Páscoa:
como eram os alimentos da Santa Ceia
De
acordo com os relatos bíblicos, Jesus sabia que seria morto quando celebrou a
Páscoa com seus seguidores.
"Bem
sabeis que daqui a dois dias é a Páscoa; e o filho do homem será entregue para
ser crucificado", diz o Evangelho de Mateus.
"E,
no primeiro dia da festa dos pães ázimos, chegaram os discípulos junto de
Jesus, dizendo: Onde queres que façamos os preparativos para comeres a páscoa?
E ele disse: Ide à cidade, a um certo homem, e dizei-lhe: O mestre diz: o meu
tempo está próximo; em tua casa celebrarei a páscoa com os meus
discípulos", prossegue o texto.
"E
os discípulos fizeram como Jesus lhe ordenara, e preparam a Páscoa. E, chegada
a tarde, assentou-se à mesa com os doze."
Então,
Jesus teria repartido o pão e o vinho, dito que o que ali estavam era o seu
corpo e o seu sangue, recomendado que seus seguidores prosseguissem fazendo
isso "em memória de mim".
Historicamente,
o que podemos supor que Jesus tenha comido e bebido com seus amigos nesse
jantar eternizado no imaginário coletivo?
A
Bíblia fala em pão ázimo, um tipo de pão assado sem fermento, feito somente com
farinha e água. Na época, era comum que se misturassem o trigo moído com outros
cereais, como aveia, cevada e centeio, o que houvesse disponível.
De
acordo com a tradição, se a Páscoa é a memória da fuga dos antigos judeus do
Antigo Egito, o pão ázimo se tornou obrigatório porque era a refeição precária
que eles podiam ter ao longo do trajeto. Considerando ser Jesus um judeu pobre,
assim como seus discípulos, é de se supor também que tais ingredientes fossem o
que havia disponível.
"Na
mesa da Páscoa, havia pão, o pão ázimo, e vinho. Não para beber de cair, porque
imagina-se que não era uma mesa de grandes farturas", diz à BBC News
Brasil o historiador André Leonardo Chevitarese, autor de Jesus de Nazaré: Uma
Outra História e professor do Programa de Pós-Graduação em História Comparada
do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
"Não
era uma mesa farta no sentido de sobrar, mas havia o trivial. Pão, o vinho,
algumas poucas frutas. Era a comemoração da Páscoa. Na mesa da imensa maioria
dos judeus era o trivial. Apenas a elite tinha mais. Indivíduos como Jesus e
sua trupe, não", acrescenta.
"De
qualquer maneira, o vinho estava presente. Não um vinho importado, mas o vinho
de produção local, de baixa qualidade."
As
frutas que compunham a mesa de Jesus provavelmente eram romãs, tâmaras e uvas.
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Vinho ancestral
Se há
um consenso de que o vinho foi inventado há cerca de 6 mil anos, poucos
arriscam determinar como era o vinho bebido por Jesus e seus seguidores.
Pesquisas
indicam que, naquela época, a bebida — de má qualidade e sem padrão consistente
— era misturada com ervas aromáticas, mel e frutas. Isso servia para várias
coisas. Primeiro, para dar mais frescor. Também para disfarçar o gosto não
muito palatável. Por fim, fazer diminuir o gosto avinagrado e oxidado de um
vinho que não era conservado adequadamente.
Em seu
livro Ancient Wine: The Search for the Origins of Viniculture, o arqueólogo
Patrick Edward McGovern, pesquisador da Universidade da Pensilvânia, nos
Estados Unidos, explica que era hábito misturar à bebida alcaparras, açafrão,
pimenta e toda a sorte de especiarias.
Na hora
de beber, misturava-se com água.
Como
não havia garrafas nem tonéis adequados para preservar o vinho, a ideia era
guardar as uvas da colheita para que vinhos fossem feitos ao longo do ano.
Isso
significa que na maior parte do tempo eram uvas secas — e não frescas — que
acabavam utilizadas. Assim, é de se supor que os vinhos fossem semelhantes
àqueles feitos hoje com passas, que resultam em bebidas de álcool mais intenso,
e sabor entre o doce e o amargo.
O clima
da região, quente e seco, garante a produção de uvas com mais açúcar, o que
significa vinhos com maior teor alcoólico.
Na
época de Jesus, beber vinho era também questão de saneamento básico. Como não
havia tratamento de água, a bebida alcóolica era melhor — até para crianças —
para evitar problemas de contaminação.
Com a
expansão do império romano, foi incentivada a proliferação de vinhedos. A ideia
era garantir o suprimento aos soldados, que atuavam em todas as possessões.
