A
ópera-bufa do reitor da UFPE
Ao
retirar a sua pré-candidatura ao governo do estado de Pernambuco pela Rede
Sustentabilidade, o Magnífico Reitor da Universidade Federal de Pernambuco deu
provas de que permanece mais atual que nunca a famosa frase de Apparício
Torelly, o Barão de Itararé: “de onde menos se espera, daí é que não sai nada
mesmo”.
A
mise-en-scène do Magnífico, condecorado recentemente com o título de
Colaborador Emérito do Exército Brasileiro, tem contornos de ópera bufa, que
demonstra da forma mais cabal os males decorrentes da “pequena política” para
as lutas democráticas – dentro da universidade pública e da sociedade como um
todo.
Peço
desculpas aos napolitanos que criaram o famoso gênero de ópera cômica na
península itálica, nos inícios do século XVIII, para apresentar os três atos
que formaram a ópera-bufa do Magnífico, em sua desastrosa incursão na disputa
política eleitoral em Pernambuco – disputa esta fundamental para a reeleição do
presidente Lula e para a derrota da extrema-direita bolsonarista.
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Ato I
No dia
18 de fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, dia de ressaca para uma multidão de
brasileiros, mas que, em Pernambuco, ainda é carnaval, a Rede Sustentabilidade
lança um manifesto intitulado “Movimento do Sertão ao Cais: Pernambuco é do
Povo”, anunciando o Magnífico como pré-candidato ao governo de Pernambuco.
Com a
presença do (então) líder da Rede, deputado federal Túlio Gadelha, o Magnífico
entoa o atraente canto da terceira via: “precisamos de pessoas comprometidas
com pautas reais da população, sair dessa polarização estéril que nós temos
visto, que é mais uma polarização eleitoral do que programática”.
Ao som
de aplausos ao fundo (trata-se de pura licença poética da minha parte), o
Magnífico sente-se entusiasmado para afirmar que: “meu mandato de reitor na
minha segunda gestão termina em 2027. Então, se confirmando a minha
candidatura, eu devo me afastar do cargo, no prazo regulamentar, que é dia 4 de
abril, para me dedicar integralmente à disputa pelo governo do estado”.
O
primeiro ato da ópera-bufa termina sob os aplausos dos presentes, confiantes na
novidade viril que dará fim à polarização estéril.
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Ato II
Ainda
de ressaca (ou nas ladeiras de Olinda, atrás do Bacalhau do Batata), dirigentes
do PSOL tomam conhecimento da punhalada desferida com o lançamento da
candidatura do Magnífico, apesar de o (então) líder da Rede afirmar o
contrário. Ivan Moraes Filho, já lançado pré-candidato ao governo do estado,
recebe a notícia com a sua tradicional elegância: “vamos dialogar”.
Dentro
da Universidade Federal de Pernambuco, onde há tempos já corriam soltas e
desencontradas as informações de que o Magnífico sairia candidato a alguma
coisa nas eleições de outubro de 2026, por algum partido político, os grupos de
oposição à sua gestão pisam no acelerador a fim de se organizarem para uma
disputa contra o Magnífico Vice.
Enquanto
isso, começam a pulular nos jornais notícias que dão conta de que as salas de
aula da UFPE são insalubres: “alunos de Letras da UFPE relatam descaso e más
condições do departamento – ‘pedimos respeito’” (Folha de Pernambuco, 24/3);
“estudantes da UFPE denunciam problemas estruturais no Centro de Artes e
Comunicação” (Portal CBN Recife, 27/3).
O
segundo ato da ópera-bufa se encerra com a imagem de um camundongo segurado
pelo rabo numa das salas de aula da UFPE.
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Ato III
Ao
tempo em que os camundongos fazem a festa nas salas de aula da universidade,
anuncia-se com destaque nos jornais locais que a Comissão da Verdade da UFPE
identificou 649 professores, estudantes e técnicos vítimas da ditadura militar,
instaurada no país em 31 de março de 1964, e que, na data, acontecerá uma
solenidade presidida pelo Magnífico.
No
entanto, a terra é redonda eppur si muove, como dizia Galileu Galilei. O líder
da Rede em Pernambuco, padrinho do Magnífico no partido, faz anunciar que
estaria de saída rumo ao PSD chefiado por Gilberto Kassab, com o propósito de
se candidatar ao Senado Federal na chapa encabeçada pela governadora Raquel
Lyra, um dos polos estéreis da disputa em Pernambuco.
A
ópera-bufa estrelada com maestria ímpar pelo Magnífico se encerraria neste 1º
de abril (por pura coincidência, não mais que por pura coincidência, “dia da
mentira”), mas seu fim teve que ser adiado devido às fortes chuvas que assolam
Pernambuco e que resultaram, mais uma vez, no cancelamento das suas atividades
acadêmicas.
A sua
primeira cena transcorreu durante o 31 de março, passagem do 62º aniversário do
Golpe Militar de 1964, desviando a atenção do valoroso trabalho desenvolvido
pela Comissão da Verdade da UFPE, quando o Magnífico anunciou a retirada da sua
pré-candidatura, com a risível justificativa (não se esqueçam que se trata de
uma ópera-bufa!) de que permanecerá na gestão da universidade por razões de
caráter “político, ético e civilizatório”.
De
cabeça em riste, fielmente convicto do seu ato de elevada nobreza cívica, o
Magnífico declara que permanecerá na universidade em virtude do “cenário
desafiador no país, marcado por ameaças à ciência, à educação e às instituições
democráticas”.
A sua
segunda cena, já ensaiada, mas ainda não encenada (a sexta-feira da paixão
seria uma data ideal, com a imagem ao fundo do beijo de Judas Iscariotes na
face de Jesus de Nazaré, ainda que o filho de Maria e José passe longe desta
ópera-bufa), será marcada pelo ato de filiação do deputado federal Túlio
Gadelha ao Partido Social Democrático, de Gilberto Kassab e Raquel Lyra – o
líder partidário da Rede Sustentabilidade que incentivou o Magnífico a se
aventurar na disputa (de “polarização estéril”) pelo governo de Pernambuco, mas
que, nem bem terminada a quaresma, deixou o Magnífico na via crucis daqueles
que confundem o “senso de oportunidade” presente na virtù maquiaveliana com
puro oportunismo político.
Que se
fechem as cortinas…
Fonte:
Por Marco Mondaini, em A Terra é Redonda

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