Pedro
Damazio Franco: Pluralismo na universidade
Quem
acompanha a discussão sobre educação superior em tempos de guerras culturais
talvez tenha percebido uma palavra ganhar cada vez mais espaço: “pluralismo”. O
termo, Márcio Moretto Ribeiro explica, deve ser entendido de forma distinta do
seu primo mais famoso, a “diversidade”. Enquanto esse último descreve ambientes
que reúnem pessoas com características e histórias de vida distintas, a
pluralidade tem uma conotação mais voltada para a esfera intelectual, política
e moral. Podemos entender o pluralismo então como a convivência legítima de
perspectivas divergentes e a capacidade de acolher posições ideológicas
variadas. Discussões sobre pluralismo acadêmico giram, portanto, em torno de
perguntas como: Existe variedade suficiente de pontos de vista na universidade?
A universidade é um lugar seguro para o dissenso, ou existem dogmas que
suprimem o livre debate de ideias? Como que a composição político-ideológica da
universidade afeta a vida acadêmica? Qual a melhor forma de promover o diálogo
entre perspectivas diversas na universidade? E por aí vai.
Antes
mesmo de entrar no mérito dessas questões e das discussões decorrentes, vale
abordar uma outra pergunta que escuto há anos desde que comecei a levantar esse
tema: A quem interessa falar sobre a necessidade de pluralismo na universidade?
Como Waldomiro Silva Filho bem observou ao apresentar um dos poucos estudos
sobre o tema no Brasil, essa pergunta quase sempre surge em ambientes
polarizados quando determinado assunto é usado para mobilizar nossos oponentes
políticos. Em outras palavras, tipicamente perguntamos a quem interessa falar
sobre isso ou aquilo quando entendemos que agentes nefastos estão
“capitalizando” em cima do tema. O assunto em questão muitas vezes acaba sendo
visto primariamente como uma narrativa a ser combatida, não como um problema a
ser explorado. É fácil entender o apelo dessa abordagem entre o meio
acadêmico.Afinal, todos sabemos dos ataques externos que a universidade vem
sofrendo por governos iliberais, baderneiros caça-cliques, e outros movimentos
pouco interessados e/ou pouco capazes de realmente contribuir para o
aprimoramento dos nossos ambientes educacionais. É completamente compreensível
o receio de fortalecer esses agentes, e o fato é que poucas coisas os
fortalecem tanto quanto certas narrativas sobre a universidade anti-pluralista.
No entanto, por mais sentido que faça tudo isso, simplesmente não é sensato ou
realista afirmar que apenas oportunistas políticos se preocupam com o problema
do pluralismo na universidade, ou que esse problema se trata apenas de
narrativa política nefasta.
O fato
é que cada vez mais vozes de dentro do próprio meio acadêmico estão alertando
sobre a urgência do tema. Não agentes políticos alinhados aos ataques recentes
à universidade, mas renomados professores e pesquisadores. Sintetizo abaixo
apenas alguns desses relatos, todos publicados nos últimos dois anos. Em
seguida, ofereço alguns comentários sobre o estado atual dessa discussão.
O
professor e pesquisador Wilson Gomes, da UFBA, comenta a paradoxal situação em
“que justamente as arenas institucionais por excelência da liberdade de
pensamento – universidade e jornalismo, onde se fazem perguntas, se desafiam
consensos e se testam certezas – tenham se tornado alguns dos principais
espaços do dogmatismo e da ortodoxia”. Em outro artigo, vai além e relata que
“um dos lugares mais insalubres para se trabalhar hoje são as universidades. Ao
menor interesse contrariado, à menor reivindicação de hierarquia pedagógica, à
mera indicação de bibliografia pode corresponder uma acusação de gravíssimo
crime identitário. Crime hediondo, sentença automaticamente cumprida. Nem Franz
Kafka previu coisa assim”.
