quinta-feira, 9 de abril de 2026

Gustavo Guerreiro: O Nordeste, o ITA e a soberania tecnológica

Existe algo profundamente simbólico no fato de o Ceará, essa “Terra da Luz” que um dia iluminou o abolicionismo brasileiro, converter-se agora no novo epicentro da inteligência aeroespacial nacional.

A recente inauguração da primeira unidade do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) fora de São José dos Campos (SP), em território cearense, não é meramente um evento burocrático ou um gesto de descentralização federativa; é, acima de tudo, um manifesto.

É a evidência de que a inteligência brasileira, quando não é estrangulada pelo garrote da austeridade seletiva, insiste em germinar nos lugares onde a meritocracia costuma enxergar somente carência.

Porém, além da comemoração, o episódio nos força a um confronto desconfortável com o espelho.

Enquanto festejamos a ampliação de uma ilha de excelência, o restante do oceano educacional brasileiro batalha para não submergir sob o peso de uma mentalidade rentista que confunde investimento estratégico com despesa corrente.

Observar o ITA sendo estendido no Nordeste exige que olhemos, ao mesmo tempo, para o que ocorre do outro lado do planeta. Não é por acidente, nem por capricho do destino geopolítico, que a China acaba de superar os Estados Unidos em impacto e volume de pesquisa em ciência e tecnologia.

Conforme dados recentes do Nature Index e de classificações universitárias globais, como a da Times Higher Education, as universidades chinesas (outrora vistas com o desprezo reservado às réplicas baratas) agora lideram as áreas de engenharia, física e inteligência artificial.

O que Pequim compreendeu, e que nós teimamos em ignorar entre uma reunião de Copom e outra, é que a soberania no século XXI não se adquire da boa vontade internacional; ela se cultiva em laboratórios, se forja em salas de aula e, sobretudo, se financia com uma determinação que ignora o pânico histérico dos mercados financeiros diante de qualquer centavo aplicado no futuro humano.

A ascensão chinesa não foi um milagre, mas um projeto de engenharia social e política, que só um modelo socialista pode proporcionar.

Em duas gerações, a China converteu uma massa de camponeses em uma legião de engenheiros e cientistas.

Não o fez obedecendo à cartilha do consenso de Washington ou às preces dos “faria limers” locais, que enxergam no Estado um empecilho e na universidade pública um luxo dispensável.

Fez o contrário: transformou o capital intelectual no principal ativo de uma nação que almeja não apenas crescimento econômico, mas autonomia estratégica e paz social.

Enquanto o Brasil se enreda em discussões bizantinas sobre o “teto de gastos”, criação autofágica que trata a educação da mesma maneira que trata o custeio de uma mercearia, a China destina fatias crescentes do seu PIB à pesquisa de base, compreendendo que o custo da ignorância é infinitamente maior do que o déficit nominal de qualquer exercício fiscal.

No Brasil, contudo, somos persistentemente persuadidos de que nossa vocação natural é ser a “fazenda do mundo”. É uma tese sedutora para quem lucra com o dólar elevado e a exportação de commodities sem valor agregado.

Para essa elite, a universidade pública brasileira é, frequentemente, retratada como um reduto de ineficiência, formação de maconheiros ou um ralo de recursos.

Ignoram, propositalmente, que é nessas mesmas universidades federais, hoje sufocadas por cortes orçamentários recorrentes sob o pretexto da “responsabilidade fiscal”, que se produz a quase totalidade da ciência brasileira.

Segundo a CAPES e o CNPq, as instituições públicas respondem por mais de 90% da produção científica nacional.

Castigar essas instituições com cortes orçamentários não é uma medida de gestão; é um projeto de desmonte nacional, uma tentativa de nos manter eternamente como exportadores de soja e minério de ferro (e agora, de terras raras), condenados a importar a inteligência alheia em forma de softwares, medicamentos e tecnologias de defesa.

A chegada do ITA ao Ceará é um tapa nessa lógica. Por anos, os estudantes cearenses, oriundos em grande parte de escolas particulares do estado, dominaram as listas de aprovados no vestibular mais difícil do país.

