sexta-feira, 10 de abril de 2026

Guerra provoca emergência de saúde do Irã e fuga de médicos

Os ataques aéreos contra alvos militares e civis no Irã puseram sob pressão crescente não só o governo iraniano, mas também o frágil sistema de saúde do país, segundo múltiplos relatos.

Autoridades iranianas afirmam que muitas fábricas farmacêuticas e instalações médicas foram atingidas desde que os EUA e Israel lançaram sua campanha de bombardeios no fim de fevereiro. No início de abril, a Organização Mundial da Saúde (OMS) também confirmou que a fábrica da Tofigh Daru, usada para produzir medicamentos contra o câncer, estava entre as instalações danificadas pelos ataques.

Segundo o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, bombas também danificaram o Instituto Pasteur do país, um hospital psiquiátrico e outro hospital fora de Teerã. A organização verificou mais de 20 ataques contra o sistema de saúde iraniano, com pelo menos nove mortes, acrescentou Tedros.

Separadamente, mais de cem especialistas em direito internacional sediados nos EUA, incluindo professores de Harvard, Yale e Stanford, condenaram ataques aéreos que "atingiram escolas, instalações de saúde e casas" e citaram relatos do Crescente Vermelho Iraniano, que estima que 236 centros de saúde tenham sido bombardeados nas primeiras três semanas da guerra.

Em uma carta, os professores descreveram o ataque dos EUA e de Israel ao Irã como uma "clara violação da Carta das Nações Unidas" e disseram que a ação levanta "sérias preocupações sobre violações do direito internacional humanitário, incluindo possíveis crimes de guerra".

<><> O que Israel e Irã disseram sobre bombardeio de fabricante de medicamentos?

Após o bombardeio da Tofigh Daru no final de março, o vice-ministro da Saúde do Irã, Mehdi Pirsalehi, disse que a instalação foi alvo de um "ataque direto de míssil".

"A planta era uma das principais fabricantes de ingredientes ativos para medicamentos hospitalares e drogas cirúrgicas", afirmou. "Os ataques destruíram completamente as linhas de produção, assim como os departamentos de pesquisa e desenvolvimento."

Israel confirmou o ataque, mas disse que a Tofigh Daru usava seu status de empresa civil como "fachada", enquanto "fornecia sistematicamente produtos químicos" ao regime iraniano. Os militares israelenses afirmaram que os produtos incluíam fentanil, um anestésico que, usado fora do contexto medicinal, é uma droga altamente viciante e perigosa.

"A Tofigh Daru forneceu de forma consciente e sistemática essa substância letal à [Organização de Inovação e Pesquisa Defensiva do Irã], que a utilizou para conduzir pesquisas e desenvolvimento em armas químicas", alegou o Exército israelense.

Os relatos de ambos os lados do conflito não puderam ser verificados de forma independente. Em registros farmacêuticos internacionais, a Tofigh Daru é listada como fabricante de ingredientes farmacêuticos, incluindo medicamentos anestésicos e para o tratamento de câncer.

<><> Pacientes com câncer no Irã em perigo

A DW conversou com dois médicos e ativistas nascidos no Irã sobre os ataques ao sistema de saúde iraniano e as consequências para pacientes com doenças crônicas. As entrevistas foram realizadas antes do cessar-fogo de duas semanas acordado por EUA, Israel e Irã.

Segundo o médico Hassan Nayeb-Hashem, radicado em Viena e que deixou o Irã após a revolução de 1979, a Tofigh Daru produzia um amplo espectro de medicamentos essenciais.

"A fábrica era responsável por uma parte importante da produção do país e havia conseguido localizar com sucesso 50 ingredientes ativos estratégicos. Uma quantidade enorme de medicamentos desapareceu da cadeia de abastecimento interna devido aos ataques recentes", disse ele à DW. "É extremamente difícil obter esse volume do exterior nas circunstâncias atuais."

Nayeb-Hashem alertou que os atrasos na cadeia de suprimentos podem ter impacto imediato, especialmente em pacientes que já estão em tratamento.

Medicamentos contra o câncer estão entre as terapias mais caras no Irã, com custos equivalentes a um ou dois salários mensais. Os planos de saúde frequentemente se recusam a pagar por medicamentos importados, e muitos pacientes só têm acesso limitado aos remédios.

