quinta-feira, 9 de abril de 2026

Como EUA e Irã conseguiram chegar a acordo de cessar fogo

guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã — iniciada em 28 de fevereiro — chegou nesta terça-feira (7/4) a um de seus momentos mais tensos e dramáticos desde o início do conflito.

Em poucas horas, o mundo assistiu a ameaças de Donald Trump de destruir "uma civilização inteira" do Irã, uma corrida liderada pelo Paquistão em busca de um acordo e, por fim, ao anúncio de um cessar-fogo de duas semanas condicionado à reabertura do Estreito de Ormuz.

O presidente dos EUA havia estabelecido um prazo até às 21h (horário de Brasília) desta terça para que um acordo fosse alcançado, sob ameaça de ataques em todo o território iraniano caso não houvesse entendimento.

A proposta de trégua foi apresentada pelo Paquistão — que atua como mediador nas negociações — e aceita por Trump sob a condição de uma "abertura completa, imediata e segura" da rota marítima por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. O Irã aceitou os termos.

Em publicação na rede Truth Social, o presidente americano disse que concordava com o cessar-fogo porque os Estados Unidos "já atingiram e superaram todos os objetivos militares" e estão "muito avançados em um acordo definitivo para a paz de longo prazo com o Irã e no Oriente Médio".

O presidente acrescentou que o Irã enviou aos Estados Unidos e a Israel um plano de dez pontos, e que o período de duas semanas vai permitir que "o acordo seja finalizado e consolidado".

Já o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse que durante o período de trégua será possível o tráfego seguro pelo Estreito de Ormuz, e que isso ocorrerá "em coordenação com as Forças Armadas do Irã e levando em consideração as limitações técnicas".

Os mercados reagiram rapidamente ao anúncio: os preços globais do petróleo caíram acentuadamente após a confirmação da trégua, com o Brent recuando depois de ter chegado a superar US$ 111 o barril durante o dia.

Mesmo após o acordo, ataques foram registrados em vários países. Veículos de imprensa dos Estados Unidos informam que Israel ainda realizava ataques contra o Irã na manhã de quarta-feira. O país não se manifestou sobre o cessar-fogo.

Ataques vindos do Irã também foram relatados em países no Oriente Médio.

<><> 'Uma civilização inteira morrerá esta noite'

Durante a tarde, Trump ameaçou o Irã caso o país não entrasse em acordo: "uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada", afirmou.

O presidente americano ainda disse que todas as pontes e usinas de energia do país poderiam ser "dizimadas" em apenas quatro horas.

Logo após as ameaças, Trump publicou uma nova mensagem na sua rede Truth Social: "Eu não quero que isso [a destruição de uma civilização inteira] aconteça, mas provavelmente acontecerá. No entanto, agora que temos uma Mudança de Regime Completa e Total, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionário e maravilhoso possa acontecer, QUEM SABE?

"Descobriremos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo. 47 anos de extorsão, corrupção e morte finalmente chegarão ao fim. Deus abençoe o grande povo do Irã!"

Nas últimas semanas, Trump estabeleceu prazos, fez exigências e lançou ameaças em meio à guerra conjunta de EUA e Israel contra o Irã. Mas raramente elas foram tão explícitas quanto agora.

Na segunda-feira, ele já tinha dito a repórteres que poderia eliminar o Irã "em uma noite" caso o país não chegasse a um acordo antes do prazo estipulado por ele.

Já o vice-presidente JD Vance afirmou que cabe ao Irã "sentar-se à mesa de negociações", ou a "situação econômica no país continuará muito, muito ruim".

Vance disse que os EUA "basicamente" já cumpriram seus objetivos militares no Irã. A forma como a guerra terminará depende dos iranianos, acrescentou, dizendo que há "dois caminhos" para o fim do conflito.

Um deles seria se "os iranianos decidirem que vão ser um país normal, que não vão mais financiar o terrorismo e que vão fazer parte do sistema global de comércio e intercâmbio".

