Mãesautistas:
portais vivos entre o autismo e as exigências do mundo
No Dia
da Conscientização do Autismo, é comum que o debate se concentre — com razão —
nas pessoas autistas: seus direitos, suas formas de existência, suas demandas
por reconhecimento. Mas há uma presença constante, muitas vezes silenciada, que
sustenta, no cotidiano, a possibilidade concreta desse reconhecimento: aquelas
que aqui chamo de mãesautistas.
Não se
trata de uma categoria clínica, mas de uma experiência existencial. São
mulheres que vivem o autismo de dentro, atravessadas por ele em suas rotinas,
escolhas, afetos e renúncias. Em muitos casos, enfrentam o abandono — não raro,
inclusive, por parte dos próprios companheiros após o diagnóstico dos filhos —,
além do isolamento social e da sobrecarga de um cuidado que não é apenas
prático, mas também simbólico.
Esse
abandono não pode ser lido como exceção ou falha individual. Ele revela uma
lógica mais profunda de responsabilização feminina pelo cuidado: quando a
diferença emerge e exige reorganização da vida, é sobre as mulheres que recai,
quase automaticamente, a tarefa de sustentar o que antes era compartilhado. Aos
homens, com frequência, ainda é socialmente permitido retirar-se — física ou
afetivamente — sem que isso produza o mesmo grau de condenação moral ou
exigência de permanência. Nesse cenário, muitas dessas mulheres passam a
sustentar sozinhas não apenas o cotidiano dos filhos, mas também o trabalho
invisível de mediação com o mundo.
A
mãeautista é um portal. É passagem, mediação, presença que sustenta a
comunicação onde, muitas vezes, a sociedade enxerga apenas ruído ou
inadequação. É ela quem lê gestos, antecipa crises, constrói estratégias,
tensiona instituições e, não raramente, educa o próprio entorno — escolas,
profissionais, familiares — sobre aquilo que deveria ser responsabilidade
coletiva.
No
entanto, essa função de mediação tem um custo elevado. Há amor, sem dúvida, mas
há também desgaste, invisibilidade e, por vezes, uma dissolução progressiva da
própria individualidade. Quando a vida se organiza integralmente em torno da
função de sustentar o outro, o risco não é apenas o cansaço — é o apagamento de
si. E isso não pode ser romantizado como destino natural do cuidado.
Ser
ponte entre universos exige uma flexibilidade imensa, uma capacidade contínua
de deslocamento e reinvenção. Exige habitar o “entre” — esse espaço instável
onde nenhuma das duas margens oferece pleno pertencimento. Muitas dessas
mulheres já não são reconhecidas integralmente nem pelo mundo dito “típico”,
nem encontram apoio suficiente nas estruturas que deveriam acolhê-las.
Permanecem em trânsito, sustentando uma travessia que raramente é
compartilhada.
É
justamente nesse entre-lugar que o autismo se revela em sua dimensão mais
concreta: não como conceito abstrato ou categoria diagnóstica isolada, mas como
modo de existência que reconfigura relações, tempos, linguagens e formas de
presença no mundo. As mãesautistas, ao viverem essa experiência, tornam-se
também testemunhas privilegiadas das limitações de uma sociedade que ainda
insiste em enquadrar a diferença como desvio.
Por
isso, falar de autismo implica ir além da inclusão formal ou do acesso a
serviços. Implica reconhecer que há múltiplas formas legítimas de perceber,
sentir e interagir com o mundo — e que nenhuma delas deveria ser hierarquizada
a partir de um padrão único de normalidade. O problema não está na diferença em
si, mas nos dispositivos sociais que a transformam em inadequação.
As
experiências dessas mães evidenciam algo maior: vivemos em uma estrutura social
que não apenas organiza a vida econômica, mas também produz modos de ser.
Trata-se de uma lógica que valoriza a eficiência, a produtividade contínua, a
previsibilidade dos comportamentos — em suma, a adaptação a um modelo funcional
ao lucro. Essa engrenagem não tolera bem aquilo que escapa, que desacelera, que
exige outros ritmos ou outras formas de relação.
O
resultado é a produção de subjetividades padronizadas, mecânicas, nas quais a
singularidade aparece como obstáculo e não como potência. Tudo aquilo que
resiste a essa lógica — como muitas experiências autistas — é frequentemente
deslocado para a margem, seja pela exclusão direta, seja pela exigência
constante de adaptação.
Nesse
cenário, as mãesautistas ocupam uma posição paradoxal. Ao mesmo tempo em que
sustentam, no cotidiano, a possibilidade de inserção de seus filhos nesse
mundo, também vivenciam, de forma aguda, os limites e as violências dessa mesma
estrutura. São elas que absorvem o impacto de instituições despreparadas, de
políticas insuficientes e de uma cultura que ainda delega ao âmbito privado —
e, mais especificamente, ao corpo feminino — aquilo que deveria ser
responsabilidade coletiva.
Reconhecer
o autismo como modo de existência, portanto, não é apenas uma mudança de
discurso — é uma exigência de transformação social mais profunda. Significa
questionar os critérios que definem quem pertence, quem produz, quem vale.
Significa deslocar o eixo da adaptação: não mais exigir que o sujeito se molde
ao mundo, mas que o mundo se torne capaz de acolher a diversidade de modos de
ser.
Enquanto
isso não acontece, a travessia continua sendo sustentada, em grande medida, por
essas mulheres. Invisíveis para muitos, essenciais para tantos. Portais vivos
entre mundos que ainda não aprenderam a coexistir sem hierarquias.
A
pergunta que permanece — e que este insisto em não deixar esquecer — é simples
e incômoda: até quando essa travessia continuará sendo sustentada quase
exclusivamente por quem nunca deveria estar sozinha nela?
Fonte:
Por Ângelo Oliveira, em Racismo Ambiental

Nenhum comentário:
Postar um comentário