'Criminalidade
está misturada no Brasil. Temos o Estado oficial e o Estado paralelo', diz
coordenador de campanha de Lula
O
coordenador político da campanha à reeleição do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ministro do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias (PT), disse reconhecer
que, no Brasil, o avanço do crime organizado criou
"dois" Estados."No Brasil, hoje, temos o Estado oficial e o
Estado paralelo", afirma Dias em entrevista à BBC News Brasil. A afirmação
do ministro veio em meio à tentativa do governo de aprovar medidas voltadas
para a segurança pública. O tema é apontado
por pesquisas como uma das principais preocupações do eleitorado brasileiro no
momento, ao lado da saúde. No final de março,
por exemplo, Lula sancionou a Lei Antifacção, que, entre outras
medidas, aumentou as penas para lideranças de facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando
Vermelho(CV).
Apesar
disso, o governo ainda patina na tentativa de aprovar a Proposta de Emenda
Constitucional (PEC) da Segurança Pública, apresentada oficialmente em abril de
2025, mas que até agora ainda não foi aprovada pelo Congresso Nacional.
À BBC
News Brasil, Dias afirma que o governo sabe que o tema é sensível, que o
<><>
Confira a entrevista.
·
O presidente Lula enfrenta hoje uma crise de
popularidade. Por que o presidente Lula está tão impopular?
Wellington
Dias - Estas
eleições precisam levar em conta onde o Brasil estava. Se a gente lembrar de
2022 ou 2021, mesmo após a pandemia, a gente tinha uma ausência de um plano
para que pudéssemos superar os estragos da pandemia (...) Um dos pontos que nós
não fizemos bem foi que a população não percebeu o tamanho da destruição. A
gente falou na campanha de uma destruição de várias políticas, mas ao assumir,
a gente veio para uma linha do "Brasil voltou" e não tratamos sobre o
que aconteceu no Brasil com a força necessária (...) Mas hoje, o Brasil alcança
crescimento econômico em torno de 3% ao ano, tiramos o Brasil do Mapa da Fome e
tiramos mais de 14 milhões de pessoas da pobreza nos anos de 2023 e 2024.
·
Mas então por que, hoje, o presidente Lula, é tão
impopular?
Wellington
Dias - Ele
não é tão impopular. Quando a gente pega individualmente, é o mais popular dos
líderes.
·
Mas a desaprovação ao governo dele hoje é maior do que a
aprovação.
Wellington
Dias – Isso
depende o parâmetro utilizado.
·
Cito aqui dados da pesquisa do Datafolha...
Welligton
Dias - A
gente acompanha pelo governo usando o Vox Populi que faz pesquisas diárias e
semanais. A gente teve, sim, um momento de perda de popularidade quando houve
aquele episódio do Rio de Janeiro, uma matança, e o governo condenou a forma
como isso aconteceu. [Nota da redação: no dia 28 de outubro de 2025, 117
pessoas foram mortas durante uma operação policial nos complexos da Penha e do
Alemão, no Rio de Janeiro] O presidente teve a coragem de reagir em relação à
forma como aconteceu. Mas, em seguida, tivemos uma recuperação. Hoje a
aprovação, pelo que acompanhamos, fica entre 50, 51%. Às vezes chega até a 52%.
Quando a gente olha em relação às eleições, o presidente fica seis ou sete
pontos percentuais na simulação de primeiro turno a frente do principal
candidato, que é Flávio Bolsonaro. É bom lembrar que vencemos as eleições em
2022 com 1,8%. Eu não nego que há uma tensão permanente. Há uma batalha em
redes sociais, uma saraivada de ódio, de mentiras, de fake news e isso tem seu
peso. Um dos problemas reais são os juros altos e o endividamento da população.
Mas o governo se debruça sobre isso agora. Quando assumimos, tinha um problema
semelhante e fizemos o programa Desenrola, que tirou muita gente do
endividamento e agora estamos novamente tendo que reeditar. Porque um país que
tem saldo positivo no balanço de pagamentos, reserva cambial, a inflação num
dos mais baixos patamares da história, desemprego mais baixo patamar da
história... e uma taxa básica de juros como a nossa (...)acho que há um
equívoco na política (monetária).
·
O senhor fala como se o fato de a taxa básica de juros
estar no patamar em que está não fosse de alguma forma resultado de atividades
do governo. Economistas afirmam que a taxa básica de juros está nesse patamar
porque o governo não contém os seus gastos. Isso também não é responsabilidade
do governo?
Wellington
Dias - Quando
assumimos, o país já tinha um endividamento na casa de 80% do PIB e havia
várias bombas que vieram a estourar já em 2023 e 2024. Um exemplo eram os
precatórios. Adiaram o pagamento de uma despesa grande que era o precatório e
ela vem cair no colo do presidente Lula em 2023 e 2024. Outro fator foi o
endividamento dos Estados. Fizeram uma proposta de retirar a receita dos
Estados e jogaram a conta para o governo seguinte e o mercado olhava para isso
e não tratava com a mesma força (de agora). A gente tinha uma inflação que
ultrapassava de 10%, chegando a 14% e agora está em 4%.
·
Algumas pesquisas apontam empate técnico entre Lula e
Flávio Bolsonaro no segundo turno. O governo subestimou Flávio Bolsonaro como
candidato?
Wellington
Dias - Não.
A gente nunca subestimou nenhum candidato. Mas nós temos um presidente que, em
várias eleições, perdeu em pesquisas e ganhou no voto. Temos um candidato que,
realmente, cresceu rapidamente, mas dentro do seu próprio campo. Tanto que
vários candidatos do seu campo político começaram a desistir. Cito como exemplo
o Ratinho Junior (PSD), o Romeu Zema (Novo), que desistiu e agora diz que não
desistiu. Depois, tivemos a candidatura do (Ronaldo) Caiado. Mas na visão que a
gente tem, o presidente Lula é um candidato que tem, em relação a 2022, um
ambiente menos tenso do que tínhamos.
·
O senhor acha que essa eleição contra Flávio Bolsonaro
vai ser mais fácil do que a eleição contra o pai dele?
Wellington
Dias - Não
tem eleição fácil.
·
Fácil, mas em comparação com a anterior?
Wellington
Dias – A
eleição que era uma missão impossível foi a de 2022. A gente estava fora do
governo, o país nos destroços e o governo usando tudo o que tinha (para
vencer). Teve o tal do Auxílio Brasil, a Polícia Rodoviária Federal impedindo
as pessoas de votar, questionamentos sobre fraudes nas urnas. Eleição difícil
foi a de 2022.
·
Então acha que essa vai ser mais fácil?
Wellington
Dias - Acho
que ela vai se dar num ambiente e numa condição melhor. Do ponto de vista do
nosso campo político, agora é que a gente está trabalhando os palanques em cada
Estado e há a possibilidade real de fazermos uma quantidade de governadores
maior do que na eleição anterior.
·
Na sua opinião, a possibilidade de vitória nesse pleito é
maior do que foi em 2022?
Wellington
Dias – Em
2026 há uma possibilidade (de vitória) melhor do que 2022. A conjuntura de 2022
era desafiadora por tudo o que a gente viveu. E acho que tanto dentro do Brasil
como fora foi possível acompanhar. Quando a gente começar a eleição, vamos
poder comparar. Enquanto governo, não podemos fazer publicidade comparativa.
Mas como candidatura, sim. Tínhamos um nível de pobreza que chegava na casa dos
37% da população e a gente reduziu o patamar para 20%. Temos os níveis de
pobreza e pobreza extrema mais baixos da história. A classe média, que vinha
decaindo, voltou a crescer. Nós temos aí uma condição de conquistar cada vez
mais brasileiros. A juventude quer saber: "Eu estou estudando, dando um
duro danado. Quando eu me formar, vai ter vaga para mim?" Quem é que pode
oferecer isso? É Luiz Inácio Lula da Silva.