<><> Abertura do Estreito de Ormuz discutida na ONU

Em meio às ameaças, o Conselho de Segurança da ONU se reuniu para tratar sobre a reabertura do Estreito de Ormuz. A Rússia e a China vetaram um projeto de resolução apresentado por países do Golfo que incentivava esforços defensivos coordenados para proteger o Estreito de Ormuz.

Onze países votaram a favor e dois membros do conselho se abstiveram (Paquistão e Colômbia).

Após semanas de negociações, o texto foi suavizado: inicialmente enquadrado no Capítulo VII (que autoriza o uso da força militar), o projeto passou a excluir esse capítulo, mas ainda "autorizando os Estados a usar todos os meios defensivos necessários", até chegar à formulação final de forte incentivo a esforços defensivos.

O ministro das Relações Exteriores do Bahrein, Abdullatif bin Rashid Al Zayani, presidiu a reunião. Antes da votação, ele disse aos membros do conselho que o texto não criava uma nova realidade, mas constituía uma resposta séria a um padrão de comportamento hostil recorrente por parte do Irã, que, segundo ele, precisa cessar.

Ele afirmou que a ausência de uma resposta do Conselho de Segurança à utilização dessa via marítima vital como instrumento de pressão teria consequências graves para o mundo e poderia ser replicada em outros estreitos e rotas marítimas, "transformando o mundo em uma selva".

A BBC apurou que a China está entre os países que conseguiram continuar utilizando o estreito, enquanto a Rússia pode se beneficiar, já que sanções sobre o petróleo podem ser flexibilizadas em resposta ao fechamento da rota.

<><> Mediação do Paquistão

Na publicação em que anunciou o cessar-fogo, Trump mencionou diretamente o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, e o marechal de campo Asim Munir como as figuras centrais nas conversas que levaram ao acordo.

"Eles solicitaram que eu suspendesse o envio da força destrutiva ao Irã esta noite", escreveu o presidente americano.

Durnate a tarde, Sharif pediu publicamente a Trump que estendesse o prazo para um acordo por duas semanas "para permitir que a diplomacia siga seu curso".

Em uma publicação no X, ele escreveu:

"Os esforços diplomáticos para uma solução pacífica da guerra em curso no Oriente Médio estão progredindo de forma constante, forte e eficaz, com potencial para levar a resultados substanciais em um futuro próximo."

O primeiro-ministro também pediu que o Irã reabrisse o Estreito de Ormuz.

Pouco antes das 21h, prazo dado por Trump, Sharif declarou o cessar-fogo já estava em vigor.

"Com a maior humildade, tenho o prazer de anunciar que a República Islâmica do Irã e os Estados Unidos da América, juntamente com seus aliados, concordaram com um cessar-fogo imediato em todos os lugares, incluindo o Líbano e outras regiões, com efeito imediato".

Sharif convidou as delegações para Islamabad na sexta-feira (10/4) para "dar continuidade às negociações e buscar um acordo definitivo para resolver todas as disputas".

<><> Plano de 10 pontos

Segundo uma emissora estatal iraniana, o plano de 10 pontos enviado aos EUA e que deve ser discutido nos próximos dias prevê:

  • Cessar completamente a guerra no Iraque, Líbano e Iémen;
  • Cessar completa e permanentemente a guerra contra o Irã, sem limite de tempo;
  • Encerrar todos os conflitos na região em sua totalidade;
  • Reabrir o Estreito de Ormuz;
  • Estabelecer um protocolo e condições para garantir a liberdade e segurança da navegação no Estreito de Ormuz;
  • Pagamento integral de indenizações pelos custos de reconstrução ao Irã;
  • Compromisso total com a suspensão das sanções ao Irã;
  • Liberação de fundos e ativos congelados do Irã mantidos pelos Estados Unidos;
  • O Irã se compromete integralmente a não tentar possuir armas nucleares;
  • O cessar-fogo imediato entra em vigor em todas as frentes assim que as condições acima forem aprovadas.

<><> Ameaça de Trump ao Irã pode ser classificada como crime de guerra?

O correspondente de segurança da BBC, Frank Gardner, avalia que a ameaça de Trump era "ainda mais chocante" do que manifestações anteriores do presidente, marcadas por linguagem considerada incompatível com o cargo.

