Guerra,
crise, preço dos combustíveis
Os
ataques irresponsáveis dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, além das
mortes desnecessárias de inocentes, provocam cataclismas nas economias do mundo
com choques de preços de combustível, fertilizantes e comida. As nações do
mundo se mobilizam contra a guerra e contra seus efeitos. É momento de guerra e
os instrumentos excepcionais precisam ser ferramentas para essas
circunstâncias. Aquelas dos tempos de paz não são suficientes.
Há
características especiais dessa guerra. Os atacantes Israel e os Estados Unidos
usam armas aéreas, sem soldados nos campos de batalha. Os ataques com mísseis,
drones e sistemas de defesa aéreo cortam os céus, se materializam em explosões
e destroem sistemas instalados em terra e no mar.
Os
iranianos respondem com mísseis, drones quase artesanais, lanchas de alta
velocidade escondidas em túneis, quase como uma guerrilha de tipo novo,
atacando Israel, bases norte-americanas na região e principalmente instalações
produtivas nas margens do Golfo Pérsico, afetando drasticamente as condições de
produção de gás natural e petróleo no Catar, Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes
Unidos e Arábia Saudita, países árabes aliados dos Estados Unidos.
Foram
atacados e danificados os campos de SouthPars, um dos maiores campos de gás do
mundo, na fronteira Catar-Irã, as unidades produtivas de gás natural do Catar,
o segundo maior produtor do mundo de GNL, as grandes refinarias da Arábia
Saudita e dos Emirados Árabes, impactando seriamente as condições de produção,
com longo período para recuperação, mesmo que a guerra termine imediatamente.
Além
dos efeitos sobre a produção do petróleo e do GN, há também efeitos sobre a
capacidade de produção de enxofre (cerca de 40% da oferta mundial provém dessa
região), afetando seriamente a precificação de ácido sulfúrico das indústrias
que o utilizam, como os fertilizantes potássicos e fosfóricos. Os nitrogenados,
parte do NPK, sofrem os impactos do aumento do gás natural, principal
matéria-prima para sua produção.
Ainda
mais, há o bloqueio do Estreito de Ormuz com minas, sistemas remotamente
controlados de explosão submarina e disposição de ataque por drones e mísseis
dos navios que tentem atravessá-lo, afetando de forma especial as rotas da
região para os países asiáticos, em especial Índia e China, que têm que buscar
fontes alternativas para o suprimento de suas refinarias e polos petroquímicos
com matéria-prima mais cara e mais distante. As companhias de seguro se recusam
a segurar os navios que ousarem passar pela região.
O
Brasil vem enfrentando a guerra com ferramentas de guerra. O governo federal
adotou medidas corajosas e corretas para minimizar os impactos da elevação dos
preços sobre o povo brasileiro. Cortou impostos, ampliou subsídios e subvenções
para estimular as importações de óleo diesel, GLP e QAV, financiando as
políticas com aumento do imposto sobre as exportações de petróleo cru. A
Petrobras está com suas refinarias a plena carga, não repassando para os preços
domésticos os aumentos mais recentes internacionais, aguardando a definição do
horizonte temporal dos ciclos de alta de preços internacionais.
O
governo também terá mais receitas de royalties e de IRPJ e dividendos com os
aumentos dos lucros da Petrobras e das empresas exportadoras de óleo cru, com
preços muito mais elevados pelo efeito da própria guerra. Muito do que será
perdido em oportunidades de preços ligados às variações internacionais dos
preços de derivados será compensado por aumento das receitas de exportações de
petróleo cru.
Isso,
no entanto, revela uma fragilidade estrutural na segurança energética do país.
Somos exportadores de petróleo cru, mas importamos cerca de um terço do nosso
diesel, um quinto da gasolina e GLP e uma grande parcela da oferta nacional de
QAV para os aviões.
O
mercado internacional desses produtos sofre modificações intensas. A Índia,
grande produtora de diesel para o mercado externo, tem de redirecionar suas
fontes de suprimento de petróleo. Os Estados Unidos não conseguem acelerar o
fluxo de petróleo da Venezuela para suas refinarias, mesmo com alta capacidade
de produção de diesel das refinarias norte-americanas, e a Rússia, isolada
pelas medidas de sanções por causa da guerra da Ucrânia, opera em mercados
clandestinos, com custos mais elevados, dificuldades de garantia de suprimento
e pouca qualidade de produto. Em suma, está mais difícil achar diesel no mundo.
No
Brasil ainda dependemos dessas importações. Isso porque não construímos
refinarias suficientes para nos tornarmos autossuficientes nessa transformação
do petróleo bruto em derivados. Isso foi uma opção política equivocada de
alguns (governos Temer e Bolsonaro) que acreditavam que o mercado externo, por
meio de nossas importações, seria suficiente para atender nossas necessidades
de derivados ou que acreditavam numa fábula fantasiosa de que não iríamos
precisar de mais derivados de petróleo em um horizonte perceptível. Pérfida
ilusão!