·
Por falar em jovens, porque a desaprovação do presidente
é tão grande na faixa etária de jovens entre 16 e 24 anos de idade?
Wellington
Dias – Se
você pegar um jovem de 24 anos de idade, ele viveu um período de muita
incerteza nos últimos anos. Quando ele completou seus 16, 17, 18 anos, ele já
estava dentro desse turbilhão de um país decaindo, vendo seu pai perder o
emprego, vendo a mãe bater na porta e não achar emprego. O que aconteceu de lá
pra cá? Mudança. Essa percepção muitas vezes fica diluída em meio a esse
turbilhão de fake news, de notícia falsa. Mas qual é a real? A real é que o
Brasil tem quase 5 milhões de novas pessoas trabalhando, que estavam
desempregadas em 2021 e 2022. Nós temos 11 milhões de pequenos empresários que
não tínhamos lá em 2020 e em 2022. Boa parte deles é jovem. Onde é que ele está
com problema? Esse jovem montou um pequeno negócio, tomou um financiamento, mas
não está conseguindo pagar. Isso aqui causa insatisfação. Então é isso que a
gente quer cuidar agora.
·
Mas esse jovem que tomou esse financiamento e não está
conseguindo pagar, ele atribui parte desses juros altos ao governo...
Wellington
Dias - Sim.
Em primeiro lugar, toda a responsabilidade pelo que acontece (de ruim) é jogada
para o governo. De um lado, há defesa de um Banco Central independente. Mas
nessa hora a culpa não é do Banco Central independente. A culpa é do governo. De
qualquer maneira, o governo detecta o problema e está tratando. Do jeito que
fizemos o programa Desenrola Brasil lá atrás. Nós vamos agora trabalhar uma
alternativa para que essas pessoas possam ter aí um oxigênio e possam poder
escapar dessa armadilha.
·
Esse novo programa contra endividamento será lançado a
seis meses das eleições. Como o senhor responde às críticas de que esse
programa tem fins eleitoreiros?
Wellington
Dias - O
programa foi lançado, na verdade, em 2023. O governo Bolsonaro entregou o país
com elevado endividamento e fizemos o Desenrola. Esse programa alcançou milhões
de brasileiros que conseguiram descontos, taxas mais baixas, crédito mais baixo
e saíram do endividamento. O problema é que a taxa básica de juros seguiu
crescendo e isso levou à elevação do endividamento com o cartão de crédito,
cheque especial, crediário. Ou seja, tanto quem está na informalidade como na
informalidade terminou sendo prejudicado. O ganho que teve na renda foi
engolido por conta dos juros elevados.
·
As pesquisas mais recentes apontam que 2/3 dos
evangélicos desaprovam o governo Lula. O que falhou na estratégia do governo
para se aproximar do público evangélico?
Wellington
Dias - Nos
levantamentos que a gente faz, teve uma melhora. Ela é grande como poderia ser?
Não. O que o presidente Lula determinou? Ele disse: "Eu quero que as ações
e os programas do meu governo possam chegar ao povo evangélico". Hoje, tem
programas de habitação que estão trabalhando com entidades evangélicas. Fizemos
qualificação para essas entidades e hoje muitas pessoas do povo evangélico
podem ter sua casa e seu apartamento.
·
Mas o senhor reconhece que os evangélicos ainda têm uma
preferência maior por candidatos da direita, como Flávio Bolsonaro?
Wellington
Dias - Sim.
