David
Deccache: O projeto oculto das elites brasileiras
Tornou-se
lugar comum afirmar que o Brasil sofre de curto-prazismo. A ideia aparece em
análises econômicas, debates políticos e editoriais, geralmente associada à
incapacidade do país de formular projetos estruturais de longo prazo.
Esse
diagnóstico não é destituído de fundamento. Ele capta um traço visível da
experiência política brasileira: a fragmentação das políticas públicas, a
instabilidade institucional e a dificuldade de sustentar agendas estruturais
voltadas à maioria da população e superação da posição periférica do Brasil na
divisão internacional do trabalho. Seu limite está em permanecer no plano da
manifestação.
Quando
observamos a formação econômica e social brasileira sob a lente do conflito
entre classes na especificidade de um país periférico, percebe-se que o que
aparece como curto-prazismo para a maioria é, na realidade, a forma pela qual o
projeto de longo prazo das classes dominantes se impõe.
No
cotidiano da maioria dos brasileiros, o Estado aparece como gestor da urgência.
A política social assume a forma de programas focalizados, transitórios e
permanentemente condicionados à conjuntura fiscal e eleitoral. Direitos são
implementados de maneira parcial, sujeitos a contingenciamentos e revisões
constantes. Essa dinâmica produz a sensação de improviso permanente e alimenta
a percepção de que o país é incapaz de planejar o futuro.
Se o
improviso é visível para todos, o que ninguém pode ver, porque simplesmente não
existe, é sequer um esboço de projeto consistente de transformação estrutural.
Não há qualquer horizonte de mudança na distribuição de renda, na
universalização de direitos e serviços públicos ou no reposicionamento do
Brasil na divisão internacional do trabalho. Permanece intocado o padrão
centro-periferia que organiza a economia nacional, sustentado por frações
dominantes vinculadas ao complexo primário-exportador e ao capital rentista.
Ao
mesmo tempo, quando se observa a trajetória das (contra)reformas institucionais
e econômicas brasileiras, emerge um quadro bastante distinto. O país possui uma
longa tradição de planejamento estrutural quando se trata de organizar e
reorganizar as condições de acumulação para atender aos interesses das classes
dominantes em cada quadra histórica. Para não ir muito longe, o que foi o amplo
conjunto de contrarreformas liberais que, de forma articulada e coordenada,
conjugou medidas fiscais, trabalhistas, previdenciárias, monetárias e
regulatórias, formuladas e implementadas com notável continuidade estratégica
nos últimos anos, senão a consecução bem-sucedida de um projeto de país?
Essa
dinâmica possui raízes profundas na própria formação econômica do país. O
Brasil não foi estruturado como um espaço vazio à espera de um projeto
nacional, como supõem os mais otimistas que ainda aguardam a emergência de uma
burguesia nacional redentora. Foi organizado desde a origem para cumprir
funções específicas na expansão do capitalismo mundial. Sua inserção como
economia primário-exportadora, dependente de tecnologia, crédito e mercados
externos, longe de resultar de improviso histórico, expressa uma forma
particular de planejamento subordinado, internalizado e continuamente
reproduzido por suas classes dominantes.
Mesmo
quando o país avançou em um projeto mais estrutural de industrialização, esse
processo foi rapidamente incorporado a um padrão de modernização conservadora,
consolidado após o golpe de 1964 e a instauração da Ditadura Civil-Militar, que
reorganizou o Estado como instrumento de repressão à classe trabalhadora. Se,
de um lado, havia um projeto coordenado de industrialização, de outro
persistiam o arrocho salarial, a precariedade dos serviços públicos, a
manutenção das desigualdades sociais e regionais e o poder das velhas
oligarquias associadas ao imperialismo.
Nesse
percurso, após muitos anos de luta da classe trabalhadora, a Constituição de
1988 representou uma inflexão importante ao projetar um amplo sistema de
direitos sociais e estabelecer o princípio da universalização das políticas
públicas. A criação do Sistema Único de Saúde, a reorganização da seguridade
social, a institucionalização de políticas públicas universais nas áreas de
assistência, educação e proteção ao trabalho, a vinculação constitucional de
recursos para políticas sociais, a ampliação dos mecanismos de participação
social e a consagração de princípios de desenvolvimento nacional e de função
social da propriedade expressaram a tentativa de aproximar o país de uma forma
periférica e tardia de welfare state.
Ao
mesmo tempo, porém, esse horizonte passou rapidamente a ser enquadrado por
severas restrições macroeconômicas. No final dos anos 1980 e ao longo da década
de 1990 consolidou-se um regime marcado pela liberalização financeira e
comercial, pela austeridade fiscal e monetária e pela retração do papel
produtivo do Estado, reconfigurado como organizador de amplos processos de
privatização, em meio a uma crescente especialização primário-exportadora da
economia. Tratava-se, em última instância, da afirmação de um projeto das
classes dominantes articulado à reorganização neoliberal do capitalismo e
subordinado às hierarquias da economia mundial, no qual a austeridade operava
como mecanismo de precarização dos serviços públicos e de legitimação das
privatizações.
