso de Flávio Bolsonaro ajudou a dissipá-la. A pergunta central da eleição começa a se impor com nitidez brutal: quem decide o destino do Brasil — o povo brasileiro ou os interesses externos aos quais o bolsonarismo se oferece?  

¨      Articulação atua para frear lobby do clã Bolsonaro nos EUA contra a democracia no Brasil

Entidades da sociedade civil, observadores, empresas e até mesmo intermediários do governo atuam nos bastidores para tentar frear o lobby de Flávio Bolsonaro nos EUA e denunciar a ingerência externa em processos democráticos por parte de Donald Trump.

O ICL Notícias apurou com exclusividade que senadores e deputados democratas, assim como técnicos do Escritório de Comércio da Casa Branca e outros interlocutores, estão recebendo informações para desmontar os argumentos usados pelo clã Bolsonaro para promover algum tipo de ingerência externa na eleição brasileira.

Na semana passada, Flávio viajou para os EUA e, em um discurso em um evento ultraconservador no Texas, sinalizou sua vontade de atender aos interesses de Trump em diversas áreas, caso seja eleito. Mas um dos elementos que chamou a atenção foi sua postura de provocação para que a Casa Branca fiscalize a eleição no Brasil, assim como a promessa de um acordo sobre terras raras e a classificação do narcotráfico em “grupos terroristas”.

Dias depois, O Comitê Judiciário da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos publicou um novo relatório sobre o Brasil, com ataques contra o ministro Alexandre de Moraes. O órgão é liderado pelo deputado Jim Jordan, da base mais radical dos republicanos, e que recebeu, em janeiro, tanto Eduardo como Flávio Bolsonaro.

Jordan é um velho conhecido do movimento conspiracionista. Na luta para reverter os resultados das eleições de 2020, democratas apontam que Jordan foi “o homem de confiança de Trump — usando seu poder no Congresso para espalhar teorias da conspiração infundadas sobre as eleições de 2020, o que levou insurgentes a Washington, D.C., para realizar um ataque ao Capitólio dos EUA”.

No relatório final do Comitê que investigou os ataques de 6 de janeiro de 2021, ele é também alvo de denúncias.“O deputado Jordan foi uma figura importante nos esforços do presidente Trump. Ele participou de inúmeras reuniões pós-eleitorais nas quais altos funcionários da Casa Branca, Rudolph Giuliani e outros discutiram estratégias para contestar a eleição, principalmente alegações de que a eleição havia sido fraudada”, disse o informe.

“Em 2 de janeiro de 2021, o deputado Jordan liderou uma teleconferência na qual ele, o presidente Trump e outros membros do Congresso discutiram estratégias para adiar a sessão conjunta de 6 de janeiro”, explicou.

Na mesma semana, um documento publicado pelo USTR (escritório de representação comercial da Casa Branca) criticou o Pix, barreiras comerciais brasileiras e questionou projetos de lei que buscam regulamentar redes sociais.

<><> Confidencialidade

Sem a perspectiva ainda de um encontro na Casa Branca entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, iniciativas passaram a ganhar força para tentar desmontar a narrativa bolsonarista. A esperança é de que, com informações, uma ala mais moderada tanto de republicanos como da oposição democrata ajude a conter eventuais ações do presidente dos EUA, influenciado por sua base mais radical.

Em um dos documentos que chegou aos democratas, por exemplo, o alerta é feito sobre o relacionamento entre Flávio e a ala mais radical da administração Trump.

Os dossiês denunciam as manobras do bolsonarismo para atrair o governo norte-americano para a eleição brasileira e alertam sobre os riscos que isso pode gerar para a relação entre os dois países. Em um dos documentos, observadores sugerem que os democratas monitorem a ação de Trump no Brasil para evitar que haja uma ingerência externa.

Os contatos estão sendo feitos em sigilo absoluto, com a ordem de se preservar quais parlamentares americanos estão recebendo as informações e gestões. O objetivo é o de evitar que membros da Casa Branca ou que o clã Bolsonaro possam agir contra a gestão desses interlocutores.

Em 2025, no auge da crise entre Trump e Lula, missões públicas que tentaram dialogar com membros e enviados do governo Trump se depararam com uma ação coordenada por parte dos bolsonaristas para minar o diálogo. A opção, agora, é agir em sigilo.

Entre as sugestões, os democratas foram alertados sobre a instrumentalização política que o clã Bolsonaro poderia fazer diante da classificação do PCC e do Comando Vermelho como “entidades terroristas” por parte dos EUA. Um dos pontos levantados é que isso prejudicaria as parcerias existentes no combate ao crime organizado ou aumentaria as tensões desnecessariamente entre os dois países.

A ação também envolve setores da indústria e agricultura. O governo Trump deu até o próximo dia 15 de abril para que qualquer entidade submeta suas considerações diante das investigações abertas pela Casa Branca contra o Brasil e vários outros países por conta da existência de trabalho forçado em suas economias. Os EUA ameaçam impor novas tarifas de importação caso considerem que essas práticas favorecem de forma injusta os produtores brasileiros.

O ICL Notícias apurou que algumas associações de classe no Brasil consideram submeter suas avaliações. Além da ação da indústria e do agronegócio, uma audiência pública nos EUA começará a partir do dia 28 de abril com todos os envolvidos.

<><> Ação internacional contra ingerência

A operação também envolve o governo brasileiro. Em meados de abril, Lula irá para a Espanha para uma reunião de líderes progressistas. Parte da iniciativa tem como objetivo coordenar posições contra eventuais ingerências externas em processos eleitorais pelo mundo.

A mobilização progressista ainda contará com a presença do colombiano Gustavo Petro, Stefan Löfven, presidente do Partido Socialista Europeu, Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul, Yamandú Orsi, presidente do Uruguai, Lars Klingbeil, vice-chanceler alemão, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e pela vice-presidente da Comissão Europeia, Teresa Ribera, além do presidente do governo da Espanha, Pedro Sanchez.

Não se descarta ainda que a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez também participe.

Em paralelo, cerca de dez entidades da sociedade civil brasileira — entre elas o Instituto Vladimir Herzog, o MST e a Coalizão Negra — também estarão presentes para reuniões destinadas a coordenar posições contra o movimento autoritário que ganha força em diversos países e sua ingerência em processos eleitorais, entre eles o Brasil. A ideia é a de fortalecer a articulação internacional contra movimentos antidemocráticos.

 

Fonte: ICL Notícias/Brasil 247

 

 

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