Roberto
Andrés: Tarifa Zero - Por que trava nas metrópoles?
O
Brasil vive um boom de Tarifa Zero. Já são 138 cidades no país com transporte
público gratuito todos os dias do ano para a população, onde vivem cerca de 8
milhões de pessoas. Esses números eram inimagináveis há cinco anos, quando
havia no país cerca de 40 cidades com a política, a maior parte de pequeno
porte.
Esse
crescimento se dá por dois fatores: contágio e cálculo. O contágio ocorre
quando um político ou gestor público conhece a experiência de outra cidade e
avalia os resultados, que têm sido bastante positivos. Em geral, o número de
passageiros nos ônibus cresce de três a quatro vezes. Com mais gente
circulando, a economia se movimenta. E o dinheiro que ia para a passagem vai
para comércio e serviços, gerando aumento de vendas e arrecadação dos
municípios. Ocorre também a redução de trânsito e congestionamentos, menos
gente faltando a consultas do SUS, maior frequência a cursos noturnos etc.
O
cálculo ocorre quando um político ou gestor público se depara com a demanda de
subsídio ao transporte. Desde a pandemia, o número de passageiros caiu muito –
e nunca se recuperou. A conta dos sistemas de transporte no Brasil, que fechava
a duras penas (com tarifas altas e ofertas precárias), passou a não fechar. Com
a queda de receita da tarifa, as concessionárias de ônibus passaram a demandar
expressivos subsídios das prefeituras. Nessa hora vem o cálculo: ao invés de
financiar grande parte da operação para mantê-la no estado atual, muitos
prefeitos perceberam que seria melhor financiar a operação inteira e extinguir
a tarifa.
Há,
ainda, um segundo cálculo nessa operação – o cálculo político. A medida é
popular e costuma ser bem avaliada nas cidades em que é implantada. Um estudo
do impacto eleitoral da Tarifa Zero foi apresentado em artigo que assinei com
os pesquisadores Daniel Santini e Letícia Birchal Domingues. Em resumo, a boa
avaliação da política parece ter tido efeito no último pleito. Os gestores
municipais que implementaram Tarifa Zero e tentaram reeleição em 2024 tiveram
89,1% de taxa de vitória, contra 81,25% da média nacional (Santini; Domingues;
Andrés, 2025).
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O contrassenso do vale-transporte
O
crescimento da Tarifa Zero, no entanto, se dá à despeito do quadro
institucional, que é desfavorável à medida e desincentiva a redução da tarifa.
Um dos principais pilares de financiamento do transporte público no país é a
contribuição de empregados e empregadores, com o vale-transporte. Mas a lei do
vale-transporte vincula a contribuição ao valor da tarifa, o que gera um
contrassenso – quanto mais as prefeituras cumprirem a Política Nacional de
Mobilidade Urbana (e praticarem uma tarifa módica), menos seus sistemas de
transporte arrecadam.
Quando
a tarifa é zerada, nossa lei faz com que o valor do vale-transporte seja também
zerado. Ou seja, as empresas deixam de contribuir, embora se beneficiem dos
impactos positivos da política. É evidente que o desenho de financiamento atual
representa um obstáculo para a implementação da Tarifa Zero, já que retira a
contribuição empresarial e faz com que as prefeituras tenham que arcar com todo
o custo.
Quando
se analisa o perfil das cidades que implementaram, fica evidente como o modelo
de financiamento limita as possibilidades de implementação. Com exceção de
Teresina, uma capital com mais de 900 mil habitantes que tem Tarifa Zero no
metrô, as demais cidades possuem menos de 400 mil habitantes. Em todas elas, as
prefeituras ofereceram o transporte gratuito utilizando apenas os recursos do
tesouro municipal, sem nenhuma fonte externa.
Isso é
possível porque em cidades dessa escala a estrutura do sistema de transporte é
limitada, e a Tarifa Zero custa de 1% a 3% do orçamento municipal. Em cidades
maiores, a demanda por transporte é exponencialmente maior, de modo que a fatia
do orçamento que seria necessária fica mais alta – em alguns casos, pode chegar
a 10% do orçamento da prefeitura.
