Como
EUA e Irã conseguiram chegar a acordo de cessar fogo
A guerra entre Estados Unidos, Israel e
Irã —
iniciada em 28 de fevereiro — chegou nesta terça-feira (7/4) a um de seus
momentos mais tensos e dramáticos desde o início do conflito.
Em
poucas horas, o mundo assistiu a ameaças de Donald Trump de destruir
"uma civilização inteira" do Irã, uma corrida liderada pelo Paquistão
em busca de um acordo e, por fim, ao anúncio de um cessar-fogo de duas
semanas condicionado à reabertura do Estreito de Ormuz.
O
presidente dos EUA havia estabelecido um prazo até às 21h (horário de Brasília)
desta terça para que um acordo fosse alcançado, sob ameaça de ataques em todo o
território iraniano caso não houvesse entendimento.
A
proposta de trégua foi apresentada pelo Paquistão — que atua como mediador nas
negociações — e aceita por Trump sob a condição de uma "abertura completa,
imediata e segura" da rota marítima por onde passa cerca de um quinto do
petróleo mundial. O Irã aceitou os termos.
Em
publicação na rede Truth Social, o presidente americano disse que concordava
com o cessar-fogo porque os Estados Unidos "já atingiram e superaram todos
os objetivos militares" e estão "muito avançados em um acordo
definitivo para a paz de longo prazo com o Irã e no Oriente Médio".
O
presidente acrescentou que o Irã enviou aos Estados Unidos e a Israel um plano
de dez pontos, e que o período de duas semanas vai permitir que "o acordo
seja finalizado e consolidado".
Já o
ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse que durante o
período de trégua será possível o tráfego seguro pelo Estreito de Ormuz, e que isso ocorrerá
"em coordenação com as Forças Armadas do Irã e levando em consideração as
limitações técnicas".
Os
mercados reagiram rapidamente ao anúncio: os preços globais do petróleo caíram
acentuadamente após a confirmação da trégua, com o Brent recuando depois de ter
chegado a superar US$ 111 o barril durante o dia.
Mesmo
após o acordo, ataques foram registrados em vários países. Veículos de imprensa
dos Estados Unidos informam que Israel ainda realizava ataques contra o Irã na
manhã de quarta-feira. O país não se manifestou sobre o cessar-fogo.
Ataques
vindos do Irã também foram relatados em países no Oriente Médio.
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'Uma civilização inteira morrerá esta noite'
Durante
a tarde, Trump ameaçou o Irã caso o país não entrasse em acordo: "uma
civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada",
afirmou.
O
presidente americano ainda disse que todas as pontes e usinas de energia do
país poderiam ser "dizimadas" em apenas quatro horas.
Logo
após as ameaças, Trump publicou uma nova mensagem na sua rede Truth Social:
"Eu não quero que isso [a destruição de uma civilização inteira] aconteça,
mas provavelmente acontecerá. No entanto, agora que temos uma Mudança de Regime
Completa e Total, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos
radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionário e maravilhoso possa
acontecer, QUEM SABE?
"Descobriremos
esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do
mundo. 47 anos de extorsão, corrupção e morte finalmente chegarão ao fim. Deus
abençoe o grande povo do Irã!"
Nas
últimas semanas, Trump estabeleceu prazos, fez exigências e lançou ameaças em
meio à guerra conjunta de EUA e Israel
contra o Irã.
Mas raramente elas foram tão explícitas quanto agora.
Na
segunda-feira, ele já tinha dito a repórteres que poderia eliminar o Irã
"em uma noite" caso o país não chegasse a um acordo antes do prazo
estipulado por ele.
Já o
vice-presidente JD Vance afirmou que cabe ao Irã "sentar-se à mesa de
negociações", ou a "situação econômica no país continuará muito,
muito ruim".
Vance
disse que os EUA "basicamente" já cumpriram seus objetivos militares
no Irã. A forma como a guerra terminará depende dos iranianos, acrescentou,
dizendo que há "dois caminhos" para o fim do conflito.
Um
deles seria se "os iranianos decidirem que vão ser um país normal, que não
vão mais financiar o terrorismo e que vão fazer parte do sistema global de
comércio e intercâmbio".