Segundo Gardner, ao sugerir a destruição de uma civilização, mesmo que em tom de blefe, Trump abre espaço para comparações com episódios históricos de devastação cultural no Oriente Médio.

Gardner lembra ações do Taliban, que destruiu os Budas de Bamiyan do século 6, e do ISIS, responsável por demolir partes da antiga cidade de Palmyra. Para ele, a retórica de Trump levanta a possibilidade de que patrimônios históricos iranianos, como as ruínas de Persepolis ou a Mesquita de Sexta-Feira de Isfahan, reconhecida pela Unesco, possam ser colocados em risco.

"Até Vladimir Putin, em sua guerra brutal contra a Ucrânia, poupou as cúpulas douradas das catedrais de Kiev", diz Gardner.

Ainda que Trump possa ter utilizado o termo "civilização" de forma ampla, possivelmente referindo-se à infraestrutura civil, o jornalista aponta que esse tipo de declaração "ainda corre o risco de ser classificado como crime de guerra".

Ao mesmo tempo, ressalta que há margem para interpretação jurídica: segundo especialistas ouvidos pelo analista, é uma "área cinzenta", já que alvos com uso militar comprovado não se enquadram, necessariamente, nessa tipificação.

¨      Como o Paquistão ajudou a mediar cessar-fogo entre EUA e Irã

Nas horas que antecederam o anúncio do cessar-fogo de duas semanas entre Irã e Estados Unidos, surgiram sinais discretos de avanço nas negociações mediadas pelo Paquistão.

Falando sob anonimato, uma fonte paquistanesa disse à BBC que as negociações avançavam "em ritmo acelerado", com o Paquistão atuando como intermediário entre Irã e EUA.

Segundo essa fonte ouvida pela BBC, as negociações do lado paquistanês estavam concentradas em "um grupo muito restrito" e o clima era "sombrio e sério, mas ainda com esperança de que o desfecho seja uma cessação das hostilidades. Restam poucas horas". A fonte afirmou não fazer parte desse grupo.

Nas últimas semanas, o Paquistão tem atuado como intermediário entre Irã e EUA, transmitindo mensagens entre os dois lados. O país mantém uma relação histórica com o Irã, com quem compartilha fronteira, e frequentemente descreve o vínculo como "fraterno".

Em relação aos EUA, o presidente americano, Donald Trump, já se referiu ao chefe das Forças Armadas do Paquistão, marechal Asim Munir, como seu "marechal favorito", que conhece o Irã "melhor do que a maioria".

Um acordo ainda estava longe de estar acertado. Em discurso no Parlamento na noite de terça-feira (7/4), o ministro das Relações Exteriores paquistanês, Ishaq Dar, afirmou: "Até ontem, estávamos muito otimistas de que as coisas avançavam em uma direção positiva", antes de Israel lançar um ataque contra o Irã na segunda-feira (6/4) e de o Irã atacar a Arábia Saudita.

Segundo ele, o Paquistão "ainda tentava administrar a situação da melhor forma possível".

O marechal de campo Asim Munir foi ainda mais crítico. Em declaração a autoridades militares na terça-feira, afirmou que o ataque à Arábia Saudita "prejudica esforços sinceros para resolver o conflito por meios pacíficos".

Foi uma das declarações mais duras feitas pelo Paquistão em relação ao Irã desde o início do conflito.

Alguns analistas sugerem que isso pôde aumentar a pressão sobre o Irã. O Paquistão mantém um acordo de defesa mútua com a Arábia Saudita — que determina que uma agressão a um dos dois deve ser visto como ataque contra ambos — , que ainda não foi acionado, apesar dos ataques repetidos contra o país.

Após a meia-noite de terça no Paquistão, o primeiro-ministro do país, Shehbaz Sharif, publicou na rede social X que os "esforços diplomáticos […] avançam de forma constante, firme e consistente, com potencial de gerar resultados concretos no curto prazo" e pediu ao presidente Donald Trump que estendesse o prazo por duas semanas, além de solicitar que o Irã reabrisse o estreito de Ormuz pelo mesmo período.

