quarta-feira, 8 de abril de 2026

Pedro Damazio Franco: Pluralismo na universidade

Quem acompanha a discussão sobre educação superior em tempos de guerras culturais talvez tenha percebido uma palavra ganhar cada vez mais espaço: “pluralismo”. O termo, Márcio Moretto Ribeiro explica, deve ser entendido de forma distinta do seu primo mais famoso, a “diversidade”. Enquanto esse último descreve ambientes que reúnem pessoas com características e histórias de vida distintas, a pluralidade tem uma conotação mais voltada para a esfera intelectual, política e moral. Podemos entender o pluralismo então como a convivência legítima de perspectivas divergentes e a capacidade de acolher posições ideológicas variadas. Discussões sobre pluralismo acadêmico giram, portanto, em torno de perguntas como: Existe variedade suficiente de pontos de vista na universidade? A universidade é um lugar seguro para o dissenso, ou existem dogmas que suprimem o livre debate de ideias? Como que a composição político-ideológica da universidade afeta a vida acadêmica? Qual a melhor forma de promover o diálogo entre perspectivas diversas na universidade? E por aí vai.

Antes mesmo de entrar no mérito dessas questões e das discussões decorrentes, vale abordar uma outra pergunta que escuto há anos desde que comecei a levantar esse tema: A quem interessa falar sobre a necessidade de pluralismo na universidade? Como Waldomiro Silva Filho bem observou ao apresentar um dos poucos estudos sobre o tema no Brasil, essa pergunta quase sempre surge em ambientes polarizados quando determinado assunto é usado para mobilizar nossos oponentes políticos. Em outras palavras, tipicamente perguntamos a quem interessa falar sobre isso ou aquilo quando entendemos que agentes nefastos estão “capitalizando” em cima do tema. O assunto em questão muitas vezes acaba sendo visto primariamente como uma narrativa a ser combatida, não como um problema a ser explorado. É fácil entender o apelo dessa abordagem entre o meio acadêmico.Afinal, todos sabemos dos ataques externos que a universidade vem sofrendo por governos iliberais, baderneiros caça-cliques, e outros movimentos pouco interessados e/ou pouco capazes de realmente contribuir para o aprimoramento dos nossos ambientes educacionais. É completamente compreensível o receio de fortalecer esses agentes, e o fato é que poucas coisas os fortalecem tanto quanto certas narrativas sobre a universidade anti-pluralista. No entanto, por mais sentido que faça tudo isso, simplesmente não é sensato ou realista afirmar que apenas oportunistas políticos se preocupam com o problema do pluralismo na universidade, ou que esse problema se trata apenas de narrativa política nefasta.

O fato é que cada vez mais vozes de dentro do próprio meio acadêmico estão alertando sobre a urgência do tema. Não agentes políticos alinhados aos ataques recentes à universidade, mas renomados professores e pesquisadores. Sintetizo abaixo apenas alguns desses relatos, todos publicados nos últimos dois anos. Em seguida, ofereço alguns comentários sobre o estado atual dessa discussão.

O professor e pesquisador Wilson Gomes, da UFBA, comenta a paradoxal situação em “que justamente as arenas institucionais por excelência da liberdade de pensamento – universidade e jornalismo, onde se fazem perguntas, se desafiam consensos e se testam certezas – tenham se tornado alguns dos principais espaços do dogmatismo e da ortodoxia”. Em outro artigo, vai além e relata que “um dos lugares mais insalubres para se trabalhar hoje são as universidades. Ao menor interesse contrariado, à menor reivindicação de hierarquia pedagógica, à mera indicação de bibliografia pode corresponder uma acusação de gravíssimo crime identitário. Crime hediondo, sentença automaticamente cumprida. Nem Franz Kafka previu coisa assim”.

