SUS
em disputa: regionalização ou colapso
O Dia
Mundial da Saúde, celebrado em 7 de abril, impõe anualmente uma reflexão sobre
os desafios sanitários globais: das mudanças climáticas ao recrudescimento de
doenças negligenciadas, passando pelo envelhecimento populacional, pelas
sequelas das crises sanitárias recentes e pela escalada da violência no mundo.
Nesse contexto, em 2026, no Dia Internacional da Saúde, a Organização
Pan-Americana de Saúde reafirma a ciência e sustenta “Uma Só Saúde” como a
perspectiva para a saúde global.
Ao
aterrissarmos essas inquietações globais na realidade brasileira, deparamo-nos
com um desafio crônico e estrutural que ameaça a própria espinha dorsal do
Sistema Único de Saúde (SUS): a profunda fragmentação do cuidado e de sua
gestão.
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A ilusão do acesso pontual e a fragmentação
Apesar
dos inegáveis esforços de expansão da rede nas últimas décadas e da importância
do programa Agora Tem Especialistas, a realidade nos territórios mostra que a
simples disponibilidade de profissionais especializados não garante o direito à
saúde. De que adianta a consulta com um especialista se o paciente se perde no
labirinto de um sistema desconectado?
A
fragmentação transforma a jornada do usuário em um percurso errático. A
ausência de comunicação entre os níveis de atenção gera desperdício de
recursos, repetição desnecessária de exames e agravamento de quadros clínicos.
Esses quadros poderiam ser precocemente estabilizados nas Redes de Atenção à
Saúde (RAS) (MENDES, 2011; OPAS 2025).
A
inovadora proposta da Oferta de Cuidados Integrados (OCI) não pode ficar
restrita ao tempo de uma gestão, necessitando de muito mais que um mandato para
poder frutificar. É preciso reposicionar o planejamento territorial, que foi
sendo reduzido a processos de governança em contextos de efetiva privatização e
hegemonia de modelos caracterizados pela capacidade de sugar os recursos do
SUS.
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A inadiável “Reforma da Reforma Sanitária” e as regiões de saúde
Para
enfrentar esse cenário, torna-se impreterível o que pesquisadores têm chamado
de uma “reforma da reforma sanitária”. O modelo de municipalização autárquica,
que foi fundamental na gênese do SUS para descentralizar o poder, hoje cobra
seu preço. A imensa maioria dos municípios brasileiros é incapaz de sustentar,
sozinha, redes em seus diferentes níveis de atenção à saúde. É preciso repensar
a engenharia institucional do sistema.
Nesse
sentido, ganha força a urgência de redimensionar e institucionalizar as regiões
de saúde. Como há anos defende o sanitarista Gastão Wagner de Sousa Campos
(2007), a saída passa pela instituição de um ente regional gestor. A proposta
de criação de autarquias interfederativas regionais — com orçamento próprio,
corpo técnico qualificado e gestão compartilhada entre municípios, estado e
União — permitiria que as regiões deixassem de ser meras linhas em mapas
burocráticos para se tornarem os territórios vivos onde as redes operam de
forma integrada e resolutiva na lógica do público.
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O sanitarista como ator estratégico na gestão das redes
Contudo,
a operação dessa complexa engenharia de redes regionais demanda saberes
técnicos e políticos específicos. É nesse gargalo que o sanitarista emerge como
uma das soluções essenciais para a articulação do sistema. Historicamente
fundamental na construção do SUS, esse profissional teve sua atuação
recentemente respaldada pelo Decreto n.º 12.921, de 6 de abril de 2026, que
regulamentou a Lei n.º 14.725/2023 (BRASIL, 2026).
Ao
regulamentar a profissão, o Estado brasileiro reconhece que analisar, planejar,
coordenar e avaliar as engrenagens da saúde coletiva exige atividade
profissional específica. O sanitarista possui a formação vocacionada para atuar
na institucionalidade do SUS, traduzindo as necessidades epidemiológicas em
planejamento viável e garantindo que o cuidado transite de forma fluida entre a
atenção primária, os ambulatórios de especialidades e os hospitais (SOUSA et
al., 2021). Sem gestores formados para atuação em realidades complexas e
conflitivas, as autarquias regionais correriam o risco de reproduzir a mesma
fragmentação administrativa característica do modelo que tentam combater.
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O modelo de atenção em disputa, Cidadania e Bem Viver
A
mudança institucional e gerencial, contudo, é insuficiente se não for
acompanhada por uma disputa ferrenha pelo modelo de cuidado. O SUS precisa
reafirmar e materializar a Atenção Básica não como uma porta de entrada
estreita ou uma mera triagem, mas como a verdadeira ordenadora do cuidado e
coordenadora das linhas terapêuticas.
Se não
disputarmos politicamente e financeiramente esse modelo, o horizonte é sombrio.
Sem uma Atenção Básica robusta, os nossos equipamentos públicos correm o sério
risco de sofrerem uma mutação perversa. Em vez de atuarem na promoção da saúde,
esses espaços passarão a mimetizar o modelo hegemônico: tornar-se serviços
pontuais, de baixa resolutividade e voltados apenas para o alívio de sintomas
agudos. Esse modelo é coerente com a precarização do trabalho e, em cenário de
derrota, o SUS deixaria de responder às necessidades reais da população para
tornar-se responsivo somente à demanda do mercado da doença e da medicalização
da vida.
Ao
contrário, em um desejado e viável cenário de fortalecimento do SUS, o modelo
de atenção e gestão deve ser orientado pela perspectiva da Determinação Social
da Saúde. Isso inclui o aumento da capacidade para enfrentar diferentes
situações e formas de vulnerabilidade e a desigualdade no acesso em todos os
níveis de atenção. Em publicação recente, Heleno Correa Filho identifica
“velhos e novos adversários” do projeto democratizando do SUS e afirma que, no
período atual, ampliou-se o rol de atores que operam contra a Saúde Coletiva.
Essa constatação indica limitações na aposta política e institucional da saúde
única e, ao mesmo tempo, alerta para a complexidade dos processos de
planejamento e gestão da política de saúde.
O Dia
Mundial da Saúde deve nos lembrar que defender a integração regional, a gestão
qualificada, a centralidade da Atenção Básica é a única forma de garantir que a
saúde pública no Brasil continue sendo instrumento de cidadania ativa e a base
material para o bem viver.
Fonte:
Por Rafael Dall’Alba e Liane Beatriz Righi, em Outra Saúde

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