A destruição deliberada de instalações médicas e farmacêuticas constitui crime de guerra, segundo as Convenções de Genebra e as normas da OMS da ONU. Mas há exceções para casos individuais, se a instalação for usada para fins militares.

Hamid Hemmatpour, que também atua como médico em Viena, alerta que a destruição da indústria farmacêutica iraniana pode ser "o golpe fatal" para o sistema de saúde do país. "Em tempos de guerra, é quase impossível importar medicamentos de países como a Índia", afirma. 

Hemmatpour citou o caso de um paciente com câncer em Teerã que tentou obter remédios por meio da ONG iraniana Mahak. "Eles disseram a ele que nem mesmo os analgésicos mais simples ou medicamentos contra tontura [para pacientes em quimioterapia] estavam mais disponíveis. A emergência é grave."

<><> Guerra provoca fuga de médicos no Irã

Hemmatpour também apontou outra crise: a falta de médicos.

"Além da destruição física, muitos médicos e cirurgiões experientes não estão mais disponíveis ou não conseguem retornar ao Irã por razões de segurança", ressalta.

A eclosão da guerra fez com que muitos médicos com dupla nacionalidade deixassem o Irã cruzando a fronteira com a Armênia ou a Turquia, embora autoridades iranianas tenham conseguido impedir a saída de outros especialistas médicos do país. Muitos consultórios privados estão agora fechados em Teerã.

O resultado é uma sobrecarga massiva sobre os médicos que permaneceram. Em algumas partes de Teerã, um único médico atende de 200 a 300 pacientes por dia, segundo Hemmatpour. Fora da capital, a situação seria "muito pior".

"Tivemos o caso de um paciente que foi ferido durante os protestos nacionais [em janeiro] e precisava de várias cirurgias altamente especializadas. Ele foi transferido entre quatro cidades, mas acabou perdendo a perna. A maioria dos especialistas está localizada em grandes cidades como Teerã, Mashhad, Shiraz ou Isfahan — outras cidades sofrem com grave falta de profissionais."

O médico veterano e ativista Nayeb-Hashem alertou que as consequências da guerra provavelmente se estenderão para o futuro.

"A verdadeira tragédia é que, mesmo que a guerra termine hoje, o governo iraniano provavelmente reconstruiria primeiro as instalações militares — e não o sistema de saúde e a segurança da população."

¨     O que Israel busca na guerra no Líbano

Nas últimas semanas, Israel tem promovido intensos ataques aéreos contra posições do Hezbollah no Líbano, avançando por terra sobre parte do território do país vizinho. Na capital, Beirute, bombardeios israelenses atingiram áreas residenciais e deixaram mais de 200 mortos.

A ofensiva israelense, que ocorre paralelamente à guerra no Irã, foi deflagrada após a milícia xiita disparar mísseis contra Israel em apoio ao Irã, no início de março. 

A escalada marcou o fim definitivo de um frágil cessar-fogo que estava em vigor desde novembro de 2024.

Da perspectiva da liderança israelense, Tel Aviv não está apenas reagindo aos ataques, e sim perseguindo vários objetivos estratégicos — desde enfraquecer o Hezbollah e estabilizar a fronteira norte até conter a influência iraniana na região.

Mas, conforme Israel continua a expandir suas operações e a ordenar a explusão de centenas de milhares de pessoas, cresce o temor de uma nova ocupação de longo prazo do sul do Líbano.

<><> Hezbollah é considerado ameaça militar por Israel

Israel considera o Hezbollah uma das maiores ameaças militares ao país. Fontes de segurança afirmavam antes da guerra que o grupo era capaz de alcançar praticamente todo o território israelense com suas armas — o grupo xiita é classificado como organização terrorista por diversos países do Ocidente, possui um amplo arsenal de foguetes e uma estrutura militar relativamente bem organizada. 

O chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Eyal Zamir, declarou, segundo o jornal Haaretz, que Israel não encerrará a guerra enquanto a ameaça representada pelo Hezbollah não for eliminada. O objetivo é enfraquecer ou destruir, a longo prazo, as capacidades militares da milícia no Líbano.

O cientista político Peter Lintl, da Fundação Ciência e Política (SWP) em Berlim, vê nisso uma mudança na lógica militar israelense. "Essa é, de modo geral, a nova orientação estratégico-militar de Israel, que se desenvolveu após o 7 de outubro", afirma. O objetivo deixou de ser apenas conter os adversários e passou a ser "combatê-los de forma que deixem de representar qualquer perigo".

