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uma nova estratégia para terras raras e IA
O
embate sobre as chamadas terras raras poderá definir o futuro do
desenvolvimento tecnoeconômico do Brasil. Por isso, Ronaldo Caiado e Flávio
Bolsonaro se anteciparam e prometeram entregar a extração dos minérios para os
Estados Unidos. Nada de novo na perspectiva da extrema direita. Querem se
mostrar úteis e funcionais para o trumpismo. Disputam a posição superior de
maior vassalo. Além disso, o bolsonarismo quer consolidar o atual papel
secundário do país na divisão internacional do trabalho.
As
terras raras são essenciais para aplicações e dispositivos tecnológicos que
compõem a infraestrutura da IA, dos data centers, o processo de produção de
chips de alto desempenho, a fabricação de smartphones, carros elétricos e
turbinas eólicas, bem como, para radares, mísseis e sensores sofisticados.
Segundo o Mineral Commodity Summaries 2025, a China sozinha detém
aproximadamente 49% das reservas conhecidas (44 milhões de toneladas), seguido
pelo Brasil com algo em torno de 21 milhões de toneladas. Segundo o relatório,
China e Brasil possuem mais de 70% das reservas globais de terras raras
exploráveis. Entretanto, o Brasil ocupa hoje uma posição periférica na cadeia
de valor das terras raras, apesar do forte potencial geológico.
Corremos
o risco de aprofundarmos nossa condição de cibercolônia e de reproduzirmos o
padrão extrativista que levou a inúmeras perdas de oportunidades do país. O
perigo não está somente na vitória eleitoral da extrema direita nas próximas
eleições. O problema está também na esquerda submissa às teses neoliberais e à
teoria do desenvolvimento cunhada por Fernando Henrique Cardoso. Nessa visão,
um país como o Brasil não teria como se desenvolver diante de um sistema
fechado e controlado pelo grande capital norte-americano. Caberia aos nossos
gestores associarem-se ao grande capital e explorar as brechas que vão se
abrindo no sistema. Assim, podemos ser modernos mesmo sendo cada vez mais
dependentes.
Essa
visão esquece que o cenário internacional mudou e que o país possui uma
estrutura universitária extremamente significativa, uma produção industrial
variada e inúmeras possibilidades de alianças estratégicas com países do Sul
Global. Além disso, temos dados em abundância para treinar modelos de IA
realmente existente, sem a necessidade de enviá-los para as Big techs. Também
temos uma engenharia diversificada e em condições de estruturarmos data centers
federados, de baixo impacto ambiental. Podemos criar soluções distribuídas e
que superem os entraves da latência e outros entraves para treinarmos modelos
de IA próprios e fazermos inferências em escala sem a necessidade de
investimentos bilionários em data centers de hiperescala.
Para
compensar a ausência de investidores privados nacionais – uma vez que as
classes dominantes brasileiras preferem o rentismo e o ruralismo de exportação
– o Brasil possui um ativo que poucos países possuem, que são suas empresas
estatais de processamento de dados. Elas foram criadas nos anos de 1960 com o
objetivo de o Estado brasileiro dominar as tecnologias de informação e
processamento que estavam avançando velozmente. Com a chegada do
neoliberalismo, nos anos de 1980 e sua hegemonia crescente, essas empresas
foram sucateadas e perderam seus objetivos estratégicos. Hoje, Serpro e
Dataprev são “barrigas de aluguel” das big techs. Nas mãos dos acordos com o
Centrão, essas empresas aproveitam a possibilidade de firmarem contratos sem a
exigibilidade de licitação para levarem big techs como a Palantir, Oracle,
Microsoft e a AWS para qualquer segmento do Estado.
Em
relação as terras raras não podemos seguir o mesmo caminho. Apesar de não
prometermos entregar esses compostos químicos estratégicos para os Estados
Unidos de modo declarado, temos que bloquear sua entrega de modo velado. Para
isso, é preciso compreender a cadeia produtiva das terras raras. Existe um
artigo fundamental para aprofundarmos nosso debate que se denomina “A
comprehensive review on rare earth elements: resources, technologies,
applications, and prospects” [“Uma revisão abrangente dos elementos de terras
raras: recursos, tecnologias, aplicações e perspectivas”] Foi publicado na
revista Rare Metals, em 3 de agosto de 2025. Os seus autores consideram existir
um ciclo de vida dos elementos das terras raras que é composto de quatro
estágios fundamentais: 1- mineração; 2- metalurgia; 3- Circulação; 4-
reciclagem. No primeiro estágio, temos a exploração geológica e a extração do
minério com métodos subterrâneos ou a céu aberto. Em seguida, passamos para o
beneficiamento do material bruto com flotação, separação gravimétrica e
magnética. No segundo estágio, vemos a lixiviação, ou seja, a separação dos
cátions de elementos de terras raras dos minérios com soluções aquosas. Também
temos a purificação e separação dos elementos individuais desses componentes
químicos, bem como, a produção dos óxidos refinados de terras raras. Antes de
avançarmos para os estágios 3 e 4 é importante observarmos a situação do Brasil
nos dois primeiros.
Em
2023, a China dominou o estágio da mineração, produzindo 240.000 toneladas de
terras raras, representando 80% da produção global. Em 2010, o país de
Xi-Jinping alcançou 97,74% da mineração mundial de terras raras, depois disso
nunca ficou abaixo dos 90%. No estágio 2, os chineses detém 88% do mercado
global de separação metalúrgica. E as chamadas terras raras pesadas são
processadas somente na China que criou o método de extração em cascata. Desse
modo, a China domina essa cadeia de valor, o que lhe dá um grande poder
tecnoeconômico e geopolítico.
O
Brasil concentra depósitos de carbonatita — o tipo mais importante de depósito
das chamadas terras raras leves, responsável por cerca de 51,4% dos recursos
mundiais de óxidos de terras raras. Entretanto, nosso país exporta concentrados
de baixo valor por não dominar a separação química. Enquanto o concentrado
misto vale cerca de US$ 10 por quilo, óxidos separados chegam a US$ 200,
transferindo renda e tecnologia para o exterior.
Aqui
está o ponto crucial. Enquanto o país não dominar as partes relevantes da
cadeia de valor dos elementos de terras raras não devíamos exportar tais
recursos estratégicos. Temos que romper com nossa condição colonial de “vender
minério de ferro para comprar aço”. Para tal precisamos criar uma política de
infraestruturas do digital que rompa com as teses de FHC e com a pressa
neoliberal. Os ideólogos das classes dominantes brasileiras associadas
subordinadamente às classes dominantes norte-americanas clamam pela pressa.
Dirão que temos que exportar as terras raras ainda que na sua fase mais básica,
inicial. Para que? Por que? Para satisfazer os interesses microeconômicos de
alguns capitalistas no Brasil e para entregar esses componentes químicos
estratégicos para as Big Techs e para a máquina de guerra dos Estados Unidos?
Isso é bom para o Brasil?
Precisamos
construir uma estratégia brasileira para as terras raras que seja vinculada a
uma estratégia de desenvolvimento tecnológico nacional. Não podemos perder essa
oportunidade de controlar nossos recursos fundamentais e de participarmos na
cadeia de valor das terras raras como país importante em todos os seus
estágios. Essas ações deveriam ser articuladas a construção de infraestruturas
locais, federadas e de baixo impacto ambiental para nos inserirmos no circuito
de desenvolvimento de sistemas automatizados chamados de inteligentes de modo
soberano e com a geração de valor para o país. Essa inserção brasileira deve
ser pensada a partir de um novo modelo socioambiental de exploração de recursos
naturais que sejam pensados para reduzir ao máximo seus impactos inegavelmente
nefastos que a extração e tratamento das terras raras traz ao meio ambiente.