O
resultado foi a progressiva limitação das bases materiais de sustentação do
projeto social esboçado na Constituição. Estabeleceu-se, assim, uma convivência
tensa e subordinada entre uma arquitetura constitucional orientada à
universalização de direitos e um regime macroeconômico neoliberal que restringe
sistematicamente sua realização.
Durante
a primeira década deste século, o projeto de inserção subordinada do Brasil na
divisão internacional do trabalho, embora amplamente dominante, conviveu com
uma espécie de ensaio social-desenvolvimentista de baixa intensidade que operou
nos marcos institucionais abertos pela Constituição de 1988, precisamente
porque não colocava em questão o núcleo estrutural do projeto liberal. A
conjuntura externa favorável e o dinamismo do mercado interno permitiram alguma
margem de acomodação social, abrindo espaço para concessões distributivas como
a valorização real do salário-mínimo, a expansão das universidades públicas, a
ampliação das políticas de transferência de renda, o aumento da formalização do
emprego e a retomada do investimento público, especialmente em infraestrutura e
no financiamento público ao investimento produtivo. Ainda assim, tratava-se de
uma acomodação limitada, que produziu avanços sociais relevantes sem alterar os
fundamentos do padrão dependente de acumulação.
Esse
arranjo começou a se esgotar ao longo da década de 2010. Mesmo as concessões
limitadas realizadas no período anterior passaram a gerar fricções crescentes
no interior do padrão de acumulação.
De um
lado, a crise internacional iniciada em 2008 aprofundava suas consequências no
centro do capitalismo. A desaceleração do crescimento e a compressão das taxas
de lucro intensificaram a pressão das grandes corporações e do capital
financeiro por novos espaços de valorização. Nesse contexto, economias
periféricas como a brasileira passaram a se tornar cada vez mais atrativas para
o capital das potências imperialistas, sendo vistas como territórios
privilegiados para a reabertura de oportunidades de acumulação e recomposição
das taxas de lucro, seja pela ampliação da exploração de recursos naturais,
seja pela apropriação de ativos estratégicos por meio de privatizações,
liberalização econômica e desorganização de capacidades produtivas nacionais.
Por
outro lado, a redução do desemprego, a elevação da renda do trabalho e o
fortalecimento do poder de barganha da classe trabalhadora intensificavam os
conflitos distributivos. A melhora das condições no mercado de trabalho
ampliava o poder social do trabalho e tensionava as margens de rentabilidade do
capital. Diante desse cenário, frações dominantes da burguesia doméstica
passaram a pressionar pela recomposição das taxas de lucro e pela restauração
da disciplina sobre o trabalho, tendo a austeridade fiscal e o ajuste do gasto
social como instrumentos centrais dessa ofensiva.
O
espaço político e econômico para concessões, por mínimas que fossem, à classe
trabalhadora começou, então, a se fechar rapidamente. Frações dominantes do
capital passaram a se mobilizar de forma cada vez mais agressiva pela reversão
daquele ciclo, exigindo a recomposição das taxas de lucro, a restauração da
disciplina sobre o trabalho e uma profunda reconfiguração do Estado em favor da
acumulação privada sem freios. Já não se tolerava sequer a manutenção daquele
esboço inacabado e precário de projeto de bem-estar social inscrito na
Constituição de 1988.
Foi
nesse contexto que, a partir de 2015, o conflito se deslocou para um novo
patamar. A tentativa do governo Dilma de recompor a confiança das frações
dominantes por meio de um ajuste ortodoxo revelou-se rapidamente insuficiente.
Veio o golpe. Para amplos setores do capital, já não se tratava de corrigir
rumos ou administrar a conjuntura dentro dos marcos existentes. O que estava em
jogo era a remoção dos limites institucionais que ainda restringiam a plena
realização de seu projeto, especialmente aqueles inscritos na Constituição de
1988 e em sua arquitetura de direitos sociais. Nada que pudesse obstruir esse
movimento seria tolerado, nem a democracia.