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A proposta do Busão 0800
O
projeto de lei do Busão 0800, como foi apelidado, buscou solucionar esse
problema e criar uma forma de financiamento do transporte em grandes cidades. O
princípio da proposta é alterar a forma de contribuição das empresas, que hoje
é mal distribuída e com uma arrecadação muito aquém do potencial. Ao zerar a
tarifa, automaticamente o vale-transporte de todos os empregadores do município
fica também zerado. Assim, abrem-se condições políticas para que o município
implemente uma taxa para financiar o transporte público.
A Taxa
do Transporte Público tem uma série de vantagens sobre o vale-transporte. A
primeira é que ela teria um valor fixo, deixando de se vincular à tarifa. A
segunda é que ela seria cobrada de todos os entes empregadores da cidade (da
iniciativa privada e também entes públicos), de modo que a base arrecadatória
se ampliaria de forma considerável. Isso gera também uma distribuição mais
justa do financiamento do transporte (atualmente alguns setores intensivos em
mão de obra, como supermercados, bares e restaurantes, empresas de
terceirização etc., são sobrecarregados, enquanto outros contribuem pouco). Por
fim, a cobrança da taxa é operacionalmente mais simples para o setor
administrativo das empresas, especialmente as grandes, que possuem muitos
funcionários – há casos de empresas que terceirizam a gestão do
vale-transporte, para evitar fraudes.
O
projeto do Busão 0800 foi apresentado pela primeira vez em Belo Horizonte em
outubro de 2023, como uma iniciativa popular. Ele acabou não tramitando, e no
ano seguinte foram apresentados projetos similares em outras nove cidades.
Nenhum deles avançou, mas em fevereiro de 2025, enfrentando um contexto de
aumento tarifário, a vereadora Iza Lourença (PSOL) reformulou o projeto de lei
e apresentou novamente à Câmara de Vereadores da capital mineira. Em um momento
de desorganização da base do governo, a pressão nas redes sociais fez com que a
proposta chegasse a 22 assinaturas, alcançando mais da metade dos vereadores da
casa. Abriu-se aí uma janela de oportunidade para uma das maiores campanhas
pela Tarifa Zero já vistas em uma capital, que levou a um debate amplo na
cidade.
Durante
os oito meses de campanha do Busão 0800 em Belo Horizonte, entre fevereiro e
outubro de 2025, assumi, dentre as minhas funções na mobilização, articular
diálogos com o setor patronal da cidade. Foi um esforço significativo de
diálogo, buscando colocar na mesa com esses segmentos vereadores de diversos
campos políticos e mostrar como a proposta solucionaria problemas críticos do
deslocamento dos funcionários e clientes das empresas. Obtivemos endosso do
setor de bares e restaurantes e ao longo do processo conseguimos a adesão de
pessoas avulsas em outras entidades patronais.
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Reação
Até um
par de semanas antes da votação do projeto, o debate em BH seguia o que
acontece em outras cidades: a política de Tarifa Zero é tão positiva que os
oponentes são poucos. Se opunham publicamente, até esse momento, apenas o
prefeito, um par de vereadores do Partido Novo, e uma entidade patronal, a
FIEMG. Os principais argumentos contrários eram de que a taxa do transporte
público seria inconstitucional e que se estava criando um novo imposto para as
empresas, que poderiam fugir da cidade.
Embora
manuais de Direito Tributário descrevam o transporte urbano como exemplo típico
de serviço específico e divisível, houve dúvida se seria constitucional
estabelecer uma taxa municipal para seu financiamento. No município de Vargem
Grande Paulista, uma proposta similar apresentada em 2019 chegou a ser
derrubada em primeira instância. Recentemente, com o julgamento do tema 1282
pelo STF, a dúvida se dissipou, quando se autorizou taxa sobre propriedade de
veículos para custeio de ações de salvamento e resgate pelos bombeiros. A
situação é similar ao transporte, que pode ser financiado de forma similar
(Tavares, 2024).
Já a
questão da fuga de empresas foi objeto de um estudo realizado por economistas
da UFMG (Silva et al., 2025), que mostraram que o risco desse tipo de evasão
seria baixo. Primeiro, porque a taxa não significaria um gasto novo, mas a
substituição de um gasto existente com o vale-transporte. Segundo, porque o
aumento médio na folha salarial das empresas seria de menos de 1%. Terceiro,
porque 80% das empresas do município teriam menos de 10 funcionários, e
ficariam isentas da taxa. Por fim, as pessoas jurídicas que teriam que aumentar
seus gastos eram marcadas por alta rigidez locacional – ou seja, teriam poucos
incentivos para a migração. Com esses argumentos, fomos buscando conduzir o
debate junto ao setor empresarial.
