sexta-feira, 10 de abril de 2026

Matheus Pereira: O Brasil como baluarte das terras-raras

No subsolo, a disputa geopolítica contemporânea é medida, para além da soberania óbvia do território, pela capacidade de controlar os fluxos de matéria que sustentam a indústria, a defesa e a própria arquitetura do poder tecnológico já que não é a posse do recurso que define a autonomia, mas o domínio sobre sua transformação, circulação e uso estratégico. E é aqui que se situa uma das pautas políticas mais importantes do nosso tempo: definir o que captura valor, quem controla as etapas críticas da cadeia produtiva, e, em última instância, o que decide o destino estratégico que sustenta o século XXI. Isso porque o cenário geopolítico contemporâneo é marcado pela transição energética e pela intensificação da disputa tecnológica. Os chamados Elementos de Terras-Raras, um conjunto de dezessete metais críticos, assumem papel central e são frequentemente considerados o petróleo do século XXI. Essenciais para a produção de mísseis guiados, satélites, veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas avançados de comunicação, esses recursos determinam a autonomia industrial e militar das nações. Num contexto em que a digitalização é sinônima de socialização, o controle sobre esses insumos deixa de ser apenas uma questão industrial e passa a estruturar as condições de organização da vida coletiva, da circulação de informação e da capacidade de intervenção política no mundo contemporâneo.

Ao contrário da narrativa difundida por alguns setores estratégicos dos Estados Unidos, que sugere uma hegemonia natural nesse campo, o Brasil ocupa uma posição de destaque incontornável. Dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos e da Agência Nacional de Mineração indicam que o país possui a segunda maior reserva mundial de terras-raras, com cerca de 21 milhões de toneladas métricas de óxidos contidos, ficando atrás apenas da China, que detém de aproximadamente 44 milhões de toneladas. No entanto, números mais ousados apresentam um volume de aproximadamente 95 milhões de toneladas apenas no depósito do Araxá.

O depósito de Araxá, por exemplo, explorado pela Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, já é reconhecido mundialmente pela produção de nióbio, recurso do qual o Brasil detém a maior parte das reservas globais. A associação entre nióbio e terras-raras reforça a posição estratégica do país na cadeia de suprimentos de materiais essenciais para a metalurgia de alta performance, conferindo ao Brasil um papel central no fornecimento desses insumos.

Essa relevância não se limita ao volume, mas também envolve a qualidade das reservas e sua localização estratégica: enquanto os Estados Unidos enfrentam limitações em suas reservas e dependem de cadeias logísticas e de refino complexas e ambientalmente problemáticas, o Brasil dispõe de um patrimônio geológico concentrado em regiões como o previamente citado Maciço de Araxá, em Minas Gerais, mas também a Província Estanífera de Goiás e o expressivo potencial da região do projeto Calha Norte, na Amazônia.

Historicamente, os Estados Unidos têm tratado a América Latina como uma zona de interesse extrativista, e o Brasil não foge a essa lógica. Proclamada em 1823, a Doutrina Monroe afirmava que o continente americano deveria permanecer sob a influência dos Estados Unidos, afastando intervenções europeias. Hoje, ela ressurge sob novas formas, frequentemente disfarçada de parcerias comerciais ou acordos de segurança. No entanto, sob essa perspectiva, o Brasil é muitas vezes visto não como um parceiro estratégico, mas como fornecedor de matérias-primas e potencial concorrente a ser contido.

A criação de iniciativas como a Minerals Security Partnership evidencia a tentativa de organizar e influenciar o mercado global de minerais críticos, estabelecendo diretrizes de extração e comercialização. A Casa Branca, por exemplo, recentemente declarou que a dependência externa, sobretudo no estágio de processamento, configura uma vulnerabilidade direta à segurança nacional norte-americana ao passo que setores estratégicos como o de defesa, energia e telecomunicações passam a estar expostos à riscos de interrupção. Em resposta, Washington tem articulado “acordos” com países como o Brasil, visando assegurar o monopólio sobre as cadeias de suprimento desses recursos. Nesse arranjo, há o risco de o Brasil ser inserido como mero exportador de insumos, sem participação significativa nas etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva. A troca é clara: assegurar a infraestrutura americana tem como custo direto o futuro do nosso país ao passo que substituímos a possibilidade de construção de uma cadeia industrial própria por uma inserção subordinada como fornecedores de insumos, deslocando para fora as etapas de maior valor agregado e, com elas, a capacidade de decisão sobre o uso estratégico desses recursos.