Na UnB, Luis Felipe Miguel alerta que hoje a liberdade para o dissenso no universidade é coibida tanto por ações “dos defensores do ‘escola sem partido’ e assemelhados à direita, [quanto] do macartismo progressista de alguns grupos identitários”. Respondendo ao receio de que criticar o lado progressista dessa moeda necessariamente fortaleceria o outro, o professor sugere que o fracasso em coibir “a truculência de alguns grupos pretensamente progressistas contra seus críticos” é justamente o que “alimenta o discurso da direita, [e] permite que ela generalize sobre a ‘intolerância da esquerda’ ou os horrores da universidade pública”. Luis Felipe Miguel também co-escreveu um artigo com Verônica Toste Daflon (socióloga da UFF) e Lolita Guimarães Guerra (historiadora da UERJ), relatando que “a comunidade acadêmica acompanha perplexa uma série de episódios que vão da hostilidade até o confronto físico, dando provas de uma regressão geral da capacidade de debater e se engajar em controvérsias de forma produtiva”. O artigo também argumenta que grupos ativistas e organizações político-partidárias dentro da universidade “fazem pressão interna, tentando silenciar vozes divergentes por meio do cancelamento, do assédio judicial e da intimidação, gerando um ambiente de autocensura que hostiliza o debate e impugna o próprio método científico”.

A psicóloga clínica da Unifesp, Ilana Pinsky, argumenta que o clima político na universidade não afeta apenas as ciências sociais e humanas, mas também as ciências da saúde. Ela relata que dados sobre temas sensíveis, como autismo severo e disforia de gênero, são frequentemente silenciados ou manipulados por medo de patrulhas ideológicas. E assim, no fogo cruzado das guerras culturais, “pessoas reais ficam desamparadas… famílias, os pacientes, os médicos que tentam tomar decisões difíceis com base em evidência e não em slogans”.

Waldomiro Silva Filho (UFBA), ao apresentar o estudo que ajudou a realizar sobre pluralismo político na universidade, comenta que “temos um ambiente interno muito fechado na universidade. Até nosso vocabulário está sob vigilância em torno de marcadores muito claros de alinhamento ideológico”. Waldomiro Silva Filho ainda sugere, com base nos resultados do estudo, que a falta de confiança pública nas universidades federais pode estar fortemente relacionada à falta de pluralismo político dentro dessas universidades.

Pablo Ortellado, pesquisador da USP que participou do mesmo estudo, alerta em outro evento acadêmico que a universidade “está se tornando intolerante a qualquer expressão política não-progressista. E isso é um enorme problema”. Comentando o entrave que essa discussão enfrenta em uma universidade maioritariamente progressista, diz que as guerras culturais afetam a “forma violenta com que esse debate tem sido travado” e, por isso, acabaram gerando “uma reação defensiva nas universidades. Elas passaram a associar as demandas por pluralidade a uma perspectiva conservadora de caráter anti-universitário. É preciso superar essa associação”.

Ainda na USP, Márcio Moretto Ribeiro também traz atenção para os perigos de um ambiente politicamente homogêneo onde “diminui-se a capacidade de formular perguntas incômodas, de testar hipóteses contrárias e de acolher interpretações que destoem da sensibilidade dominante”. Ele argumenta que a atual falta de pluralismo na universidade acaba “formando estudantes menos preparados para lidar com divergências reais. Ao deixar de conviver com posições dissonantes, perde-se a chance de exercitar justamente aquilo que caracteriza o pensamento crítico: a disposição de pensar contra si mesmo”.

Na UFRN, o sociólogo Alípio de Sousa Filho descreve a crescente proliferação de perspectivas que levaram parte da universidade a “colonizar-se a si mesma com slogans, certezas fáceis e uma autoconfiança que cresce na razão inversa de sua erudição”. Isso vem levando à “substituição da análise baseada em conhecimento teórico-filosófico-científico pela militância superficial” e à “imposição de ‘pautas’ à universidade que a deturpam de sua histórica missão”.

O historiador da UFBA, Rodrigo Perez descreve “um crescente clima de autoritarismo ideológico e violência política nas universidades” que arrisca fazer que ela seja “reduzida à condição de incubadora de militantes”. Diz ainda que, “como a extrema direita é pouco presente no ambiente acadêmico, [seus ataques] provocam coesão da comunidade universitária. Em relação aos ataques perpetrados pelos movimentos sociais de esquerda, a situação é mais desafiadora,          pois os agressores agenciam a justa pauta da defesa dos direitos das minorias sociais para dar verniz de reparação histórica às suas ofensivas. As autoridades universitárias e representações sindicais não estão respondendo à altura”.

Na Unifesp, o sociólogo Richard Miskolci argumenta que, graças à proliferação da prática do ‘cancelamento’ como estratégia política, “as universidades estão se tornando espaços de medo e perseguição”. Alerta também que muitos “membros de universidades e associações científicas… se associam a essas cruzadas digitais ao invés de recusá-las ou combatê-las” contribuindo “intencionalmente ou não… para a desconstrução dessas mesmas instituições, rompendo suas normas de convívio, debate acadêmico e pluralidade de pensamento”. Quem paga o preço, agora, “podem ser alguns membros da comunidade universitária tomados como alvos, mas, no longo prazo, será a universidade que se constrói sob essa forma de violência política e as consequências que ela legará para a sociedade brasileira”.

O professor e pesquisador Augusto Sales da FGV alerta, comentando recentes casos de cancelamentos, diz que “nem toda ameaça à universidade nasce fora dela. Algumas se formam internamente, em silêncio, bem-intencionadas e difíceis de nomear”. O problema, diz ele, não é apenas a falta de diversidade política: “Universidades sempre tiveram maiorias ideológicas e sobreviveram a elas. O problema surge quando divergências deixam de ser tratadas como parte normal da vida científica e passam a ser administradas como falhas morais ou ameaças institucionais”. Conclui que “para preservar aquilo que torna a universidade, de fato, é a universidade” hoje é preciso “reaprender a conviver com o conflito intelectual, sem traduzi-lo automaticamente em problema moral ou institucional”.

O cientista político e professor da UFRJ, Paulo Baia, lamentando a resposta de militantes organizados à obra de uma colega, alerta que “a leitura militante de fenômenos sociológicos” hoje arrisca “substituir o rigor metodológico [e] desqualificar o trabalho científico”. Observa também um grau de “hostilidade intelectual [que] constituiu um obstáculo para a circulação construtiva do conhecimento. Em vez de promover um diálogo entre variáveis demográficas, análise sociológica e saberes indígenas, afrodescendentes ou feministas, preferiu-se uma polarização que fragiliza o próprio projeto emancipatório que muitos desses segmentos afirmam defender”.

O que esse conjunto de relatos nos mostra? Há cerca de dois anos atrás, eu escrevi sobre alguns dos esforços que universidades ao redor do mundo começaram a empreender para promover tolerância ideológica e pluralismo intelectual no campus universitário. Comentei, também, sobre o estado incipiente em que essa discussão se encontrava no Brasil. Olhando para as críticas e relatos acima, no entanto, já é possível dizer que algo mudou de dois anos para cá. O debate está penetrando em ambientes onde antes era tabu. O que era no Brasil um tema quase exclusivamente dominado por outsiders acadêmicos agora tem sua relevância reconhecida por cada vez mais membros da própria comunidade acadêmica, muitos deles identificados com a esquerda. Não estou aqui sugerindo que um tema só adquire legitimidade quando é discutido pela esquerda, mas o fato é que, dentro da universidade, esse panorama cria possibilidades de articulação em defesa do pluralismo que antes não existiam.

Vale observar que foi um processo muito semelhante (engajamento acadêmico com o tema, combinado ao reconhecimento da sua relevância por professores ao longo do espectro político) que precedeu a inauguração iniciativas importantes em defesa do pluralismo acadêmico nos EUA, como explico em outro lugar.

Mas o que isso significa para o Brasil? Ao contrário dos EUA ainda não contamos com iniciativas institucionais de destaque nesse campo. Embora grupos de discussão existam e venham ganhando visibilidade, é evidente que ainda não alcançamos um nível relevante de articulação. Hoje, um acadêmico injustamente cancelado, por exemplo, pode contar hoje com manifestações espontâneas de solidariedade por parte de colegas espalhados pelo país. O que ele não encontrará, porém, é uma rede de apoio organizada e institucionalizada capaz de prevenir abusos, de responder de forma coordenada à violação de direitos, e de fornecer ferramentas práticas para o meio acadêmico promover e proteger o pluralismo acadêmico. Em suma, o problema ainda não é tratado no Brasil de maneira sistemática nem possui presença institucional consolidada. Mas – e isso é, de fato, animador – as condições sociais e intelectuais para que essa articulação emerja parecem cada vez mais maduras. Antes de qualquer articulação institucional, no entanto, é importante reconhecer que apesar dos relatos mais ou menos convergentes mencionados acima, estamos longe de qualquer tipo de consenso na universidade brasileira sobre esse tema. Pelo contrário. O tema é extremamente contestado. Estudos são escassos. A maioria dos professores ainda não fala no assunto, e muitos dos que falam tem uma visão bastante diferente dos que citei mais acima.

A professora da USP, Elaine Borges, por exemplo – dando voz ao que acredito ser uma parcela substancial do meio acadêmico – sugere que a suposta crise de pluralismo na universidade brasileira tem sido superdimensionada, e que dar muita atenção a esse tema pode até mesmo trazer consequências negativas para a universidade. A meu ver, os argumentos de Elaine Borges são muito parecidos com os que circulavam nos EUA em torno de dez anos atrás, quando reivindicações por mais pluralismo na universidade também começaram a ganhar força por lá. Não terei como abordar cada um desses argumentos aqui, mas vale dizer que respostas a muitos deles também já circulam há algum tempo. Pode ser útil, portanto, que defensores (e detratores) do pluralismo acadêmico saibam situar suas posições nesse debate mais amplo. De qualquer forma, um dos pontos que Elaine Borges levanta é particularmente familiar e vale a pena revisitar. Trata-se de uma variação da pergunta: a quem interessa discutir a necessidade de pluralismo na universidade? Aqui a professora alerta que “o maior perigo dessa retórica é que ela abre caminho para intervenções políticas na produção de conhecimento”. Afinal, o que não faltam são “exemplos recentes de regimes que atacaram a liberdade acadêmica sob o pretexto de corrigir vieses”.

Como já falei, não há dúvidas de que o perigo que Elaine Borges aponta é real. Uma retórica que alardeia a crise de pluralismo na universidade interessa a agentes autoritárias. O que Elaine Borges e muitos outros acadêmicos parecem não ver é que, por esse mesmo motivo, também interessa a essas agentes que a universidade não faça nada a respeito do problema. Interessa a eles que a comunidade acadêmica discuta esse assunto o menos possível. Afinal, para tais agentes, isso nada mais do que garante seu monopólio sobre o tema. Para enfatizar o ponto, basta simplesmente inverter a pergunta: a quem interessa a inação da universidade em torno desse problema? A quem interessa dizer que os relatos acima não passam de exageros retóricos, ruídos episódicos ou construções narrativas oportunistas? A quem interessa dizer o problema do pluralismo na universidade não demanda reflexão institucional séria nem resposta coletiva? Arrisco dizer que os principais beneficiários dessa miopia são aqueles mesmos agentes que Elaine Borges diz temer. Mais até do que elementos narrativos, nada beneficia esses agentes tanto quanto uma universidade incapaz de reconhecer, nomear e enfrentar suas próprias disfunções internas. Por fim, vale salientar que, a partir de agora, quando perguntamos “a quem interessa” falar sobre desafios ao pluralismo acadêmico, temos a obrigação de considerar os relatos acima e perguntar por que tantos acadêmicos agora parecem interessados no tema também. Não acho muito plausível a tese de que estejam todos acometidos por uma espécie de falsa consciência que os impede de ver os ‘reais interesses’ por trás de suas reivindicações. Talvez esteja na hora de ver os relatos acima como expressões de uma demanda legítima, cuja necessidade de respaldo institucional já não pode mais ser indefinidamente adiada. Talvez, quem sabe, interesse à própria universidade discutir esse tema de forma aberta e honesta.

