Pepe
Escobar: O mundo novo ocupado em nascer e o mundo velho ocupado em morrer
Trata-se
de uma capitulação imposta: um documento de rendição disfarçado de
“negociação”.
O plano
que não tem nada de plano – que impõe exigências ao mesmo tempo em que pede um
cessar-fogo de um mês - incluindo zero enriquecimento de urânio em solo
iraniano; total desmonte das instalações de Natanz, Isfahan e Fordow; retirada
de todo o urânio enriquecido do Irã; extrema restrição ao programa de mísseis;
fim do financiamento ao Hezbollah, Ansarallah e milícias iraquianas; abertura
total do Estreito de Ormuz.
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Tudo
isso em troca de um vago “cancelamento da ameaça de reimpor sanções”.
A única
resposta iraniana realista a esse acúmulo de pensamentos fantasiosos seria o
Sr. Khorramshahr-4 despejando cartões de visita sobre alvos selecionados –
consistente com o emprego de contenção econômica e militar para ditar os termos
reais.
E os
termos reais são duros:
Fechamento
de TODAS as bases militares
dos Estados Unidos no Golfo; garantia de que não haverá mais guerras; fim da guerra
ao Hezbollah; retirada de TODAS as sanções; indenização por todos os prejuízos
causados pela guerra; uma nova ordem no Estreito de Ormuz (já em vigor: coleta
de taxas de trânsito idênticas às cobradas pelo Egito no Suez); programa da
mísseis mantido intacto.
Conclusão:
a infernal máquina de escalada continua em funcionamento.
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Um clube fechado com taxa de adesão em petroyuans
Enquanto
isso, os preços de petróleo e gás estão atolados em um caleidoscópio de
volatilidade, afetando moedas, ações, commodities, cadeias de suprimentos e
pânicos inflacionários. O que se vê já é um choque econômico global fora de
controle, com consequências devastadoras que já se fazem sentir.
Antes
da guerra, o Irã produzia um pouco menos que 1,1 milhões de barris de petróleo
por dia, vendidos a 65 dólares o barril com um desconto de 18 dólares: na
prática, portanto, menos que 47 dólares. Agora, o Irã aumentou a produção para
1,5 milhões de barris por dia, vendendo a 110 dólares (tendendo a aumentar)
principalmente para a China, com um desconto máximo de 4 dólares.
E isso
sem incluir as vendas de petroquímicos: crescendo sempre, e para uma longa
lista de novos clientes. Resumindo tudo, todos os pagamentos são feitos por
meio de mecanismos alternativos. O que nos leva a um fato surpreendente: para
todos os fins práticos, isso representa a adoção de alívio para as
sanções.
E
agora, quanto ao Santo Graal da guerra: o Estreito de Ormuz. Que de fato está
aberto, mas com uma cabine de pedágio controlada pela Guarda Revolucionária do
Irã (IRGC). Uma cabine de pedágio com um toque especial: poder de veto sobre a
lista de convidados. Como para entrar um clube privado.
Para
conseguir a aprovação do IRGC, um navio-tanque tem
que pagar uma taxa: 2 milhões de dólares por embarcação. É assim que funciona.
Você entra em contato com um corretor ligado ao IRGC. O corretor transmite ao
IRGC as informações essenciais: proprietário da embarcação, bandeira nacional,
declaração de carga, destinação, lista da tripulação e dados sobre o
transponder AIS.
O IRGC
conduz checagens de antecedentes. Se você não for ligado aos Estados Unidos,
não estiver portando cargas ligadas a Israel e se sua bandeira não for de
nenhum “estado agressor”, você tem a passagem autorizada. O Japão e a Coreia do
Sul, por exemplo, ainda não foram liberados.
Então
você paga a taxa. Em dinheiro vivo – seja qual for a moeda que você use – mas
preferivelmente em yuan. Ou em cripto.
É um
mecanismo complexo. O IRGC usa múltiplos endereços, pontes blockchain com
outras redes, mesas de balcão de atendimento em jurisdições muito além do
alcance dos Estados Unidos e integração com todos os tipos de canais de
pagamentos em yuan.
Após o
pagamento da taxa, o IRGC emite uma liberação por rádio VHF – da qual consta um
intervalo de tempo específico vinculado a um corredor náutico de cinco milhas
através de águas territoriais iranianas entre Qeshm e a pequena ilha de Larak,
de onde a Marinha do IRGC consegue identificar visualmente sua embarcação. Você
então pode passar. Sem necessidade de um navio-escolta.
Todo o
citado acima se aplica, por enquanto, a navios-tanque da China, Índia,
Paquistão, Turquia, Malásia, Iraque, Bangladesh e Rússia. Alguns deles
não precisam pagar a taxa cheia. Alguns conseguem isenções - negociadas
governo-a-governo (como Sri Lanka e Tailândia, ambas descritas como “nações
amigas”). E alguns não pagam nada.
Bem-vindos,
portanto, a um clube fechado com a taxa de adesão paga principalmente em
petroyuans. Bastou uma única providência iraniana para alcançar o que
incontáveis cúpulas globais não conseguiram: a criação de um sistema de
pagamentos alternativo – sob fogo, testado sob tensão máxima e, além de tudo,
aplicada no principal ponto de estrangulamento do planeta.
Cada
taxa paga em petroyuans representa uma derrota do petrodólar, do SWIFT e das
sanções americanas – tudo de um só golpe. O Parlamento iraniano irá aprovar a
legislação que institucionaliza as cabines de pedágio como “pagamento de
segurança”. Ninguém previu isso, nem a rapidez com que aconteceu: monetização
legalizada de gargalos. Sem disparar um único tiro. É disso que trata a
desdolarização do comércio.
O
problema é o que não vem passando pelo Ormuz: fertilizantes.
Mais de 49% da ureia exportada vêm do Golfo Pérsico. A amônia precisa de gás
natural, mas Qatar decretou Força Maior depois do ataque do Sindicato Epstein a
South Pars e dos contra-ataques iranianos. O IRGC está focado no petróleo
porque o petróleo financia as cabines de pedágio e, no longo prazo, estará no
cerne do sistema pós-dólar de pagamentos por energia, com o pleno apoio da
parceria estratégica Rússia-China.
Não é
de admirar, portanto, que o Império do Caos e dos Saques tenha pirado de vez.
De uma hora para outra, em três semanas, temos o petroyuan dominando o
principal corredor de conectividade naval – de fato privatizado - de todo o
planeta. O Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) vai dar uma de
Terminator para demolir o pedágio, tentando de tudo, desde o bombardeio de
instalações do IRGC situadas ao longo da costa e montando escoltas navais para
os navios-tanque de aliados até um tsunami de sanções contra os corretores do
pedágio.
O que o
CENTCOM não consegue bombardear é o precedente do petroyuan já em vigor. O Sul
Global inteiro está assistindo e fazendo os cálculos. A guerra demente está, na
verdade, ajudando o nascimento de uma nova infraestrutura de pagamentos. A
dimensão financeira da guerra é de importância ainda mais crucial do que a
pontaria certeira dos mísseis.
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O que espera o GCC
O Qatar
avisou ao Trump 2.0, vez após vez, que atacar a infraestrutura energética do
Irã destruiria a infraestrutura energética da própria Doha. Foi exatamente o
que aconteceu. O Ministro da Energia de Qatar, al-Kaabi, revelou ter avisado
repetidamente o Secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, e
também os executivos da ExxonMobil e da ConocoPhillips.
Não
adiantou. Qatar acabou perdendo 17% de sua capacidade de GNL: 20 bilhões
perdidos em receita, prejuízo que levará cinco anos para ser recuperado.
Al-Kaabi: o barril de petróleo talvez atinja o preço de 150 dólares, e essa
guerra poderia “derrubar as economias do mundo”.
Entramos
no território do absurdo, uma vez que está claro que atacar a South Pars
iraniana geraria
uma vantagem estratégica menor que zero. Ao contrário, o contragolpe atingiu o
setor de energia do Golfo Pérsico. Mas a perversidade reina soberana. Em última
análise, que se beneficiou? As empresas de gás dos Estados Unidos.