Minha esposa, Rejane Dias, é evangélica. Meus filhos são evangélicos. Eu sou
católico. Eu frequento celebrações evangélicas e vejo que, infelizmente, muita
gente terminou se afastando do nosso campo político levado por mentiras como a
de que o presidente Lula iria fechar igrejas. O que aconteceu? Todas as
denominações tiveram crescimento neste período em que Lula e Alckimin
governaram o país. Quantas leis foram aprovadas para que pudesse inibir a
atividade das igrejas? Nenhuma.
·
Mas qual é a estratégia do PT para reverter esse quadro?
Wellington
Dias - O
desafio não é pequeno, mas também não é difícil. Nós temos que vencer a
mentira, como por exemplo essa do fechamento da igreja, ou de que íamos
tributar as igrejas, tomar terras e instalar um regime autoritário. Nós temos
hoje uma quantidade de pessoas que está no limbo. Elas não fazem mais parte do
segmento de Jair Bolsonaro, mas também não vieram para o nosso campo. Se
olharmos o que acontece na composição dos líderes em cada Estado, nós vamos ter
uma quantidade maior de lideranças evangélicas participando do nosso campo. Cada
vez mais as várias denominações passam a ter uma preocupação com esse fenômeno
em que a igreja acabou se confundindo com um partido ou com um governo.
·
Mas existe uma estratégia prática já definida sobre como
é que vocês vão acessar esse segmento ao longo da campanha?
Wellington
Dias - Na
prática, o que a gente quer é seguir essa orientação do presidente. A
orientação do presidente do Brasil é trabalhar com o povo evangélico, com o
povo católico, com o povo espírita, independente de igreja e independente de
religião. Vamos ter que dialogar mais com a classe média, com a juventude.
Vamos ter que conversar com o pessoal do agro. Olha aqui essa situação: qual é
a razão de pessoas do agro serem contra o governo do Brasil? Nós praticamente
dobramos o financiamento com taxas melhores, mesmo no momento de juros altos.
·
Esse governo vai completar quatro anos. O governo não
demorou para abrir essas conversas?
Wellington
Dias - Não.
Na verdade, precisamos lembrar: havia uma destruição e nós fomos para a
reconstrução. Quem já viveu uma desavença, quando se tem um afastamento, não é
da noite pro dia que se resolve. Por quê? Porque isso demanda confiança.
·
O senhor falou em soberania e, há alguns dias o senador
Flávio Bolsonaro foi aos EUA e disse que as terras raras do Brasil podem ser a
solução dos EUA em relação à China. Como o senhor classifica esse
posicionamento?
Wellington
Dias -
Quando a gente fala em soberania é disso que estamos falando. O Brasil não quer
ser submetido a ninguém, nem à China, nem aos Estados Unidos. Nós queremos ser
dono do nosso nariz.
·
Mas como é que o senhor classifica o posicionamento do
senador Flávio em relação a isso?
Wellington
Dias - Antipatriota
e entreguismo. Não consigo imaginar termos um presidente que se coloca de
joelhos para outro presidente e ainda mais um presidente com tanta
instabilidade como o presidente dos EUA neste momento (...) Essa posição de
Flávio Bolsonaro não é a da maioria do Senado, do Congresso ou do povo. Nós
queremos um povo soberano, um povo que não se submete, que não quer ser colônia
de ninguém. Já fomos colônia de Portugal. É isso que a gente quer? Não. Isso já
passou. Hoje, somos um país independente.
·
Há pesquisas indicando queda na popularidade do
presidente Lula na região Nordeste e desaprovação de 55% dos beneficiários do
Bolsa Família. Como é que o governo pretende reverter essa piora na
popularidade nesses dois segmentos que, historicamente, sempre foram leais a
Lula?
Wellington
Dias - O
Bolsa Família é aprovado hoje por 92% da população. Do ponto de vista dos
beneficiários, 64% aprovam o presidente Lula, segundo nossas pesquisas. Quando
a gente olha o Nordeste, as pesquisas por Estado não estão batendo com essas
que estão publicando. As pesquisas, apontam que o presidente Lula, no Nordeste,
tem a ampla maioria das intenções de voto nos nove Estados do Nordeste.
