Ângela
Carrato: Na mídia brasileira, todo dia é 1º de abril, dia da mentira
Na
mídia corporativa brasileira, todo dia é dia da mentira.
Aqui
nos 365 dias do ano, as poucas famílias que controlam jornais, emissoras de
rádio, TV e portais os consideram espaços para divulgar o que querem e como
querem.
Não há
compromisso com os fatos e nem com a isenção das informações.
O
“jornalismo profissional” não passa de balela e a tal “checagem” é apenas a
posteriori, quando o estrago está feito.
Dada à
quantidade de suas mentiras, o 1º de abril poderia até ser uma invenção sua,
mas não foi.
Ele
surgiu na França, em 1582, quando a adoção do Calendário Gregoriano mudou o Ano
Novo de abril para 1º de janeiro. Quem resistiu à mudança e continuou
celebrando o ano novo em abril passou a ser ridicularizado, virou alvo de
brincadeiras e “mentiras”.
Eram os
“tolos de abril”.
Aqui,
somos feitos de tolos todos os dias.
E não é
de agora.
Há
exatos 62 anos, um golpe civil, empresarial e militar derrubou o governo
democraticamente eleito de João Goulart.
Não há,
em toda a mídia corporativa brasileira, hoje, uma única referência ao fato,
mesmo a ditadura tendo durado 21 anos, matado, torturado e perseguido milhares
de pessoas, além de implantar censura férrea e de ter buscado atrelar o Brasil
aos interesses dos Estados Unidos.
A
ausência se explica.
Lembrar
esta longa noite escura para esta mídia brasileira é constrangedor.
Ela,
que se auto intitula grande mídia, mas que não passa de uma mídia hereditária e
subimperialista, apoiou a ditadura e foi essencial para mantê-la por mais de
duas décadas.
No 1º
de abril de 1964, dia seguinte ao golpe, o jornal O Globo, da família Marinho
estampava em editorial na capa, a manchete “Ressurge a democracia”. Um absoluto
despropósito, uma vez que o poder havia sido tomado pelas Forças Armadas.
Já as
publicações de Assis Chateaubriand, principal magnata da mídia na época,
destacavam a “Vitória da Revolução redentora”.
Para
quem acredita que disputa de narrativas é coisa recente, aí está a prova de que
não. O que os golpistas chamavam de “revolução” nada mais era do que golpe de
Estado.
As
mentiras continuaram, com a mídia exaltando os militares e tentando convencer a
população de que os descontentes deveriam ir embora. Era o tempo do “esse é o
país que vai pra frente” e do “Brasil ame-o ou deixe-o”.
A TV
Globo escondeu o quanto pode a campanha pelas eleições diretas para presidente
em 1984.
Mesmo
as praças e ruas tomadas por manifestantes e artistas, todos unidos no
“queremos votar pra presidente”, nada era publicado ou visto nos jornais e TVs.
Surge aí o slogan que atravessa décadas: “O povo não é bobo, abaixo a Rede
Globo”.
Quando
da primeira eleição direta após a ditadura, em 1989, a mídia corporativa teve
papel destacado para a vitória do playboy e aventureiro Fernando Collor, mesmo
existindo excelentes nomes na disputa pelo Palácio do Planalto a começar por
Leonel Brizola, Ulysses Guimarães e Mário Covas.
Deu no
que deu e nunca se ouvir qualquer autocritica por parte desta mídia.
Em
2013, no primeiro governo Dilma Rousseff, o Grupo Globo ainda atordoado com a
terceira vitória seguida de um candidato do Partido dos Trabalhadores, ensaiou
um mea culpa público.
As
críticas à emissora estavam intensas, com um grupo de jovens chegando a atirar
esterco na sede da emissora, no bairro Jardim Botânico, no Rio de janeiro.
Em
editorial, O Globo admitiu ter errado ao apoiar o golpe militar de 1964, mas
fez questão de dizer que outros veículos de comunicação como Folha de S. Paulo
e Estado de S. Paulo agiram da mesma forma.
O
jornal afirmou que a decisão de fazer uma “avaliação interna” veio antes das
manifestações populares. Mas “as ruas”, disse O Globo, “nos deram ainda mais
certeza de que o reconhecimento do erro era necessário”.
Reconhecimento
que não tinha um pingo de sinceridade.