O Irã
aposta – de forma imensamente ambiciosa - que as monarquias do Golfo acabarão
por fazer os cálculos. É como se Teerã estivesse deixando perfeitamente claro:
se vocês aprenderem a fazer negócios conosco, nós deixaremos deixar vocês
continuarem a operar seus próprios negócios.
As
novas regras incluem tudo, desde o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC)
abandonar o dólar até o fim dos centros de dados estadunidenses. E se O GCC
quiser um novo sistema de segurança, é melhor ir conversar com a China. E,
durante todo esse tempo, o GCC também tem que aprender como lidar com o fato de
que esse choque de petróleo terá o efeito permanente de elevar o prêmio de
risco sobre sua oferta de energia. Reset estrutural é um termo que sequer chega
perto de descrever a situação.
Nas
atuais circunstâncias, resta uma única certeza: o GCC terá um papel importante
na implosão do sistema financeiro internacional, por estar pronto para retirar
pelo menos 5 trilhões do mercado estadunidense, a fim de financiar sua própria
sobrevivência.
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A longa e sinuosa estrada do petro-ouro
Resumindo:
após o ataque ao campo de gás de South Pars – o maior do planeta – e o pedágio
no Estreito de Ormuz, são os pagamentos em yuan-ouro, por todo o espectro, que
vêm dando à parceria estratégica Rússia-China uma posição de vantagem que seria
impensável poucas semanas atrás.
A
parceria estratégica está consolidando nada menos que um novo mecanismo de
pagamentos global, onde as operações em petroyuan levam diretamente ao ouro
físico.
Enquanto
a Rússia vende volumes massivos de petróleo e gás intocados pela guerra
ao seu aliado Irã, a China, como o maior refinador, compra energia russa e, ao
mesmo tempo, tenta manter seus parceiros do Sudeste Asiático fora do dólar dos Estados
Unidos.
A
Rússia vem convertendo pagamentos em yuan em ouro físico na Bolsa de Valores de
Xangai. O Irã vem acumulando pagamentos em yuan em Ormuz – incentivando
contratos de compra de petróleo em yuan conversíveis em ouro. E a China vem
construindo no exterior caixas-fortes e corredores de ouro. O novo triângulo
Primakov RIC (Rússia-Irã-China) está no controle por meio da energia e do ouro
físicos.
Essa,
portanto, é a principal conclusão a ser tirada da guerra travada pelo Sindicato
Epstein contra o Irã. Rússia-China alcançaram o
Santo Graal: o domínio sobre a energia e um sistema de pagamentos em yuan
lastreado em ouro que supera o petrodólar para todo o sempre.
Para
todos os fins práticos, a arquitetura montada pela “nação indispensável” desde
a década de 1990 está deixando à mostra rachaduras estruturais que podem ser
vistas por todos, e os mercados globais estão atualizando em tempo real todas
as variações possíveis desse modelo.
É como
se os persas tivessem reinterpretado Sun Tzu, Clausewitz e Kutuzov (o
conquistador de Napoleão) em um novo sistema híbrido. E, como bônus, alcançaram
em apenas três semanas o que anos de cúpulas não conseguiram.
O
petrodólar está chegando ao fim. Sistemas alternativos de pagamentos estão
entrando em ação. E o Sul Global está assistindo em tempo real o Império dos
Bombardeios Sem Fim ser paralisado por uma guerra de atrito descentralizada,
arquitetada por uma nação soberana com um orçamento de defesa equivalente a
um-cinquenta avos do orçamento do Império.
A
multipolaridade não irá nascer com homens engravatados lendo documentos em
escritórios executivos. A multipolaridade nascerá do campo de batalha, sob
fogo, contra as piores dificuldades.
¨
Boots on the ground.
Por Flávio R. Kothe
Eu
havia combinado me encontrar com o diplomata aposentado Frederico Soares de
Abreu, que eu tratava por Frédi, na Associação de Escritores para assistir a
uma palestra beletrística. Enquanto o palestrante apregoava rimas ABBA e CDCD,
eu divagava, longe das preocupações de quem acha que fazer versos rimados e
fazer poesia sejam o mesmo. Se era possível fabricar um soneto perfeito no
esquema formal e, no entanto, gerar um texto chocho, reiterava-se o que
Aristóteles já dissera, e as premissas do palestrante desapareciam no
conservadorismo da geração de 1945.
Israelenses
e sionistas americanos não estavam conseguindo derrubar a retranca iraniana,
pois sempre havia mais uma caverna selada que a abrigava nas montanhas do
deserto. Tinham tido a coragem de olhar, pensar, decidir e fazer o que era
necessário para sobreviverem como país e povo. Imaginei que, se russos e
chineses obtivessem a garantia americana de que poderiam completar suas rotas
da seda, talvez eles se retraíssem, deixando os iranianos na mão. Todos sabiam
que não se podia acreditar no que os americanos diziam – eles mentiam,
descumpriam acordos firmados, até os pele-vermelhas sabiam disso –, mas às
vezes convém fingir que se acredita, para ter tempo de se preparar para o
próximo ataque. Stálin fez um acordo com Hitler, assim conseguiu um tempo para
se preparar para o ataque que viria. Parecer covarde fazia parte do pacto de
conseguir um tempo para juntar forças e enfrentar o valentão.
Bloqueados
pela resistência iraniana, o sionismo que governa o deep state americano
se voltava para o quintal da América do Sul. Na Venezuela, havia bastado sacar
Nicolás Maduro, para que sua vice, alçada à presidência, virasse o governo para
a direita, entregando o petróleo ao interesse ianque, suspendendo as remessas para
Cuba. Queria preservar o país, abdicando da soberania, entregava os anéis para
preservar os dedos. Será que os cubanos iam aguentar mais um boicote americano
ou iriam culpar o governo pelos apagões e pelas carências diárias?
Sem
endossar a abertura presidida por Gustavo Petro, a Colômbia resolvera virar à
direita, retornando à condição de colônia, algo profundamente impregnado dos
povos sul-americanos. Os argentinos haviam tido a clara opção entre garantir a
soberania ou se submeter ao fascismo da metrópole americana: a maioria do povo
optara pela submissão. Não se esperava de gaúchos que fossem covardes.
O Chile
se apressou a seguir o mesmo caminho, voltando aos braços da oligarquia
tradicional, mas com uma pitada de nazismo, adequada a uma história já antiga
na região. O Paraguai não só seguira o mesmo caminho: abriu o território para a
instalação de bases dos Estados Unidos. Bastaria um míssil para destruir a
represa de Itaipu e inundar Buenos Aires. Tropas americanas estacionadas lá e
na Argentina poderiam invadir o Brasil, destruir as redes de alta tensão, tomar
Brasília.
Depois
da palestra, perguntei a Frédi sobre o que literatos como nós poderiam fazer
diante disso. Sem encontrar resposta, fomos para uma pizzaria partilhar uma
pizza, tomar um chope, reerguer os ombros caídos. As pessoas ao redor não
estavam preocupadas com o que me fazia mal.
Ele
tinha sido encarregado do cerimonial do Itamaraty e sua tese era:
– Na
cerimônia, não importa quem esteja sendo celebrado, se uma grande personalidade
ou só uma cadeira, o que importa é o que ele representa. A homenagem é ao que é
representado, não ao representante.
– É uma
pura formalidade, então, mesmo que sem substância?
– Não é
pura forma, pois sempre tem algo sendo representado: um país, uma função, um
cargo. Que o ocupante não mereça, isso não esgota a ideia de que lá deveria
estar quem merecesse.
– Você
me contou que teve acesso aos arquivos secretos do Itamaraty, especialmente
sobre a Guerra do Paraguai. O que havia neles que não se poderia jamais
mostrar?
– Nem
sei por que fazem tanto segredo a respeito. A maior parte é recorte de jornais
europeus sobre a guerra. Quem quiser pode procurar as notícias nos arquivos
desses jornais.
– Meu
trisavô foi convocado para a guerra, aos dezesseis anos, foi ferido em Tuiuti,
ficou até o fim. Voltou com soldo acumulado, comprou uma fazenda. Depois ficou
cada vez mais deprimido com as lembranças: acabou se suicidando. Devem ter
acontecido coisas terríveis lá. Ouvi dizer que ao menos 70% dos homens
paraguaios foram mortos ou aleijados. As mulheres tiveram, depois da guerra, de
chegar a um acordo sobre como repartir e usar os homens que sobraram inteiros.
O Duque de Caxias foi retirado do comando geral porque foi um genocida, os
militares talvez não queiram aceitar fatos negativos sobre o patrono do
exército…
– Ele foi substituído pelo Conde d’Eu, marido da princesa Isabel. Há uma cena
dele diante de centenas de paraguaios rendidos, ele em cima do cavalo puxa a
espada e diz: “À minha esquerda, degolem-nos; à direita, escravizem-nos!”
– Ah,
era um europeu!
– À
minha esquerda, degolem-nos; à direita, escravizem-nos!
– Era
um europeu! O brasileiro é um povo bonzinho, não é? Imagino que nos
subterrâneos dos paraguaios, deve haver uma profunda vontade de vingança, de
fazer os brasileiros pagarem pelos excessos!
– Em
dezembro de 2025, o governo paraguaio assinou um acordo com Washington, para
que os americanos possam estabelecer bases militares e de espionagem no
território. Abdicou da soberania. Permitiu instalar tropas, CIA, aviões
militares no centro da América do Sul. A nossa fronteira seca com o Paraguai é
imensa e aberta.
– Quer
dizer que poderemos ter tanques, mísseis e tropas americanas avançando na
direção de Brasília?
–
Tomara que não, mas possível é, com a agressão americana em tantos países:
Coreia, Vietnam, Líbia, Afeganistão, Iran, Iraque, Venezuela, Cuba e assim por
diante. Eles acham que a América Central e do Sul é deles.
– A
América do Sul está pendendo para a extrema-direita e para a submissão à
metrópole do norte. É a covardia no poder. Não adianta o governo ser
bem-intencionado com os pobres, ele é acusado de ladrão, sem provas; não
adianta cumprir a obrigação de dar ao povo educação, saúde e segurança, disso a
grande mídia não fala, sempre encontra algum caso que serve para desmentir o
esforço. Não adianta que jornais alternativos queiram esclarecer minorias, para
pedir dinheiro o tempo todo para se sustentar. O povo não quer lutar, quer
sossego.
–
Miopia não é virtude na política, na diplomacia, na vida. O sionismo domina
aqui o noticiário, as emissoras de tevê, os grandes jornais, editoras, submete
a população dia e noite a uma lavagem cerebral. O povo não sabe o que controla
aquilo que o faz pensar como não pensa e sentir como se senhor fosse.
– Lutar
pela soberania, pela preservação do território e das riquezas, ter autonomia no
pensar, fabricar as próprias armas de defesa, isso não é luxo. Kant achava que
uma guerra, de tempos em tempos, fazia as pessoas repensarem sobre o que era
importante e o que não era, mas acho que a pobreza nossa já nos obriga a isso,
não precisamos de guerra.
– Quase
ninguém quer guerras, mas elas acontecem. Dediquei minha vida à diplomacia para
evitar guerras. Vi o povo brasileiro tomado pelo próprio exército: era mais
fácil dominar o povo e ter altos soldos e privilégios do que enfrentar boots
on the ground. Não temos a tradição de povos que lutaram para preservar o
país, como fizeram os russos, os chineses, os vietnamitas, como estão fazendo
os iranianos. Não sabemos o que é gratidão do povo pelas vidas sacrificadas em
batalhas de defesa da pátria.
Ficamos
olhando um para o outro, sem saber para onde ir, sem poder resolver nada. Ergui
meu copo e fiz o sinal de “prost”. Acrescentei algo no sentido de que o
povo brasileiro teria de resolver novamente este ano para onde preferiria se
encaminhar. Expressei ao amigo o temor de que o povo não visse o que seria
melhor para ele e para o país.
Terminamos
os chopes, pagamos e fomos para casa, cada um numa direção, dois pontos de
interrogação sem resposta.
Fonte:
Brasil 247/A Terra é Redonda

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