sexta-feira, 10 de abril de 2026

Assim Minas Gerais leiloa suas escolas

No último dia 30 de março, o governo de Minas Gerais realizou na B3 — a bolsa de valores de São Paulo — um leilão para concessão da infraestrutura de 95 escolas públicas estaduais por meio de um modelo de Parceria Público-Privada (PPP). O contrato prevê que um fundo de investimentos- IG4 – BTG Pactual Health Infra-assuma, por 25 anos, a gestão de serviços considerados “não pedagógicos” nas escolas (como manutenção predial, limpeza, segurança, alimentação, gestão energética e outros aspectos da infraestrutura). Segundo o governo estadual, agora sob o comando de Mateus Simões (PSD-MG), o objetivo da iniciativa seria modernizar a rede de ensino e ampliar a eficiência administrativa das escolas públicas. O principal argumento do governo mineiro é que a transferência dessas atividades ao setor privado permitiria maior racionalização dos gastos públicos, melhor manutenção dos prédios escolares e maior foco da equipe pedagógica nas atividades de ensino.

Em 2025, o governo de Tarcísio de Freitas, em São Paulo, adotou um modelo semelhante ao implementado em Minas Gerais ao realizar o leilão de concessão da gestão da infraestrutura de 33 escolas estaduais à iniciativa privada. O estado do Paraná, com o governador Ratinho Júnior, bem como outras experiências em Santa Maria (RS), Rio de Janeiro (RJ), Natal (RN) e Maceió (AL), têm seguido na mesma direção, inclusive com o financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do próprio Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). No artigo “A ‘blitzkrieg’ de Tarcísio contra a Educação”, publicado no portal Outras Palavras em 19 de abril de 2024, Nora Krawczyk e Márcia Jacomini analisaram os efeitos dessa e de outras políticas de caráter privatizante na rede pública paulista. Segundo as autoras, tais iniciativas articulam-se a um processo mais amplo de desresponsabilização do Estado pela educação pública.

Nos Estados Unidos o modelo das charters schools adota uma lógica semelhante, no qual organizações privadas passam a administrar escolas públicas com financiamento estatal e relativa autonomia pedagógica. Em ambos os casos, observa-se a introdução de mecanismos de mercado e de atores privados na administração de instituições financiadas com recursos públicos, sob o argumento de ampliar a eficiência e melhorar os resultados educacionais. No caso das charters schools, a gestão pedagógica e administrativa das escolas é transferida diretamente a organizações privadas; já no modelo mineiro de PPP adotado em MG, a concessão se concentrará na infraestrutura e nos serviços de apoio. Contudo, essa distinção tende a ser mais formal do que substantiva, uma vez que as condições materiais de funcionamento da escola — como manutenção predial, organização dos espaços, disponibilidade de equipamentos e número de trabalhadores de apoio — influenciam diretamente o cotidiano pedagógico.

Trata-se, portanto, de uma mudança significativa na racionalidade organizacional da educação pública, centrada em formas desregulamentadas de trabalho e alinhada às agendas defendidas por segmentos empresariais atuantes nas políticas educacionais brasileiras. Esse arranjo institucional pode ser interpretado como parte de um movimento mais amplo de privatização e empresariamento da educação, que progressivamente aproxima a gestão escolar da lógica de contratos, metas de desempenho e critérios de rentabilidade típicos das reformas educacionais orientadas pelo mercado.

<><> A Precarização estrutural e baixo investimento na educação mineira

Diversos indicadores apontam para um quadro persistente de subfinanciamento das escolas públicas mineiras. Boa parte das escolas públicas no estado não conta com laboratório de ciências (69%), salas de leituras (93%), quadra de esportes (28%) ou sala de atendimento especial (59%). Um levantamento realizado pelo Ministério Público de Minas Gerais, no âmbito do projeto Sede de Aprender, identificou que 42,7% das escolas públicas vistoriadas não possuíam sequer coleta de esgoto e 58% delas não tinham água potável certificada. Outro problema muito grave é o processo prolongado de precarização da carreira docente. Segundo dados do INEP (2024), Minas Gerais paga o segundo pior salário médio do país aos professores da rede pública estadual. Além disso, a possível redução do quadro de trabalhadores responsáveis pelo funcionamento cotidiano das escolas, com esse modelo de PPP, tende a piorar esse quadro. A demissão de milhares de auxiliares de serviços básicos (ASBs) compromete diretamente a manutenção e a limpeza das unidades escolares, agravando ainda mais as condições materiais de funcionamento do ensino.

Esse conjunto de fatores, portanto, nos faz sugerir que a precarização e o sucateamento da educação pública mineira não são fenômenos involuntários, pontuais ou reflexo da incompetência de “gestores” públicos, mas um projeto político que tenta articular a baixa qualidade da educação ao processo que justifica a privatização. E esse fenômeno traz inúmeros riscos.

<><> Privatização e captura do fundo público

A transferência da gestão da infraestrutura para fundos de investimento cria um mecanismo de transferência contínua de recursos públicos para agentes privados. Embora apresentada como uma solução administrativa, a PPP transforma parte do orçamento público educacional em fonte de remuneração para investidores financeiros. Nesse tipo de contrato, o Estado assume pagamentos periódicos à concessionária durante décadas — no caso de Minas Gerais, por 25 anos — o que significa comprometer parcelas do orçamento público educacional futuro com contratos de longo prazo com empresas que visam apenas o lucro.