¨      Os desafios da educação profissional e tecnológica. Por Roberto Rafael Dias da Silva

A pergunta de Axel Honneth sobre a “textura da justiça” convida a deslocar o olhar das normas abstratas para as experiências concretas de reconhecimento (ou de sua negação) que atravessam a vida social. Trata-se de compreender a justiça não apenas como distribuição de bens ou oportunidades, mas como a qualidade das relações sociais que permitem aos sujeitos desenvolverem-se como membros plenos da vida coletiva. Ao transpor essa chave analítica para o campo das políticas de educação profissional e tecnológica, evidencia-se que os desafios contemporâneos não se limitam à expansão da oferta ou à atualização curricular, mas dizem respeito à forma como essas políticas produzem (ou não) condições de reconhecimento para os estudantes, especialmente aqueles historicamente situados em posições de vulnerabilidade.

Os dados produzidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, em especial por meio do Censo Escolar que foi recentemente divulgado, permitem identificar tendências relevantes nas últimas décadas. Observa-se uma ampliação significativa da oferta de educação profissional, tanto na forma integrada ao ensino médio quanto nas modalidades concomitante e subsequente. Essa expansão, impulsionada por políticas públicas e por mudanças no marco regulatório da educação básica, indica um reconhecimento crescente da importância estratégica dessa etapa formativa para o desenvolvimento econômico e social do país. No entanto, ao mesmo tempo em que se ampliam as matrículas, persistem desigualdades estruturais que tensionam o ideal de justiça educacional.

Entre essas desigualdades, destaca-se a forte concentração regional da oferta, com maior presença de cursos técnicos em determinadas regiões e vazios formativos em outras, especialmente em territórios mais vulneráveis. Soma-se a isso a segmentação entre redes públicas e privadas, que frequentemente se traduz em diferenças nas condições de infraestrutura, na qualificação docente e nas oportunidades de articulação com o mundo do trabalho. Tais assimetrias revelam que a expansão não tem sido acompanhada por uma efetiva democratização das condições de acesso e permanência, o que compromete a possibilidade de construção de trajetórias formativas mais equitativas.

Sob a perspectiva da “textura da justiça”, esses dados ganham densidade interpretativa ao evidenciar déficits de reconhecimento em múltiplas dimensões. Em primeiro lugar, há um problema histórico de valorização social da educação profissional. Ainda que se observe, nos últimos anos, um esforço de reconfiguração dessa imagem, persiste a associação entre formação técnica e trajetórias de menor prestígio social, em contraste com a centralidade atribuída ao ensino superior. Essa hierarquização simbólica afeta diretamente as escolhas dos estudantes e de suas famílias, bem como as expectativas construídas em torno dessas trajetórias.

Em segundo lugar, emerge a questão da integração curricular. A proposta de articulação entre formação geral e formação técnica, especialmente no âmbito do ensino médio integrado, constitui uma das principais inovações das políticas recentes. No entanto, sua implementação enfrenta obstáculos significativos, que vão desde a organização dos tempos e espaços escolares até a formação dos docentes. Em muitos casos, observa-se a manutenção de uma lógica dual, em que os componentes técnicos e propedêuticos coexistem sem uma efetiva integração, limitando o potencial formativo dessas experiências. Do ponto de vista do reconhecimento, isso implica uma fragmentação das experiências educativas, dificultando a construção de sentidos mais amplos para a aprendizagem.

Outro aspecto relevante diz respeito às condições concretas de oferta. Os dados do Censo Escolar evidenciam variações significativas entre instituições e redes, tanto em termos de infraestrutura quanto de recursos pedagógicos e vínculos com o setor produtivo. Essas diferenças produzem experiências educacionais desiguais, que impactam diretamente as possibilidades de aprendizagem e inserção no mundo do trabalho. Em contextos mais precarizados, a educação profissional pode acabar reproduzindo trajetórias de baixa qualificação, em vez de funcionar como um vetor de mobilidade social.

