quarta-feira, 8 de abril de 2026

O prolongado suicídio moral do Ocidente

Didier Fassin é professor no Collège de France, titular da Cátedra “Questões Morais e Desafios Políticos nas Sociedades Contemporâneas”, e professor de ciências sociais no Institute for Advanced Study de Princeton. Antropólogo, sociólogo e médico, é também diretor de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Conduziu pesquisas no Senegal, na África do Sul, no Equador e, mais recentemente, nos Estados Unidos e na França. Proferiu aulas notáveis como: Roger Moore Lecture sobre “o ressentimento” em Harvard; Tanner Lectures “sobre o castigo” em Berkeley; e as conferências Adorno Lectures sobre a vida em Frankfurt e a Eric Wolf Lecture sobre as teorias da conspiração em Viena. Recebeu a medalha de ouro da antropologia na Academia Real das Ciências da Suécia, foi o primeiro pesquisador em ciências sociais reconhecido com o Distinguished Scientist Award da Fundação Nomis e é laureado com a Huxley Memorial Medal, a mais alta distinção do Royal Anthropological Institute. Eleito para a American Philosophical Society e para a Academia Europea, é doutor honoris causa da Universidade de Liège e da Universidade Livre de Bruxelas. Antigo vice-presidente de Médicos Sem Fronteiras, preside o Comede, Comitê para a Saúde dos Exilados. É autor de uma vintena de obras, traduzidas em doze línguas, notadamente A Força da Ordem: Uma Antropologia da Polícia nos BairrosA Sombra do Mundo: Uma Antropologia da Condição CarceráriaPunir: Uma Paixão ContemporâneaA Vida, Modo de Usar CríticoMorte de um Viajante: Uma ContrainvestigaçãoOs Mundos da Saúde PúblicaExcursões Antropológicas e, com Anne-Claire Defossez, O Exílio, Sempre Recomeçado: Crônica da Fronteira (publicados no Brasil pela editora UFMG). Seus últimos livros são Uma Estranha Derrota: Sobre o Consentimento ao Esmagamento de Gaza e Lições de Trevas: O que a Violência Diz do Mundo (no prelo).

O Mestre convida a todos para uma visita em seu website: https://global-crisis.org, onde ele aprofunda as questões prementes do nosso tempo.

Por fim, o Professor Fassin concedeu esta entrevista por e-mail ao Mestre em História Comparada e Doutorando da UFRJ pelo PPGHC Thiago Gama.

<><> Eis a entrevista:

·        Em seus trabalhos sobre a biopolítica, o senhor destaca que todas as vidas não têm o mesmo valor aos olhos do poder. Diante das tragédias concomitantes em Gaza e na Ucrânia, assistimos a uma hierarquização radical e definitiva da humanidade, onde o Sul Global se torna um laboratório permanente de “vidas precárias”?

A desigualdade das vidas, no sentido da desigualdade na maneira como as sociedades tratam as vidas humanas, é uma questão à qual venho me dedicando há muito tempo. Vindo da medicina e da saúde pública, foi inicialmente através da epidemiologia e da estatística que a abordei, analisando esta realidade terrível de que, na França, a diferença na expectativa de vida ao nascer entre os 5% mais ricos e os 5% mais pobres é de 13 anos e que, nos Estados Unidos, ela atinge 15 anos entre homens brancos com formação universitária e homens negros que abandonaram a escola antes de concluir o ensino secundário; mas as pesquisas que realizei sobre a Aids na África do Sul e, sobretudo, sobre a guerra de extermínio em Gaza me conduziram, por um lado, a ampliar as questões para sua dimensão internacional e, por outro, a considerar diferentes componentes da vida.

Podemos partir da distinção feita por Hannah Arendt entre a vida enquanto se desenrola do nascimento à morte, o que vale igualmente para os animais e as plantas, e a vida enquanto é preenchida por acontecimentos que podem ser narrados, sendo, portanto, específica aos seres humanos.

Propus falar de vida biológica e vida biográfica. Em Gaza, a desigualdade das vidas biológicas pode ser medida pelos diferenciais quase inimagináveis de mortalidade durante as duas guerras de 2008 e 2014: houve, cada vez, 250 vezes mais civis mortos entre os palestinos do que entre os israelenses.

Durante a operação militar iniciada em 8 de outubro de 2023, o excesso de mortalidade atualmente divulgado é bastante subestimado, pois não leva em conta os corpos soterrados sob os escombros e, sobretudo, as mortes indiretas, sendo provável que ultrapasse os 200.000 mortos, com uma taxa talvez superior à dos conflitos anteriores.