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Abertura do Estreito de Ormuz discutida na ONU
Em meio
às ameaças, o Conselho de Segurança da ONU se reuniu para tratar sobre a
reabertura do Estreito de Ormuz. A Rússia e a China vetaram um projeto de
resolução apresentado por países do Golfo que incentivava esforços defensivos
coordenados para proteger o Estreito de Ormuz.
Onze
países votaram a favor e dois membros do conselho se abstiveram (Paquistão e
Colômbia).
Após
semanas de negociações, o texto foi suavizado: inicialmente enquadrado no
Capítulo VII (que autoriza o uso da força militar), o projeto passou a excluir
esse capítulo, mas ainda "autorizando os Estados a usar todos os meios
defensivos necessários", até chegar à formulação final de forte incentivo
a esforços defensivos.
O
ministro das Relações Exteriores do Bahrein, Abdullatif bin Rashid Al Zayani,
presidiu a reunião. Antes da votação, ele disse aos membros do conselho que o
texto não criava uma nova realidade, mas constituía uma resposta séria a um
padrão de comportamento hostil recorrente por parte do Irã, que, segundo ele,
precisa cessar.
Ele
afirmou que a ausência de uma resposta do Conselho de Segurança à utilização
dessa via marítima vital como instrumento de pressão teria consequências graves
para o mundo e poderia ser replicada em outros estreitos e rotas marítimas,
"transformando o mundo em uma selva".
A BBC
apurou que a China está entre os países que conseguiram continuar utilizando o
estreito, enquanto a Rússia pode se beneficiar, já que sanções sobre o petróleo
podem ser flexibilizadas em resposta ao fechamento da rota.
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Mediação do Paquistão
Na
publicação em que anunciou o cessar-fogo, Trump mencionou diretamente o
primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, e o marechal de campo Asim Munir
como as figuras centrais nas conversas que levaram ao acordo.
"Eles
solicitaram que eu suspendesse o envio da força destrutiva ao Irã esta
noite", escreveu o presidente americano.
Durnate
a tarde, Sharif pediu publicamente a Trump que estendesse o prazo para um
acordo por duas semanas "para permitir que a diplomacia siga seu
curso".
Em uma
publicação no X, ele escreveu:
"Os
esforços diplomáticos para uma solução pacífica da guerra em curso no Oriente
Médio estão progredindo de forma constante, forte e eficaz, com potencial para
levar a resultados substanciais em um futuro próximo."
O
primeiro-ministro também pediu que o Irã reabrisse o Estreito de Ormuz.
Pouco
antes das 21h, prazo dado por Trump, Sharif declarou o cessar-fogo já estava em
vigor.
"Com
a maior humildade, tenho o prazer de anunciar que a República Islâmica do Irã e
os Estados Unidos da América, juntamente com seus aliados, concordaram com um
cessar-fogo imediato em todos os lugares, incluindo o Líbano e outras regiões,
com efeito imediato".
Sharif
convidou as delegações para Islamabad na sexta-feira (10/4) para "dar
continuidade às negociações e buscar um acordo definitivo para resolver todas
as disputas".
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Plano de 10 pontos
Segundo
uma emissora estatal iraniana, o plano de 10 pontos enviado aos EUA e que deve
ser discutido nos próximos dias prevê:
- Cessar
completamente a guerra no Iraque, Líbano e Iémen;
- Cessar completa
e permanentemente a guerra contra o Irã, sem limite de tempo;
- Encerrar todos
os conflitos na região em sua totalidade;
- Reabrir o
Estreito de Ormuz;
- Estabelecer um
protocolo e condições para garantir a liberdade e segurança da navegação
no Estreito de Ormuz;
- Pagamento
integral de indenizações pelos custos de reconstrução ao Irã;
- Compromisso
total com a suspensão das sanções ao Irã;
- Liberação de
fundos e ativos congelados do Irã mantidos pelos Estados Unidos;
- O Irã se
compromete integralmente a não tentar possuir armas nucleares;
- O cessar-fogo
imediato entra em vigor em todas as frentes assim que as condições acima
forem aprovadas.
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Ameaça de Trump ao Irã pode ser classificada como crime de guerra?
O
correspondente de segurança da BBC, Frank Gardner, avalia que a ameaça de Trump
era "ainda mais chocante" do que manifestações anteriores do
presidente, marcadas por linguagem considerada incompatível com o cargo.
Segundo
Gardner, ao sugerir a destruição de uma civilização, mesmo que em tom de blefe,
Trump abre espaço para comparações com episódios históricos de devastação
cultural no Oriente Médio.
Gardner
lembra ações do Taliban, que destruiu os Budas de Bamiyan do século 6, e do
ISIS, responsável por demolir partes da antiga cidade de Palmyra. Para ele, a
retórica de Trump levanta a possibilidade de que patrimônios históricos
iranianos, como as ruínas de Persepolis ou a Mesquita de Sexta-Feira de
Isfahan, reconhecida pela Unesco, possam ser colocados em risco.
"Até
Vladimir Putin, em sua guerra brutal contra a Ucrânia, poupou as cúpulas
douradas das catedrais de Kiev", diz Gardner.
Ainda
que Trump possa ter utilizado o termo "civilização" de forma ampla,
possivelmente referindo-se à infraestrutura civil, o jornalista aponta que esse
tipo de declaração "ainda corre o risco de ser classificado como crime de
guerra".
Ao
mesmo tempo, ressalta que há margem para interpretação jurídica: segundo
especialistas ouvidos pelo analista, é uma "área cinzenta", já que
alvos com uso militar comprovado não se enquadram, necessariamente, nessa
tipificação.
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Como o Paquistão ajudou a mediar cessar-fogo entre EUA e
Irã
Nas
horas que antecederam o anúncio do cessar-fogo de duas semanas entre Irã e Estados Unidos, surgiram sinais
discretos de avanço nas negociações mediadas pelo Paquistão.
Falando
sob anonimato, uma fonte paquistanesa disse à BBC que as negociações avançavam
"em ritmo acelerado", com o Paquistão atuando como intermediário
entre Irã e EUA.
Segundo
essa fonte ouvida pela BBC, as negociações do lado paquistanês estavam
concentradas em "um grupo muito restrito" e o clima era "sombrio
e sério, mas ainda com esperança de que o desfecho seja uma cessação das
hostilidades. Restam poucas horas". A fonte afirmou não fazer parte desse
grupo.
Nas
últimas semanas, o Paquistão tem atuado como intermediário entre Irã e EUA,
transmitindo mensagens entre os dois lados. O país mantém uma relação histórica
com o Irã, com quem compartilha fronteira, e frequentemente descreve o vínculo
como "fraterno".
Em
relação aos EUA, o presidente americano, Donald Trump, já se referiu ao chefe
das Forças Armadas do Paquistão, marechal Asim Munir, como seu "marechal
favorito", que conhece o Irã "melhor do que a maioria".
Um
acordo ainda estava longe de estar acertado. Em discurso no Parlamento na noite
de terça-feira (7/4), o ministro das Relações Exteriores paquistanês, Ishaq
Dar, afirmou: "Até ontem, estávamos muito otimistas de que as coisas
avançavam em uma direção positiva", antes de Israel lançar um ataque
contra o Irã na segunda-feira (6/4) e de o Irã atacar a Arábia Saudita.
Segundo
ele, o Paquistão "ainda tentava administrar a situação da melhor forma
possível".
O
marechal de campo Asim Munir foi ainda mais crítico. Em declaração a
autoridades militares na terça-feira, afirmou que o ataque à Arábia Saudita
"prejudica esforços sinceros para resolver o conflito por meios
pacíficos".
Foi uma
das declarações mais duras feitas pelo Paquistão em relação ao Irã desde o
início do conflito.
Alguns
analistas sugerem que isso pôde aumentar a pressão sobre o Irã. O Paquistão
mantém um acordo de defesa mútua com a Arábia Saudita — que determina que uma
agressão a um dos dois deve ser visto como ataque contra ambos — , que ainda
não foi acionado, apesar dos ataques repetidos contra o país.
Após a
meia-noite de terça no Paquistão, o primeiro-ministro do país, Shehbaz Sharif,
publicou na rede social X que os "esforços diplomáticos […] avançam de
forma constante, firme e consistente, com potencial de gerar resultados
concretos no curto prazo" e pediu ao presidente Donald Trump que
estendesse o prazo por duas semanas, além de solicitar que o Irã reabrisse o
estreito de Ormuz pelo mesmo período.