Três
anos depois, lá estava o Grupo Globo na linha de frente do golpe, travestido de
impeachment, que derrubou Dilma e abriu espaço para os governos corruptos e
entreguistas de Michel Temer e Jair Bolsonaro.
Abriam-se
as portas do inferno, com muitos dos golpistas de 1964 voltando ao poder pelas
mãos de Bolsonaro.
Antes
disso, a Folha de S. Paulo já havia se tornado alvo de muita crítica pelo
editorial que publicou, em 17 de fevereiro de 2009, ao chamar a última ditadura
brasileira de “ditabranda”.
Além de
erro, o jornal cometeu uma leviandade. Todas as ditaduras são abomináveis, mas
a mídia corporativa brasileira não pensa assim.
A
tradição de um dia voltado à desinformação e pegadinhas vem de longe.
Entre
nós, consolidou-se em 1828, quando o jornal mineiro “A Mentira” publicou na sua
primeira edição (em 1º de abril) a notícia falsa sobre a morte de Dom Pedro I.
A
notícia não tinha nada de “barrigada”, como são denominados os erros no
jornalismo. Era parte da pesada luta política que então se travava.
De um
lado estavam os que queriam consolidar a nossa independência e, de outro,
aqueles que defendiam que continuássemos colônia de Portugal.
Mutatis
mutandis é essa mesma a luta que o Brasil enfrenta ao longo de sua história e
nos dias atuais.
O país
só entrou efetivamente no século XX em 1930, após a Revolução, a única em nossa
história, que teve à frente o gaúcho Getúlio Vargas, o principal artíficie do
Brasil moderno.
Deve-se
a seus governos (1930-1945, 1951-1954) a transformação do país, de um modelo
agrário-exportador para industrializado e urbano.
É
importante destacar que Getúlio administrou o país num dos períodos mais
difíceis da história mundial, marcado pela emergência do nazifascismo na Europa
e pela difusão desta ideologia pelo mundo.
Não
faltam críticas de que o seu governou agiu de forma autoritária durante o
denominado Estado Novo (1930-1945). É verdade, mas não se deve perder de vista
que o Brasil, neste período, teve a maior seção do Partido Nazista fora da
Alemanha.
Mais
ainda. Todos os governos democráticos, da Europa e dos Estados Unidos, no
entreguerras, igualmente restringiram as liberdades individuais.
Nada
disso foi levado em conta, com a mídia tudo fazendo para transformar Getúlio em
ditador, e depois, em corrupto.
Ele foi
deposto em 1945 pelas Forças Armadas com o total apoio dos jornais de então.
Mas a resposta popular não demorou a acontecer. Em 1951, aquele que jornais,
revistas e emissoras de rádio diziam que estava “acabado politicamente”,
retorna ao poder em eleição direta.
É
importante destacar que os jornais não eram mais publicações voltadas apenas a
difundir a visão de seus donos. Já tinham se transformado em “indústria
cultural”, para citar o famoso conceito cunhado por Adorno e Horkheimer.
Com a
entrada em cena do rádio e, logo depois a da TV, os meios de comunicação
(mídia) transformaram a notícia em mercadoria, produzida em massa para gerar
lucro e consumo rápido.
A venda
avulsa e as assinaturas de jornais foram sendo substituídas pela publicidade
como forma para financiar esses veículos.
O rádio
e a TV no Brasil desde cedo se tornaram dependentes dos anunciantes e
praticamente nenhum mecanismo foi criado para que a sociedade pudesse exigir
transparência e respeito à integridade dos fatos, ao contrário do que aconteceu
na Europa e nos Estados Unidos.
Isso
fez toda a diferença. Pelo menos três gerações, até a vitória do neoliberalismo
no final dos anos 1970, puderam usufruir de uma mídia voltada para a
informação, a educação, o lazer e a cultura, suas efetivas finalidades.
Quanto
mais Getúlio se aprofundava em ações visando o desenvolvimento econômico, mais
a mídia de então o combatia. A ordem era acusá-lo de corrupto, mesmo sem
quaisquer provas. Dia após dia, as manchetes davam conta de que o governo
Vargas estava envolvido “num mar de lama”.
A
pressão da mídia associada a interesses dos Estados Unidos, que não queriam um
Brasil dotado de empresa estatal para cuidar da energia elétrica (Eletrobras),
do petróleo (Petrobras) e do minério de ferro (Companhia Vale do Rio Doce), foi
tamanha que levou Vargas ao suicídio.
A
tragédia acordou a população, que saiu às ruas indignada. Várias sedes de
jornais oposicionistas no Rio de Janeiro, então capital da República, foram
quebradas. O jornalista Carlos Lacerda, a principal voz de oposição a Vargas,
teve que se exilar diante do furor da opinião pública.
A mesma
mídia que levou Vargas ao suicídio voltou à carga contra os governos
progressistas do período seguinte: foi contra Juscelino Kubitschek (1956-1961)
e João Goulart (1961-1964).
JK
chegou a montar uma comissão visando democratizar a mídia, nos moldes do que
existia na Europa e nos Estados Unidos. Foi aconselhado a não levar o projeto
adiante por causa da resistência dos “barões da mídia”.
O
desenvolvimento e a rápida industrialização perseguidos por JK eram
permanentemente ridicularizados, com Chateaubriand colocando seus 22 jornais e
mais de 30 emissoras de rádios e TVs para criticá-lo diuturnamente.
De
acordo com Chateaubriand, a construção de Brasília, a nova capital da
República, não passava de “gastança” e a abertura da rodovia Belém-Brasília,
fundamental para a integração do Norte ao resto do país, seria apenas “uma
estrada para onças”.
No
plano externo, a Operação Pan-Americana (OPA), iniciativa diplomática de JK
visando unir os países da América Latina para combater o subdesenvolvimento,
foi sabotada pelos Estados Unidos com total apoio da mídia brasileira.
A mesma
mídia que aplaudiu a Aliança para o Progresso, lançada em seguida pelo
presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, cujo objetivo era apenas
inviabilizar a operação proposta por JK. A Aliança para o Progresso, claro, não
deu em nada.
Nos
anos 1960, os principais anunciantes da mídia brasileira eram multinacionais
estadunidenses de bens de consumo, marcas de eletrodomésticos, produtos
farmacêuticos e empresas de serviços que buscavam atingir a classe média em
expansão.
Essas
empresas, associadas aos donos da mídia brasileira, estavam novamente na linha
de frente contra mais um governo, o de João Goulart. Por considerá-lo
“comunista”, o que estava longe de ser verdade, partiram para o ataque e a
conspiração.
O livro
do historiador e cientista político René Armand Dreifuss, intitulado 1964: A
Conquista do Estado. Ação Política, Poder e Golpe de Classe (Vozes, 1981), teve
o papel de mostrar, em detalhes, como estas articulações se davam.
Até
então, o golpe contra Jango era considerado ação dos militares. Dreifuss
mostrou que esta visão estava equivocada. Empresários brasileiros, associados a
grupos estadunidenses e todos os “barões da mídia” foram protagonistas nesta
derrubada.
A
criação de grupos de ação política e ideológica, a exemplo do Instituto
Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e depois do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais
(IPES) teve o papel de funcionar como aparelho de classe para confrontar o
governo, valendo-se de campanhas bem planejadas para conquistar a opinião
pública.
Tais
campanhas eram divulgadas como se fossem notícias.
Através
do estímulo à criação de sindicatos de direita, da formação no movimento
estudantil de grupos paramilitares de direita e no campo eleitoral da eleição
de um grande número de políticos conservadores de direita na Câmara dos
Deputados, no Senado e nos governos estaduais, IPES e IBAD passaram a
confrontar o governo Goulart.
As
chamadas “Marchas da Família com Deus Pela Liberdade”, que aconteceram em
várias capitais brasileiras naquela época, também integravam o pacote das ações
planejadas e apoiadas pelos conspiradores e pela mídia, que lhes dava a maior
cobertura.
Qualquer
semelhança com as mobilizações da extrema-direita nos últimos anos e nos dias
atuais não é mera coincidência.
Se o
Brasil tivesse uma mídia que minimamente respeitasse os fatos, era para todo 1º
de abril servir para a reflexão sobre os equívocos e atrasos que a ditadura
trouxe ao país, a começar pelo atrelamento aos interesses do imperialismo
estadunidense.
Deveria
servir como um momento para a mídia renovar o compromisso com os fatos e os
valores democráticos.
