A
CIA manipulou os estadunidenses para fazer um boicote anticomunista
O governo
Trump assegurou ao povo estadunidense que a captura de Nicolás
Maduro, da Venezuela, em 3 de janeiro, foi essencial para a segurança nacional.
As autoridades tentaram associar o regime de Maduro a gangues e ao narcotráfico para justificar os ataques militares contra embarcações no Caribe e a apreensão de petroleiros venezuelanos. Em vez de
gerar um amplo apoio popular, no entanto, essas alegações dividiram a opinião
pública estadunidense quanto à mais recente
intervenção do governo dos EUA na América Latina, com a maioria demonstrando
ceticismo ou oposição.
Essa
ambivalência não era um problema no início da década de 1950, quando o governo
de Dwight D. Eisenhower ajudou a derrubar o governo
democraticamente eleito da Guatemala. O consenso relativo, no entanto, pode ter
sido alcançado devido aos esforços da Agência Central de Inteligência (CIA),
que durou semanas, para mobilizar os estadunidenses em torno de um boicote
popular ao café guatemalteco — empreendido apesar da proibição de a agência
operar em território doméstico. Utilizando um radialista popular e fornecendo
material a um senador respeitado, a CIA convenceu muitas famílias
estadunidenses de que era necessário destruir o que era falsamente alegado ser
uma cabeça de ponte soviética no Caribe.
Em
1944, uma ampla coalizão de guatemaltecos derrubou o ditador Jorge Ubico, dando
início à Revolução
Guatemalteca,
que durou até 1954. A visão de democracia do movimento rapidamente entrou em
conflito com diversas forças, desde as notórias ditaduras da região até
o Império Britânico. Furiosa com as
novas leis trabalhistas do país e com um projeto de reforma
agrária que
visava suas vastas propriedades, a United Fruit Company pressionou
o Congresso dos EUA e disseminou
propaganda por todo o país, denegrindo a Guatemala como um suposto bastião do comunismo
soviético. Em 1952, o governo Truman aprovou a
primeira operação secreta do
governo estadunidense para derrubar o governo da Guatemala, mas suspendeu
o plano por medo de que ele fosse descoberto.
Assim
que o governo Eisenhower assumiu o poder em 1953, a CIA rapidamente reiniciou a operação e
elaborou novas propostas. Logo, os agentes sugeriram atingir o comércio
internacional da Guatemala. Um boicote dos EUA ao café guatemalteco,
idealmente, provocaria um colapso econômico e induziria os guatemaltecos a derrubarem
seu próprio governo.
Para
mobilizar o povo dos EUA em torno desse objetivo, a CIA considerou trabalhar
com o radialista de direita Fulton Lewis Jr. Essa abordagem era um tanto
arriscada. Por um lado, Lewis havia zombado dos aparentes fracassos do governo
estadunidense em impedir a disseminação do comunismo durante a Guerra da
Coreia, uma denúncia que assumiu um tom conspiratório. Ele poderia reagir com
hostilidade e revelar detalhes do complô. Por outro lado, ele era uma figura
anticomunista popular, cujo programa de rádio e
televisão tinha
alcance nacional. Se ele se mostrasse receptivo, a estratégia seria vantajosa.
A
estratégia da CIA funcionou, e Lewis concordou em apresentar um programa sobre
a Guatemala, que seria exibido em janeiro de 1954. Seus convidados seriam o
senador Bourke Hickenlooper (republicano de Iowa) e Julius Cahn, conselheiro do
Comitê de Relações Exteriores do Senado. Ambos eram figuras perfeitas para o
programa. A United Fruit Company fazia lobby há tempos junto a Hickenlooper
contra os governos da Guatemala, enquanto Cahn trabalhava com o especialista em
relações públicas da empresa, Edward Bernays, para disseminar propaganda
anticomunista.
Para se
resguardar, a CIA forneceu a Lewis e Hickenlooper uma lista de argumentos
que reduziam o governo da
Guatemala a um fantoche soviético. Esses pontos baseavam-se em alegações
infundadas de que um grupo de comunistas internacionais controlava os assuntos
guatemaltecos, que os presidentes da Guatemala seguiam ordens de comunistas
soviéticos e até mesmo mexicanos, e que comunistas latino-americanos usavam a
Guatemala como base de operações para disseminar propaganda anti-estadunidense
por todo o Hemisfério Ocidental.
