Dez
anos do golpe de 2016: crise, conflito e reorganização da luta de classes no
Brasil
A
década de 2010 foi marcada por uma profunda reorganização da luta de classes em
escala internacional. A crise econômica deflagrada em 2008, ao expor os limites
do regime de acumulação neoliberal consolidado nas décadas anteriores, abriu um
período de instabilidade política e social que rapidamente ultrapassou o
terreno estritamente econômico. Mais do que uma crise conjuntural, tratou-se de
uma inflexão histórica, na qual a desaceleração do crescimento, a dificuldade
de recomposição das taxas de lucro e a intensificação das tensões distributivas
passaram a redefinir os termos da disputa social em escala global. Em diversos
países, os efeitos sociais da crise – expressos no aumento da desigualdade, na
precarização das condições de trabalho e na deterioração das formas
tradicionais de mediação política – produziram um cenário de crescente
deslegitimação das instituições liberais e de questionamento das formas
estabelecidas de organização da vida social e da própria legitimidade das
formas políticas associadas à democracia burguesa.
Ao
longo da década seguinte, esse processo assumiu diversas formas. Em alguns
casos, a crise manifestou-se por meio de grandes ciclos de protesto que
mobilizaram amplos setores da população, questionando tanto os efeitos sociais
do neoliberalismo quanto os mecanismos tradicionais de representação política1.
Essas mobilizações, frequentemente impulsionadas pela deterioração das
condições materiais de vida, expressavam a dificuldade crescente de
compatibilizar as exigências da acumulação capitalista com a reprodução social
em condições minimamente estáveis – isto é, a crescente incompatibilidade entre
valorização do capital e reprodução ampliada da vida social. Em outros
contextos, a crise abriu espaço para a emergência de projetos políticos de
caráter autoritário ou reacionário, frequentemente associados ao fortalecimento
de forças de extrema direita.
Como
argumenta Vincent Bevins, a década iniciada após a crise de 2008 foi marcada
por uma onda global de mobilizações que, embora frequentemente expressassem
demandas democráticas e sociais legítimas, acabaram produzindo desfechos
políticos frequentemente desfavoráveis às forças progressistas. Esse
descompasso entre mobilização social e resultados políticos duradouros revela,
em parte, os limites das formas de organização e mediação política disponíveis
nesse período. Em diversos países, processos de contestação social foram
seguidos por dinâmicas de cooptação institucional, intervenções externas ou
reorganizações conservadoras do sistema político.
A
eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, em 2016, tornou-se uma das
expressões mais emblemáticas desse processo. O triunfo de um projeto político
abertamente nacionalista, autoritário e hostil às formas tradicionais do
liberalismo político indicava que a crise do neoliberalismo não se limitava às
periferias do sistema capitalista, mas atingia também seus centros políticos e
econômicos. Esse processo esteve associado, entre outros fatores, à
deterioração das condições de vida de amplos setores da classe trabalhadora e à
crescente percepção de perda relativa de posição social em um contexto de
estagnação dos rendimentos e precarização do trabalho. Tal como observado por
Wendy Brown, a racionalidade neoliberal, ao corroer progressivamente as bases
sociais da democracia burguesa, contribuiu para criar as condições nas quais
projetos políticos autoritários pudessem emergir como alternativas
aparentemente viáveis.
O
Brasil não permaneceu imune a esse movimento mais amplo de reorganização da
luta de classes. Ao contrário, os acontecimentos políticos que marcaram o país
ao longo da última década devem ser compreendidos como parte desse processo
histórico mais geral. A crise econômica que atingiu o país a partir de meados
da década de 2010 rapidamente se converteu em crise política, na medida em que
o agravamento do conflito distributivo deixou de ser administrável pelos
mecanismos tradicionais de mediação institucional.