Na
semana anterior à votação, que ocorreu no dia 3 de outubro, começou a se formar
um campo mais amplo de oposição ao projeto. A Prefeitura tomou a questão como
chave, e deu um ultimato aos vereadores: os que votassem a favor seriam
retaliados, como de fato ocorreu com exonerações no dia posterior à votação. A
FIEMG lançou um estudo com premissas equivocadas, que projetava um cenário
econômico negativo com a implementação da Tarifa Zero. Outras entidades
empresariais aderiram, e na véspera da votação enviaram cartas aos vereadores
pedindo para que votassem contra o projeto.
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Conflito distributivo e caminhos possíveis
Ao
final, o projeto da Tarifa Zero em BH acabou produzindo a divisão clássica da
luta de classes: de um lado a maioria da cidade favorável, com setores
organizados dos movimentos sociais, dos sindicatos e de estudantes mobilizando;
e de outro as entidades patronais contrárias, com apoio do prefeito. A
mobilização levou um público muito grande para a Câmara de Vereadores, com um
alto engajamento que não se via desde 2013. Mas a batalha foi vencida pelos
opositores do projeto, e doze vereadores que haviam assinado a proposta votaram
contra, enquanto escutavam do público no plenário o grito de “covardes”.
Até o
momento atual, o amplo consenso favorável à Tarifa Zero em cidades pequenas e
médias possui dois fatores principais: os resultados positivos da política e a
ausência de um conflito distributivo aparente, já que o financiamento vem sendo
absorvido pelos municípios. Em cidades a partir de 500 mil habitantes e sem
fontes especiais de recursos, o primeiro aspecto se mantém, mas o segundo não.
A necessidade de uma fonte externa de financiamento eleva a tensão do debate e
permite aos opositores ideológicos da Tarifa Zero constituírem um campo mais
robusto.
A
constatação não deve ser lida como um sinal de inviabilidade de propostas como
a do Busão 0800, mas de que nos casos em que há conflito distributivo o esforço
de implementação deve ser maior. É importante destacar que, no caso de Belo
Horizonte, dirigentes patronais que assinaram cartas contra a gratuidade do
transporte se posicionaram contra o interesse de muitos de seus associados, que
teriam aumento de vendas e redução de custos com vale-transporte. Disputar os
associados para que eles pressionem as entidades patronais parece ser um
caminho necessário para alterar a clivagem e enfraquecer a coalizão de oposição
à proposta.
• Paquistão anuncia tarifa zero no
transporte em meio à guerra
O
transporte público na capital do Paquistão e nas províncias mais populosas do
país serão gratuitos durante um mês, anunciaram membros do governo nesta
sexta-feira (03/04), após uma forte alta nos preços dos combustíveis devido à
guerra no Oriente Médio.
"Todo
o transporte público em Islabamad [capital do Paquistão] será gratuito para o
público em geral durante os próximos 30 dias, a partir de sábado (04/04)",
escreveu o ministro do Interior, Mohsin Naqvi, na rede X.
O
anúncio acontece após protestos de rua e o registro de longas filas nos postos
de gasolina. Nesta semana, o preço do diesel chegou a subir 54,9%, por litro, e
o da gasolina, 42,7%,, com está última alcançando 459 rúpias por litro (US$
1,65).
No
entanto, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, voltou atrás nos
aumentos noite desta sexta-feira, e anunciou que reduziria impostos e manteria
o preço da gasolina em 378 rúpias (US$ 1,36 dólar) por litro.
"Esta
redução será aplicável por pelo menos um mês", disse o premiê, em discurso
televisionado.
No
entanto, Sharif não baixou o preço do diesel, que será mantido em 520 rúpias
(US$ 1,87 ou R$ 9,6) por litro.
A
guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciada em 28 de
fevereiro, paralisou o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, via marítima
crucial por onde em circunstâncias normais transita a quinta parte do petróleo
mundial.
O
Paquistão importa petróleo principalmente da Arábia Saudita e dos Emirados
Árabes Unidos, com o combustível passando por Ormuz.
Fonte:
Outras Palavras/DW Brasil

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