A argumentação
resultante era
exatamente o que a CIA queria. No programa de televisão de Lewis, em 22 de
janeiro de 1954, Cahn alegou que os comunistas guatemaltecos sufocavam a
liberdade religiosa, e Hickenlooper alertou que guerrilheiros e sabotadores
poderiam usar o país centro-americano para espalhar o caos nos próprios Estados
Unidos. Mais importante ainda, o próprio Lewis encerrou seu programa dizendo a
seus seguidores que “ao se recusar o café guatemalteco, os Estados Unidos
poderiam causar a queda do atual governo da Guatemala”.
O
programa alcançou exatamente o resultado que a CIA desejava, com estadunidenses
enviando cartas, telegramas e petições a seus representantes no Congresso. Uma
família em Montana implorou ao senador Mike Mansfield (D-MT) que “acabasse com
todo o comércio que pudesse ser benéfico a qualquer governo comunista”. Uma
dona de casa em Wisconsin assegurou ao senador Alexander Wiley (R-WI) que
“somos totalmente contra a importação de qualquer café” da Guatemala.
Imediatamente,
senadores e representantes questionaram o Departamento de Estado sobre a
viabilidade de um embargo ao café guatemalteco. Afirmaram que seus eleitores,
de Utah e Wyoming ao Texas e Connecticut, queriam que seus líderes tomassem
providências. Até mesmo o representante Charles Bennett (D-FL), que nada sabia
sobre os assuntos da Guatemala, queria “deixar registrado seu apoio ao fim de
qualquer comércio com países dominados por comunistas”. Impulsionado pelo
trabalho da CIA com Lewis, esse ativismo popular convenceu a senadora Margaret
Chase Smith (R-ME) a apresentar a Resolução
211 do Senado, que pedia um embargo ao café guatemalteco.
Lamentavelmente
para a CIA, não haveria embargo. Descobriu-se que os importadores não
distinguiam os grãos de café por país de origem, o que impossibilitava a imposição de
um embargo ao café guatemalteco sem afetar negativamente as exportações de
outros países. A CIA falhou em atingir seu objetivo principal durante essa
campanha de propaganda.
Contudo,
o embargo não concretizado tornou-se indiretamente um sucesso inestimável para
os esforços do governo dos EUA na Guatemala. Sob a Operação PBSUCCESS, a CIA
desencadeou uma imensa campanha de guerra psicológica que incluiu literatura
religiosa, subornos a militares, transmissões de rádio e a cooptação de
organizações estudantis. No final de junho de 1954, os próprios militares da
Guatemala depuseram seus líderes civis, concretizando os objetivos da CIA e
abrindo caminho para regimes subsequentes que reprimiriam
o povo guatemalteco em nome do anticomunismo. Durante todo esse tempo, os
estadunidenses seguiram pressionando seus representantes no Congresso para
derrubar o governo da Guatemala. Durante e mesmo após o golpe, os cidadãos
estadunidenses exigiram que o governo Eisenhower tomasse medidas para deter “o
presidente vermelho da Guatemala”. Graças à propaganda da CIA disseminada por
um senador em um programa de televisão popular, os estadunidenses aplaudiram
uma intervenção do governo dos EUA na América Latina.
Essa
história pode parecer apenas um caso de uma era mais rudimentar de propaganda.
Mas também pode ser bastante relevante à luz das recentes controvérsias
envolvendo agências de notícias que dão tratamento preferencial ao governo
Trump. Veja, por exemplo, a CBS News, sob nova direção e pressionada a retratar o
governo Trump de forma positiva. Poucos dias após a captura de Maduro, foi o
mais recente âncora do CBS Evening News quem elogiou publicamente o secretário de
Estado do governo pelos acontecimentos na Venezuela.
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Como os EUA usaram a religião para combater o comunismo
no Brasil. Por Carlos Tautz
Há 50
anos, uma guerra psicológica ousada foi colocada em prática – e seus
efeitos operam até hoje. Para tentar combater o avanço do comunismo, os EUA
enviaram ao Brasil milhares de missionários de religiões e seitas evangélicas e
católicas, judeus conservadores e até membros de empresas privadas com um
objetivo: popularizar versões reacionárias da fé cristã e, assim, conquistar
corações e mentes.
O
objetivo era implantar e defender governos subservientes e capitalistas –
vários deles, como o brasileiro, eram ditaduras militares – que se opusessem ao
comunismo e se alinhassem à economia de mercado que os EUA tentavam expandir
para todo o planeta.
Digno
de um filme de conspiração internacional, esse roteiro geopolítico é real. E
está relatado no livro O Partido da Fé Capitalista (Da Vinci
Livros), lançado no início do ano.