É nesse
momento que ganha centralidade o documento Uma Ponte para o Futuro, apresentado
em 2015 pelo PMDB, como plataforma programática das classes dominantes para a
reorganização da política econômica brasileira. O texto defendia a consolidação
de um regime de austeridade fiscal radical e permanente, a desvinculação
constitucional de receitas orçamentárias, a revisão dos mecanismos de indexação
do gasto público, a ampliação das privatizações e concessões, a flexibilização
das relações de trabalho e uma abertura mais ampla da economia ao capital
privado, nacional e estrangeiro. Tratava-se de uma ofensiva destinada a remover
qualquer limite institucional ainda preservado pela Constituição de 1988 à
expansão do capital, liberando sua tendência a converter em mercadoria tudo o
que encontra pela frente, a submeter sem freios o trabalho e a natureza à
lógica da valorização e a dissolver os remanescentes de soberania econômica
nacional.
Nos
anos seguintes, essa agenda se materializou em uma série de contrarreformas
estruturais: a instituição do teto de gastos por vinte anos, cuja lógica
reapareceu no atual regime fiscal; a contrarreforma trabalhista, que desmontou
mecanismos de proteção ao trabalho; as mudanças no sistema previdenciário, que
ampliaram o espaço para a previdência privada; a autonomia formal do Banco
Central; e a expansão de programas de privatização, concessões e parcerias
público-privadas. Consolidou-se, assim, um Estado simultaneamente austero no
plano social e ativo na reorganização institucional e regulatória necessária à
ampliação dos processos de desestatização.
Longe
de qualquer improviso ou curto-prazismo, avança a pleno vapor um projeto de
longo prazo para as elites, enquanto a maioria não sabe se poderá se aposentar,
se os jovens terão um emprego minimamente digno ou, em muitos casos, se haverá
comida na mesa amanhã.
• Na encruzilhada entre a civilização e a
barbárie. Por Juca Ferreira
Ao
condenar as guerras e defender a paz e o multilateralismo durante a Cúpula de
Líderes da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), na
Colômbia, neste mês de março, Lula nos representa. Dá um grande orgulho ter um
presidente que, neste momento histórico tão difícil, fala com clareza, propondo
corajosamente que o mundo enfrente essa onda insana de destruição de
democracias, legitimadora de todo tipo de crime contra a humanidade.
Nesta
hora sombria, uma grande escumalha emerge dos subterrâneos: belicistas,
fascistas, nazistas; os que querem dar continuidade e revitalizar a escravidão;
os que morrem de medo da ideia da igualdade de direitos e de oportunidades para
todos os seres humanos; os que temem o outro, os outros, as outras culturas;
esses que se sentem ameaçados pelas diferenças humanas, por diferentes modos de
ser; os adoradores do dinheiro e os que aceitam de bom grado a servidão
consentida; os que são defensores da exploração sem limites dos trabalhadores
pelo capital; os que ganham com a economia de guerra; os especuladores e os que
querem revitalizar, a qualquer custo, os grandes impérios decadentes. Neste
momento sombrio, o império da morte e da aniquilação vem à luz do dia fazer
pilhagens, matar sem dó e sem pudor, como se viu na ascensão do nazismo na
Alemanha. Hoje, o massacre de crianças, o assassinato de famílias inteiras, a
destruição de territórios e o apagamento de culturas milenares são transmitidos
em tempo real e festejados com orgulho. O tempo da vergonha não existe mais.
Zombam
dos valores civilizatórios que a humanidade construiu; desprezam a empatia e a
ética, desrespeitam todos os princípios que sustentam a vida e a convivência em
sociedade. Uma horda de rancorosos, que se ufanam de serem os arautos da morte,
faz da violência sua única linguagem. À frente estão aqueles que desejam
renovar suas relações imperialistas com o resto do mundo. Trump vem fazendo a
pilhagem de fontes de energia, de riquezas minerais e de outros ativos
econômicos acreditando que, com isso, reverterá a decadência dos Estados
Unidos. Não reverterá. Mas a truculência de seus atos está provocando uma
trinca profunda na frágil estabilidade do mundo. Ao não reconhecer os direitos
das outras nações, Trump estabelece que a pilhagem é uma prerrogativa de países
militarmente mais fortes.
Sob a
batuta de Trump, “mileis”, “bolsonaros” e que tais, uma escumalha – o que há de
pior entre os seres humanos – está sendo mobilizada nos quatro cantos do
planeta para tocar o terror. Essa onda semeia o medo, a falta de perspectiva e
a desconfiança; promove o terror e o caos. Cresce se alimentando da insegurança
geral para se impor e submeter a todos aos seus desmandos.
Nesse
contexto assombroso, a fala de Lula nos fóruns mundiais adquire uma grande
importância e legitimidade. É um bálsamo, um sopro de vento fresco para os que
estão apreensivos, percebendo que a insanidade está conquistando terreno. A voz
de Lula se espalha por todas as latitudes e longitudes, indicando alternativas,
enquanto os fascistas, nazistas e todos os supremacistas tentam recuperar as
energias exauridas na derrota da Segunda Grande Guerra. Estão, neste momento,
ameaçando de muitas maneiras as democracias e atacando direitos individuais e
coletivos na tentativa de enfraquecer e desmoralizar os Estados nacionais, suas
normas e instituições.
São
arautos da destruição e inimigos de tudo o que é bom para os seres humanos.
Representam a morte e a degradação. Desejam botar fogo, demolir, degradar, até
que não reste mais nada do mundo que construímos. São inimigos de todos os
direitos, valores e relações civilizadas conquistados com muita luta no
decorrer da História.
Atacam
sistematicamente a institucionalidade das nações, não para aprimorá-las, mas
para aumentar a insegurança e transformar os países em terra sem lei, onde o
caos e a insegurança predominem para que escapem de qualquer controle político
e social.
Aqui
mesmo, no Brasil, temos a dura missão de enfrentar as novas investidas dessa
turba que insiste em impor o retrocesso, o entreguismo, a morte, a ignorância,
o racismo, a misoginia, a discriminação e o ressentimento cego. Seres
alienados, carregam dentro de si o complexo de inferioridade. Como já
demonstraram, capazes de destruir todo o patrimônio social, econômico e
cultural conquistado pelo povo brasileiro. Paradoxalmente, defendem com orgulho
aqueles que lhes desprezam e subestimam. Numa total insanidade, seguem seus
verdadeiros algozes, prontos para demolir toda a estrutura de organização,
proteção e emancipação social, iludidos por uma falsa ideia de liberdade e de
crescimento por mérito pessoal. Caminham alegremente para o cadafalso e, junto
com eles, tentam levar toda a sociedade como um tsunami que arrasa a terra por
onde passa.
Lula
nos representa ao chamar a atenção para o mal que ameaça e se impõe sobre toda
a humanidade. Nosso presidente tornou-se uma voz com legitimidade global ao
representar os interesses de todos os seres vivos. Ele é a voz lúcida e
corajosa que aponta para a urgência e a viabilidade da construção de um
ambiente de paz entre as nações. Com sua confiança e sensatez, Lula indica a
possibilidade de um futuro feliz para todos. Suas palavras são a faísca de
esperança da qual o mundo necessita para resistir e seguir em frente.
A
Europa está com dificuldade de mobilizar sua energia vital causando decepção ao
se submeter à lógica distópica imposta ao mundo. Da mesma forma, a democracia
norte-americana não tem demonstrado ser capaz de deter a marcha insana
capitaneada por seu próprio presidente. O sinal inequívoco de que a sanha
destruidora segue sem obstáculos e a parceria de Trump, Netanyahu e o Estado
sionista de Israel para perpetrar o genocídio calculado do povo palestino e
rapinar as fontes de energia dos países do Oriente Médio e da América Latina.
Tudo debaixo dos olhos atônitos de um ocidente inerte. Estão impondo a lei do
cão.
Não
podemos ter ilusões: os Estados nacionais dos países europeus, com honrosas
exceções, como a Espanha, foram capturados ou estão submetidos a essa onda
reacionária contagiosa. Toda a ordem mundial está ruindo, causando uma reação
ao estilo “salve-se quem puder”. Ocorre que, se Trump, Netanyahu e seus
assemelhados forem bem sucedidos, somente os países que possuem a bomba atômica
e aqueles que têm uma coesão nacional que lhes garanta soberania e resistência
terão alguma chance de sobreviver.
Estamos
diante de um desafio sem precedentes. Não há exemplo na história da humanidade
para o qual possamos olhar em busca de uma inspiração. Teremos que inventar
algo novo que nos torne fortes e maleáveis a ponto de vencer um inimigo
desgovernado que detém o maior poderio bélico do planeta e conta uma horda de
adoradores infiltrados entre nós, atuando nas famílias, nas instituições, nas
escolas, nas igrejas, nas redes e nas ruas.
Frente
a um cerco dessas proporções, os povos despertos de todo o mundo terão que
desenvolver uma espécie de cidadania planetária, sem fronteiras, sem barreiras,
no verdadeiro espírito “ninguém larga a mão de ninguém” para resistir ao
tsunami de baixo astral que vem crescendo no horizonte.
Os
organismos internacionais estão neutralizados. A ONU perdeu a capacidade de
contribuir para a solução dos conflitos, desconcertada diante de criminosos que
não respeitam as normas internacionais e desprezam qualquer iniciativa de
governança global. Cabe aos cidadãos e às nações soberanas, juntos e
conscientes da gravidade do momento, desempenhar o papel de defender e zelar
pela paz mundial, pelo respeito entre os povos, pelos direitos de todos os
seres vivos, pelo futuro da humanidade, pela sobrevivência do planeta e da vida
na Terra.
Civilização
ou barbárie? Eis o centro da contradição no mundo, neste momento.
Fonte:
Outras Palavras/Le Monde

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