Mas Lintl considera improvável a eliminação total da organização, que é também um partido político com presença no Parlamento. "O Hezbollah está amplamente enraizado na sociedade e é parte da estrutura social libanesa." Não à toa ele disse à DW, em meados de março, considerar mais provável que Israel tentasse "estabelecer uma zona de segurança no sul e ocupar ali posições" do grupo.  

<><> Retorno de civis ao norte de Israel

Outro objetivo de Israel é estabilizar permanentemente a situação de segurança no norte do país. Desde os ataques terroristas do Hamas contra Israel em outubro de 2023 e os confrontos subsequentes com o Hezbollah, inúmeras localidades próximas à fronteira libanesa foram evacuadas, e dezenas de milhares de pessoas tiveram de deixar suas casas. Segundo o jornal Times of Israel, o governo israelense busca "o retorno seguro dos moradores do norte às suas casas".

Mas Lintl observa que se causar o maior dano possível ao Hezbollah pode dar tempo a Israel, não resolve de forma duradoura o problema político subjacente. "Não se pode bombardear uma ideologia política até fazê-la desaparecer", ressalta, apontando para a falta de uma proposta política para o Líbano.

<><> Enfraquecimento da rede de aliados iranianos

Israel também considera o Hezbollah parte de uma aliança regional maior sob a liderança do Irã. Além da milícia no Líbano, esse bloco inclui grupos pró-Irã no Iraque e na Síria, bem como os houthis no Iêmen. Segundo o jornal Jerusalem Post, o chefe do Estado-Maior israelense, Eyal Zamir, afirmou que Israel pretende eliminar a ameaça representada pelo "eixo xiita" liderado pelo Irã. Analistas israelenses argumentam que Teerã exerce sua influência na região por meio desses aliados e frequentemente trava seus conflitos com Israel de forma indireta, através desses grupos.

Para Lintl, Israel aproveitou a oportunidade, após os ataques do Hezbollah, para agir militarmente contra a milícia. "Todo Estado tem o interesse legítimo de proteger seus habitantes", pondera. Ao mesmo tempo, ele destaca que a proteção da população israelense frequentemente implica impactos massivos no Líbano: "A tentativa de criar uma zona de segurança significa, ao mesmo tempo, que dezenas de milhares de pessoas no sul do Líbano precisam ser evacuadas."

<><> Ocupação do sul do Líbano?

No final de março, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, anunciou planos para a criação de uma "zona-tampão defensiva" que vai desde a fronteira até o rio Litani, a 30 quilômetros dali, com a demolição em larga escala de casas e pontes na região, sinalizando uma possível ocupação de longo prazo de parte do território libanês.

"Ao final da operação, as Forças Armadas de Israel se estabelecerão em uma zona de segurança dentro do Líbano, em uma linha defensiva contra mísseis antitanque, e manterão o controle de segurança sobre toda a área até o rio Litani", disse Katz no fim de março.

Katz disse que aa ocupação vai durar até depois das operações contra o Hezbollah. O ministro não deu um prazo específico, mas disse que, no período, todas as casas de vilarejo na faixa do sul do Líbano perto da fronteira com Israel serão demolidas, seguindo um modelo adotado por Israel na Faixa de Gaza.

Pelos planos, os cerca de 600 mil civis libaneses que viviam ali não poderão retornar para suas casas até "que a segurança dos residentes de norte de Israel esteja garantida". Segundo Katz, essas centenas de milhares de libaneses deslocados serão "completamente impedidos" de retornar no período.

A remoção de civis do sul tem atingido especialmente xiitas, grupo étnico muçulmano que compõe a base de apoio do Hezbollah, informou o New York Times.

Na prática, a zona-tampão significa a ocupação de uma área equivalente a quase 10% do território libanês. O Hezbollah avisou que resistirá aos planos.

Israel acusa o governo libanês de não fazer "nada" para desarmar o grupo, embora uma confrontação direta pudesse levar o país à guerra civil.

Não seria a primeira vez que Israel abre a porta para uma ocupação de longo prazo do sul do Líbano. Isso já aconteceu de 1982 a 2000, com o nome de "zona de segurança". Na época, a ocupação foi encerrada pelo novo governo do então primeiro-ministro Ehud Barak, que havia feito da retirada uma promessa de campanha, em meio à crescente rejeição da opinião pública israelense à manutenção de tropas na região.

 

Fonte: DW Brasil

 

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