·
Muitos especialistas dizem que essa eleição,
especificamente, vai ser decidida por uma margem muito pequena de eleitores que
hoje estão indecisos, em geral mulheres. Qual é a estratégia do PT para
conseguir o voto das mulheres que estão hoje indecisas sobre as eleições?
Wellington
Dias - Temos
uma situação de crescimento da quantidade de pessoas que anula, vota em branco
ou não comparece às urnas. O que me anima sobre isso? É que a maior parte desse
grupo é de eleitores que votaram em Bolsonaro. Isso mostra que houve um
desencanto. A decisão foi de vir para o campo da centro-esquerda? Não. Esse
grupo se manteve como não indeciso ou não opina. Aqui, tem um trabalho a fazer.
Será uma eleição polarizada? Sim. Vai ter tensionamento? Sim. Mas acho que
teremos um tensionamento menor que em 2022.
mesmo,
para o emprego, para empreender? Na comparação, em qualquer área, vamos chegar
à conclusão de que quem oferece isso é o governo Lula.
·
Flávio Bolsonaro parece que vai se apoiar na figura da
ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) para tentar atingir esse eleitorado
feminino. Quanto a primeira-dama Janja contribui ou atrapalha na busca do
eleitorado feminino?
Wellington
Dias – Michelle
já fazia isso com o candidato e depois presidente Bolsonaro. Mas a situação é
muito mais complexa. Acho que é menosprezar o eleitorado feminino achar que
(elas decidir o voto) por conta de alguém sozinho. A primeira-dama, Janja, por
exemplo, foi uma líder importante na pactuação sobre o combate à violência
contra as mulheres e foi reconhecida como uma espécie de embaixadora no combate
à fome e à pobreza. Mas não é só isso que conquista a confiança das mulheres.
Você tem variadas situações.
·
Mas na busca deste eleitorado, Janja ajuda ou atrapalha o
presidente Lula?
Wellington
Dias - Ela
ajuda. Eu acho que ela ajuda (...) A gente tem um conjunto gigantesco de
mulheres que sabem o que significa ter determinados líderes, como o Flávio
Bolsonaro como presidente do Brasil. O que significa? Nós tivemos um
crescimento da violência no Brasil (durante o governo de Jair Bolsonaro). Houve
a propagação da arma. O símbolo era a arma. Quem é que paga isso? As mulheres.
·
Sobre violência, a segurança pública é apontada pelos
eleitores brasileiros como um dos principais tópicos de preocupação. O que o
governo Lula 3 pode dizer que vai entregar nessa pauta?
Wellington
Dias - Um
país menos violento.
·
Mas se o país estivesse tão menos violento, esse tema
seria tão alvo assim de preocupação?
Wellington
Dias - Quando
você olha homicídios, nós tivemos queda. Uma queda relevante nesses três anos
do presidente Lula.
·
Mas essa queda começa, se eu não estou equivocado, começa
ainda no governo Bolsonaro... [Nota da redação: segundo dados do IBGE, IPEA
e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a queda nas taxas de homicídios
começaram 2018, no último ano do governo de Michel Temer].
Wellington
Dias - Não.
Houve crescimento. Infelizmente, naquele período, vários Estados não
consolidavam os seus dados e não registravam ocorrência. O Ministério da
Justiça verificou os dados. A violência é um problema grave e o governo do
presidente Lula não desconhece isso. Nós temos que trabalhar muito mais
integrado. Qual era o problema? A legislação brasileira praticamente colocava
nas mãos dos Estados o poder de ação. E, agora, a gente passa a ter com essa
PEC da Segurança e da lei de combate às facções uma condição de trabalhar mais
integrado (...) As pessoas querem saber o seguinte: "A minha filha pode ir
e voltar da escola? Eu posso ir para a igreja à noite? Eu posso participar no
dia a dia do meu trabalho? Eu posso ir ao meu trabalho e voltar em paz? Eu
posso sentar na calçada da minha casa?"
