Paulo
Kliass: Juros, cada vez mais juros. Até quando?
O Banco
Central (BC) divulgou recentemente seu Boletim mensal trazendo informações e
estatísticas a respeito da política fiscal do governo. Dentre as inúmeras
séries de dados apresentados pelo órgão, ganha atenção especial a parte
relativa às despesas financeiras. Ali estão presentes os dados que consolidam
os gastos realizados pelo governo federal com o pagamento de juros da dívida
pública.
Durante
o mês de fevereiro de 2026 esse total atingiu a marca de R$ 84 bilhões. Isso
significa que, ao longo do mês de Carnaval, foram direcionados aos detentores
de títulos emitidos pelo Tesouro Nacional aproximadamente R$ 4,7 bi em cada um
dos dias úteis do período. Ou seja, em apenas 7 dias de cumprimento religioso
deste tipo de obrigações financeiras o governo gastou o equivalente à sua meta
de superávit primário para o exercício todo de 2026: R$ 34,3 bi. Uma loucura!
O total
despendido com juros no segundo mês do ano foi 7% mais elevado do que o
realizado em fevereiro do ano passado, que havia registrado R$ 78 bi. Para
2026, trata-se do maior volume de tal rubrica para esse período do ano. Caso
seja considerado o primeiro bimestre, somando os dois primeiros meses do ano, a
diferença ainda é maior: no atual exercício foram R$ 148 bi, representando um
crescimento de 25% sobre os R$ 119 bi observados em 2025. Essa escalada no
crescimento do cumprimento das obrigações financeiras do endividamento público
já vinha sendo apontada como uma tendência desde bem antes.
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Despesas com juros – R$ bilhões (jan, fev, jan+fev 2024 e 2025)
Esse
movimento pode ser confirmado pelo acompanhamento dos últimos anos, quando o
crescimento dos encargos dos títulos de endividamento do Tesouro Nacional tem
sido bastante evidente.
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Despesas com Juros (R$ bilhões) – 2022/2025
O que
mais impressiona na coleta e divulgação de tais informações é o mais absoluto
silêncio dos porta vozes do financismo e dos analistas alinhados com a defesa
incondicional do neoliberalismo e da austeridade fiscal. Ora, é mais do que
sabido que as despesas com juros são gastos públicos e orçamentários como
qualquer outro. Se existe de fato alguma preocupação honesta e genuína com o
impacto macroeconômico dos dispêndios do governo federal, a avaliação deveria
ocorrer considerando o conjunto dos valores e não apenas aqueles que são
classificados como “primários”. Mas não é isso o que ocorre. Os arautos da
responsabilidade fiscal escolhem, de forma bastante criteriosa, os agregados de
despesas sobre os quais lançam seus ataques.
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Juros são despesas como as outras.
A
estratégia passa por pegar carona na metodologia antiga e ultrapassada,
concebida pelas instituições multilaterais com sede Washington ao longo das
décadas de 1970 e 1980, que privilegia a abordagem “primária”. De acordo com
tal instrumental de manuseio da contabilidade pública, a busca de austeridade
fiscal deveria se limitar às rubricas ditas “primárias”. Pelo manual adotado
pelo Consenso de Washington, o interesse deveria ser apenas o de obter
superávit “primário” nas contas governamentais. Isso significa que as despesas
financeiras não entram no cálculo, uma vez que esse tipo de gasto é o único
classificado como “não-primário”. Ou seja, trata-se de mera tautologia, uma
malandragem na manipulação das finanças públicas.
Partindo
de tal premissa equivocada e distorcedora da realidade da economia política, o
foco da busca de austeridade fiscal repousa nas demais contas orçamentárias, a
exemplo de saúde, educação, previdência social, segurança pública,
investimentos, salários de servidores, assistência social e outras. Apenas para
esse conjunto devem ser direcionadas medidas de ajuste, contenção e redução dos
valores. Já para as despesas financeiras, como é o caso de pagamento de juros
da dívida pública, não existem limites, nem tetos, nem resoluções de
contingenciamento. Para os gastos dirigidos aos compromissos da dívida pública,
o céu é o limite. Afinal, como enchem a boca para afirmar os defensores do
financismo dentro e fora do governo, “os contratos devem ser respeitados”. Isso
significa que, para este caso, não cabe a pérola mentirosa do “não temos
recursos”. O dinheiro sempre aparece da forma adequada e no volume que se fizer
necessário para satisfazer os interesses dos detentores de títulos da dívida
pública brasileira.
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Os recursos existem e são utilizados para pagar juros.
Já os
contratos sociais – boa parte deles derivados de obrigações constitucionais –
podem ser desrespeitados sem nenhuma cerimônia em nome da responsabilidade
fiscal. Neste caso, vale a retórica falaciosa do “não existem recursos” e sobre
as contas primárias recai impiedosamente o machado da austeridade fiscal. Basta
comparar os resultados do balanço fiscal primário e o balanço fiscal nominal.