A desigualdade das vidas biográficas também deve, e talvez sobretudo, levar em consideração a diferença entre viver no conforto de um país rico onde se desfruta de um conjunto de direitos e liberdades e viver, há dezessete anos, numa prisão a céu aberto em estado de sítio, na qual se é mantido à força, num estado de dependência quase completa da ajuda externa, à mercê de drones e tiros inimigos, com o risco de ser arbitrariamente preso e encarcerado sem julgamento.

Após 8 de outubro, essa vida em Gaza tornou-se invisível, como declararam os responsáveis políticos e militares israelenses, com a destruição de todos os edifícios, da maioria das infraestruturas, da quase totalidade dos hospitais e clínicas, a privação de água, de alimentos, de cuidados, o espetáculo cotidiano dos corpos desmembrados, e a desolação, a fome e a morte presentes em toda parte. O que é, então, uma vida quando ela se tornou invisível, e se é condenado a vivê-la porque se é prisioneiro?

Se quisermos dimensionar o significado dessa desigualdade das vidas em escala mundial, então é preciso mudar o foco. No que diz respeito à vida biológica, há, primeiramente, o apoio diplomático, político e militar prestado a Israel para que seu exército possa devastar Gaza e dizimar seus habitantes.

Raramente, na história, os países ocidentais se terão tornado tão coletivamente cúmplices do que numerosos juristas, especialistas em crimes de massa, organizações internacionais de direitos humanos e a comissão independente das Nações Unidas chamaram de genocídio.

No que tange à vida biográfica, houve, durante todo o período de guerra intensa, uma indiferença quase total dos grandes meios de comunicação ocidentais pelo sofrimento dos palestinos, cuja experiência dos massacres era quase totalmente ignorada e cuja voz se recusava a fazer ecoar, apesar da presença de jornalistas arriscando suas vidas no local, enquanto, inversamente, tínhamos reportagens diárias sobre a vida dos israelenses. A desigualdade na economia da atenção é talvez a mais dolorosa para suas vítimas.

·        Como o senhor interpreta o mutismo ou a impotência das instituições internacionais diante da evidência do massacre? É o fim da “ficção humanitária” que por muito tempo serviu de verniz à hegemonia ocidental?

A relação do mundo ocidental com o resto do mundo, tanto em sua versão europeia colonizadora quanto em sua versão estadunidense imperial, sempre soube se adornar com atrativos morais para ocultar sua violência.

A colonização foi feita em nome da civilização; o imperialismo colocou em primeiro plano a pacificação. No final do século XX, os Estados ocidentais invocaram frequentemente a razão humanitária para justificar suas intervenções militares, notadamente na Somália, no Kosovo, no Afeganistão, na Líbia, cada vez, na verdade, com objetivos geoestratégicos, econômicos e políticos.

No caso da devastação de Gaza e do esmagamento de sua população, vários elementos pesam no apoio dos países ocidentais.

Para se justificar, alguns governos, a começar pela Alemanha, invocam a memória do Holocausto, mas parece difícil legitimar o genocídio dos palestinos pelos descendentes das vítimas do genocídio dos judeus da Europa, do qual vários dos países envolvidos participaram. Na realidade, as razões são outras.

Por um lado, Israel é visto desde sua criação como o bastião avançado da suposta civilização ocidental, que é preciso defender contra um Oriente Médio declarado bárbaro. Por outro lado, os palestinos sofrem da tripla estigmatização do racismo antiárabe, do sentimento antimuçulmano e da associação ao terrorismo.

Além disso, é preciso lembrar que esses países têm, em grande parte, um passado colonial ou imperial que alimentou sua hostilidade e seu desprezo em relação às sociedades dos países do Sul.

·        Minhas próprias pesquisas versam sobre a colisão entre a “Governança Pastoral” (Foucault) e a automatização algorítmica do controle. A inteligência artificial se tornou o novo instrumento de uma soberania que não precisa mais “cuidar” para governar?

A inteligência artificial é um instrumento que pode ser aplicado em situações e contextos extremamente diferentes. Ela serve tanto para vigiar a população quanto para traduzir textos numa diversidade de línguas, para aconselhar compras de bens quanto para determinar golpes mortíferos contra inimigos, como se viu com os ataques perpetrados por Israel em Gaza e pelos Estados Unidos no Irã.

O único elemento comum a todas as suas aplicações se resume a um extrativismo dos dados sobre os seres humanos e produzidos por eles, seja por sua atividade criadora, seja por sua atividade consumidora, tendo como efeito o enriquecimento das companhias que produzem essa inteligência artificial ou que dela se servem.

O poder pastoral, de que fala Michel Foucault a propósito, notadamente, do cristianismo, consiste, para aqueles que o arrogam, em cuidar do rebanho enquanto exercem sobre ele um controle, em princípio benevolente.

Por ter conhecido o fundador do Google e o ouvido anunciar suas perspectivas para o mundo em matéria de administração das necessidades e preferências de cada um pelo trabalho algorítmico, é verdade que há, no sonho da inteligência artificial, uma forma de governamentalidade pastoral, exercendo-se não mais no sentido de uma vida moral, mas de uma vida consumista.

Como no cristianismo, o poder é subentendido por uma forma de obediência, mas esta não é mais a direção das almas: ela é uma orientação das escolhas. E essas escolhas podem também ser criminosas.

·        Diante das renovadas pressões sobre a Venezuela e os recursos do Sul, como as nações periféricas podem reivindicar uma soberania que não seja imediatamente qualificada como “risco global” pelo centro imperial?

O imperialismo estadunidense, sob o pretexto da doutrina Monroe e de seu corolário Roosevelt, consagrou o continente latino-americano como caça reservada dos Estados Unidos, cujas intervenções militares se multiplicaram a partir do final do século XIX.

Na segunda metade do século XX, com a guerra de baixa intensidade conduzida contra o comunismo no quadro da Guerra Fria, ele permitiu a desestabilização dos regimes progressistas e a instalação de ditaduras militares em vários grandes países.

Houve, no entanto, uma certa trégua no início do século XXI, menos em razão de uma mudança radical de política do que devido aos novos campos de batalha do exército estadunidense no Oriente Médio.

O segundo mandato de Donald Trump foi marcado, desde o início, por ameaças contra o México e o Brasil, o sequestro do presidente da Venezuela e o anúncio de um próximo ataque contra Cuba.

O imperialismo agressivo dos Estados Unidos inscreve-se, portanto, na longa tradição de um país que esteve em guerra durante 231 anos desde seu nascimento há 248 anos, ou seja, 93% de sua breve existência.

·        O senhor analisou longamente os dispositivos de punição. Como o senhor percebe o uso distorcido do direito (lawfare) para neutralizar os intelectuais e os líderes políticos que contestam a ordem estabelecida no Sul?

As políticas e as práticas punitivas que estudei são as dos países contra sua própria população, e mais particularmente das classes populares e das minorias etnorraciais. Embora não tenha trabalhado sobre essas políticas e essas práticas nas relações internacionais, parece-me que se podem observar mecanismos semelhantes em termos de utilização da ferramenta jurídica como instrumento de repressão resolutamente desigualitário.

Os países ocidentais decidem sanções contra a Rússia que invade a Ucrânia, mas oferecem seu apoio a Israel que massacra os palestinos, bombardeia e ocupa o Líbano e a Síria, lança um ataque mortal contra o Catar e contra o Irã.

Estamos evidentemente no duplo padrão. Mas os Estados Unidos vão ainda mais longe, invertendo completamente as regras morais, pois, após terem tentado em vão reduzir as prerrogativas do Tribunal Penal Internacional, não o ratificaram por medo de que seus soldados pudessem ser incriminados, mas doravante sancionam os magistrados que nele proferem decisões desde que estas não visem apenas países do Sul, mas concernam aos crimes cometidos por Israel. Para defender os criminosos amigos, pune-se aqueles que os julgam.

·        Num mundo saturado pela imediatez digital, qual papel resta ao historiador e ao antropólogo para preservar um “arquivo da resistência” que não seja devorado pelos algoritmos do Norte?

Ao contrário daqueles que se inquietam com a pós-verdade, vendo-a nas teorias da conspiração e nas redes sociais, parece-me que, por um lado, a principal ameaça hoje não vem dessas teorias e dessas redes, cuja realidade dos problemas que colocam, no entanto, não nego, mas que ela vem da potência da reação conservadora e das mentiras dos poderes que a implementam, e que, por outro lado, formas de resistência existem, frequentemente pouco visíveis, frequentemente reprimidas, mas, no entanto, expressões do que Michel Foucault chama de coragem da verdade.

As pesquisadoras e os pesquisadores em ciências humanas e sociais têm, certamente, um papel importante a desempenhar nessa resistência, ao lado de numerosos outros que Antonio Gramsci designava como os intelectuais orgânicos.

¨      Hegemonia predatória empurra os Estados Unidos para crises internas e externas

A estratégia de “hegemonia predatória” associada ao atual governo de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, está aprofundando contradições internas e externas do próprio país, segundo análise publicada pelo Global Times na terceira parte de uma série dedicada a examinar os efeitos desse modelo de atuação internacional. O conceito ganhou força no debate acadêmico e político nas últimas semanas, em meio à intensificação de ações militares, pressões econômicas e ameaças dirigidas por Washington contra adversários e até aliados.

De acordo com a publicação, a ofensiva dos EUA e de Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, tornou-se um dos exemplos mais visíveis dessa política. Embora o governo norte-americano tenha sinalizado à imprensa dos EUA, em 11 de março, que a operação militar terminaria “em breve”, posteriormente anunciou novos bombardeios contra múltiplos alvos iranianos, incluindo a ilha de Kharg, centro estratégico do petróleo do país. Para o Global Times, esse comportamento ajuda a explicar por que a ideia de “hegemonia predatória” passou a ocupar o centro das discussões internacionais.

A análise sustenta que esse padrão de conduta vai muito além da guerra contra o Irã. O texto menciona incursões na Venezuela, a cobiça sobre a Groenlândia e ameaças tarifárias contra países tratados formalmente como aliados. Em vez de representar força duradoura, contudo, esse caminho estaria revelando fraturas estruturais da potência norte-americana. O acadêmico Stephen Walt, professor de assuntos internacionais da Harvard Kennedy School, é citado afirmando que a “hegemonia predatória contém as sementes de sua própria destruição”.

Na mesma linha, Zhang Jiadong, professor do Centro de Estudos Americanos da Universidade Fudan, afirmou ao Global Times: “Ao recorrer à hegemonia predatória, os Estados Unidos estão em declínio”. A formulação reforça a tese central da reportagem: a busca por ganhos rápidos, extraídos por meio de coerção militar, chantagem econômica e intimidação diplomática, pode produzir exatamente o efeito oposto ao pretendido por Washington.

<>< Guerras caras e objetivos difusos

Um dos eixos da crítica está no descompasso entre ambição estratégica e resultados concretos. Segundo Walt, os benefícios anunciados pelo governo dos EUA foram amplamente exagerados. A matéria destaca que a administração Trump afirma ter encerrado guerras, mas muitos desses conflitos seguem em curso. Também sublinha que os investimentos estrangeiros prometidos ao país ficaram muito abaixo da escala propagandeada por Washington e dificilmente se materializarão integralmente.

A Reuters observou que Trump reivindica para si o mérito de ter intervindo em diversos conflitos desde que voltou ao poder, mas os impasses que deram origem a muitos deles seguem sem solução, enquanto a violência voltou a explodir em algumas regiões. Em vez de estabilização, o que aparece é a persistência da crise.

No caso iraniano, a ausência de clareza estratégica é apontada como um elemento central do problema. Cao Wei, professor associado da Escola de Política e Relações Internacionais da Universidade de Lanzhou, disse ao Global Times que os objetivos dos EUA no Irã permanecem indefinidos. Segundo ele, desde o início do conflito, Washington oscila entre ampliar a guerra e procurar uma saída que preserve sua imagem.

A declaração de Cao é direta: “Objetivos estratégicos claramente definidos são a base fundamental para a alocação sensata dos recursos nacionais. Quando esses objetivos mudam, todo o planejamento, orçamento e logística entram em desordem”. Em outras palavras, sem metas estáveis, a máquina de guerra passa a consumir recursos de forma caótica, comprometendo o planejamento estatal e ampliando o custo político e econômico da intervenção.

<><> O peso da guerra recai sobre a sociedade

Os números citados pela reportagem reforçam essa percepção. Segundo a plataforma norte-americana The Fulcrum, o custo da operação militar contra o Irã já havia alcançado US$ 16,5 bilhões em apenas duas semanas, o equivalente a cerca de US$ 8 bilhões por semana. O mesmo texto alertou: “Se esse ritmo de gastos continuar por seis meses, chegaremos a cerca de US$ 200 bilhões. De fato, o Pentágono já solicitou esse valor em orçamento suplementar”. E concluiu: “Isso representa uma enorme quantidade de recursos obtidos com o trabalho dos contribuintes”.