<><> Descaracterização das finalidades da educação pública

Quando se introduzem formas de gestão inspiradas na lógica empresarial, corre-se o risco de subordinar a organização pedagógica da escola a critérios de eficiência econômica que não correspondem às finalidades educativas da instituição. A empresa capitalista organiza o trabalho segundo a lógica da produtividade e da redução de custos, enquanto o processo pedagógico depende de relações sociais cooperativas, condições materiais adequadas e participação democrática da comunidade escolar. O professor e pesquisador aposentado da Faculdade de Educação da USP, Vitor Henrique Paro, argumenta que a administração das escolas públicas deve ser compreendida como um processo de mediação entre os meios disponíveis e os fins da educação. No caso da escola pública, o fim da instituição é sempre a formação humana, científica e cultural dos estudantes, e não a geração de lucro.

Embora os defensores da PPP afirmem que a concessão não interfere na gestão pedagógica, a infraestrutura escolar está diretamente ligada às condições concretas do processo educativo. Decisões administrativas aparentemente técnicas — como número de funcionários de limpeza, manutenção predial, controle de custos operacionais ou gestão de espaços escolares — podem afetar diretamente a organização do tempo escolar, as condições de trabalho de professores e gestores e o ambiente de aprendizagem dos estudantes. Suponhamos que uma escola, incluída no contrato de PPP, tenha sua manutenção e serviços de apoio administrados pela concessionária responsável pela infraestrutura. Como é costumeiro em casos envolvendo modelos de PPP, para manter a rentabilidade do contrato, a empresa privada decide reduzir o número de trabalhadores responsáveis pela limpeza e manutenção predial. Com menos funcionários disponíveis, tendem a surgir problemas cotidianos: salas permanecem sem limpeza adequada, equipamentos demoram mais para ser consertados e espaços pedagógicos — como laboratórios ou bibliotecas — passam a funcionar de maneira irregular. Em pouco tempo, diretores e professores precisarão dedicar parte de seu tempo de trabalho à solução desses problemas operacionais não resolvidos, desviando a atenção de suas outras funções escolares. Assim, embora a decisão tenha sido tomada no âmbito da gestão da infraestrutura, seus efeitos recaem diretamente sobre o cotidiano escolar e sobre o processo de ensino e aprendizagem. Assim, a separação rígida entre infraestrutura e pedagogia, frequentemente utilizada para justificar as PPPs, tende a ser artificial na prática. As condições materiais da escola fazem parte do próprio processo educativo.

<><> PPP e a agenda dos “reformadores empresariais da educação”

O ex-governador de MG, Romeu Zema, eleito pelo Partido Novo, sempre defendeu publicamente a ampliação de modelos de gestão baseados em parcerias público-privadas, terceirizações e mecanismos de suposta eficiência administrativa inspirados no setor privado. O atual governador, Mateus Simões, bem como o seu secretário de educação, Rossieli Soares, têm desempenhado papel central na implementação das políticas privatistas na educação. A concessão da infraestrutura de escolas públicas por meio de PPPs pode, portanto, ser interpretada como parte de um movimento mais amplo de introdução da lógica empresarial na gestão da educação pública, alinhado às propostas defendidas por fundações empresariais e grupos que atuam na formulação de políticas educacionais no Brasil. O professor e pesquisador Luiz Carlos de Freitas estuda esse fenômeno desde pelo menos o início dos anos 2000 e classifica essas tendências como parte da agenda dos “reformadores empresariais da educação”.

Embora defendidas como instrumentos de inovação e da qualidade educacional, pesquisas empíricas indicam resultados acadêmicos problemáticos para modelos de escolas sob concessão e, em muitos casos, não superiores aos das escolas públicas tradicionais. Diversos estudos apontam problemas estruturais associados a essa política, como intensificação da segregação socioeconômica e racial entre estudantes, precarização das condições de trabalho docente, redução da transparência na gestão de recursos públicos e ampliação da presença de organizações empresariais na administração escolar. Parte dessas evidências já foram publicadas neste portal em 2023, no artigo “Educação: lobby pela terceirização volta à cena”.

Quando escolas operam com infraestrutura deteriorada, falta de investimentos e desvalorização dos profissionais da educação, propostas baseadas na lógica empresarial passam a ser apresentadas como alternativas inevitáveis. Entretanto, ao transferir a gestão da infraestrutura escolar para fundos de investimento, o Estado não resolve o problema estrutural do subfinanciamento da educação pública. Pelo contrário, cria-se um mecanismo permanente de remuneração do capital privado com recursos públicos destinados à educação.

Eis a pergunta central que deve orientar este debate: a quem interessa o sucateamento da escola pública? Se a deterioração das condições de ensino abre espaço para a expansão de contratos privados financiados pelo Estado, a precarização deixa de ser apenas um problema administrativo e passa a desempenhar uma função política. Ela cria as condições para transformar o direito à educação em oportunidade de negócio para empresários.

Defender a escola pública, nesse contexto, significa reafirmar um princípio fundamental da democracia: a educação é um direito social e deve ser garantida prioritariamente pelo poder público, com investimento adequado, gestão pública e controle social.

 

Fonte: Por Nora Krawczyk e Cássio José de Oliveira Silva, em Outras Palavras

 

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