O
espectro do passado
O
historiador inglês Edward Gibbon é autor do monumento em seis volumes sobre The
Decline and Fall of the Roman Empire (“O declínio e a queda do Império
Romano”). Obra que levou sete longos anos para ser concluída (1783). Na época,
os jacobinos franceses preparavam o rito de transição para a modernidade de
olho na experiência simbólica da antiga democracia ateniense.
No
tópico “Os cristãos e a queda de Roma”, Edward Gibbon elenca as cinco causas da
vitória do monoteísmo cristão sobre o politeísmo pagão: (i) o inflexível zelo e
a intolerância derivada da religião judaica, sem o espírito antissocial que
dissuadia os gentios (não judeus) de abraçar a lei de Moisés; (ii) a doutrina
da vida eterna valorizada por condutas; (iii) os poderes miraculosos atribuídos
à Igreja primitiva; (iv) a austera moralidade dos cristãos e; (v) a união e
disciplina cristãs. A análise corresponde aos fatos.
Mutatis
mutandis, o sucesso do cristianismo num contexto hostil está embutido na
concepção leninista de partido político enquanto uma organização com unidade de
ação na transição à sociedade anticapitalista. Assim, a esquerda reatualiza a
utopia no esforço de emancipação social e a esperança no coração dos humildes.
Nos
primórdios, o cristianismo se desenvolve em solo místico com a mente em
situações extraordinárias para exorcizar os demônios; “creio porque absurdo”,
diz o teólogo. Santos cometem transgressões, arrependem-se e recebem o perdão.
As remissões incentivam um crescimento da Igreja, e o paganismo se retrai.
Os
cristãos substituem o sangue da circuncisão pela inofensiva água de batismo e,
sinagogas fechadas, por igrejas abertas. No lugar da Deidade de sacrifícios com
regras para alimentos e dias, elegem o Deus de acolhimento ao liberto e ao
escravo, ao judeu e ao gentio. Escolhem não um rei e conquistador senão o
mártir nascido na manjedoura, cuja expiação absolve a todos e todas.
Segundo
Rosa Luxemburgo, em O socialismo e as igrejas (1905): “Os cristãos primitivos
eram comunistas fervorosos. Mas era um comunismo baseado no consumo de bens
elaborados e não no trabalho, incapaz de reformar a sociedade, pôr fim à
desigualdade e derrubar as barreiras que separam pobres dos ricos”. Distribuir
casacos no inverno não altera o fato de que a tecelagem sob o controle privado
fabrica as iniquidades para a próxima estação.
A
mancha na religião cristã após sua institucionalização foi a Inquisição, entre
os séculos XII e XIX, período onde a suspeição de herege implicou meio castigo.
Muitos eram queimados vivos ao refutar os dogmas da Igreja e professar ideias
cosmológicas. A “presunção de inocência” inaugura a modernidade na justiça.
Agora, o lawfare encarna a fogueira alegórica no noticiário da mídia
corporativa para atacar a reputação daqueles que contrariam a lógica da
necropolítica neoliberal, como tentam os progressistas.
Os
judeus, que rejeitam a profanação idólatra dos templos em oposição à liturgia
pagã, são um raro povo a recusar o intercâmbio com a humanidade apesar dos
serviços individuais prestados ao Homo sapiens. Para Edward Gibbon, com a
proteção do céu retirada da etnia ingrata, “sua fé adquire vigor e pureza”.
Nesse conclave singular dá mais atenção e aquiescência às tradições de remotos
ancestrais do que à evidência escancarada dos sentidos.
O
templo de Jerusalém é destruído em 586 a.C. e em 70 d.C. O último evento enseja
um dia de luto no calendário judaico. Por obediência absoluta, os varões têm de
se apresentar a Jeová três vezes a cada ano. Uma amostra de como a religião de
Moisés é feita para um povo – privatiza e nacionaliza a fé. Com a destruição do
local de culto, cai a obrigação de se dirigir ao prédio sagrado.
A
intolerância com vizinhos se explica. Não pertencem aos eleitos do Senhor.
Forasteiros levam gerações para incorporar-se à tribo que possui mais apóstatas
renegados da crença do que prosélitos da Torá. A Shoah (“catástrofe,
devastação”) na Segunda Guerra Mundial evoca ainda o imperativo de combate ao
fascismo que devora a democracia. A ironia está na reprodução do nazismo.
O
fanatismo obstrui uma solução. Profecias, preconceitos abafam o reconhecimento
do Outro por despertar diatribes no Oriente Médio. O continuum cultural por
gratidão aos antepassados obscurece o valor da paz entre os povos. O
primeiro-ministro Benjamin Netanyahu solda o semitismo ao sionismo para
coesionar a nação israelense contra o direito por antiguidade de não-eleitos no
território. Questões de Estado fora da laicidade nutrem o ódio. O “Conselho da
Paz” trumpista não é sério.
Conforme
Eric Hobsbawm, em Sobre a história (1997), “negociar carros usados parece ser
uma extensão bastante aceitável de negociar cavalos para ciganos que mantêm o
nomadismo, pelo menos teoricamente, como o único modo adequado de vida”. O
genocídio palestino na Faixa de Gaza, idem, é o prolongamento de um dogma – a
“Terra Prometida”. A inovação pode ser formulada como não inovação para maquiar
as repetições paroxísticas hoje.
O
espectro do passado agride Palestina, Cisjordânia, Líbano e Irã com a mão do
teocratismo de Israel. A aliança deste com o imperialismo decadente dos Estados
Unidos visa fortalecer sua soberania na região e barrar a Belt and Road
Iniciative (BRI, a Nova Rota da Seda) que já não parte do Ocidente, senão da
Ásia Oriental. Não adianta bater com o pé no chão. O mundo está mudando com a
alternativa trazida pelo BRICS. Bombardear escolas e hospitais não resolve o
problema; cria ressentimento.
O
desafio é achar o sentido do passado nas transformações e recuos que assombram
o presente. A trajetória imposta pelas correntes subterrâneas – ou
sobrenaturais – da longa história de conflitos conserva acesa a chama
militarista da extrema direita e da teocracia, seja de aiatolás, seja de
rabinos. É preciso construir a nova esfera pública internacional e reforçar o
multilateralismo para construir consensos. Mas sem se deixar enganar pela
ideologia cínica dos representantes da White House, aqui ou acolá. Esse é um
tempo que exige coragem moral para encarar a verdade. Nunca uma política de não
violência foi tão necessária e urgente.
Fonte:
Por Luiz Marques, em A Terra é Redonda

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