A inteligência cearense já havia conquistado o ITA em São José dos Campos muito antes de o ITA conquistar Fortaleza. Esse fenômeno sociopolítico nos revela algo essencial: o talento é distribuído de forma democrática pela natureza, mas a oportunidade é concentrada de forma aristocrática pelo Estado e pelo capital.

Se o Ceará produz gênios da matemática em série, não é por uma mutação genética regional, mas por uma cultura de excelência acadêmica que, aliada a investimentos públicos e privados no ensino básico e médio, priorizou o aprendizado real em detrimento da simulação pedagógica.

Todavia, não podemos cair na armadilha do otimismo ingênuo. A expansão do ITA é uma vitória, sim, mas acontece em um contexto de terra arrasada para outras instituições.

Como conciliar a alegria de um novo campus tecnológico com o cenário de precariedade de universidades federais históricas, como a UFRJ ou a UFMG, que muitas vezes não possuem recursos para pagar a conta de luz ou manter laboratórios de ponta?

A “austeridade” converteu-se em uma divindade cruel que exige sacrifícios humanos — ou, neste caso, intelectuais.

É irônico e trágico que os mesmos setores que clamam por “inovação” e “produtividade” sejam os primeiros a aplaudir o contingenciamento de verbas para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Querem os frutos da macieira, mas insistem em cortar as raízes para economizar água.

Precisamos discutir o capital intelectual como um ativo de paz e autonomia. Em um mundo cada vez mais fragmentado, onde as cadeias de suprimentos se transformam em armas geopolíticas, um país que não produz tecnologia é um país refém.

A dependência tecnológica é a nova forma de colonialismo, e ela se instala sorrateiramente toda vez que um governo decide que investir em um pesquisador de doutorado é menos importante do que garantir o superávit primário para satisfazer os detentores da dívida pública.

A China, reitero, não caiu nessa cilada. O investimento chinês em ciência e tecnologia superou o dos Estados Unidos em áreas críticas porque eles entenderam que o desenvolvimento não é um destino, mas um processo de acumulação de conhecimento aplicado.

Aqui, porém, a mentalidade de “colônia” persiste. É o atavismo de uma elite que se sente mais à vontade em Miami do que em um campus universitário do interior do Nordeste.

Para esses setores, a ideia de um Brasil que projeta aviões, satélites e semicondutores soa como um delírio nacionalista, uma “interferência estatal” indevida. Eles preferem a segurança do rentismo, onde o dinheiro se multiplica sem o incômodo de precisar gerar emprego, tecnologia ou futuro.

É por isso que o “teto de gastos” e seus sucedâneos são defendidos com tanta ferocidade: eles são a garantia de que o Estado permanecerá pequeno para o cidadão e para a ciência, mas imenso para o serviço da dívida.

A proposta que se impõe, se quisermos de fato escapar dessa armadilha do subdesenvolvimento, é radical em sua obviedade: a revogação definitiva de todas as travas fiscais que pesam sobre o investimento em Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I).

É necessário retirar esses recursos da vala comum dos gastos primários e tratá-los como investimento de capital, tal como se faz com pontes ou rodovias, embora um laboratório de biotecnologia seja muito mais vital para o futuro do país do que qualquer viaduto.

Deveríamos, no mínimo, espelhar o percentual do PIB que a China e outras nações desenvolvidas dedicam à pesquisa de base. Sem isso, a inauguração do ITA no Ceará corre o risco de se tornar uma belíssima exceção que confirma a regra da nossa mediocridade planejada.

O que está em jogo não é apenas uma questão orçamentária; é uma disputa de ideias sobre o que desejamos ser como nação.

Queremos ser o país que exporta cérebros para a NASA e para as gigantes do Vale do Silício porque aqui eles não encontram condições de trabalho?

Ou queremos ser o país que oferece ao mundo soluções para a crise climática, para a saúde pública e para a energia limpa?