Não há
um consenso entre pesquisadores sobre qual era o tipo da uva que se plantava na
região de Jerusalém — acredita-se que mudas eram levadas de um ponto a outro e
acabavam ficando aquelas que mais se adaptavam a cada clima e solo.
O mais
provável é que a uva daquela região era uma variedade ancestral daquela que
hoje é chamada de syrah.
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'Pão nosso de cada dia'
No
livro Seis Mil Anos de Pão: A Civilização Humana Através de Seu Principal
Alimento, o pesquisador Heinrich Eduard Jacob aborda em profundidade como
Jesus, e posteriormente o cristianismo, se apoderou do campo semântico do pão
em seus ensinamentos.
Da
oração do Pai Nosso aos relatos dos milagres, passando por parábolas e, claro,
a Santa Ceia.
Técnico
da seleção brasileira de panificação e gerente do Inspiration Center da
multinacional Puratos, o padeiro alemão Johannes Roos acredita que no dia a dia
Jesus consumisse pão fermentado — e não somente o ázimo mencionado na Bíblia.
"O
pão comido naquele período era algo integral, com uma mistura de farinhas de
vários cereais, trigo, sorgo, espelta… Fermentado naturalmente, de forma
lenta", conta o padeiro, em entrevista à BBC News Brasil.
"Acho
que seria um pão mais escuro, de moagem mais grossa."
Roos
foi além. Motivado pela reportagem, acabou criando uma receita de pão
contemporâneo que seria uma releitura atual do pão consumido na Jerusalém de 2
mil anos atrás.
"É
a receita do pão que eu faria para Jesus na Santa Ceia", comenta ele.
O
padeiro utilizaria 400 gramas de farinha de trigo, 200 gramas de farinha de
centeio, 100 gramas de farinha de espelta, 100 gramas de farinha de sorgo, 200
gramas de farinha de trigo integral, 200 gramas de fermentação natural, 22
gramas de sal do Mar Morto, 30 gramas de semente de gergelim, 30 gramas de
semente de girassol, 30 gramas de semente de linhaça, 30 gramas de semente de
abóbora e 550 gramas de água.
Para
fazer, "amassaria lentamente todos os ingredientes, menos os grãos, até
que a massa ficasse homogênea por completo".
"Então
deixaria descansar por 2 horas, sovaria por mais 15 minutos e deixaria
descansar por outras 2 horas. Dividiria em tamanhos de 1,2 quilo cada pão,
modelaria e deixaria fermentar por 16 horas", explica.
"Assaria
em forno a lenha com madeiras aromáticas, por 50 minutos."
"Antes,
limparia o forno com alecrim do mato, que é um planta que deixa um aroma
incrível quando utilizada para varrer", diz ainda ele.
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Sacramento
Entre
teólogos e pesquisadores do cristianismo não há dúvidas de que o pão e vinho,
carregados de significados religiosos, foram os protagonistas daquela última
refeição.
"Estamos
falando da comemoração da Páscoa acontecendo. É uma celebração típica de um
judeu, uma festa estabelecida desde a antiguidade, para marcar a saída
apressada do Egito, quando na fuga eles se alimentaram de ervas amargas,
repartiram o pão, comeram um cordeiro que foi sacrificado", pontua à BBC
News Brasil o historiador, filósofo e teólogo Gerson Leite de Moraes, professor
na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
"Essa
festa rememora um momento de libertação. Os pães ázimos, sem fermento,
rememoram essa saída, essa fuga, porque eram pães de pobre, da pessoa com
pressa e poucos recursos", completa ele.
"O
vinho era uma bebida comum, que fazia parte da alimentação e dos costumes, dos
hábitos de todo mundo."
Moraes
afirma que, mesmo que alguns moralistas religiosos abstêmios se incomodem, é
fato histórico que Jesus bebia vinho com frequência.
"Isso
deve ser entendido sem nenhum tipo de escândalo. Em algum momento, Jesus acaba
sendo acusado de beberrão, de acolher prostitutas, de participar de festas, de
andar com pessoas simples e pobres… Jesus era um homem festeiro e o último
momento dele é um momento em que ele está como um judeu típico celebrando a
Páscoa", contextualiza o historiador.
O
importante, entende o pesquisador, é como ele acaba ressignificando o gesto —
e, assim, fundando o cristianismo.
"Ele
modificou o processo [da Páscoa]. Aproveitou aquela situação toda para
ressignificar a ceia, transformando aquela reunião de um grupo de judeus,
instituindo um novo sacramento. E é exatamente isso que fundamenta a igreja: a
eucaristia, a Santa Ceia", comenta.
"De
uma festa judaica da Páscoa, ele instituiu um novo sacramento. Ressignificou o
pão e o vinho", acrescenta.
Fonte:
BBC News

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