A análise sustenta que esse dinheiro poderia estar sendo direcionado a necessidades sociais urgentes dentro dos próprios Estados Unidos. O texto lembra que recursos desse porte poderiam financiar por anos programas de nutrição infantil, restaurar assistência habitacional e reforçar investimentos na educação básica.

Para Zhang Jiadong, o retorno das ações externas ficou aquém do esperado, enquanto os custos elevados das guerras reverberam dentro da sociedade norte-americana. A lógica da “hegemonia predatória”, portanto, não apenas desgasta a posição externa dos EUA, como amplia tensões domésticas ao deslocar recursos públicos para conflitos prolongados e pouco definidos.

Esse mal-estar já aparece nas pesquisas de opinião. Levantamento recente citado na análise indica que 59% dos norte-americanos desaprovam o desempenho de Trump como comandante em chefe, enquanto cresce a rejeição à guerra contra o Irã.

<><> Alianças em erosão

Outro ponto central da reportagem é a deterioração das relações entre Washington e seus aliados tradicionais. Walt resumiu a crítica de forma contundente: “A administração parece acreditar que pode explorar outros países indefinidamente e que isso tornará os Estados Unidos ainda mais fortes e aumentará seu poder. Estão enganados: a hegemonia predatória contém as sementes de sua própria destruição”.

Segundo o Global Times, essas sementes já começaram a germinar entre parceiros próximos dos Estados Unidos. Um exemplo citado é o da Alemanha, que rejeitou a exigência norte-americana para que aliados da OTAN participassem de ações relacionadas ao conflito. O porta-voz do governo alemão declarou: “Essa guerra não tem nada a ver com a OTAN. Não é uma guerra da OTAN”.

O texto destaca que a posição alemã mudou à medida que os efeitos econômicos da guerra cresceram, com impacto direto nas projeções de crescimento e inflação do país. O conflito, portanto, passou a gerar consequências globais que afetam inclusive aliados históricos de Washington.

Zhang avalia que, dentro dessa estratégia, aliados são tratados como instrumentos a serem pressionados economicamente, enquanto instituições multilaterais são vistas como obstáculos. Para ele, trata-se de uma política incapaz de sustentar uma ordem internacional estável e baseada na cooperação.

<><> Reação internacional e busca de alternativas

A reportagem também aponta movimentos concretos de países que passaram a reduzir sua dependência em relação aos Estados Unidos. A Espanha, por exemplo, anunciou visita oficial à China após críticas ao governo norte-americano pela guerra contra o Irã e recusou pedidos para uso de bases militares em operações relacionadas ao conflito.

A União Europeia também avançou em acordos comerciais com países sul-americanos, enquanto o Canadá ampliou sua cooperação econômica com a China e estabeleceu metas para reduzir sua dependência do mercado norte-americano.

Esses movimentos indicam uma reconfiguração gradual das relações internacionais, com países buscando alternativas diante da instabilidade gerada pela política externa dos EUA.

<><> Declínio anunciado

Na avaliação reunida pelo Global Times, a “hegemonia predatória” já produz dois efeitos simultâneos: no curto prazo, amplia tensões sociais dentro dos Estados Unidos e desgasta a confiança de aliados; no longo prazo, enfraquece a própria ordem internacional que Washington pretende dominar.

Zuo Xiying, professor da Universidade Renmin da China, afirmou: “A política externa caótica e predatória do governo dos Estados Unidos tende a desestruturar a ordem global existente e a gerar novas crises internacionais”. Segundo ele, a doutrina “America First” intensifica violações às normas de soberania e provoca um forte abalo nas regras internacionais.

Zuo acrescenta que essa trajetória tende a ampliar conflitos geopolíticos e deteriorar a segurança global, com efeitos que acabam retornando contra os próprios Estados Unidos.

Zhang Jiadong conclui que, quando os custos internos e externos superam os ganhos, esse tipo de estratégia se torna insustentável. Em algum momento, pressões acumuladas forçam uma mudança de rumo.

Stephen Walt sintetizou esse cenário com um alerta: “Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas a reação pode vir com surpreendente rapidez”. E acrescentou que a influência global dos Estados Unidos pode declinar “gradualmente e depois de forma repentina”.

A análise indica que a tentativa de impor poder por meio da força e da coerção não consolida a liderança norte-americana — ao contrário, acelera um processo de desgaste que pode redefinir o equilíbrio global nas próximas décadas.

 

Fonte: Por Thiago Gama, em Outras Palavras/Brasil 247

 

Nenhum comentário: