As
doenças antes incuráveis que estão ganhando tratamentos graças à IA
Há
cerca de um século, a humanidade vem perdendo lentamente a batalha contra as
bactérias.
Nossas
armas mais poderosas nesta luta são os antibióticos. Mas a resistência vem se
espalhando, fazendo com que eles se tornem cada vez menos eficazes.
Atualmente,
cerca de 1,1 milhão de pessoas morrem todos os anos de infecções que, até
recentemente, eram facilmente tratadas. E este número deve aumentar para mais
de oito milhões até 2050, a menos que sejam tomadas medidas urgentes.
Mas o
desenvolvimento de novos antibióticos é um processo lento, caro e frustrante.
Entre
2017 e 2022, apenas 12 novos antibióticos foram aprovados para uso. A maioria
deles é similar a tipos já existentes, aos quais as bactérias já estão
desenvolvendo resistência.
A falta
de financiamento e de interesse das companhias farmacêuticas fez com que este
campo fosse cronicamente negligenciado.
Mas,
agora, os pesquisadores estão tentando solucionar este problema. E alguns deles
apostam na inteligência artificial (IA) para ajudá-los.
"Em
questão de dias ou horas, podemos examinar imensas bibliotecas" de
compostos químicos para identificar quais exibem atividade
antibacteriana", afirma o professor de ciências e engenharia médica James
Collins, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês)
na cidade de Cambridge, nos Estados Unidos.
Com a
ajuda da IA, Collins e sua equipe já descobriram dois novos compostos que
poderão se tornar armas vitais contra a gonorreia e a Staphylococcus aureus
resistente à meticilina (SARM), duas infecções altamente resistentes aos
medicamentos atuais.
Este é
apenas um exemplo de como a IA vem abrindo uma nova era de descoberta de
medicamentos, que promete trazer progressos em relação a alguns dos problemas
médicos de mais difícil tratamento dos tempos atuais.
Os
cientistas, agora, empregam a IA para examinar condições sem cura conhecida,
como Parkinson, e milhares de doenças raras, na esperança de novas descobertas.
Collins
e sua equipe treinaram um modelo de IA generativa para reconhecer as estruturas
químicas de antibióticos conhecidos. Isso permitiu que o algoritmo aprendesse o
que causa a morte das bactérias.
Em
seguida, os pesquisadores usaram a IA para examinar mais de 45 milhões de
estruturas químicas diferentes, determinando sua capacidade de combater as
bactérias Neisseria gonorrhoeae, a causadora da gonorreia, e Staphylococcus
aureus, uma fonte significativa de infecções na forma de SARM.
Estas
duas bactérias são altamente resistentes às drogas. A gonorreia, por exemplo,
consegue escapar de quase todos os remédios usados para o seu tratamento.
Com
isso, o número de antibióticos disponíveis como último recurso contra cada uma
delas é cada vez menor. E o método empregado por Collins usa a IA para criar
compostos inteiramente novos para combatê-las.
Em uma
das técnicas, ele selecionou uma molécula como ponto de partida e empregou uma
combinação de técnicas de IA generativa para desenvolvê-la, "acrescentando
ligações, átomos e subestruturas", explica ele.
A cada
estágio crítico, o seu modelo de IA treinado avaliava o composto. "Este
composto se parece com um antibiótico? Está chegando perto de um possível
antibiótico?"
Outra
abordagem envolveu a eliminação do composto inicial, permitindo que a IA
navegasse livremente desde o princípio.
Desta
forma, Collins e seus colegas projetaram 36 milhões de compostos com uso
potencial contra as bactérias e selecionaram 24 deles para síntese em
laboratório.
Destes,
sete apresentaram alguma atividade antimicrobiana e dois foram altamente
eficazes para matar linhagens das duas bactérias resistentes a outros tipos de
antibióticos.
É
importante destacar que os compostos aparentemente atacam as bactérias de
formas diferentes dos antibióticos já existentes. Isso aumenta a esperança de
que eles venham a formar uma nova classe de medicamentos, capaz de superar as
defesas das bactérias resistentes a drogas.
As duas
substâncias se encontram atualmente em fase de testes.
Collins
e seu laboratório já haviam empregado a IA para descobrir outros compostos
antibióticos poderosos e inovadores, que matam uma ampla variedade de bactérias
resistentes aos tratamentos. Elas incluem Clostridium difficile, uma infecção
intestinal comum, e Mycobacterium tuberculosis, causadora da tuberculose.
Mas,
para algumas doenças, os pesquisadores não têm a possibilidade de partir de
remédios existentes para ajudá-los a descobrir novos tratamentos. Por isso,
eles precisam se basear nos conhecimentos existentes sobre a doença.
E, em
alguns casos, estes conhecimentos oferecem poucos pontos de partida.
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Progresso sobre Parkinson
A
doença de Parkinson foi identificada pela primeira vez em 1871. E, mais de dois
séculos depois, ainda não existe tratamento que reduza a sua progressão.
Existem
mais de 10 milhões de pacientes com Parkinson em todo o mundo e seu número vem
aumentando em países que enfrentam o envelhecimento da população.
No
Reino Unido, cerca de uma a cada 37 pessoas será diagnosticada em algum momento
da vida. Nos Estados Unidos, até um milhão de pessoas vivem atualmente com a
doença.
No
Brasil, estima-se que 200 mil pessoas sofram da doença de Parkinson, segundo o
Ministério da Saúde.
As
contínuas tentativas de tratamento de Parkinson foram marcadas pelo fracasso.
Parte do motivo é que ainda não conhecemos as causas da doença.
"Existem
debates sem fim sobre a origem da doença", segundo o professor de
biofísica Michele Vendruscolo, um dos diretores do Centro de Doenças Causadas
pelo Desdobramento Incorreto de Proteínas da Universidade de Cambridge, no
Reino Unido.
"Se
você for a uma conferência sobre Parkinson, ouvirá dezenas de hipóteses
diferentes, todas elas sendo ativamente pesquisadas", explica ele.
Isso
dificulta incrivelmente o desenvolvimento de um medicamento para evitar a
doença.
Existe
uma enorme quantidade de testes clínicos investigando diferentes hipóteses.
Mas, até o momento, não houve sucesso, segundo Vendruscolo.
"As
pessoas realmente estão confusas sobre qual deve ser o objetivo", afirma
ele. "E, mesmo se você souber qual é o alvo, costuma ser muito difícil
tentar atingi-lo."
Mas, em
2024, Vendruscolo e seus colegas publicaram um estudo empregando aprendizado de
máquina (uma forma de inteligência artificial) para buscar possíveis
medicamentos capazes de agir sobre os grupos de proteínas desdobradas
incorretamente no cérebro, encontradas em pacientes com Parkinson.
Acredita-se
que esses conjuntos de proteínas, conhecidos como corpos de Lewy, participem
dos estágios iniciais da neurodegeneração em pacientes com Parkinson,
eventualmente gerando sintomas que incluem tremores, lentidão de movimentos e
rigidez muscular.
Atualmente,
o tratamento mais eficaz contra o Parkinson é o medicamento levodopa, que ajuda
a melhorar os sintomas da doença. Mas ele também pode causar efeitos
colaterais, como movimentos involuntários.
Vendruscolo
trabalha para suspender a progressão da doença. Ele e sua equipe começaram com
um conjunto de compostos que já havia sido identificado como potencialmente
eficaz para o tratamento dos corpos de Lewy.
O
pesquisador alimentou esses compostos em um programa de aprendizado de máquina,
que extrapolou suas estruturas químicas para propor novos compostos que também
poderão ser eficazes.
Para o
tratamento de doenças neurodegenerativas, como Parkinson, os medicamentos
precisam ser suficientemente pequenos para poderem atravessar a barreira
hematoencefálica.
Mas,
mesmo se os cientistas restringirem sua caça às moléculas pequenas, "a
quantidade de opções ainda será gigantesca", explica Vendruscolo. "O
número de possíveis moléculas pequenas é muito maior que o número de átomos do
Universo."
O poder
da IA pode reduzir esta busca com muita rapidez.
"Podemos
analisar estes dados e fazer previsões muito precisas sobre a forma em que as
possíveis moléculas se unem ao alvo em escala impensável até alguns anos
atrás", segundo Vendruscolo.
Com os
métodos mais tradicionais, os cientistas podem selecionar cerca de um milhão de
moléculas em seis meses, ao custo de vários milhões de dólares.
"Agora,
você pode fazer o mesmo em poucos dias e selecionar bilhões de moléculas, ao
custo de alguns milhares de dólares", explica ele.
Os
compostos de Vendruscolo, sugeridos por IA, foram testados em laboratório.
"Nós
avaliamos quais dos candidatos realmente se ligam [aos corpos de Lewy] e
retroalimentamos esta informação para o programa de aprendizado de máquina,
para que ele possa aprender com seus próprios erros."
Por
fim, eles identificaram cinco novos compostos promissores com mais rapidez e
eficácia do que as técnicas convencionais.
Os
compostos identificados pela IA também foram muito mais inovadores que os
encontrados usando métodos de desenvolvimento mais tradicionais, segundo
Vendruscolo.
Agora,
os compostos estão passando por novos testes para determinar se, um dia, eles
poderão ser oferecidos como produtos terapêuticos para pacientes com Parkinson.
Vendruscolo
espera que a IA possa ajudar a suspender a doença de Parkinson antes do seu
início. Ele utiliza a tecnologia para encontrar moléculas pequenas que se
liguem às proteínas individuais que formam os corpos de Lewy, ainda no seu
estado normal.
"Se
pudermos estabilizar as proteínas nesta forma, evitaremos o Parkinson, o que é
melhor que sua cura", afirma ele.
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Novos usos para medicamentos antigos
O
tratamento de doenças nem sempre significa criar novos medicamentos.
O
professor de medicina David Fajgenbaum, da Universidade da Pensilvânia, nos
Estados Unidos, conseguiu salvar sua própria vida com um medicamento existente
que os médicos nunca teriam receitado para ele.
Aos 25
anos de idade, Fajgenbaum foi diagnosticado com um raro subtipo de um
transtorno conhecido como doença de Castleman, que aciona uma reação
imunológica, causando mau funcionamento do fígado, dos rins e da medula óssea.
Ele não
reagiu a nenhum dos tratamentos disponíveis e os médicos disseram que não
sabiam o que fazer.
Depois
de semanas de testes com seu próprio sangue, pesquisando a literatura médica e
tratando a si próprio como uma cobaia humana, ele acabou encontrando uma
possível salvação: um modesto medicamento chamado sirolimo, normalmente
administrado a pessoas que recebem doação de rins, para evitar a rejeição do
novo órgão.
Para
surpresa dos seus médicos, ele usou o medicamento e fez retroceder sua doença
de Castleman. Agora, ela está em remissão há mais de uma década.
A
experiência abriu seus olhos para o potencial existente nos milhares de
medicamentos que já passaram pelos extensos testes de segurança necessários
para sua comercialização. Adaptando essas drogas para outras condições, os
pacientes obtêm tratamentos que não seriam disponíveis de outra forma.
Em
2022, Fajgenbaum criou uma organização sem fins lucrativos chamada Every Cure.
Usando
aprendizado de máquina, ele compara milhares de medicamentos com milhares de
doenças. E os mais promissores são testados em laboratório ou enviados para
médicos dispostos a experimentar.
Faigenbaum
é o cientista mais conhecido a empregar a IA desta forma. Mas outros já estão
fazendo descobertas.
Na
Faculdade de Medicina Harvard, nos Estados Unidos, um modelo de IA encontrou
cerca de 8 mil substâncias aprovadas que poderão ser redirecionadas para tratar
17 mil doenças diferentes.
A IA
está se mostrando particularmente útil para encontrar tratamentos para doenças
raras, frequentemente ignoradas pelas indústrias farmacêuticas, devido à falta
de incentivo financeiro oferecido pela pequena quantidade de possíveis
pacientes.
O
redirecionamento de medicamentos existentes também oferece outra oportunidade.
Nos
últimos anos, a IA identificou o potencial de redirecionamento de tratamentos
existentes para condições raras, como o transtorno cromossômico conhecido como
síndrome de Pitt–Hopkins, a doença inflamatória chamada sarcoidose e um raro
tipo de câncer renal que aflige crianças jovens, o tumor de Wilms.
Pesquisadores
da Universidade McGill em Montreal, no Canadá, utilizaram IA recentemente para
redirecionar medicamentos para o tratamento de fibrose pulmonar idiopática
(FPI), uma rara e progressiva doença pulmonar, caracterizada por cicatrizes e
espessamento do tecido pulmonar.
Sua
técnica envolveu a modelagem da progressão da doença com um modelo de IA.
"As
doenças complexas, em sua maioria, são dirigidas por uma mudança anormal do
estado das células", segundo um dos pesquisadores, o professor assistente
Jun Ding, do Departamento de Medicina da Universidade McGill.
"Se
pudermos descobrir como a célula passou de saudável para anormal, talvez
possamos reverter ou retardar o processo", explica ele.
Em
primeiro lugar, os pesquisadores extraíram células pulmonares de participantes
saudáveis e pacientes em diferentes estágios de progressão da doença.
Eles
empregaram sequenciamento de DNA de alta resolução para gerar grande quantidade
de dados. Isso permitiu que eles observassem as mudanças das células ao longo
do curso da doença.
Em
seguida, eles construíram um modelo de IA generativa que simulasse o processo,
mapeando as transições de diversos estados e populações celulares, conforme o
avanço da enfermidade.
Durante
o processo, a IA também destacaria eventuais biomarcadores que poderiam ser
utilizados para diagnosticar a doença e possíveis objetivos terapêuticos.
"Chamamos
isso de sistema de doença virtual", segundo Ding.
Tradicionalmente,
os medicamentos são testados em animais ou em células humanas isoladas. Eles
pretendem usar este mesmo paradigma com a IA, basicamente simulando os efeitos
da FPI sobre as células virtuais.
"Os
pesquisadores podem então testar os impactos da aplicação de diferentes
substâncias para o modelo, sem grandes custos", explica ele.
No
estudo de McGill, a IA sugeriu oito possíveis opções de tratamento para FPI. E
um candidato promissor é um medicamento normalmente receitado para hipertensão,
o que oferece uma opção de baixo custo e comprovadamente segura.
Ding
afirma que a IA desenvolvida por ele e seus colegas também poderá ser empregada
para outras doenças, como tipos de câncer e condições pulmonares. Sua equipe
continua a aprimorar o modelo e diversificá-lo sob diferentes condições.
A FPI
teve outra inovação recente graças à IA.
A
empresa de descoberta de drogas por IA Insilico Medicine produziu uma possível
substância chamada rentosertib. E. Nos testes clínicos de fase 2, a substância
se mostrou promissora contra a FPI.
A
empresa usou IA para identificar possíveis fraquezas da doença e projetar um
medicamento que pudesse combatê-las. A esperança é que, se os testes forem bem
sucedidos, o medicamento possa estar disponível até o final da década.
A
Insilico Medicine não é a única. Outras empresas também buscam fazer avanços
médicos com IA, como a Terray, Isomorphic Labs, Recursion Pharmaceuticals e
Schrödinger.
"Acredito
que, nos próximos cinco a 10 anos, a maior parte do desenvolvimento de novos
medicamentos poderá ser orientada por IA ou até ser totalmente baseada em
IA", segundo Ding.
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Revolução limitada
Mas,
apesar dos avanços oferecidos pela IA, existem limitações.
Muitos
dos conjuntos de dados sobre medicamentos são de propriedade das empresas
farmacêuticas e de biotecnologia. Isso significa que eles não são disponíveis
ao público.
"Você
precisa obter os dados sobre as propriedades das substâncias, como absorção,
distribuição, excreção e toxicidade", segundo Collins. "Não temos
esses conjuntos de dados."
Atualmente,
a IA é mais útil no estágio de seleção inicial do processo de desenvolvimento
de medicamentos: a identificação de objetivos e a busca de moléculas para
atingir aquele propósito.
Estas
são apenas duas etapas do longo processo necessário para desenvolver novos
medicamentos, o que indica que pode levar algum tempo até que algum desses
possíveis tratamentos chegue aos pacientes, se é que isso irá acontecer.
"A
IA está revolucionando a descoberta de medicamentos", segundo Vendruscolo.
"Mas apenas de formas muito específicas."
Fonte:
BBC Future

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