Ambos são o resultado da comparação de despesas e receitas governamentais. No
entanto, todos os olhos se voltam apenas para o primário. Em 2024 e 2025, por
exemplo, o Ministro da Fazenda convenceu o Presidente da República a respeito
da necessidade de buscar o equilíbrio, o tal jargão de “zerar o déficit
primário”. Pois bem, foi realizado um grande esforço de contenção das contas
não-financeiras, com as consequências esperadas de piora na qualidade de vida
da maioria da população e de queda nos índices de aprovação de Lula.
Mas o
que aconteceu, de fato, foi a continuidade de um elevado índice de déficit
fiscal nominal, uma vez que os gastos com juros não apenas permaneceram em um
patamar elevado, como ainda aumentaram em volume. No entanto, a preocupação
desse pessoal – que se diz defensor do rigor no manuseio das contas públicas –
com algum suposto “equilíbrio fiscal” é apenas de fachada. Nada é dito ou
escrito a respeito do que fazer com a rubrica orçamentária mais deficitária de
todas – o pagamento de juros.
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Déficit nominal – % PIB
A
tendência é que esse indicador fique ainda mais elevado para o presente ano,
uma vez que o PIB deve crescer menos do que os 2,3% verificados em 2025 e o
volume de juros certamente vai aumentar ainda mais. Assim, por mais que o
governo se esforce para cumprir com o chamado “dever de casa” junto aos
representantes do sistema financeiro e arroche as contas para obter resultados
positivos no primário, o fato é que o déficit nominal vai continuar subindo por
conta da magnitude das despesas financeiras com o pagamento dos juros. O fato a
ser colocado em relevo é que a apresentação de déficits nominais elevados e
sucessivos não tem provocado a tal da “quebra” do Brasil, como costumam
apregoar os catastrofistas do financismo. Para esse pessoal, déficit fiscal para
pagar juros não é problema e não arrebenta as contas. Já um resultado fiscal
deficitário causado por despesas com políticas sociais voltadas à maioria da
população e programas da necessária recuperação do investimento público, aí –
sim – já é provocação, heresia e arrebenta o País.
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Acorda Lula: mudança urgente na orientação da economia.
Assim,
uma das principais medidas a serem adotadas por Lula em seu quarto mandato
seria a revogação definitiva das regras draconianas do Arcabouço Fiscal. Para
os próximos meses, a solução passa por flexibilizar provisoriamente as
limitações da austeridade, de maneira a obter condições de avançar em programas
emergenciais e urgentes que envolvam aumento de dotações orçamentárias em
programas de natureza social. Estamos a apenas seis meses das eleições
presidenciais e não bastam mais apenas promessas para o período 2027/30. A
gravidade da crise e o nível de desaprovação do governo exigem medidas
concretas para colocar dinheiro nas mãos e nas contas da população mais
carente.
Ou
seja, se governar é efetivamente estabelecer prioridades, já passou da hora de
Lula demonstrar de forma concreta essa mudança. Governar para a maioria do povo
e não somente para os endinheirados da Faria Lima e do topo de nossa vergonhosa
pirâmide da desigualdade social e econômica.
• Reindustrialização brasileira, esperança
e obstáculos. Por Antonio Prado
Há um
ciclo de sabotagem ao desenvolvimento brasileiro e da América Latina. Ciclo no
sentido de que há movimentos recorrentes que destroem avanços conquistados por
gerações. Não se trata aqui de atribuir uma conspiração ou má fé aos agentes do
atraso, não que estas não estejam presentes, mas a um modo de pensar, um jeito
de ser e de agir que nega as possibilidades do país.
Ouvi há
poucos dias um debate em que o professor L. G. Belluzzo revelava uma conversa
de Celso Furtado e Eugênio Gudin nos corredores da FGV-RJ. Nesta ocasião, Gudin
alertava Furtado de que a industrialização brasileira era fadada ao fracasso,
pois nossa cultura de negros e mestiços não gerava o ambiente adequado para
esta empreitada.
Gudin
trazia arraigada em sua mentalidade a noção racista da indolência dos rebentos
da miscigenação. É a ideia difundida pela piada derrotista de que Deus colocou
maravilhas naturais no Brasil, mas um povinho de amargar.
Esta
visão do desenvolvimento limitado ou potencializado pelos vícios ou virtudes
culturais e raciais esteve presente durante muito tempo no pensamento social e
econômico. Influenciou uma ideologia que negava a possibilidade do
desenvolvimento dos povos inferiores do hoje chamado Sul Global por suas
debilidades culturais intrínsecas. Ideologia sempre presente nas elites
brasileiras.
A luta
pelo desenvolvimento passa não apenas por superar o derrotismo típico das
elites, que preferem explorar e humilhar o próprio povo e usufruir da
modernidade de vitrine, mas impedir que esta elite do atraso sabote as
políticas que buscam nos tirar do berço esplêndido da sociedade
primário-exportadora, que teima em voltar de tempos em tempos.
A nova
política industrial, chamada de NIB – Nova Indústria Brasil, é uma importante
iniciativa para nos colocar de volta aos trilhos do desenvolvimento. Está bem
estruturada, mas deve superar vários obstáculos para ser bem sucedida.
O
primeiro já está bastante evidente: a sabotagem dos setores rentistas, que
mobilizam intelectuais, jornalistas e políticos para criticarem o que ainda nem
leram. Uma política industrial demanda uma mobilização social em sua defesa,
não deve e não pode ser apenas uma construção burocrática.
Esta
mobilização já vem da origem da própria política, elaborada no CNDI – Conselho
Nacional de Desenvolvimento Industrial, com a participação de vários
ministérios, Confederações de Empresários, Centrais Sindicais, Universidades e
Centros de Pesquisa. Este núcleo de elaboração pode e deve se tornar um núcleo
de difusão e defesa do conteúdo da nova política industrial.
O
segundo obstáculo é a prevalência da mentalidade equivocada de que equilíbrio
fiscal precede o estímulo ao investimento. Já sabemos, pela experiência do Lula
I e Lula II, que a sustentabilidade fiscal é resultado do crescimento econômico
e não o contrário. A obsessão por um déficit primário zero nos levará a
déficits negativos e a uma economia recessiva e não o contrário.
O
terceiro obstáculo é uma política monetária mal gerida que vem sustentando
taxas de juros reais altíssimas e que nos coloca num ciclo vicioso de baixas
taxas de investimento, produtividade decrescente e crescimento insustentável da
dívida pública, provocado pela própria política monetária. É necessário
interromper esta rota da insensatez. Estes grandes obstáculos precisam ser
superados, mas mesmo assim, a Nova Indústria Brasil tem por onde avançar.
Uma
política industrial deve considerar dois tipos de eficiências: a eficiência
keynesiana, que ocorre em mercados de demanda crescente e a eficiência
schumpeteriana, que ocorre em mercados com inovações de produtos, processos.
A NIB
pode ser muito promissora em algumas das suas missões que exploram a eficiência
keynesiana, particularmente aquelas que repousam sobre as compras públicas de
setores com orçamentos robustos. É o caso do complexo industrial da saúde, onde
o SUS garante demanda elevada e há um grande espaço para substituição de
importações.
O
Complexo Agroindustrial também pode dar bons resultados, considerando a demanda
internacional e a estrutura de crédito do setor, viabilizados pelo sistema de
bancos públicos, principalmente Banco do Brasil e BNDES. Chamam a atenção as
ações orientadas para a mecanização da agricultura familiar e o esforço para
implantar os princípios da economia circular, onde se pode agregar valor aos
resíduos da agricultura empresarial e agroindústria.
Na
infraestrutura urbana e gestão das cidades também há muito espaço para adoção
de novas tecnologias: eletrificação de transporte coletivo, adoção de energia
solar em conjuntos habitacionais, sensoreamento de serviços públicos, poluição
atmosférica, sonora, de águas e adoção de sistemas de gerenciamento de obras,
apoiados por inteligência artificial.
Há
também as possibilidades na área de defesa, onde o modelo de compras
governamentais já se mostrou bem sucedido, na indústria aeronáutica, naval e
metalúrgica.
As
dificuldades podem ser significativas quando se trata de eficiência
schumpeteriana. A adoção da chamada indústria 4.0 não é trivial. Neste caso, as
empresas podem continuar adotando o padrão que vem prevalecendo desde os anos
80 do século passado, o da inovação incremental, defensiva, sem grandes pacotes
de investimentos.
Há
oportunidades de grandes investimentos, principalmente na indústria
automobilística, já que há uma pressão mundial pela adoção de energias
alternativas, de baixa emissão de carbono. Mas, isto não significa uma adoção
massiva das tecnologias da indústria 4.0, pois podem ser necessárias apenas em
pontos específicos da cadeia produtiva.
O
grande obstáculo no avanço da indústria 4.0 está na política monetária
restritiva, que desestimula expectativas positivas de crescimento sustentado da
demanda e permite que as empresas fiquem muito confortáveis, valorizando sua
acumulação interna a uma taxa de juros real de 6 a 7% ao ano.
A
política fiscal também pode ser um obstáculo relevante, pois a expectativa de
cortes de gastos públicos para atingir o déficit zero deprime as decisões de
investimento e gera fortes incertezas para os investimentos.
Podemos
ver que há oportunidades reais para a implementação bem sucedida da Nova
Indústria Brasil e que, a depender da política macroeconômica, ela pode ter um
ritmo maior ou menor, mas há espaço para avanços, apesar do negacionismo
liberal.
Fonte:
Outras Palavras/Terapia Política

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