Só que
esta mídia não quer fazer isso.
Ela foi
e continua sendo golpista.
Exemplos
disso continuam acontecendo diariamente.
A mídia
corporativa brasileira mente quando tenta normalizar os absurdos da guerra dos
Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Absurdos que estão colocando o planeta
à beira da Terceira Guerra Mundial ou mesmo do uso, pelos Estados Unidos e
Israel, de bomba atômica contra o Irã.
A mídia
corporativa brasileira mente quando combate continuadamente o terceiro governo
Lula, buscando abrir espaço para a vitória de um candidato da extrema-direita
nas eleições de outubro próximo.
O papel
subserviente e entreguista desta mídia é tamanho, que divulga acriticamente que
candidatos de oposição como o senador Flávio Bolsonaro, têm como principal
proposta de governo entregar todos os recursos minerais e naturais do Brasil
para Trump, e que outro candidato, Ronaldo Caiado, pretende fazer da anistia
aos golpistas do 8 de janeiro de 2023, sua principal bandeira eleitoral.
Antes
de Flávio Bolsonaro, Caiado já havia feito um decreto entregando as terras
raras de seu estado, Goiás, para o governo Trump. Foi preciso que Lula, em nome
da soberania nacional, contestasse a legalidade e soberania desde acordo.
O pior
de tudo é que a mídia corporativa brasileira, que se gaba de fazer “jornalismo
profissional”, de ter compromisso com os dois lados da notícia e de checar os
fatos, dá mostrar de ter jogado tudo isso na lixeira.
Onde
está o “jornalismo profissional” no mentiroso power point exibido pela
jornalista Andreia Sadi, na Globonews, cujo desmentido foi ainda pior e mais
vergonhoso?
Onde
está o “jornalismo profissional” da Folha de S. Paulo ao estampar em manchete
que a prisão de “Lulinha” havia sido pedida pela CPI do INSS?
A
notícia, desmentida logo depois, continuou como a principal manchete do portal
UOL, do grupo Folha, até no dia seguinte. O objetivo era um só: garantir
imagens para que veículos e candidatos de direita e extrema-direita pudessem
usá-la em suas redes sociais e na campanha eleitoral.
É o
“jornalismo profissional” criando fake news e contribuindo para a sua
divulgação pelas redes sociais extremistas, que ele diz combater.
É a
mídia corporativa fazendo descarada parceria com o que há de pior nestas redes.
Quanto
ao Grupo Globo, ele continua seguindo à risca a receita do IBAD/IPES procurando
desgastar diariamente um governo que considera adversário.
Mesmo a
economia indo bem e indicadores positivos marcando todo o terceiro governo
Lula, os veículos da família Marinho insistem em dizer que o presidente promove
“uma gastança generalizada” e que a dívida interna é “a pior de todos os
tempos”.
Uma
mentira que não sobrevive a um clique no Google.
Experimente
procurar e comparar o percentual da dívida pública brasileira com o da dívida
das 10 maiores economias mundiais. Você vai se surpreender.
Lamentavelmente,
a mídia corporativa brasileira agora tem dado mostras ainda de maior
subserviência aos interesses imperialistas. E nem se preocupa mais em
disfarçar.
O Jorna Nacional noticia que os Correios vivem
“a maior crise de sua história” e defende a sua privatização, com a exibição,
no intervalo comercial de publicidade da Amazon, coincidentemente uma das
maiores empresas de e-commerce do mundo.
Com a
Petrobras se dá o mesmo.
No
momento em que a empresa busca se recompor diante da privatização de vários de
seus ativos durante os governos golpistas, a começar pela BR Distribuidora, o
Jornal Nacional joga a responsabilidade sobre o aumento do preço dos
combustíveis nas costas da empresa.
Detalhe:
no intervalo comercial o anúncio é do da Shell e de sua “presença de 110 anos
no Brasil”, sempre “em parceria com os brasileiros”.
Quanto
às corrupções no INSS e no Banco Master, ambas responsabilidade de figuras da
extrema-direita, igualmente a jogada da mídia é tentar atribuí-las a Lula e ao
seu governo.
Haja
mentiras!
Quem
sabe o caminho não é rebatizar o 1º de abril como o Dia da Mídia Corporativa
Brasileira?
Fonte:
Viomundo

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