A educação para o desenvolvimento exige uma ruptura com a lógica da escassez imposta. Exige a coragem de afirmar que a vida, a inteligência e o futuro não cabem em uma planilha de Excel.

Ao olhar para os jovens que em breve ocuparão os bancos do ITA em Fortaleza, vejo não apenas futuros engenheiros, mas a possibilidade de um Brasil que finalmente se ergue da cadeira do “eterno país do futuro”.

No entanto, essa promessa só se cumprirá se tivermos a decência política de não sabotar o chão onde eles pisam. A lição que vem do Ceará é clara: o talento está lá, esperando apenas que o Estado pare de tratar a inteligência como um gasto supérfluo. A austeridade não pode ser o túmulo da inovação.

O mundo não vai esperar pelo Brasil. Enquanto debatemos se podemos ou não investir em nossas universidades sem “irritar o mercado”, o centro de gravidade do conhecimento global se desloca irreversivelmente para o Oriente.

A China não pediu licença aos seus credores para se tornar uma potência tecnológica; ela simplesmente decidiu que não seria mais um quintal do mundo. O ITA no Ceará é um sopro de esperança, um sinal de que ainda conhecemos o caminho. Mas precisamos de mais do que sinais; precisamos de uma política de Estado que compreenda que a ciência é o verdadeiro “ouro negro” deste século.

Encerro com uma provocação aos nossos arautos do fiscalismo: se a educação é cara, experimentem a ignorância.

Ela tem sido o nosso maior custo histórico, cobrado em juros de subdesenvolvimento, desigualdade e irrelevância internacional.

Furar o teto de gastos para investir em ciência não é um pecado fiscal; é um imperativo moral e um ato de sobrevivência nacional. Ou aprendemos essa lição com a urgência que o momento exige, ou continuaremos a ver nossos melhores quadros partindo para o exterior, enquanto nós ficamos aqui, sentados sobre sacos de soja, assistindo ao futuro passar por cima de nossas cabeças, em aviões que nós poderíamos ter construído.

•        Energia solar dispara globalmente sob liderança da China

A energia solar vem se expandindo mais rápido do que o esperado no início do século, num ritmo superior a qualquer outra fonte energética. A sua adoção é um elemento central dos planos de transição energética global, a fim de proteger o planeta das mudanças climáticas.

Antes, esta era considerada uma alternativa cara, usada somente em regiões remotas, viagens espaciais ou calculadoras de bolso. Mas hoje módulos solares fáceis de instalar e operar permitem gerar eletricidade barata ao redor do mundo.

A capacidade global de energia solar disparou na última década, passando de 228 gigawatts (GW) em 2015 para 2,9 mil GW em 2025 — o correspondente a 10% da matriz energética global, ultrapassando a energia nuclear (9%).

Se mantiver o ritmo atual, a capacidade global poderá atingir 9 mil GW até 2030, o suficiente para atender a mais de 20% da demanda energética global. Potências globais, entretanto, se mantêm dependentes dos combustíveis fósseis.

<><> China lidera o caminho

A China tem, de longe, a maior capacidade solar do mundo. O país instalou 315 GW de novos painéis em 2025, de acordo com a autoridade energética chinesa, elevando a capacidade total para cerca de 1,3 mil GW.

Mais de 80% de todos os painéis solares atualmente são produzidos na China. Dados da organização LowCarbonPower mostram que 11% da eletricidade do país agora vem da energia solar.

Ao longo da última década, a participação da energia a carvão — altamente poluente — caiu de 70% para 56%. Isso se deve, em grande parte, à forte expansão das energias renováveis no país, especialmente solar e eólica.

<><> União Europeia amplia rede solar

A União Europeia (UE), com 406 GW de capacidade de geração, ocupa o segundo lugar mundial na expansão da energia solar.

No bloco, a energia solar cobre cerca de 13% da demanda elétrica, enquanto o carvão atende a 9% — uma queda significativa em relação a 2015, quando ainda gerava um quarto da eletricidade da UE.

Na liderança europeia estão Grécia, Chipre, Espanha e Hungria, cada uma gerando mais de 20% de sua eletricidade a partir da energia solar.

A Alemanha, com menos horas de sol, atinge 18%. Com 119 GW, o país é o líder europeu em capacidade solar instalada, seguida pela Espanha, com 56 GW.

<><> EUA em terceiro lugar

Mesmo com as fontes renováveis dificultadas durante o governo de Donald Trump, os Estados Unidos ocupam o terceiro lugar mundial na expansão da energia solar.

Com 267 GW, os EUA conseguem suprir cerca de 8% de sua demanda elétrica total. Em 2015, esse valor era de 1%. Nos últimos dez anos, a participação do carvão caiu pela metade — de 34% em 2015 para 17% em 2025.

O presidente americano, entretanto, quer ressuscitar o carvão e proteger a indústria ligada aos combustiveis fósseis.

Além disso, os Estados Unidos são o maior produtor de petróleo e gás – em grande parte para exportação. Em 2023, estas duas fontes correspondiam, juntas, a quase três quartos da energia final consumida pelos americanos (excluindo o consumo do próprio setor energético e perdas de transformação), segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês).

<><> Crescimento em Índia, Paquistão e Brasil

A Índia, em quarto lugar com 136 GW, agora gera cerca de 8% de sua eletricidade para uma população de 1,45 bilhão de pessoas. O Japão aparece em quinto, com capacidade solar de 103 GW, cobrindo 11% de sua demanda elétrica.

O Brasil também está ampliando sua capacidade solar e agora consegue gerar cerca de 10% de seu fornecimento nacional de eletricidade. O país soma 22 GW de potência solar fiscalizada (ou seja, efetivamente instalada e em operação comercial verificada pela Agência Nacional de Energia Elétrica). Junto com hidrelétrica, eólica e biomassa, 88% da energia do Brasil vêm de fontes renováveis.

Em 2015, Paquistão e África do Sul produziam cada um menos de 1% de sua eletricidade a partir de painéis fotovoltaicos. Dez anos depois, o índice subiu para 20% e 10%, respectivamente.

<><> Preços vantajosos

Em apenas uma hora, a luz do sol que atinge a Terra fornece mais energia do que a humanidade precisaria durante um ano inteiro. Instalando painéis solares em menos de 1% da superfície do mundo, seria possível cobrir toda a demanda global de energia.

Outra vantagem é o progressivo barateamento. Módulos mais eficientes e a produção em massa reduziram os preços em cerca de 90%, o que significa que a energia solar é a forma mais barata de eletricidade em muitas partes do mundo.

Em regiões muito ensolaradas, grandes parques solares podem produzir eletricidade pelo equivalente a R$ 0,05 por quilowatt-hora.

A eletricidade de painéis solares instalados em telhados costuma ser significativamente mais barata do que a eletricidade da rede convencional e, em muitos países europeus, agora custa menos da metade do preço médio de eletricidade.

<><> Mais proeminência a caminho?

Em 2024, usinas com capacidade de 632 GW foram adicionadas à rede elétrica global. Do total, 72% eram energia solar, seguida pela eólica com 18%, gás com 4%, carvão com 3%, hidrelétrica com 2% e nuclear com 1%.

Diversas previsões subestimaram o crescimento da indústria solar. Em sua análise global anual de energia de 2020, a Agência Internacional de Energia estimou que a expansão solar mundial atingiria cerca de 120 GW em 2024. Mas 597 GW foram instalados naquele ano.

Especialistas agora acreditam que a energia solar eventualmente se tornará a fonte de energia mais importante do mundo. No entanto, ainda não se sabe quão rápida poderá ser a mudança.

Pesquisadores da Universidade de Tecnologia Lappeenranta-Lahti, na Finlândia, calcularam como poderia ser um suprimento de energia global economicamente eficiente. Com base em seu modelo, 76% da energia mundial viriam da solar. A energia eólica representaria outros 20%, com o restante vindo de hidrelétrica, biomassa e energia geotérmica.

 

Fonte: Viomundo/Dw Brasil

 

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