Guerra
provoca emergência de saúde do Irã e fuga de médicos
Os
ataques aéreos contra alvos militares e civis no Irã puseram sob pressão crescente não só o governo
iraniano, mas também o frágil sistema de saúde do país, segundo múltiplos
relatos.
Autoridades
iranianas afirmam que muitas fábricas farmacêuticas e instalações médicas foram
atingidas desde que os EUA e Israel lançaram sua campanha de bombardeios no fim
de fevereiro. No início de abril, a Organização Mundial da Saúde (OMS) também
confirmou que a fábrica da Tofigh Daru, usada para produzir medicamentos contra
o câncer, estava entre as instalações danificadas pelos ataques.
Segundo
o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, bombas também
danificaram o Instituto Pasteur do país, um hospital psiquiátrico e outro
hospital fora de Teerã. A organização verificou mais de 20 ataques contra o
sistema de saúde iraniano, com pelo menos nove mortes, acrescentou Tedros.
Separadamente,
mais de cem especialistas em direito internacional sediados nos EUA, incluindo
professores de Harvard, Yale e Stanford, condenaram ataques aéreos que
"atingiram escolas, instalações de saúde e casas" e citaram relatos
do Crescente Vermelho Iraniano, que estima que 236 centros de saúde tenham sido
bombardeados nas primeiras três semanas da guerra.
Em
uma carta, os professores descreveram o ataque dos EUA e de Israel
ao Irã como uma "clara violação da Carta das Nações Unidas" e
disseram que a ação levanta "sérias preocupações sobre violações do
direito internacional humanitário, incluindo possíveis crimes de guerra".
<><>
O que Israel e Irã disseram sobre bombardeio de fabricante de medicamentos?
Após o
bombardeio da Tofigh Daru no final de março, o vice-ministro da Saúde do Irã,
Mehdi Pirsalehi, disse que a instalação foi alvo de um "ataque direto de
míssil".
"A
planta era uma das principais fabricantes de ingredientes ativos para
medicamentos hospitalares e drogas cirúrgicas", afirmou. "Os ataques
destruíram completamente as linhas de produção, assim como os departamentos de
pesquisa e desenvolvimento."
Israel
confirmou o ataque, mas disse que a Tofigh Daru usava seu status de empresa
civil como "fachada", enquanto "fornecia sistematicamente
produtos químicos" ao regime iraniano. Os militares israelenses afirmaram
que os produtos incluíam fentanil, um anestésico que,
usado fora do contexto medicinal, é uma droga altamente viciante e perigosa.
"A
Tofigh Daru forneceu de forma consciente e sistemática essa substância letal à
[Organização de Inovação e Pesquisa Defensiva do Irã], que a utilizou para
conduzir pesquisas e desenvolvimento em armas químicas", alegou o Exército
israelense.
Os
relatos de ambos os lados do conflito não puderam ser verificados de forma
independente. Em registros farmacêuticos internacionais, a Tofigh Daru é
listada como fabricante de ingredientes farmacêuticos, incluindo medicamentos
anestésicos e para o tratamento de câncer.
<><>
Pacientes com câncer no Irã em perigo
A DW
conversou com dois médicos e ativistas nascidos no Irã sobre os ataques ao
sistema de saúde iraniano e as consequências para pacientes com doenças
crônicas. As entrevistas foram realizadas antes do cessar-fogo de duas semanas
acordado por EUA, Israel e Irã.
Segundo
o médico Hassan Nayeb-Hashem, radicado em Viena e que deixou o Irã após a revolução de 1979, a Tofigh Daru
produzia um amplo espectro de medicamentos essenciais.
"A
fábrica era responsável por uma parte importante da produção do país e havia
conseguido localizar com sucesso 50 ingredientes ativos estratégicos. Uma
quantidade enorme de medicamentos desapareceu da cadeia de abastecimento
interna devido aos ataques recentes", disse ele à DW. "É extremamente
difícil obter esse volume do exterior nas circunstâncias atuais."
Nayeb-Hashem
alertou que os atrasos na cadeia de suprimentos podem ter impacto imediato,
especialmente em pacientes que já estão em tratamento.
Medicamentos
contra o câncer estão entre as terapias mais caras no Irã, com custos
equivalentes a um ou dois salários mensais. Os planos de saúde frequentemente
se recusam a pagar por medicamentos importados, e muitos pacientes só têm
acesso limitado aos remédios.
A
destruição deliberada de instalações médicas e farmacêuticas constitui crime de
guerra, segundo as Convenções de Genebra e as normas da
OMS da ONU. Mas há exceções para casos individuais, se a instalação for usada
para fins militares.
Hamid
Hemmatpour, que também atua como médico em Viena, alerta que a destruição da
indústria farmacêutica iraniana pode ser "o golpe fatal" para o
sistema de saúde do país. "Em tempos de guerra, é quase impossível
importar medicamentos de países como a Índia", afirma.
Hemmatpour
citou o caso de um paciente com câncer em Teerã que tentou obter remédios por
meio da ONG iraniana Mahak. "Eles disseram a ele que nem mesmo os
analgésicos mais simples ou medicamentos contra tontura [para pacientes em
quimioterapia] estavam mais disponíveis. A emergência é grave."
<><>
Guerra provoca fuga de médicos no Irã
Hemmatpour
também apontou outra crise: a falta de médicos.
"Além
da destruição física, muitos médicos e cirurgiões experientes não estão mais
disponíveis ou não conseguem retornar ao Irã por razões de segurança",
ressalta.
A
eclosão da guerra fez com que muitos médicos com dupla nacionalidade deixassem
o Irã cruzando a fronteira com a Armênia ou a Turquia, embora autoridades
iranianas tenham conseguido impedir a saída de outros especialistas médicos do
país. Muitos consultórios privados estão agora fechados em Teerã.
O
resultado é uma sobrecarga massiva sobre os médicos que permaneceram. Em
algumas partes de Teerã, um único médico atende de 200 a 300 pacientes por dia,
segundo Hemmatpour. Fora da capital, a situação seria "muito pior".
"Tivemos
o caso de um paciente que foi ferido durante os protestos nacionais [em janeiro] e
precisava de várias cirurgias altamente especializadas. Ele foi transferido
entre quatro cidades, mas acabou perdendo a perna. A maioria dos especialistas
está localizada em grandes cidades como Teerã, Mashhad, Shiraz ou Isfahan — outras
cidades sofrem com grave falta de profissionais."
O
médico veterano e ativista Nayeb-Hashem alertou que as consequências da guerra
provavelmente se estenderão para o futuro.
"A
verdadeira tragédia é que, mesmo que a guerra termine hoje, o governo iraniano
provavelmente reconstruiria primeiro as instalações militares — e não o sistema
de saúde e a segurança da população."
¨ O que Israel busca na
guerra no Líbano
Nas
últimas semanas, Israel tem promovido
intensos ataques aéreos contra posições do Hezbollah no Líbano, avançando por terra
sobre parte do território do país vizinho. Na capital, Beirute,
bombardeios israelenses atingiram áreas residenciais e deixaram mais de
200 mortos.
A
ofensiva israelense, que ocorre paralelamente à guerra no Irã, foi deflagrada
após a milícia xiita disparar mísseis contra Israel em apoio ao Irã, no início
de março.
A
escalada marcou o fim definitivo de um frágil cessar-fogo que estava em
vigor desde novembro de 2024.
Da
perspectiva da liderança israelense, Tel Aviv não está apenas reagindo aos
ataques, e sim perseguindo vários objetivos estratégicos — desde enfraquecer o
Hezbollah e estabilizar a fronteira norte até conter a influência iraniana na
região.
Mas,
conforme Israel continua a expandir suas operações e a ordenar a explusão de
centenas de milhares de pessoas, cresce o temor de uma nova ocupação de longo
prazo do sul do Líbano.
<><>
Hezbollah é considerado ameaça militar por Israel
Israel
considera o Hezbollah uma das maiores ameaças militares ao país. Fontes de
segurança afirmavam antes da guerra que o grupo era capaz de alcançar
praticamente todo o território israelense com suas armas — o grupo xiita é
classificado como organização terrorista por diversos países do Ocidente,
possui um amplo arsenal de foguetes e uma estrutura militar relativamente bem
organizada.
O chefe
do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Eyal Zamir, declarou, segundo o
jornal Haaretz, que Israel não encerrará a guerra enquanto a ameaça
representada pelo Hezbollah não for eliminada. O objetivo é enfraquecer ou
destruir, a longo prazo, as capacidades militares da milícia no Líbano.
O
cientista político Peter Lintl, da Fundação Ciência e Política (SWP) em Berlim,
vê nisso uma mudança na lógica militar israelense. "Essa é, de modo geral,
a nova orientação estratégico-militar de Israel, que se desenvolveu após o 7 de
outubro", afirma. O objetivo deixou de ser apenas conter os adversários e
passou a ser "combatê-los de forma que deixem de representar qualquer
perigo".