Na UnB,
Luis Felipe Miguel alerta que hoje a liberdade para o dissenso no universidade
é coibida tanto por ações “dos defensores do ‘escola sem partido’ e
assemelhados à direita, [quanto] do macartismo progressista de alguns grupos
identitários”. Respondendo ao receio de que criticar o lado progressista dessa
moeda necessariamente fortaleceria o outro, o professor sugere que o fracasso
em coibir “a truculência de alguns grupos pretensamente progressistas contra
seus críticos” é justamente o que “alimenta o discurso da direita, [e] permite
que ela generalize sobre a ‘intolerância da esquerda’ ou os horrores da
universidade pública”. Luis Felipe Miguel também co-escreveu um artigo com
Verônica Toste Daflon (socióloga da UFF) e Lolita Guimarães Guerra
(historiadora da UERJ), relatando que “a comunidade acadêmica acompanha
perplexa uma série de episódios que vão da hostilidade até o confronto físico,
dando provas de uma regressão geral da capacidade de debater e se engajar em
controvérsias de forma produtiva”. O artigo também argumenta que grupos
ativistas e organizações político-partidárias dentro da universidade “fazem
pressão interna, tentando silenciar vozes divergentes por meio do cancelamento,
do assédio judicial e da intimidação, gerando um ambiente de autocensura que
hostiliza o debate e impugna o próprio método científico”.
A
psicóloga clínica da Unifesp, Ilana Pinsky, argumenta que o clima político na
universidade não afeta apenas as ciências sociais e humanas, mas também as
ciências da saúde. Ela relata que dados sobre temas sensíveis, como autismo
severo e disforia de gênero, são frequentemente silenciados ou manipulados por
medo de patrulhas ideológicas. E assim, no fogo cruzado das guerras culturais,
“pessoas reais ficam desamparadas… famílias, os pacientes, os médicos que
tentam tomar decisões difíceis com base em evidência e não em slogans”.
Waldomiro
Silva Filho (UFBA), ao apresentar o estudo que ajudou a realizar sobre
pluralismo político na universidade, comenta que “temos um ambiente interno
muito fechado na universidade. Até nosso vocabulário está sob vigilância em
torno de marcadores muito claros de alinhamento ideológico”. Waldomiro Silva
Filho ainda sugere, com base nos resultados do estudo, que a falta de confiança
pública nas universidades federais pode estar fortemente relacionada à falta de
pluralismo político dentro dessas universidades.
Pablo
Ortellado, pesquisador da USP que participou do mesmo estudo, alerta em outro
evento acadêmico que a universidade “está se tornando intolerante a qualquer
expressão política não-progressista. E isso é um enorme problema”. Comentando o
entrave que essa discussão enfrenta em uma universidade maioritariamente
progressista, diz que as guerras culturais afetam a “forma violenta com que
esse debate tem sido travado” e, por isso, acabaram gerando “uma reação
defensiva nas universidades. Elas passaram a associar as demandas por
pluralidade a uma perspectiva conservadora de caráter anti-universitário. É
preciso superar essa associação”.
Ainda
na USP, Márcio Moretto Ribeiro também traz atenção para os perigos de um
ambiente politicamente homogêneo onde “diminui-se a capacidade de formular
perguntas incômodas, de testar hipóteses contrárias e de acolher interpretações
que destoem da sensibilidade dominante”. Ele argumenta que a atual falta de
pluralismo na universidade acaba “formando estudantes menos preparados para
lidar com divergências reais. Ao deixar de conviver com posições dissonantes,
perde-se a chance de exercitar justamente aquilo que caracteriza o pensamento
crítico: a disposição de pensar contra si mesmo”.
Na
UFRN, o sociólogo Alípio de Sousa Filho descreve a crescente proliferação de
perspectivas que levaram parte da universidade a “colonizar-se a si mesma com
slogans, certezas fáceis e uma autoconfiança que cresce na razão inversa de sua
erudição”. Isso vem levando à “substituição da análise baseada em conhecimento
teórico-filosófico-científico pela militância superficial” e à “imposição de
‘pautas’ à universidade que a deturpam de sua histórica missão”.
O
historiador da UFBA, Rodrigo Perez descreve “um crescente clima de
autoritarismo ideológico e violência política nas universidades” que arrisca
fazer que ela seja “reduzida à condição de incubadora de militantes”. Diz ainda
que, “como a extrema direita é pouco presente no ambiente acadêmico, [seus
ataques] provocam coesão da comunidade universitária. Em relação aos ataques
perpetrados pelos movimentos sociais de esquerda, a situação é mais
desafiadora, pois os agressores
agenciam a justa pauta da defesa dos direitos das minorias sociais para dar
verniz de reparação histórica às suas ofensivas. As autoridades universitárias
e representações sindicais não estão respondendo à altura”.
Na
Unifesp, o sociólogo Richard Miskolci argumenta que, graças à proliferação da
prática do ‘cancelamento’ como estratégia política, “as universidades estão se
tornando espaços de medo e perseguição”. Alerta também que muitos “membros de
universidades e associações científicas… se associam a essas cruzadas digitais
ao invés de recusá-las ou combatê-las” contribuindo “intencionalmente ou não…
para a desconstrução dessas mesmas instituições, rompendo suas normas de
convívio, debate acadêmico e pluralidade de pensamento”. Quem paga o preço,
agora, “podem ser alguns membros da comunidade universitária tomados como
alvos, mas, no longo prazo, será a universidade que se constrói sob essa forma
de violência política e as consequências que ela legará para a sociedade
brasileira”.
O
professor e pesquisador Augusto Sales da FGV alerta, comentando recentes casos
de cancelamentos, diz que “nem toda ameaça à universidade nasce fora dela.
Algumas se formam internamente, em silêncio, bem-intencionadas e difíceis de
nomear”. O problema, diz ele, não é apenas a falta de diversidade política:
“Universidades sempre tiveram maiorias ideológicas e sobreviveram a elas. O
problema surge quando divergências deixam de ser tratadas como parte normal da
vida científica e passam a ser administradas como falhas morais ou ameaças
institucionais”. Conclui que “para preservar aquilo que torna a universidade,
de fato, é a universidade” hoje é preciso “reaprender a conviver com o conflito
intelectual, sem traduzi-lo automaticamente em problema moral ou
institucional”.
O
cientista político e professor da UFRJ, Paulo Baia, lamentando a resposta de
militantes organizados à obra de uma colega, alerta que “a leitura militante de
fenômenos sociológicos” hoje arrisca “substituir o rigor metodológico [e]
desqualificar o trabalho científico”. Observa também um grau de “hostilidade
intelectual [que] constituiu um obstáculo para a circulação construtiva do
conhecimento. Em vez de promover um diálogo entre variáveis demográficas,
análise sociológica e saberes indígenas, afrodescendentes ou feministas,
preferiu-se uma polarização que fragiliza o próprio projeto emancipatório que
muitos desses segmentos afirmam defender”.
O que
esse conjunto de relatos nos mostra? Há cerca de dois anos atrás, eu escrevi
sobre alguns dos esforços que universidades ao redor do mundo começaram a
empreender para promover tolerância ideológica e pluralismo intelectual no
campus universitário. Comentei, também, sobre o estado incipiente em que essa
discussão se encontrava no Brasil. Olhando para as críticas e relatos acima, no
entanto, já é possível dizer que algo mudou de dois anos para cá. O debate está
penetrando em ambientes onde antes era tabu. O que era no Brasil um tema quase
exclusivamente dominado por outsiders acadêmicos agora tem sua relevância
reconhecida por cada vez mais membros da própria comunidade acadêmica, muitos
deles identificados com a esquerda. Não estou aqui sugerindo que um tema só
adquire legitimidade quando é discutido pela esquerda, mas o fato é que, dentro
da universidade, esse panorama cria possibilidades de articulação em defesa do
pluralismo que antes não existiam.
Vale
observar que foi um processo muito semelhante (engajamento acadêmico com o
tema, combinado ao reconhecimento da sua relevância por professores ao longo do
espectro político) que precedeu a inauguração iniciativas importantes em defesa
do pluralismo acadêmico nos EUA, como explico em outro lugar.