Nesse
contexto, o impedimento da presidente Dilma Rousseff, consumado em 2016, não
pode ser interpretado apenas como um episódio de crise institucional ou como
resultado contingente de disputas no interior do sistema político. Mais do que
isso, o golpe parlamentar que encerrou o ciclo de governos petistas inaugurado
em 2003 representou um momento decisivo de reconfiguração das relações de força
entre as classes sociais no Brasil. O golpe de 2016, assim, expressou uma
resposta ativa de frações dominantes diante da deterioração das condições de
acumulação e da crescente pressão social por redistribuição em um cenário de
compressão das margens de lucro e intensificação do conflito distributivo.
Sob
essa perspectiva, o golpe de 2016 deve ser entendido como parte de um processo
mais amplo de reorganização da luta de classes no país, cujo desdobramento
político imediato foi a ascensão da extrema direita e, em particular, do
bolsonarismo. A eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República, em 2018 –
ainda que inesperada, na medida em que o então deputado sempre figurou entre os
quadros periféricos do sistema político – não foi um fenômeno isolado, mas a
expressão da convergência entre crise econômica, deslegitimação institucional e
radicalização política de setores sociais mobilizados ao longo do período sob
formas regressivas de politização que deslocam e obscurecem o conflito de
classes.
Dez
anos após o golpe, torna-se possível observar com maior nitidez a natureza do
ciclo político inaugurado naquele momento. Mais do que um episódio encerrado no
passado recente, os acontecimentos de 2016 abriram um período histórico cujas
consequências continuam a estruturar o cenário político brasileiro. O
fortalecimento da extrema direita, a persistência de uma polarização política
intensa e as dificuldades enfrentadas pelas forças progressistas para
reconstruir uma base social e política organizada ao longo do tempo indicam que
o ciclo aberto naquele momento permanece em disputa.
Partindo
dessa perspectiva, o golpe de 2016 deve ser compreendido não como um evento
isolado, mas, antes, como um momento de reorganização da luta de classes no
Brasil, inscrito nas transformações do capitalismo contemporâneo e nas
contradições específicas da formação social brasileira. A ruptura institucional
abriu caminho para a ascensão do bolsonarismo e para a configuração de um novo
período da luta política no país. É a partir dessa chave de interpretação que
se torna possível analisar o esgotamento do arranjo político que estruturou o
ciclo anterior e os limites do modelo de conciliação que o sustentava.
<><>
O esgotamento da Nova República e a crise do modelo de conciliação
Para
compreender o significado histórico do golpe de 2016, é necessário situá-lo no
interior das transformações que marcaram o sistema político brasileiro desde o
processo de redemocratização. A chamada Nova República foi constituída, depois
de mais de duas décadas de ditadura militar-empresarial (1964-1985), a partir
de um pacto político que buscava conciliar a ampliação das liberdades
democráticas com a preservação de estruturas econômicas e sociais profundamente
desiguais.
Ao
longo das décadas seguintes, esse arranjo institucional mostrou-se capaz de
garantir relativa estabilidade política. Essa estabilidade, no entanto, esteve
baseada em mecanismos de negociação e acomodação entre diferentes frações das
classes dominantes, bem como em formas limitadas de inclusão social que não
alteraram estruturalmente os fundamentos da desigualdade brasileira.
Tratava-se, em última instância, de uma estabilidade assentada na capacidade de
administrar conflitos, e não de superá-los.
Durante
os anos 2000, os governos do Partido dos Trabalhadores foram capazes de operar
dentro desse arranjo político ampliando políticas de inclusão social e
promovendo uma expansão significativa do consumo popular. Programas de
transferência de renda, políticas de valorização do salário mínimo – que
acumulou crescimento real superior a 70% entre 2003 e 2014 – e a ampliação do
acesso ao crédito contribuíram para melhorar as condições de vida de amplos
setores da população8. Esse movimento foi acompanhado pela expansão do emprego
formal e pela redução do desemprego, que atingiu cerca de 4,8% em 2014,
configurando um dos momentos de maior dinamismo do mercado de trabalho recente,
na medida em que expandiu, ainda que de forma limitada, a capacidade de reprodução
social das classes trabalhadoras.
Conforme
André Singer, esse processo deu origem a uma configuração política específica,
marcada por uma combinação entre políticas de inclusão social moderada e a
preservação dos alicerces macroeconômicos herdados do período FHC. O resultado
foi a construção de um modelo político que buscava conciliar interesses sociais
distintos, mantendo relativa estabilidade política ao mesmo tempo em que
ampliava, ainda que de maneira desigual, o acesso de setores populares ao
consumo e a determinados espaços de reconhecimento social, configurando o que
Singer denomina como “lulismo”.
Contudo,
o lulismo, enquanto forma específica de conciliação de classes, possuía limites
estruturais. A ampliação das políticas sociais ocorreu sem que fossem alteradas
as bases estruturais da economia brasileira, marcadas pela elevada concentração
de renda, pela regressividade no Imposto de Renda, pela centralidade do capital
financeiro e pela inserção dependente do país na economia mundial. Nesse
sentido, o ciclo de crescimento dos anos 2000 não representou uma ruptura com o
padrão de acumulação vigente, mas sua reconfiguração em condições
internacionais momentaneamente favoráveis.
Ao
mesmo tempo, esse processo produziu efeitos contraditórios no terreno da luta
de classes. A elevação do emprego formal e o aumento da renda do trabalho
contribuíram para o fortalecimento relativo do poder de barganha de setores da
classe trabalhadora. Esse fortalecimento não se deu apenas no plano dos
rendimentos, mas também na capacidade de ação coletiva, impulsionada pela
melhora das condições de inserção no mercado de trabalho. Esse movimento
expressou-se, entre outros indicadores, no crescimento do número de greves: de
pouco mais de 300 paralisações em 2008 para mais de 2.000 em 2013, evidenciando
não apenas a elevação do nível de mobilização social, mas também a
intensificação das disputas em torno da repartição da renda e das condições de
trabalho no interior do próprio ciclo de crescimento.
Do
ponto de vista da acumulação, essas transformações se combinaram com uma
deterioração progressiva das condições de valorização do capital. Como indicam
estudos sobre o período, a taxa de lucro na economia brasileira apresentou
tendência de queda ao longo dos anos 2000, acentuando-se a partir do início da
década de 2010, o que expressa os limites de um padrão de crescimento apoiado
na expansão do consumo e na elevação dos rendimentos do trabalho sem
correspondente transformação estrutural da base produtiva. Em outras palavras,
a ampliação do mercado interno, ao mesmo tempo em que sustentava o crescimento,
passava a tensionar as condições de rentabilidade em uma economia com baixa
capacidade de dinamização industrial e elevada dependência de fluxos externos
de capital e demanda internacional.
Essas
tensões tornaram-se mais evidentes a partir de 2011, quando o crescimento do
PIB começou a desacelerar de forma significativa – passando de 7,5% em 2010
para 2,7% em 2011 e menos de 1% em 2012. Esse movimento esteve associado tanto
à deterioração do cenário internacional após a crise de 2008 quanto ao
esgotamento interno do ciclo de expansão baseado no consumo e no crédito –
indicando, assim, a perda de dinamismo do padrão de acumulação vigente. A
partir de 2014, a economia brasileira entrou em recessão, com queda acumulada
do PIB superior a 7% em 2015-2016, ao mesmo tempo em que a inflação medida pelo
IPCA ultrapassava o teto da meta, alcançando 10,7% em 2015, refletindo, entre
outros fatores, a intensificação das disputas em torno da apropriação da renda
em um contexto de desaceleração econômica e compressão simultânea dos salários
e margens de lucro.
À
medida que o crescimento econômico desacelerou a partir da metade da década de
2010, as bases materiais que sustentavam o lulismo começaram a se deteriorar,
tornando cada vez mais difícil a administração do conflito distributivo. Nesse
contexto, as tensões associadas à distribuição da riqueza social tornaram-se
cada vez mais visíveis, uma vez que a redução das margens para a acomodação
simultânea de interesses das diferentes classes e frações de classe colocava em
xeque o arranjo político construído ao longo dos anos 2000. A combinação entre
inflação, desaceleração do emprego e pressão por recomposição das margens de
lucro reduziu drasticamente as condições de conciliação entre capital e
trabalho.