O
embaixador do Irã no Paquistão, Reza Amiri Moghadam, escreveu na rede X por
volta das 03h (horário local) que houve "um avanço em relação a uma fase
crítica e sensível".
Pouco
antes das 05h, o primeiro-ministro paquistanês anunciou que um cessar-fogo
havia sido acordado e convidou as duas partes a se reunirem na capital
paquistanesa, Islamabad, na sexta-feira (10/04) para "prosseguir nas
negociações em busca de um acordo definitivo".
"Continuamos
sendo muito cautelosos", disse a fonte paquistanesa à BBC, acrescentando
que a situação segue "frágil". Ainda não há confiança entre os dois
lados, cada um se mostrando irredutível nas suas posições.
Embora
o Paquistão possa vir a reunir as partes à mesa, a questão é o que elas
conseguirão, de fato, acordar.
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Por que o Paquistão se envolveu nas negociações?
O
Paquistão depende fortemente de petróleo importado, grande parte dele
transportado pelo estreito de Ormuz.
"O
Paquistão, eu diria, mais do que quase qualquer outro país fora do Oriente
Médio, tem muito em jogo aqui", afirmou Michael Kugelman, pesquisador
sênior para o Sul da Ásia no centro de pesquisas e debates Atlantic Council,
nos EUA, em entrevista à BBC.
"Ele
tem um interesse muito claro em fazer o que puder para contribuir com esforços
de desescalada (da crise)."
O
governo paquistanês aumentou os preços da gasolina e do diesel em cerca de 20%
no início de março e já adotou medidas como a semana de trabalho de quatro dias
para os servidores públicos, na tentativa de economizar combustível.
"Se
a guerra continuar, as pressões econômicas no Paquistão vão aumentar
enormemente", afirma Farhan Siddiqi, professor de ciência política no
Institute of Business Administration, em Karachi, no Paquistão.
Também
há temor sobre o que uma escalada pode provocar.
Após o
fechamento do acordo de defesa com a Arábia Saudita em setembro passado,
surgiram dúvidas sobre como o Paquistão reagiria caso o país árabe entrasse na
guerra e acionasse o acordo.
"O
problema para nós é que, se formos chamados a entrar no conflito ao lado da
Arábia Saudita, toda a nossa fronteira oeste (com o Irã) ficará em grande parte
vulnerável", afirma Siddiqi, do Institute of Business Administration.
Por
outro lado, também está em jogo a posição internacional do Paquistão.
"O
Paquistão é muito sensível a críticas de que não tem influência no cenário
global", afirmou Kugelman, do Atlantic Council. "Não acho que essa
seja a principal motivação para a postura que adotou, mas isso também
pesa."
"É
uma diplomacia de alto risco, sem dúvida", acrescenta Lodhi,
ex-embaixadora paquistanesa. "Há muito a perder e a ganhar. Se der certo,
coloca o Paquistão no topo do jogo diplomático global."
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Como o Paquistão se aproximou dos EUA?
Ao
longo do conflito, o Paquistão foi rápido em capitalizar sua relação com Trump.
Lodhi,
ex-embaixadora paquistanesa, cita a indicação de Trump ao Prêmio Nobel da Paz
pelo Paquistão, "em reconhecimento à sua intervenção diplomática
decisiva" durante a crise entre Paquistão e Índia em 2025.
Kugelman,
do Atlantic Council, acrescenta que o Paquistão "está disposto a adotar
estratégias diplomáticas não convencionais, ao contrário da Índia. [...] O fato
de líderes paquistaneses terem se esforçado para elogiar o presidente
(americano) ajudou sua posição no governo dos EUA e tornou o Paquistão um
facilitador e mediador mais atraente aos olhos do governo".
"O
país percebeu que o melhor caminho na diplomacia regional é a
neutralidade", afirmou Siddiqi, do Institute of Business Administration.
"O mundo atual é um cenário em que os países — especialmente as potências
médias — estão mais confortáveis com uma política de múltiplos
alinhamentos."
"Acho
que o Paquistão está bem posicionado para dialogar com o Irã porque não carrega
a imagem de ser pró-Israel nem fortemente pró-EUA", acrescentou Siddiqi.
Fonte:
BBC News Mundo

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