Mas o
que isso significa para o Brasil? Ao contrário dos EUA ainda não contamos com
iniciativas institucionais de destaque nesse campo. Embora grupos de discussão
existam e venham ganhando visibilidade, é evidente que ainda não alcançamos um
nível relevante de articulação. Hoje, um acadêmico injustamente cancelado, por
exemplo, pode contar hoje com manifestações espontâneas de solidariedade por
parte de colegas espalhados pelo país. O que ele não encontrará, porém, é uma
rede de apoio organizada e institucionalizada capaz de prevenir abusos, de
responder de forma coordenada à violação de direitos, e de fornecer ferramentas
práticas para o meio acadêmico promover e proteger o pluralismo acadêmico. Em
suma, o problema ainda não é tratado no Brasil de maneira sistemática nem
possui presença institucional consolidada. Mas – e isso é, de fato, animador –
as condições sociais e intelectuais para que essa articulação emerja parecem
cada vez mais maduras. Antes de qualquer articulação institucional, no entanto,
é importante reconhecer que apesar dos relatos mais ou menos convergentes
mencionados acima, estamos longe de qualquer tipo de consenso na universidade
brasileira sobre esse tema. Pelo contrário. O tema é extremamente contestado.
Estudos são escassos. A maioria dos professores ainda não fala no assunto, e
muitos dos que falam tem uma visão bastante diferente dos que citei mais acima.
A
professora da USP, Elaine Borges, por exemplo – dando voz ao que acredito ser
uma parcela substancial do meio acadêmico – sugere que a suposta crise de
pluralismo na universidade brasileira tem sido superdimensionada, e que dar
muita atenção a esse tema pode até mesmo trazer consequências negativas para a
universidade. A meu ver, os argumentos de Elaine Borges são muito parecidos com
os que circulavam nos EUA em torno de dez anos atrás, quando reivindicações por
mais pluralismo na universidade também começaram a ganhar força por lá. Não
terei como abordar cada um desses argumentos aqui, mas vale dizer que respostas
a muitos deles também já circulam há algum tempo. Pode ser útil, portanto, que
defensores (e detratores) do pluralismo acadêmico saibam situar suas posições
nesse debate mais amplo. De qualquer forma, um dos pontos que Elaine Borges
levanta é particularmente familiar e vale a pena revisitar. Trata-se de uma
variação da pergunta: a quem interessa discutir a necessidade de pluralismo na
universidade? Aqui a professora alerta que “o maior perigo dessa retórica é que
ela abre caminho para intervenções políticas na produção de conhecimento”.
Afinal, o que não faltam são “exemplos recentes de regimes que atacaram a
liberdade acadêmica sob o pretexto de corrigir vieses”.
Como já
falei, não há dúvidas de que o perigo que Elaine Borges aponta é real. Uma
retórica que alardeia a crise de pluralismo na universidade interessa a agentes
autoritárias. O que Elaine Borges e muitos outros acadêmicos parecem não ver é
que, por esse mesmo motivo, também interessa a essas agentes que a universidade
não faça nada a respeito do problema. Interessa a eles que a comunidade
acadêmica discuta esse assunto o menos possível. Afinal, para tais agentes,
isso nada mais do que garante seu monopólio sobre o tema. Para enfatizar o
ponto, basta simplesmente inverter a pergunta: a quem interessa a inação da
universidade em torno desse problema? A quem interessa dizer que os relatos
acima não passam de exageros retóricos, ruídos episódicos ou construções
narrativas oportunistas? A quem interessa dizer o problema do pluralismo na
universidade não demanda reflexão institucional séria nem resposta coletiva?
Arrisco dizer que os principais beneficiários dessa miopia são aqueles mesmos
agentes que Elaine Borges diz temer. Mais até do que elementos narrativos, nada
beneficia esses agentes tanto quanto uma universidade incapaz de reconhecer,
nomear e enfrentar suas próprias disfunções internas. Por fim, vale salientar
que, a partir de agora, quando perguntamos “a quem interessa” falar sobre
desafios ao pluralismo acadêmico, temos a obrigação de considerar os relatos
acima e perguntar por que tantos acadêmicos agora parecem interessados no tema também.
Não acho muito plausível a tese de que estejam todos acometidos por uma espécie
de falsa consciência que os impede de ver os ‘reais interesses’ por trás de
suas reivindicações. Talvez esteja na hora de ver os relatos acima como
expressões de uma demanda legítima, cuja necessidade de respaldo institucional
já não pode mais ser indefinidamente adiada. Talvez, quem sabe, interesse à
própria universidade discutir esse tema de forma aberta e honesta.