Mas
Lintl considera improvável a eliminação total da organização, que é também um
partido político com presença no Parlamento. "O Hezbollah está amplamente
enraizado na sociedade e é parte da estrutura social libanesa." Não à toa
ele disse à DW, em meados de março, considerar mais provável que Israel
tentasse "estabelecer uma zona de segurança no sul e ocupar ali
posições" do grupo.
<><>
Retorno de civis ao norte de Israel
Outro
objetivo de Israel é estabilizar permanentemente a situação de segurança no
norte do país. Desde os ataques terroristas do Hamas contra Israel em outubro
de 2023 e os confrontos subsequentes com o Hezbollah, inúmeras localidades
próximas à fronteira libanesa foram evacuadas, e dezenas de milhares de pessoas
tiveram de deixar suas casas. Segundo o jornal Times of Israel, o
governo israelense busca "o retorno seguro dos moradores do norte às suas
casas".
Mas
Lintl observa que se causar o maior dano possível ao Hezbollah pode dar tempo a
Israel, não resolve de forma duradoura o problema político subjacente.
"Não se pode bombardear uma ideologia política até fazê-la
desaparecer", ressalta, apontando para a falta de uma proposta política
para o Líbano.
<><>
Enfraquecimento da rede de aliados iranianos
Israel
também considera o Hezbollah parte de uma aliança regional maior sob a
liderança do Irã.
Além da milícia no Líbano, esse bloco inclui grupos pró-Irã no Iraque e na
Síria, bem como os houthis no Iêmen. Segundo o jornal Jerusalem Post,
o chefe do Estado-Maior israelense, Eyal Zamir, afirmou que Israel pretende
eliminar a ameaça representada pelo "eixo xiita" liderado pelo Irã.
Analistas israelenses argumentam que Teerã exerce sua influência na região por
meio desses aliados e frequentemente trava seus conflitos com Israel de forma
indireta, através desses grupos.
Para
Lintl, Israel aproveitou a oportunidade, após os ataques do Hezbollah, para
agir militarmente contra a milícia. "Todo Estado tem o interesse legítimo
de proteger seus habitantes", pondera. Ao mesmo tempo, ele destaca que a
proteção da população israelense frequentemente implica impactos massivos no
Líbano: "A tentativa de criar uma zona de segurança significa, ao mesmo
tempo, que dezenas de milhares de pessoas no sul do Líbano precisam ser
evacuadas."
<><>
Ocupação do sul do Líbano?
No
final de março, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, anunciou planos
para a criação de uma "zona-tampão defensiva" que vai desde a
fronteira até o rio Litani, a 30 quilômetros dali, com a demolição em larga
escala de casas e pontes na região, sinalizando uma possível ocupação de longo
prazo de parte do território libanês.
"Ao
final da operação, as Forças Armadas de Israel se estabelecerão em uma zona de
segurança dentro do Líbano, em uma linha defensiva contra mísseis antitanque, e
manterão o controle de segurança sobre toda a área até o rio Litani",
disse Katz no fim de março.
Katz
disse que aa ocupação vai durar até depois das operações contra o Hezbollah. O
ministro não deu um prazo específico, mas disse que, no período, todas as casas
de vilarejo na faixa do sul do Líbano perto da fronteira com Israel serão
demolidas, seguindo um modelo adotado por Israel na Faixa de Gaza.
Pelos
planos, os cerca de 600 mil civis libaneses que viviam ali não poderão retornar
para suas casas até "que a segurança dos residentes de norte de
Israel esteja garantida". Segundo Katz, essas centenas de milhares de
libaneses deslocados serão "completamente impedidos" de retornar no
período.
A
remoção de civis do sul tem atingido especialmente xiitas, grupo étnico
muçulmano que compõe a base de apoio do Hezbollah, informou o New York
Times.
Na
prática, a zona-tampão significa a ocupação de uma área equivalente a quase 10%
do território libanês. O Hezbollah avisou que resistirá aos planos.
Israel
acusa o governo libanês de não fazer "nada" para desarmar o grupo,
embora uma confrontação direta pudesse levar o país à guerra civil.
Não
seria a primeira vez que Israel abre a porta para uma ocupação de longo prazo
do sul do Líbano. Isso já aconteceu de 1982 a 2000, com o nome de "zona de
segurança". Na época, a ocupação foi encerrada pelo novo governo do então
primeiro-ministro Ehud Barak, que havia feito da retirada uma promessa de
campanha, em meio à crescente rejeição da opinião pública israelense à
manutenção de tropas na região.
Fonte:
DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário