quinta-feira, 9 de abril de 2026

A ópera-bufa do reitor da UFPE

Ao retirar a sua pré-candidatura ao governo do estado de Pernambuco pela Rede Sustentabilidade, o Magnífico Reitor da Universidade Federal de Pernambuco deu provas de que permanece mais atual que nunca a famosa frase de Apparício Torelly, o Barão de Itararé: “de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo”.

A mise-en-scène do Magnífico, condecorado recentemente com o título de Colaborador Emérito do Exército Brasileiro, tem contornos de ópera bufa, que demonstra da forma mais cabal os males decorrentes da “pequena política” para as lutas democráticas – dentro da universidade pública e da sociedade como um todo.

Peço desculpas aos napolitanos que criaram o famoso gênero de ópera cômica na península itálica, nos inícios do século XVIII, para apresentar os três atos que formaram a ópera-bufa do Magnífico, em sua desastrosa incursão na disputa política eleitoral em Pernambuco – disputa esta fundamental para a reeleição do presidente Lula e para a derrota da extrema-direita bolsonarista.

<><> Ato I

No dia 18 de fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, dia de ressaca para uma multidão de brasileiros, mas que, em Pernambuco, ainda é carnaval, a Rede Sustentabilidade lança um manifesto intitulado “Movimento do Sertão ao Cais: Pernambuco é do Povo”, anunciando o Magnífico como pré-candidato ao governo de Pernambuco.

Com a presença do (então) líder da Rede, deputado federal Túlio Gadelha, o Magnífico entoa o atraente canto da terceira via: “precisamos de pessoas comprometidas com pautas reais da população, sair dessa polarização estéril que nós temos visto, que é mais uma polarização eleitoral do que programática”.

Ao som de aplausos ao fundo (trata-se de pura licença poética da minha parte), o Magnífico sente-se entusiasmado para afirmar que: “meu mandato de reitor na minha segunda gestão termina em 2027. Então, se confirmando a minha candidatura, eu devo me afastar do cargo, no prazo regulamentar, que é dia 4 de abril, para me dedicar integralmente à disputa pelo governo do estado”.

O primeiro ato da ópera-bufa termina sob os aplausos dos presentes, confiantes na novidade viril que dará fim à polarização estéril.

<><> Ato II

Ainda de ressaca (ou nas ladeiras de Olinda, atrás do Bacalhau do Batata), dirigentes do PSOL tomam conhecimento da punhalada desferida com o lançamento da candidatura do Magnífico, apesar de o (então) líder da Rede afirmar o contrário. Ivan Moraes Filho, já lançado pré-candidato ao governo do estado, recebe a notícia com a sua tradicional elegância: “vamos dialogar”.

Dentro da Universidade Federal de Pernambuco, onde há tempos já corriam soltas e desencontradas as informações de que o Magnífico sairia candidato a alguma coisa nas eleições de outubro de 2026, por algum partido político, os grupos de oposição à sua gestão pisam no acelerador a fim de se organizarem para uma disputa contra o Magnífico Vice.

Enquanto isso, começam a pulular nos jornais notícias que dão conta de que as salas de aula da UFPE são insalubres: “alunos de Letras da UFPE relatam descaso e más condições do departamento – ‘pedimos respeito’” (Folha de Pernambuco, 24/3); “estudantes da UFPE denunciam problemas estruturais no Centro de Artes e Comunicação” (Portal CBN Recife, 27/3).

O segundo ato da ópera-bufa se encerra com a imagem de um camundongo segurado pelo rabo numa das salas de aula da UFPE.

<><> Ato III

Ao tempo em que os camundongos fazem a festa nas salas de aula da universidade, anuncia-se com destaque nos jornais locais que a Comissão da Verdade da UFPE identificou 649 professores, estudantes e técnicos vítimas da ditadura militar, instaurada no país em 31 de março de 1964, e que, na data, acontecerá uma solenidade presidida pelo Magnífico.

No entanto, a terra é redonda eppur si muove, como dizia Galileu Galilei. O líder da Rede em Pernambuco, padrinho do Magnífico no partido, faz anunciar que estaria de saída rumo ao PSD chefiado por Gilberto Kassab, com o propósito de se candidatar ao Senado Federal na chapa encabeçada pela governadora Raquel Lyra, um dos polos estéreis da disputa em Pernambuco.

A ópera-bufa estrelada com maestria ímpar pelo Magnífico se encerraria neste 1º de abril (por pura coincidência, não mais que por pura coincidência, “dia da mentira”), mas seu fim teve que ser adiado devido às fortes chuvas que assolam Pernambuco e que resultaram, mais uma vez, no cancelamento das suas atividades acadêmicas.

A sua primeira cena transcorreu durante o 31 de março, passagem do 62º aniversário do Golpe Militar de 1964, desviando a atenção do valoroso trabalho desenvolvido pela Comissão da Verdade da UFPE, quando o Magnífico anunciou a retirada da sua pré-candidatura, com a risível justificativa (não se esqueçam que se trata de uma ópera-bufa!) de que permanecerá na gestão da universidade por razões de caráter “político, ético e civilizatório”.

De cabeça em riste, fielmente convicto do seu ato de elevada nobreza cívica, o Magnífico declara que permanecerá na universidade em virtude do “cenário desafiador no país, marcado por ameaças à ciência, à educação e às instituições democráticas”.

A sua segunda cena, já ensaiada, mas ainda não encenada (a sexta-feira da paixão seria uma data ideal, com a imagem ao fundo do beijo de Judas Iscariotes na face de Jesus de Nazaré, ainda que o filho de Maria e José passe longe desta ópera-bufa), será marcada pelo ato de filiação do deputado federal Túlio Gadelha ao Partido Social Democrático, de Gilberto Kassab e Raquel Lyra – o líder partidário da Rede Sustentabilidade que incentivou o Magnífico a se aventurar na disputa (de “polarização estéril”) pelo governo de Pernambuco, mas que, nem bem terminada a quaresma, deixou o Magnífico na via crucis daqueles que confundem o “senso de oportunidade” presente na virtù maquiaveliana com puro oportunismo político.

Que se fechem as cortinas…

 

Fonte: Por Marco Mondaini, em A Terra é Redonda

 

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