A questão da permanência e da conclusão também se apresenta como um dos principais desafios. Os indicadores de evasão, especialmente entre estudantes em situação de vulnerabilidade social, revelam a fragilidade dos vínculos institucionais e a insuficiência das políticas de apoio. Sob a ótica da “textura da justiça”, a evasão não pode ser compreendida como um fenômeno individual, mas como um sinal de que as instituições não estão conseguindo produzir condições adequadas de reconhecimento. Isso envolve desde questões materiais (como transporte, alimentação e acesso a recursos) até dimensões simbólicas, como o sentimento de pertencimento e a relevância percebida do percurso formativo.

Nesse sentido, políticas de assistência estudantil, acompanhamento pedagógico e flexibilização curricular assumem um papel central. No entanto, sua implementação ainda é desigual e, em muitos casos, insuficiente para enfrentar a complexidade dos desafios colocados. A construção de estratégias mais integradas, que articulem diferentes dimensões da experiência estudantil, aparece como uma condição necessária para a promoção de trajetórias formativas mais consistentes.

Outro eixo fundamental de análise refere-se à governança das políticas de educação profissional e tecnológica. A multiplicidade de atores envolvidos (sistemas de ensino, instituições formadoras, setor produtivo e diferentes níveis de governo) exige a construção de arranjos institucionais capazes de promover coordenação e coerência. Contudo, o que se observa com frequência é uma fragmentação das iniciativas, com baixa articulação entre políticas educacionais, econômicas e de desenvolvimento regional. Essa desarticulação compromete a capacidade de resposta das políticas às dinâmicas territoriais e às demandas dos jovens.

A ausência de mecanismos mais robustos de participação social também limita a construção de políticas mais sensíveis às experiências dos sujeitos. A incorporação das vozes dos estudantes, dos docentes e das comunidades nos processos decisórios constitui um elemento central para a construção de políticas mais justas, na medida em que amplia as possibilidades de reconhecimento e de construção coletiva de sentidos. Sem essa dimensão participativa, há o risco de reprodução de modelos tecnocráticos, pouco atentos às especificidades dos contextos locais.

Além disso, as transformações no mundo do trabalho colocam novos desafios para a educação profissional. A incorporação de tecnologias digitais, a reorganização dos processos produtivos e a crescente instabilidade das trajetórias ocupacionais exigem uma formação que vá além da aquisição de competências técnicas específicas. Torna-se necessário promover o desenvolvimento de capacidades mais amplas, como pensamento crítico, autonomia e capacidade de adaptação. Isso implica repensar os currículos e as práticas pedagógicas, de modo a articular conhecimentos técnicos e formação humana de forma mais integrada.

Diante desse cenário, os desafios das políticas de educação profissional e tecnológica demandam uma reconfiguração que leve a sério a dimensão relacional da justiça. Isso significa reconhecer que a democratização dessas políticas não se realiza apenas por meio da ampliação de vagas ou da diversificação da oferta, mas pela capacidade de produzir experiências formativas que sejam socialmente significativas e que contribuam para o fortalecimento dos sujeitos em suas trajetórias.

Tal reconfiguração envolve, entre outros aspectos, o enfrentamento das desigualdades territoriais, a valorização social da educação profissional, o fortalecimento da integração curricular e a construção de formas de governança mais articuladas e participativas. Exige, também, o investimento em políticas de permanência que reconheçam a complexidade das condições de vida dos estudantes e que consigam sustentar sua trajetória ao longo do percurso formativo.

Em última instância, pensar as políticas de educação profissional e tecnológica a partir da “textura da justiça” implica deslocar o foco dos resultados estritamente quantitativos para a qualidade das experiências educativas. Trata-se de compreender que a justiça educacional se realiza na medida em que os sujeitos se reconhecem — e são reconhecidos — como participantes legítimos da vida social, capazes de construir projetos de vida dignos e de intervir de forma crítica no mundo em que vivem.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Outras Palavras

 

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