Agora
estamos pagando o preço por desviarmos os rumos de nossas políticas de
investimentos nos últimos 10-15 anos, parando a construção das nossas
refinarias, ampliando o papel dos importadores de derivados, principalmente
fornecidos, notem bem, pelos Estados Unidos, que têm capacidade produtiva
instalada desses derivados para atender seu mercado doméstico e exportar,
especialmente para a América Latina e África. Também importamos diesel da Índia
e da Rússia, mesmo que o primeiro encontre dificuldades para suprir suas
refinarias por causa do bloqueio do Estreito de Ormuz.
Vendemos
para o setor privado a segunda maior refinaria da Petrobras e a refinaria de
Manaus. Essa última se transforma em uma processadora de produtos importados,
deixando de refinar os derivados para a região Norte. A Petrobras também vendeu
os seus dois principais agentes para atuar no mercado de varejo de
combustíveis, chegando aos postos de serviços: a BR Distribuidora e a Liquigás.
Sem essas empresas, a Petrobras não tem como chegar aos consumidores diretos de
gasolina, diesel, GLP e QAV.
As
políticas do governo federal foram adequadas para uma resposta de curto prazo
ao choque de oferta que aumentou os preços no mundo inteiro, reduzindo as
variações de preços no Brasil. Porém, se os preços se mantiverem altos por
muito tempo, as condições fiscais e o caixa da Petrobras não terão condições de
suportar o cenário de guerra de longa duração que pode ocorrer.
Importar
mais caro e vender domesticamente mais barato só é possível no curto prazo. No
longo prazo, é necessário tomar medidas mais estruturais.
Em
primeiro lugar, reconhecer que o cenário é excepcional, de guerra! A culpa da
guerra é o ataque imperial dos Estados Unidos e de Israel. Queremos a paz!
Trump e Netanyahu são os guerreiros do apocalipse!
Em
segundo lugar, é preciso incorporar nas políticas de contenção dos preços
outros atores importantes. Os governos dos estados recebem ICMS, que pesa
significativamente no custo final do consumidor. No caso do GLP, vendido por R$
34-35 pelas refinarias e chegando nas casas por R$ 140-160, os estados capturam
R$ 18-19 por botijão de 13 litros. Há espaço para reduções no cenário de
guerra.
Há
também outros movimentos de mercado que precisam ser considerados. Não é
correto permitir que os importadores de diesel deixem de importar porque os
preços lá fora estão mais altos e tentem garantir o suprimento de seus clientes
comprando da Petrobras, no mercado doméstico, a preços menores do que os
internacionais, embolsando as margens.
Os
transportadores, revendedores e retalhistas, as chamadas TRRs que não podem
vender para os postos, mas que garantem o suprimento dos grandes consumidores
de diesel (frotas de caminhões, de ônibus e máquinas agrícolas), operando sem
contratos com as refinarias e com os importadores, operando no mercado spot,
acabam sendo grandes ganhadores das variações de margem nesse choque de oferta.
Há de
se considerar também as grandes distribuidoras, que se recusam a receber os
subsídios do governo para ajudar nas importações, porque acham que podem ganhar
mais, arbitrando no mercado a escassez relativa do produto que as refinarias,
operando a plena carga, não podem produzir para completar a demanda nacional
maior do que a capacidade de oferta nacional.
No que
se refere ao GLP, é preciso observar o incremento da demanda industrial em
substituição ao gás natural, mais caro. Esse movimento dos consumidores
industriais e não do uso domiciliar de gás de cozinha é o principal responsável
pelo aumento recente da demanda de GLP no mercado brasileiro. É preciso
restaurar as diferenças entre os botijões de 13 kg e os de 45 kg, mais
utilizados em usos industriais.
Por
fim, mais a longo prazo, é preciso reestabelecer a meta de segurança energética
do país de garantir o aumento do refino nacional para reduzir a nossa
dependência das importações. A Petrobras precisa aumentar sua capacidade de
refino e voltar ao varejo dos combustíveis líquidos e do GLP.
A
expansão do uso do biodiesel e do etanol, produtos brasileiros, misturados ao
diesel e à gasolina é uma solução parcial, não só porque seu custo unitário, em
termos de equivalência energética, é maior do que o dos combustíveis fósseis,
como seu aumento na mistura pode elevar os problemas de manutenção dos veículos
e impactar o uso da terra e o desmatamento, agravando os efeitos sobre as
mudanças climáticas.
Os
industriais também precisam contribuir para os esforços de governo, da
Petrobras e das petroleiras para evitar que o consumidor brasileiro sofra
unicamente os impactos da guerra insana dos Estados Unidos e Israel.
É um
momento de guerra. A contribuição de todos para evitar os impactos sobre os
mais necessitados tem que ser resultado de uma união nacional. O momento é
grave e se tornará ainda mais crítico quanto mais dure o conflito e quanto mais
ele destrua as capacidades produtivas do Golfo Pérsico. Essa crise pode ser
maior do que as primeiras crises do petróleo no início dos anos 1970. Lá, os
militares brasileiros fizeram o Proálcool, construíram as refinarias, ampliaram
as hidrelétricas e mantiveram o crescimento econômico. Com ditadura. Agora, com
democracia, o governo federal faz os esforços necessários para o momento, mas
não controla o futuro. É preciso que a Nação se prepare para momentos de crise
e de necessidades. Em guerra, há de se comportar como guerreiro.
Fonte:
Por José Sergio Gabrielli de Azevedo, no Le Monde

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