quinta-feira, 9 de abril de 2026

O espectro do passado

O historiador inglês Edward Gibbon é autor do monumento em seis volumes sobre The Decline and Fall of the Roman Empire (“O declínio e a queda do Império Romano”). Obra que levou sete longos anos para ser concluída (1783). Na época, os jacobinos franceses preparavam o rito de transição para a modernidade de olho na experiência simbólica da antiga democracia ateniense.

No tópico “Os cristãos e a queda de Roma”, Edward Gibbon elenca as cinco causas da vitória do monoteísmo cristão sobre o politeísmo pagão: (i) o inflexível zelo e a intolerância derivada da religião judaica, sem o espírito antissocial que dissuadia os gentios (não judeus) de abraçar a lei de Moisés; (ii) a doutrina da vida eterna valorizada por condutas; (iii) os poderes miraculosos atribuídos à Igreja primitiva; (iv) a austera moralidade dos cristãos e; (v) a união e disciplina cristãs. A análise corresponde aos fatos.

Mutatis mutandis, o sucesso do cristianismo num contexto hostil está embutido na concepção leninista de partido político enquanto uma organização com unidade de ação na transição à sociedade anticapitalista. Assim, a esquerda reatualiza a utopia no esforço de emancipação social e a esperança no coração dos humildes.

Nos primórdios, o cristianismo se desenvolve em solo místico com a mente em situações extraordinárias para exorcizar os demônios; “creio porque absurdo”, diz o teólogo. Santos cometem transgressões, arrependem-se e recebem o perdão. As remissões incentivam um crescimento da Igreja, e o paganismo se retrai.

Os cristãos substituem o sangue da circuncisão pela inofensiva água de batismo e, sinagogas fechadas, por igrejas abertas. No lugar da Deidade de sacrifícios com regras para alimentos e dias, elegem o Deus de acolhimento ao liberto e ao escravo, ao judeu e ao gentio. Escolhem não um rei e conquistador senão o mártir nascido na manjedoura, cuja expiação absolve a todos e todas.

Segundo Rosa Luxemburgo, em O socialismo e as igrejas (1905): “Os cristãos primitivos eram comunistas fervorosos. Mas era um comunismo baseado no consumo de bens elaborados e não no trabalho, incapaz de reformar a sociedade, pôr fim à desigualdade e derrubar as barreiras que separam pobres dos ricos”. Distribuir casacos no inverno não altera o fato de que a tecelagem sob o controle privado fabrica as iniquidades para a próxima estação.

A mancha na religião cristã após sua institucionalização foi a Inquisição, entre os séculos XII e XIX, período onde a suspeição de herege implicou meio castigo. Muitos eram queimados vivos ao refutar os dogmas da Igreja e professar ideias cosmológicas. A “presunção de inocência” inaugura a modernidade na justiça. Agora, o lawfare encarna a fogueira alegórica no noticiário da mídia corporativa para atacar a reputação daqueles que contrariam a lógica da necropolítica neoliberal, como tentam os progressistas.

Os judeus, que rejeitam a profanação idólatra dos templos em oposição à liturgia pagã, são um raro povo a recusar o intercâmbio com a humanidade apesar dos serviços individuais prestados ao Homo sapiens. Para Edward Gibbon, com a proteção do céu retirada da etnia ingrata, “sua fé adquire vigor e pureza”. Nesse conclave singular dá mais atenção e aquiescência às tradições de remotos ancestrais do que à evidência escancarada dos sentidos.

O templo de Jerusalém é destruído em 586 a.C. e em 70 d.C. O último evento enseja um dia de luto no calendário judaico. Por obediência absoluta, os varões têm de se apresentar a Jeová três vezes a cada ano. Uma amostra de como a religião de Moisés é feita para um povo – privatiza e nacionaliza a fé. Com a destruição do local de culto, cai a obrigação de se dirigir ao prédio sagrado.

A intolerância com vizinhos se explica. Não pertencem aos eleitos do Senhor. Forasteiros levam gerações para incorporar-se à tribo que possui mais apóstatas renegados da crença do que prosélitos da Torá. A Shoah (“catástrofe, devastação”) na Segunda Guerra Mundial evoca ainda o imperativo de combate ao fascismo que devora a democracia. A ironia está na reprodução do nazismo.

O fanatismo obstrui uma solução. Profecias, preconceitos abafam o reconhecimento do Outro por despertar diatribes no Oriente Médio. O continuum cultural por gratidão aos antepassados obscurece o valor da paz entre os povos. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu solda o semitismo ao sionismo para coesionar a nação israelense contra o direito por antiguidade de não-eleitos no território. Questões de Estado fora da laicidade nutrem o ódio. O “Conselho da Paz” trumpista não é sério.

Conforme Eric Hobsbawm, em Sobre a história (1997), “negociar carros usados parece ser uma extensão bastante aceitável de negociar cavalos para ciganos que mantêm o nomadismo, pelo menos teoricamente, como o único modo adequado de vida”. O genocídio palestino na Faixa de Gaza, idem, é o prolongamento de um dogma – a “Terra Prometida”. A inovação pode ser formulada como não inovação para maquiar as repetições paroxísticas hoje.

O espectro do passado agride Palestina, Cisjordânia, Líbano e Irã com a mão do teocratismo de Israel. A aliança deste com o imperialismo decadente dos Estados Unidos visa fortalecer sua soberania na região e barrar a Belt and Road Iniciative (BRI, a Nova Rota da Seda) que já não parte do Ocidente, senão da Ásia Oriental. Não adianta bater com o pé no chão. O mundo está mudando com a alternativa trazida pelo BRICS. Bombardear escolas e hospitais não resolve o problema; cria ressentimento.

O desafio é achar o sentido do passado nas transformações e recuos que assombram o presente. A trajetória imposta pelas correntes subterrâneas – ou sobrenaturais – da longa história de conflitos conserva acesa a chama militarista da extrema direita e da teocracia, seja de aiatolás, seja de rabinos. É preciso construir a nova esfera pública internacional e reforçar o multilateralismo para construir consensos. Mas sem se deixar enganar pela ideologia cínica dos representantes da White House, aqui ou acolá. Esse é um tempo que exige coragem moral para encarar a verdade. Nunca uma política de não violência foi tão necessária e urgente.

 

Fonte: Por Luiz Marques, em A Terra é Redonda

 

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