É esse o interesse de Flávio Bolsonaro, candidato à presidência da República agora nas eleições de 2026. Na Conservative Political Action Conference, ele reconheceu que o Brasil seria a solução para os Estados Unidos continuarem a ter minerais de terras-raras, e que esses recursos seriam centrais para a manutenção de sua superioridade tecnológica e militar. Flávio naturaliza a inserção subordinada do país em uma cadeia produtiva definida externamente enquanto rejeita qualquer projeto de soberania mineral que articule desenvolvimento industrial interno e controle estratégico sobre esses recursos.

À despeito destes setores subordinados, o país tem avançado no processo de verticalização industrial, buscando superar o modelo tradicional de exportação de minério bruto. Projetos como os desenvolvidos por exemplo pela Mineração Serra Verde, em Minaçu (GO), e por empresas internacionais com atuação no Brasil indicam um movimento concreto em direção ao refino e à industrialização doméstica das terras-raras, o que fortalece a soberania econômica e tecnológica nacional. O Serra Verde, neste caso, já opera em escala comercial produzindo concentrados de terras-raras a partir de argilas iônicas, incorporando no próprio território etapas de beneficiamento e separação inicial desses elementos. E, ainda que o produto final seja, por ora, um concentrado (e não terras-raras totalmente refinadas), o projeto representa uma inflexão relevante, ao internalizar parte da cadeia produtiva e reduzir a dependência exclusiva da exportação de minério bruto, ao mesmo tempo em que posiciona o Brasil como fornecedor ativo em mercados estratégicos fora do eixo asiático.

Diante desse panorama, a defesa da soberania sobre os recursos minerais torna-se uma questão estratégica de primeira ordem. A Constituição Federal assegura que os recursos do subsolo pertencem à União, o que reforça a necessidade de políticas que garantam o controle nacional sobre sua exploração. A experiência internacional mostra que países que dominam etapas críticas da cadeia produtiva, como o refino, possuem maior capacidade de influenciar o mercado global.

Cabe ao Brasil estabelecer diretrizes claras que impeçam práticas contratuais desfavoráveis, pressões externas ou qualquer forma de ingerência que comprometa seus interesses estratégicos. A gestão desses recursos deve estar alinhada ao desenvolvimento industrial interno, à inovação tecnológica e à geração de valor agregado dentro do próprio território nacional. Abrir mão desse controle vai além de perder dinheiro, ou renunciar a algum tipo de vantagem econômica. É consentir à marginalização no sistema de poder que hoje define o século XXI.

•        Tecnologia, geopolítica e desenvolvimento. Por Pedro Paulo Zahluth Bastos

Como superar os desafios estruturais que um programa desenvolvimentista enfrenta no Brasil contemporâneo? Minha contribuição aqui busca articular duas dimensões desse desafio: primeiro, as restrições domésticas impostas pelo arcabouço fiscal à execução de uma política econômica desenvolvimentista; segundo, as oportunidades abertas pela reconfiguração geopolítica global, particularmente a rivalidade sino-americana, que criam condições históricas para uma estratégia de autonomia tecnológica e reindustrialização.

Meu argumento central é que essas duas dimensões estão intrinsecamente conectadas: sem reformar as amarras fiscais que inviabilizam investimentos públicos estratégicos, o Brasil permanecerá incapaz de aproveitar a janela geopolítica que se abre. Nas eleições de 2026, a esquerda não pode prometer “menos do mesmo”: precisa demonstrar sua capacidade de propor mais e melhores políticas públicas que dialoguem inclusive com os grupos sociais resistentes ao governo Lula.