O embaixador do Irã no Paquistão, Reza Amiri Moghadam, escreveu na rede X por volta das 03h (horário local) que houve "um avanço em relação a uma fase crítica e sensível".

Pouco antes das 05h, o primeiro-ministro paquistanês anunciou que um cessar-fogo havia sido acordado e convidou as duas partes a se reunirem na capital paquistanesa, Islamabad, na sexta-feira (10/04) para "prosseguir nas negociações em busca de um acordo definitivo".

"Continuamos sendo muito cautelosos", disse a fonte paquistanesa à BBC, acrescentando que a situação segue "frágil". Ainda não há confiança entre os dois lados, cada um se mostrando irredutível nas suas posições.

Embora o Paquistão possa vir a reunir as partes à mesa, a questão é o que elas conseguirão, de fato, acordar.

<><> Por que o Paquistão se envolveu nas negociações?

O Paquistão depende fortemente de petróleo importado, grande parte dele transportado pelo estreito de Ormuz.

"O Paquistão, eu diria, mais do que quase qualquer outro país fora do Oriente Médio, tem muito em jogo aqui", afirmou Michael Kugelman, pesquisador sênior para o Sul da Ásia no centro de pesquisas e debates Atlantic Council, nos EUA, em entrevista à BBC.

"Ele tem um interesse muito claro em fazer o que puder para contribuir com esforços de desescalada (da crise)."

O governo paquistanês aumentou os preços da gasolina e do diesel em cerca de 20% no início de março e já adotou medidas como a semana de trabalho de quatro dias para os servidores públicos, na tentativa de economizar combustível.

"Se a guerra continuar, as pressões econômicas no Paquistão vão aumentar enormemente", afirma Farhan Siddiqi, professor de ciência política no Institute of Business Administration, em Karachi, no Paquistão.

Também há temor sobre o que uma escalada pode provocar.

Após o fechamento do acordo de defesa com a Arábia Saudita em setembro passado, surgiram dúvidas sobre como o Paquistão reagiria caso o país árabe entrasse na guerra e acionasse o acordo.

"O problema para nós é que, se formos chamados a entrar no conflito ao lado da Arábia Saudita, toda a nossa fronteira oeste (com o Irã) ficará em grande parte vulnerável", afirma Siddiqi, do Institute of Business Administration.

Por outro lado, também está em jogo a posição internacional do Paquistão.

"O Paquistão é muito sensível a críticas de que não tem influência no cenário global", afirmou Kugelman, do Atlantic Council. "Não acho que essa seja a principal motivação para a postura que adotou, mas isso também pesa."

"É uma diplomacia de alto risco, sem dúvida", acrescenta Lodhi, ex-embaixadora paquistanesa. "Há muito a perder e a ganhar. Se der certo, coloca o Paquistão no topo do jogo diplomático global."

<><> Como o Paquistão se aproximou dos EUA?

Ao longo do conflito, o Paquistão foi rápido em capitalizar sua relação com Trump.

Lodhi, ex-embaixadora paquistanesa, cita a indicação de Trump ao Prêmio Nobel da Paz pelo Paquistão, "em reconhecimento à sua intervenção diplomática decisiva" durante a crise entre Paquistão e Índia em 2025.

Kugelman, do Atlantic Council, acrescenta que o Paquistão "está disposto a adotar estratégias diplomáticas não convencionais, ao contrário da Índia. [...] O fato de líderes paquistaneses terem se esforçado para elogiar o presidente (americano) ajudou sua posição no governo dos EUA e tornou o Paquistão um facilitador e mediador mais atraente aos olhos do governo".

"O país percebeu que o melhor caminho na diplomacia regional é a neutralidade", afirmou Siddiqi, do Institute of Business Administration. "O mundo atual é um cenário em que os países — especialmente as potências médias — estão mais confortáveis com uma política de múltiplos alinhamentos."

"Acho que o Paquistão está bem posicionado para dialogar com o Irã porque não carrega a imagem de ser pró-Israel nem fortemente pró-EUA", acrescentou Siddiqi.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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