• Submisso, Flávio Bolsonaro oferece
terras raras à ultradireita nos EUA
A
pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República
inaugurou a agenda internacional com um gesto que, para analistas de
geopolítica, soa como um leilão da soberania nacional. No último sábado (28),
diante de uma plateia de ativistas e líderes da ultradireita norte-americana na
Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC – Conservative Political Action
Conference), no Texas, o parlamentar ofereceu o subsolo do território
brasileiro como peça de reposição para a segurança militar norte-americana.
O tom
do discurso, marcado pela retórica de “campo de batalha”, sugere uma transação
política clara: o reconhecimento e o apoio do movimento MAGA à sua candidatura
em troca da garantia de que o subsolo brasileiro servirá prioritariamente aos
interesses militares e tecnológicos de Washington.
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O Brasil como Almoxarifado do Pentágono
O
centro da fala de Flávio Bolsonaro repousa sobre a instrumentalização dos
recursos naturais. Ao declarar que “o Brasil é a solução da América para
quebrar a dependência da China em minerais críticos”, o senador abdica da
agência política de Brasília, transferindo-a para o Departamento de Defesa dos
EUA. A transcrição ipsis litteris de fala do filho de Jair Bolsonaro não deixa
margem para ambiguidades: ele vincula a “inovação tecnológica americana” e a
“superioridade militar” das potências estrangeiras à exploração das terras
raras brasileiras. Na prática, o que está em jogo é a oferta de um suprimento
estável para que a revolução tecnológica e a segurança nacional norte-americana
avancem, posicionando o Brasil como mero protetorado de recursos em meio à nova
Guerra Fria entre Washington e Pequim.
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A Fluidez da Dependência: Do Extrativismo à Periferia
Essa
visão de mundo promove uma reedição perigosa do modelo de desenvolvimento
dependente. Em vez de utilizar as terras raras como alavanca para uma
industrialização soberana — desenvolvendo semicondutores e tecnologias de
refino em solo nacional —, o projeto bolsonarista prefere a “armadilha do
extrativismo”. O fluxo econômico proposto condena o país à primarização:
exportamos o minério bruto para alimentar a indústria alheia e importamos, a
preços de ouro, o componente tecnológico acabado.
Esse
ciclo não apenas mantém a balança comercial brasileira refém do valor agregado
estrangeiro, como perpetua a fragilidade do Real frente ao Dólar, mantendo o
país na periferia do capitalismo global como fornecedor de insumos básicos.
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Desalinhamento Soberano e a Falácia do “Mundo Livre”
A
submissão política se completa com a adoção da retórica de “Mundo Livre”, uma
narrativa que tenta coagir o Brasil a um alinhamento automático e ideológico.
Ao afirmar que a vulnerabilidade dos Estados Unidos representa a
vulnerabilidade de todo o mundo, o senador ignora que a verdadeira soberania
brasileira reside na multipolaridade e na neutralidade ativa. O interesse
nacional exigiria que esses recursos fossem o alicerce de uma Base Industrial
de Defesa (BID) autônoma, e não um subsídio para a manutenção da hegemonia de
terceiros. Enquanto o discurso na CPAC prega o alinhamento total contra a
China, a realidade da soberania brasileira demanda um comércio diversificado
com o Brics e o controle do ciclo completo de produção — da mineração ao refino
— para que a riqueza gerada permaneça no país.
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A Moeda de Troca
A
participação de Flávio Bolsonaro na CPAC revela o que pode ser considerado o
“preço” do apoio internacional à campanha dele: a promessa de uma gestão
entreguista. Ao se apresentar como o garantidor da segurança militar alheia, o
pré-candidato sinaliza que, sob sua liderança, o Brasil não buscaria ser uma
potência tecnológica, mas sim um coadjuvante estratégico. O que foi negociado
no Texas não foi apenas o acesso a minerais, mas a soberania do Estado
brasileiro em decidir o próprio futuro geopolítico.
Fonte:
Por Sérgio Amadeu da Silveira, em Outras Palavras/Portal Vermelho

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