<><> A armadilha da austeridade permanente

O chamado “arcabouço fiscal” ou “regime fiscal sustentável” representa a continuidade, sob nova roupagem, da lógica da austeridade que domina a política econômica brasileira pelo menos desde 2015. Embora apresentado como mais flexível que o teto de gastos de Michel Temer, o novo regime mantém o essencial: a subordinação da política fiscal a metas de resultado primário e a limitação do crescimento das despesas primárias a um teto móvel vinculado a 70% do crescimento da receita, com crescimento real máximo de 2,5% ao ano.

As consequências dessa arquitetura institucional são evidentes (BASTOS, 2023a, b). Primeiro, ela perpetua a compressão dos investimentos da União. Entre 2010 e 2014, o investimento do governo central rodou a 0,68% do PIB. Na média de 2023 e 2024, ficou em 0,305%, subindo pouco em relação à média do período 2019-2022, 0,29% (PIRES, 2025). O investimento do setor público como um todo caiu menos – de 3,46% do PIB entre 2010 e 2014 para 2,83% no biênio 2023-4 –, mas isso não é consolo, por causa de carências que só podem ser supridas pela União.

Segundo, o arcabouço fiscal impõe uma contenção permanente dos gastos sociais justamente quando o país deveria expandir sua rede de proteção e seus serviços públicos. Afinal, itens de gastos como educação, saúde e previdência social que têm vinculações orçamentárias constitucionais e que tendem a crescer mais do que o limite geral autorizado pelo arcabouço (2,5%) são incompatíveis com ele. Terceiro, e crucialmente para o argumento que desenvolvo aqui, inviabiliza a capitalização de empresas estatais e os investimentos em infraestrutura necessários para viabilizar um projeto desenvolvimentista.

O problema não é meramente técnico ou contábil. Trata-se de uma escolha política que prioriza a rentabilidade dos títulos públicos e a tranquilidade dos mercados financeiros em detrimento da capacidade do Estado de induzir o desenvolvimento econômico. É uma escolha política de um refém que, como tal, tem pouco apelo além da base agradecida por políticas já executadas.

Como demonstro em análises anteriores, essa escolha reflete a posição defensiva perante um condomínio hegemônico entre o capital estrangeiro e o grande capital financeiro doméstico que se consolidou após o golpe de 2016 e que resiste a qualquer projeto que ameace suas estratégias de acumulação que integram a economia brasileira de modo cada vez mais dependente no capitalismo mundial, com grande influência sobre os poderes legislativo e judiciário.

A recuperação do gasto público, seja na infraestrutura social seja na econômica, ao contrário, é fundamental para ativar um modelo de crescimento econômico que combine apoio popular e investimentos públicos e privados orientados para atendimento das necessidades da população brasileira, inclusive mirando deliberadamente em políticas que beneficiam grupos sociais resistentes ao governo Lula sem prejudicar os já apoiadores (como faz o arcabouço fiscal em uma soma-zero)

<><> Reforma fiscal estratégica – exclusões necessárias

Diante desse impasse, o ideal seria propormos a superação do arcabouço fiscal. Se não tivermos força política para tanto, pelo menos devemos obter duas exclusões fundamentais do cálculo dos gastos limitados pelo arcabouço.

Primeira: exclusão dos gastos em saúde, educação, ciência e tecnologia. A racionalidade dessa proposta é evidente. Saúde, educação, ciência e tecnologia são investimentos de longo prazo na capacidade produtiva da nação, não gastos de consumo. Tratá-los como despesas ordinárias que devem ser contidas é condenar o país ao subdesenvolvimento permanente.

Mais ainda, em um momento histórico em que a competição econômica global se desloca crescentemente para setores intensivos em conhecimento – inteligência artificial, biotecnologia, transição energética, entre outros –, comprimir investimentos em educação, ciência e tecnologia é renunciar antecipadamente a qualquer possibilidade de inserção soberana na economia mundial, e de ascensão social sustentada dos menos favorecidos de modo a também favorecer camadas médias

Segunda: exclusão dos gastos com capitalização de empresas estatais e investimentos em infraestrutura realizados pela administração direta e unidades federadas. Esta exclusão é crucial para o argumento que desenvolvo aqui. Sem capacidade de capitalizar empresas como Petrobras, Eletrobras (onde o Estado ainda mantém participação minoritária), BNDES e outros bancos públicos, o Estado brasileiro fica desarmado para implementar políticas industriais substantivas e, consequentemente, para sustentar a geração de empregos de maior produtividade e remuneração. Contudo, tal capitalização, incluída no teto do arcabouço fiscal, é financeiramente inviável. Limitado na capacidade de investir em infraestrutura logística, energética e digital fora do teto de gastos, o país permanece prisioneiro de gargalos estruturais que inviabilizam planejar qualquer estratégia de desenvolvimento.

Um pequeno sinal disso é que, em 05/12, a LDO de 2026 aprovada pelo Congresso Nacional retirou algo como R$ 10 bilhões do teto do arcabouço para auxiliar na recuperação financeira dos Correios, viabilizando a continuidade de um serviço essencial para integrar a nação. Meritória em si, a exclusão deste gasto do teto do arcabouço e da meta fiscal levanta uma pergunta óbvia: por que só atender a necessidades urgentes de investimento público – como os Correios ou a reconstrução de infraestruturas destruídas por desastres climáticos – ao invés de viabilizar a expansão planejada do investimento público orientado para restaurar o desenvolvimento econômico e social?

Essas exclusões não representam irresponsabilidade fiscal, mas sim uma compreensão mais sofisticada do que significa “sustentabilidade” em política econômica. Sustentável não é aquilo que agrada aos mercados financeiros no curto prazo, mas sim aquilo que constrói capacidades produtivas de longo prazo. Países desenvolvidos jamais impuseram a si mesmos as amarras que o Brasil se autoinflige.

A janela geopolítica sino-americana

Enquanto o Brasil se paralisa em debates sobre décimos de ponto percentual no resultado primário, o mundo passa por uma reconfiguração geopolítica de magnitude histórica. A ascensão da China como potência tecnológica e industrial, e a resposta estadunidense, primeiro na forma de contenção e “desacoplamento”, agora na forma do imperialismo nu e cru, criam oportunidades sem precedentes para países de desenvolvimento intermediário que souberem aproveitar as contradições dessa nova guerra fria.

Os dados são eloquentes. A participação da China no comércio exterior brasileiro saltou de menos de 2% entre 1997 e 2000 para 28,7% em 2025, sendo nosso principal parceiro comercial. Simultaneamente, a participação dos Estados Unidos caiu de 23,9% para 10,8% no mesmo período. Essa reorientação comercial não é mero acidente estatístico, mas expressão de uma transformação estrutural na economia mundial.

Mais significativo ainda: essa transformação não se limita ao comércio. Empresas chinesas tornaram-se protagonistas em setores estratégicos da infraestrutura brasileira. Segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC, 2025), 45% de todo o estoque de investimento chinês no Brasil desde 2007 concentra-se no setor de eletricidade, somando US$ 35 bilhões. A State Grid controla a CPFL Energia, com cerca de 15% do mercado nacional de distribuição e presença relevante em transmissão de alta tensão; a China Three Gorges (CTG) acumula 8,3 GW de capacidade instalada em geração hídrica; e a SPIC opera aproximadamente 4 GW em renováveis. Somente em 2024, o setor elétrico concentrou 34% do total investido pela China no país, somando US$ 1,43 bilhão. Em telecomunicações, a Huawei consolidou-se como fornecedora fundamental, apesar das pressões estadunidenses para sua exclusão das redes 5G.

O segundo governo de Donald Trump, com sua ênfase em unilateralismo e protecionismo, tende a aprofundar essa tendência. Enquanto Washington impõe tarifas, restrições tecnológicas e exige subordinação geopolítica de seus parceiros, Beijing oferece financiamento, transferência tecnológica e parcerias sem condicionalidades políticas explícitas.

Esta é a janela histórica que se abre: aproveitar a competição sino-americana para negociar transferências tecnológicas substantivas e construir capacidades produtivas autônomas. Mas – e aqui retorno ao primeiro argumento – essa janela só pode ser aproveitada se o Estado brasileiro tiver capacidade fiscal e institucional para ser um parceiro relevante, não um mero receptor passivo de investimentos.

 

Fonte: Le Monde/A Terra é Redonda

 

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