A obra
é baseada na tese de doutorado O Partido da Fé Capitalista –
Organizações religiosas e o imperialismo norte-americano na segunda metade do
século XX, que o historiador Rodrigo de Sá Netto defendeu em 2022 no
Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense.
Em sua
investigação, que durou cinco anos, Sá Netto utilizou arquivos públicos
brasileiros e estadunidenses e pesquisou, entre outros, documentos do Serviço
Nacional de Informações, o SNI , depositados no Arquivo Nacional do Brasil, e
da Central Intelligence Agency, a CIA, nos EUA. No NARA (National Archives and
Records Administration) ele pesquisou os arquivos dos presidentes
estadunidenses.
“O
livro e a tese contam a história de uma coligação ecumênica que envolve
religiosos de múltiplas denominações. Ela começa a ser gestada por órgãos
governamentais americanos, como a USIA, a United States Information Agency, que
lidava com diplomacia pública, voltada para influenciar populações de outros
países de acordo com seus interesses”, conta Sá Netto, que é também é
pesquisador do Arquivo Nacional.
“Houve
financiamento das agências norte-americanas, majoritariamente com os
Republicanos e um pouco com os Democratas, para a atuação desses missionários
nas décadas de 1950 a 1970”, explica Fábio Py, teólogo protestante-evangélico e
professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade
Estadual do Norte-Fluminense, que participou da banca de Sá Netto.
“A
estratégia também envolvia empresários, agentes governamentais, líderes
religiosos e intelectuais estadunidenses, que contactaram os seus pares no
Brasil e nos demais países latino-americanos”, relata Sá Netto.
O plano
começou em 1954, com a criação pelo governo dos EUA da Fundação para Ação
Política e Religiosa na Ordem Civil e Social, a Frasco, cujo dirigente era um
membro da Usia. A Frasco congregava religiosos de várias denominações,
sobretudo evangélicos, que nos EUA são maioria, mas também católicos
conservadores e judeus.
Era um
“esforço internacional para formar uma frente religiosa internacional
anti-comunista e pró-capitalista, defendendo os pressupostos do livre mercado e
da liberdade norte-americana, em contraste com o que seria o ateísmo e o
planejamento econômico comunista, onde supostamente não haveria liberdade
sequer para se professar a religião”, explica o historiador.
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Teologia da prosperidade e a luta anticomunista
No
início da década de 1950, os Estados Unidos e a então União Soviética mergulham
na Guerra Fria pós-2ª Guerra Mundial e passam a disputar econômica, militar e
politicamente a hegemonia sobre cada centímetro do mundo.
Na
América Latina, que Washington sempre considerou como seu quintal, a ditadura
empresarial e militar implantada em 1964 olhava com bons olhos essa expansão
capitalista. Os militares contribuíram para que o Brasil, o maior país da
região, tivesse se tornado o principal alvo da estratégia de consolidação e
ampliação da influência do governo estadunidense.
“Não à
toa, a partir dos anos 1950 temos uma escalada inédita da vinda de missionários
e religiosos estrangeiros vindo para cá”, diz Sá Netto.
Algumas
das maiores e mais poderosas igrejas pentecostais que atuam no Brasil foram
fundadas naquele contexto. Um exemplo é a Igreja do Evangelho Quadrangular.
Fundada em 1923 por Aimee McPherson, nos Estados Unidos, a igreja foi trazida
ao Brasil em 1951 por Harold Williams e Jesus Hermínio Vasquez Ramos, em São
João da Boa Vista, no interior de São Paulo.
Outros
exemplos são a Igreja Deus é Amor e Brasil Para Cristo, fundada por pastores
brasileiros que tinham passagem por igrejas pentecostais
norte-americanas.
Essas
igrejas evangélicas pentecostais abriram o caminho para novas, como a
Igreja de Nova Vida, fundada no Brasil pelo pastor canadense Robert McAlister,
uma das primeira expoentes da teologia da prosperidade no Brasil. Outra é a
superpoderosa Igreja Universal do Reino de Deus. “O Edir Macedo aprendeu muito,
pegou a fórmula e transformou em uma franquia com traços brasileiros e
adaptações muito efetivas. Mas a matriz de pensamento é toda estadunidense”,
explica Sá Netto.
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‘Convinha integrar o indígena à sociedade capitalista’
A
estratégia dos EUA passava por enviar organizações missionárias em massa para o
Brasil. Um documento de 1961, do Conselho de Segurança Nacional, encontrado por
Sá Netto, relata que, desde 1957, havia um número incontável de missões
evangélicas estrangeiras na Amazônia, mas que não havia certeza sobre quais nem
quantas exatamente.
O
documento mostrava que essas missões tinham colaboração com a CIA, com o
garimpo ilegal, com a destruição de cultura indígena e tráfico de drogas. Mas o
Conselho ressaltava que nada havia sido provado e que não convinha retirá-las
do Brasil porque elas faziam um bom trabalho. “Convinha retirar o indígena da
natureza e integrá-lo à civilização, à sociedade capitalista brasileira. Essa
concepção permanece até hoje”, diz Sá Netto.
A
simpatia do estado brasileiro com os evangélicos estrangeiros foi admitida pelo
próprio Comando Militar da Amazônia. Em um relatório de 1974, o órgão admitiu
haver “uma complacência e até mesmo apoio das autoridades municipais, estaduais
e federais com relação a estes missionários”.
A
pesquisa de Sá Netto também revela que o governo ditatorial tinha uma
predileção nada disfarçada por missionários evangélicos sobre os
católicos.
Um
documento confidencial da DSI do Ministério do Interior diz, por exemplo, que
as missões católicas, “normalmente sob influência da Teologia da Libertação,
procuram a conscientização do índio para seus direitos”, contestando
frequentemente as determinações do governo. O governo criticava, por exemplo, o
fato das missões católicas exacerbarem “a reivindicação pela terra indígena”,
dando “importância secundária à catequese”.
A
“pressão ideológica e reivindicatória” que os católicos progressistas exerciam,
sobretudo os reunidos no Conselho Indigenista Missionário, o Cimi, era, então,
apontada como ponto negativo da presença desse grupo. Por outro lado, a DSI
livrava completamente a cara do grupo evangélico, afirmando, sem rodeios, que
essa “ação contestadora só ocorre com os missionários católicos”.
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Conscientização política anticomunista
Os
documentos revelam que a Igreja da Unificação, que se concentrava nas cidades,
também foi protegida pelos militares. “Os serviços de inteligência diziam que a
despeito de denúncias nada havia sido comprovado contra a igreja, que deveriam
permanecer no Brasil porque vigorava no País a liberdade religiosa e, mais
importante, porque ela fazia atividades de conscientização política
anticomunista”, diz Sá Netto.
A
Igreja da Unificação, conservadora, pró-capitalista, era o nome conhecido da
Associação das Famílias para a Unificação e Paz Mundial, foi fundada na Coréia
do Sul em 1954 por Sun Myung Moon, o Reverendo Moon.
Um
documento, datado de 1981, defende a permanência no Brasil da Igreja da
Unificação. Para a Diretoria de Segurança Interna do Ministério da Justiça,
além de ser juridicamente inatacável, importava o fato de ela lutar contra o
comunismo, contrapondo-se, assim, à influência das organizações de contestação
da ditadura.
Para o
órgão, suas pregações contribuíram para fortalecer o nacionalismo e o
sentimento religioso e democrático, e que a sua denúncia sistemática das
mazelas do comunismo fortaleceria a consciência política e ideológica da
população.
Conhecida
por organizar enormes casamentos coletivos que reuniam até milhares de casais,
a Igreja da Unificação foi fundada por Sun Myung Moon na Coreia do Sul em 1954,
e ficou conhecida por escândalos financeiros, como desvio de
doações de fiéis.
Ao
longo da década de 1980, explica Sá Netto, a Igreja se envolveu na política
brasileira: financiou 60 candidatos à Constituinte de 1986, de legendas
conservadoras, além dos candidatos a prefeito em São Paulo, Jânio Quadros e
Paulo Maluf. Hoje, a igreja foi rebatizada como Federação da Família para a Paz
Mundial e Unificação.
Para o
pesquisador, os filhos daquela política imperialista dos EUA ainda estão muito
ativos no Brasil. Um exemplo é o 8 de Janeiro, que tem fortes indícios da participação de algumas
igrejas na
organização do movimento golpista.
Segundo
a Polícia Federal, alguns dos golpistas presos durante a invasão e depredação
alegaram terem sido recrutados e/ou financiados por organizações como a Igreja
Batista, a Presbiteriana Renovada e a Assembleia de Deus.
Além
disso, a infiltração em espaços públicos também ainda ocorre de maneira
explícita. Em 2019, o grupo evangélico ultraconservador Capitol Ministries
se aproximou de integrantes do governo
Bolsonaro e
mais recentemente, de deputados da Assembleia Legislativa de São Paulo.
Fonte:
Por Cauê Seignemartin Ameni, em Jacobin Brasil/ICL Noticias

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