¨
Os desafios da educação profissional e tecnológica. Por
Roberto Rafael Dias da Silva
A
pergunta de Axel Honneth sobre a “textura da justiça” convida a deslocar o
olhar das normas abstratas para as experiências concretas de reconhecimento (ou
de sua negação) que atravessam a vida social. Trata-se de compreender a justiça
não apenas como distribuição de bens ou oportunidades, mas como a qualidade das
relações sociais que permitem aos sujeitos desenvolverem-se como membros plenos
da vida coletiva. Ao transpor essa chave analítica para o campo das políticas
de educação profissional e tecnológica, evidencia-se que os desafios
contemporâneos não se limitam à expansão da oferta ou à atualização curricular,
mas dizem respeito à forma como essas políticas produzem (ou não) condições de
reconhecimento para os estudantes, especialmente aqueles historicamente
situados em posições de vulnerabilidade.
Os
dados produzidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
Anísio Teixeira, em especial por meio do Censo Escolar que foi recentemente
divulgado, permitem identificar tendências relevantes nas últimas décadas.
Observa-se uma ampliação significativa da oferta de educação profissional,
tanto na forma integrada ao ensino médio quanto nas modalidades concomitante e
subsequente. Essa expansão, impulsionada por políticas públicas e por mudanças
no marco regulatório da educação básica, indica um reconhecimento crescente da
importância estratégica dessa etapa formativa para o desenvolvimento econômico
e social do país. No entanto, ao mesmo tempo em que se ampliam as matrículas,
persistem desigualdades estruturais que tensionam o ideal de justiça
educacional.
Entre
essas desigualdades, destaca-se a forte concentração regional da oferta, com
maior presença de cursos técnicos em determinadas regiões e vazios formativos
em outras, especialmente em territórios mais vulneráveis. Soma-se a isso a
segmentação entre redes públicas e privadas, que frequentemente se traduz em
diferenças nas condições de infraestrutura, na qualificação docente e nas
oportunidades de articulação com o mundo do trabalho. Tais assimetrias revelam
que a expansão não tem sido acompanhada por uma efetiva democratização das
condições de acesso e permanência, o que compromete a possibilidade de
construção de trajetórias formativas mais equitativas.
Sob a
perspectiva da “textura da justiça”, esses dados ganham densidade
interpretativa ao evidenciar déficits de reconhecimento em múltiplas dimensões.
Em primeiro lugar, há um problema histórico de valorização social da educação
profissional. Ainda que se observe, nos últimos anos, um esforço de
reconfiguração dessa imagem, persiste a associação entre formação técnica e
trajetórias de menor prestígio social, em contraste com a centralidade
atribuída ao ensino superior. Essa hierarquização simbólica afeta diretamente
as escolhas dos estudantes e de suas famílias, bem como as expectativas
construídas em torno dessas trajetórias.
Em
segundo lugar, emerge a questão da integração curricular. A proposta de
articulação entre formação geral e formação técnica, especialmente no âmbito do
ensino médio integrado, constitui uma das principais inovações das políticas
recentes. No entanto, sua implementação enfrenta obstáculos significativos, que
vão desde a organização dos tempos e espaços escolares até a formação dos
docentes. Em muitos casos, observa-se a manutenção de uma lógica dual, em que
os componentes técnicos e propedêuticos coexistem sem uma efetiva integração,
limitando o potencial formativo dessas experiências. Do ponto de vista do
reconhecimento, isso implica uma fragmentação das experiências educativas,
dificultando a construção de sentidos mais amplos para a aprendizagem.
Outro
aspecto relevante diz respeito às condições concretas de oferta. Os dados do
Censo Escolar evidenciam variações significativas entre instituições e redes,
tanto em termos de infraestrutura quanto de recursos pedagógicos e vínculos com
o setor produtivo. Essas diferenças produzem experiências educacionais
desiguais, que impactam diretamente as possibilidades de aprendizagem e
inserção no mundo do trabalho. Em contextos mais precarizados, a educação
profissional pode acabar reproduzindo trajetórias de baixa qualificação, em vez
de funcionar como um vetor de mobilidade social.
A
questão da permanência e da conclusão também se apresenta como um dos
principais desafios. Os indicadores de evasão, especialmente entre estudantes
em situação de vulnerabilidade social, revelam a fragilidade dos vínculos
institucionais e a insuficiência das políticas de apoio. Sob a ótica da
“textura da justiça”, a evasão não pode ser compreendida como um fenômeno
individual, mas como um sinal de que as instituições não estão conseguindo
produzir condições adequadas de reconhecimento. Isso envolve desde questões
materiais (como transporte, alimentação e acesso a recursos) até dimensões
simbólicas, como o sentimento de pertencimento e a relevância percebida do
percurso formativo.
Nesse
sentido, políticas de assistência estudantil, acompanhamento pedagógico e
flexibilização curricular assumem um papel central. No entanto, sua
implementação ainda é desigual e, em muitos casos, insuficiente para enfrentar
a complexidade dos desafios colocados. A construção de estratégias mais
integradas, que articulem diferentes dimensões da experiência estudantil,
aparece como uma condição necessária para a promoção de trajetórias formativas
mais consistentes.
Outro
eixo fundamental de análise refere-se à governança das políticas de educação
profissional e tecnológica. A multiplicidade de atores envolvidos (sistemas de
ensino, instituições formadoras, setor produtivo e diferentes níveis de
governo) exige a construção de arranjos institucionais capazes de promover
coordenação e coerência. Contudo, o que se observa com frequência é uma
fragmentação das iniciativas, com baixa articulação entre políticas
educacionais, econômicas e de desenvolvimento regional. Essa desarticulação
compromete a capacidade de resposta das políticas às dinâmicas territoriais e
às demandas dos jovens.
A
ausência de mecanismos mais robustos de participação social também limita a
construção de políticas mais sensíveis às experiências dos sujeitos. A
incorporação das vozes dos estudantes, dos docentes e das comunidades nos
processos decisórios constitui um elemento central para a construção de
políticas mais justas, na medida em que amplia as possibilidades de
reconhecimento e de construção coletiva de sentidos. Sem essa dimensão
participativa, há o risco de reprodução de modelos tecnocráticos, pouco atentos
às especificidades dos contextos locais.
Além
disso, as transformações no mundo do trabalho colocam novos desafios para a
educação profissional. A incorporação de tecnologias digitais, a reorganização
dos processos produtivos e a crescente instabilidade das trajetórias
ocupacionais exigem uma formação que vá além da aquisição de competências
técnicas específicas. Torna-se necessário promover o desenvolvimento de
capacidades mais amplas, como pensamento crítico, autonomia e capacidade de
adaptação. Isso implica repensar os currículos e as práticas pedagógicas, de
modo a articular conhecimentos técnicos e formação humana de forma mais
integrada.
Diante
desse cenário, os desafios das políticas de educação profissional e tecnológica
demandam uma reconfiguração que leve a sério a dimensão relacional da justiça.
Isso significa reconhecer que a democratização dessas políticas não se realiza
apenas por meio da ampliação de vagas ou da diversificação da oferta, mas pela
capacidade de produzir experiências formativas que sejam socialmente
significativas e que contribuam para o fortalecimento dos sujeitos em suas
trajetórias.
Tal
reconfiguração envolve, entre outros aspectos, o enfrentamento das
desigualdades territoriais, a valorização social da educação profissional, o
fortalecimento da integração curricular e a construção de formas de governança
mais articuladas e participativas. Exige, também, o investimento em políticas
de permanência que reconheçam a complexidade das condições de vida dos
estudantes e que consigam sustentar sua trajetória ao longo do percurso
formativo.
Em
última instância, pensar as políticas de educação profissional e tecnológica a
partir da “textura da justiça” implica deslocar o foco dos resultados
estritamente quantitativos para a qualidade das experiências educativas.
Trata-se de compreender que a justiça educacional se realiza na medida em que
os sujeitos se reconhecem — e são reconhecidos — como participantes legítimos
da vida social, capazes de construir projetos de vida dignos e de intervir de
forma crítica no mundo em que vivem.
Fonte:
A Terra é Redonda/Outras Palavras

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