Com
isso, os mecanismos de mediação política que haviam sustentado a estabilidade
do período anterior começaram a se desgastar rapidamente. Setores importantes
das classes dominantes passaram a atuar de forma mais direta na
desestabilização do arranjo político existente, na medida em que este já não
oferecia condições adequadas para a recomposição das taxas de lucro e a
preservação de seus interesses estratégicos.
A crise
econômica converteu-se, assim, em crise política, na medida em que a
recomposição das condições de acumulação passou a exigir uma reconfiguração
mais profunda das relações entre Estado, mercado e classes sociais. A partir
desse momento, a disputa em torno dos rumos da política econômica e do papel do
Estado deixou de ser administrável dentro dos marcos institucionais vigentes e
passou a colocar em questão os próprios limites da ordem política estabelecida
após 1988.
Foi
nesse cenário de intensificação das tensões distributivas, deterioração das
condições de acumulação e esgotamento dos mecanismos de mediação política que
se abriu o caminho para a ruptura institucional de 2016, marcando o esgotamento
do lulismo como forma de contenção “a frio” do conflito de classes no
Brasil.
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Golpe, classes médias e a radicalização da direita
A
ruptura institucional de 2016 expressa a abertura de um novo período na luta de
classes no Brasil. Com o esgotamento das formas de mediação que caracterizaram
o ciclo anterior, o conflito distributivo passou a se manifestar de forma mais
direta, em um contexto de ofensiva do capital voltada à recomposição das taxas
de lucro e à redefinição das relações entre Estado e classes sociais. Nesse
sentido, o processo que levou ao afastamento de Dilma Rousseff contribuiu para
aprofundar o desgaste das instituições políticas e ampliar a percepção de que o
sistema político existente era incapaz de representar de maneira legítima os
interesses da sociedade, especialmente no que diz respeito à mediação dos
conflitos entre capital e trabalho. Esse processo ocorreu em um contexto de
recessão profunda, inflação elevada e deterioração das condições de vida, o que
intensificou o mal-estar social e a deslegitimação institucional.
Nesse
contexto, o discurso antipolítica ganhou força como forma de interpretação da
crise. Ao apresentar o sistema político como intrinsicamente corrupto e incapaz
de responder às demandas sociais, esse discurso contribuiu para deslocar o foco
do debate público das contradições estruturais da sociedade brasileira para a
moralização da política. Ao fazê-lo, operou como forma ideológica de
reorganização do conflito social, obscurecendo suas bases materiais e
reconfigurando sua expressão no plano político.
Esse
deslocamento teve efeitos políticos importantes. Ao transformar a crise
política em uma narrativa centrada na corrupção e na degeneração moral das
instituições, o discurso antipolítica abriu espaço para a emergência de
lideranças que se apresentavam como representantes de uma ruptura radical com o
sistema político existente.
Foi
nesse ambiente que se consolidou a ascensão de Jair Bolsonaro como liderança
política nacional. Bolsonaro foi capaz, assim, de se apresentar como
representante de uma ruptura radical com a ordem política vigente, mobilizando
discursos que combinavam antipolítica, conservadorismo moral e autoritarismo.
Sua emergência foi favorecida por um cenário no qual crise econômica,
ressentimento social e deslegitimação institucional se combinaram de maneira
explosiva, criando as condições para a consolidação de uma alternativa política
ancorada em formas regressivas de mobilização social e de reconfiguração
autoritária da autoridade estatal.
A
eleição presidencial de 2018 representou o momento de consolidação política de
um processo que vinha se desenvolvendo desde a crise que culminou no golpe de
2016. O bolsonarismo emergiu como expressão de uma nova configuração da direita
brasileira, marcada pela radicalização do discurso político e pela mobilização
de setores sociais insatisfeitos com o sistema político tradicional.
Nesse
processo, determinados segmentos das classes médias urbanas desempenharam um
papel particularmente relevante. Ao longo dos anos que antecederam o golpe,
parcelas expressivas desses setores mobilizaram-se politicamente em torno de
pautas que combinavam críticas à corrupção, defesa de valores meritocráticos e
oposição às políticas associadas aos governos petistas. Esses setores foram
especialmente sensíveis à combinação entre desaceleração econômica, inflação –
particularmente no custo dos serviços – e percepção de perda relativa de
posição social, em um contexto de maior competição no mercado de trabalho e de
estreitamento das possibilidades de mobilidade social ascendente.
A
valorização da meritocracia como princípio organizador da vida social
desempenhou um papel importante na construção do imaginário político de
parcelas dessas camadas sociais. Ao atribuir o sucesso ou o fracasso social
fundamentalmente ao esforço individual, essa perspectiva tende a obscurecer as
desigualdades estruturais que caracterizam a sociedade brasileira e a
interpretar políticas de redistribuição de renda como formas de privilégio
indevido concedido a determinados grupos sociais. Essa leitura reforça
disposições políticas conservadoras ao despolitizar as bases materiais da
desigualdade.
A
combinação entre valores meritocráticos, discurso antipolítica e ressentimento
social contribuiu para criar um terreno fértil para a expansão de projetos
políticos conservadores e autoritários. Nesse contexto, o bolsonarismo
consolidou-se como forma política de expressão de uma reorganização mais ampla
da direita brasileira em um cenário de crise social e econômica e de
rearticulação das formas de dominação política.
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Um ciclo histórico ainda em disputa
Dez
anos após o golpe de 2016, torna-se possível identificar com maior nitidez o
ciclo político inaugurado naquele momento. A ruptura institucional que levou ao
afastamento de Dilma Rousseff abriu um período marcado pela reorganização das
relações de força entre as classes sociais, pela radicalização da direita e
pela emergência de novas formas de mobilização política que passaram a
estruturar o debate público no país14. Mais do que um episódio, 2016 marcou o
início de um período histórico caracterizado pela instabilidade, pela
polarização e pela reconfiguração das formas de luta de classes no Brasil.
Nesse
processo, o bolsonarismo consolidou-se como uma expressão particularmente
significativa das transformações políticas ocorridas na última década. Ainda
que a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022 tenha interrompido sua
permanência no governo federal, o fenômeno político e social que tornou
possível sua ascensão permanece presente na sociedade brasileira. Sua
persistência indica que as condições sociais que o sustentam não foram
superadas. O enraizamento de pautas autoritárias, a permanência de um discurso
antipolítica e a manutenção de uma base social mobilizada em torno dessas
agendas indicam que a extrema direita continua sendo um ator relevante no
cenário político nacional.
Essa
constatação sugere que o ciclo político aberto em 2016 ainda não foi encerrado.
As transformações ocorridas ao longo da última década alteraram de maneira
significativa o equilíbrio político que havia caracterizado o período anterior
e abriram um cenário de disputa mais intensa em torno dos rumos da sociedade
brasileira. As tensões distributivas, a dificuldade de recomposição das
condições de crescimento e o desgaste das mediações institucionais seguem
operando como elementos estruturantes desse cenário.
Para as
forças de esquerda e para o campo popular, essa situação coloca desafios
estratégicos importantes. A reconstrução de um projeto político capaz de
enfrentar a extrema direita exige não apenas a defesa das conquistas
democráticas ameaçadas nos últimos anos, mas também uma reflexão crítica sobre
os limites do modelo político que predominou no período anterior ao golpe. A
experiência recente indica que a disputa institucional, embora necessária, é
insuficiente quando não apoiada em formas enraizadas de organização social e
governos “a quente”, isto é, sustentados por níveis elevados de mobilização
social e pela participação ativa das classes populares na dinâmica política,
nas quais a ação governamental se articula de forma dinâmica com a pressão e a
organização social. É o que sugerem, ainda que com limites e contradições,
experiências recentes na América Latina, como os governos de Gustavo Petro na
Colômbia e de Claudia Sheinbaum no México.
Isso
implica reconhecer que a superação desse ciclo não decorrerá automaticamente de
alternâncias eleitorais, mas da capacidade de reconstruir, em bases mais
sólidas, a organização da classe trabalhadora. Trata-se de recompor formas
duradouras e consistentes de enraizamento – nos locais de trabalho, nos
territórios e nos espaços de vida – capazes de transformar conflitos dispersos
em ação coletiva estruturada e estrategicamente orientada. Essa reconstrução
organizativa, todavia, não pode ser pensada em abstrato. Em outras palavras,
processos efetivos de transformação social dependem da construção paciente de
organização enraizada, baseada na ampliação da participação ativa, na formação
de lideranças e na capacidade de estruturar maiorias sociais em torno de
objetivos comuns. Isso implica superar formas de mobilização episódicas ou
meramente expressivas, avançando na direção de formas de organização capazes de
sustentar conflitos prolongados e produzir uma correlação de forças favorável
às classes trabalhadoras.
Ao
mesmo tempo, a experiência da última década também evidencia os limites de
ciclos de mobilização que, embora amplos, não se traduzem em transformações
políticas consistentes, na medida em que não se articulam a formas
organizativas capazes de conferir direção, continuidade e estratégia à ação
coletiva. Nesse sentido, como sugere Jodi Dean16, a questão da organização
política – e, em particular, do papel do partido – recoloca-se não como uma
herança do passado, mas como mediação indispensável entre a dispersão das lutas
sociais e a construção de um projeto político capaz de disputar o poder frente
à extrema direita.
Essa
discussão remete, por sua vez, à própria compreensão da classe trabalhadora no
capitalismo contemporâneo. Ao contrário de uma definição restrita ao trabalho
assalariado formal ou aos setores industriais tradicionais, autores como Daniel
Bensaïd e Ernest Mandel destacam o caráter histórico, relacional e heterogêneo
da classe, entendida como um processo em formação, atravessado por múltiplas
determinações e formas de experiência social. Isso implica reconhecer que a
reorganização política das forças populares exige a capacidade de articular
sujeitos diversos – trabalhadores formais e informais, setores precarizados,
populações periféricas – em torno de um projeto político estratégico de
unidade, capaz de superar a fragmentação social e política que marca o período
atual.
Nessas
condições, o partido volta a se apresentar como uma forma específica de
organização capaz de operar essa articulação e de impulsionar a reorganização
das forças populares. Mais do que um instrumento eleitoral, trata-se de um
espaço de elaboração estratégica, de formação política e de construção de
unidade entre diferentes experiências de luta. Sua relevância não reside apenas
na capacidade de representar interesses, mas na possibilidade de transformá-los
em força social organizada, capaz de intervir de maneira consistente na disputa
política e de conferir direção estratégica às lutas sociais dispersas.
Sob
essa perspectiva, o balanço histórico do golpe de 2016 não deve ser entendido
apenas como exercício de interpretação do passado recente. Trata-se também de
um esforço para compreender as transformações em curso na luta de classes no
Brasil e para identificar os desafios colocados para aqueles que pretendem
disputar os rumos do país nas próximas décadas.
O ciclo
político aberto naquele momento permanece em disputa. Seu desfecho não será
determinado apenas pela dinâmica institucional, mas, sobretudo, pela capacidade
das forças populares – e, em especial, da classe trabalhadora, em seu sentido
ampliado – de reconstruir suas formas de organização, elevar seu nível de
articulação e constituir-se como sujeito político capaz de intervir de maneira
decisiva na cena política.
É nesse
terreno, onde se articulam crise econômica, conflito social e organização
política, que se decidirá o significado histórico do período aberto em 2016.
Fonte:
Por Ederson Duda, no Blog da Botempo

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