·
Esse tema já era reconhecido pelo governo como um tema
prioritário, mas a PEC e a lei antifacção, que foi aprovada, só aconteceu no
final deste governo. Por que demorou tanto?
Wellington
Dias – Tem
que perguntar pro Congresso. Na verdade, é PEC da Segurança Pública foi
trabalhada no período com Flávio Dino quando ele ainda era ministro da Justiça.
O presidente preferiu sentar com os governadores, dialogar e não fazer nada à
força. No começo, teve muita resistência. (...) O Brasil, com isso, se prepara
melhor. É da noite para o dia? Não posso dizer que sim. Na verdade, vamos,
agora, vencer a criminalidade porque hoje ela está misturada. No Brasil, hoje,
temos o Estado oficial e o Estado paralelo. O Brasil vinha caminhando para o
que aconteceu com o México. O que aconteceu com a Itália. De certo modo, até
com os Estados Unidos, onde em muitos lugares o crime terminou se associando
com empresas. Olhe as últimas investigações sobre o setor de combustíveis e
fundos de investimento. Olhe as investigações sobre o Banco Master, em que
vários empresários foram presos. Separar o joio do trigo é uma missão muito
grande. Mas paralelo a isso, como é que eu tenho dinheiro pra ter mais viatura,
mais equipes, mais presença e não ter assaltos e a matança que acontece em cada
bairro, cada vila, cada lugar onde as pessoas vivem? Agora, estamos mais perto
disso.
·
O senhor acha que a população consegue sentir isso na
ponta?
Wellington
Dias - Ainda
não deu tempo. A redução da sensação de insegurança foi muito pequena. Ela foi
muito baixa (...) Eu avalio que é provável que até as eleições, a gente já vai
alcançar uma sensação melhor.
·
O avanço das investigações sobre um dos filhos do
presidente, Fábio Luís, o Lulinha, preocupam a campanha à reeleição de Lula?
Wellington
Dias – Não.
Em primeiro lugar, porque o Fábio nega qualquer participação. Em segundo lugar:
que presidente tem coragem de dizer o que disse o presidente do Brasil?
"Seja meu filho ou o filho de quem quer que seja, do mais rico ou do mais
pobre, a lei é a lei". Olha o que aconteceu quando, lá atrás, o filho do
presidente (Jair Bolsonaro) foi acusado? (Houve) toda uma proteção no sentido
de não deixar ter a investigação. Não deve ser fácil a um pai dizer o que ele
(Lula) disse.
Você
tem ideia do que já se disse sobre os filhos do presidente Lula? Que eram donos
de não sei quantas fazendas, mas nunca acharam um boi. Que eram donos de não
sei quantas empresas, mas nunca acharam uma ação dessa empresa. Infelizmente, a
mentira para alguns é algo banal e isso é ruim para uma sociedade. Em relação a
Flávio Bolsonaro, o tempo dirá. Você pode enganar muita gente por muito tempo.
Mas não pode enganar todo mundo a vida toda. Esse é um ditado certeiro e, com
certeza, o tempo dirá: verdadeiro.
·
Se for reeleito, Lula vai sair do governo com 85 anos.
Como é que o senhor responde às críticas de que o presidente Lula, essa altura
da vida, deveria, em vez de disputar uma nova eleição, abrir espaço para
renovação no campo da esquerda?
Wellington
Dias – O
interessante é que quem propôs isso foi a oposição. É muito fácil dizer que o
Flávio é muito novo. Por que não colocam outro? É muito fácil fazer esse tipo
de palpite. Minha mãe, Terezinha Dias, tem 84 anos e corre atrás de cabra no
sertão do Nordeste, cheia de energia. Eu vejo o presidente Lula muito parecido
com ela. Uma pessoa cheia de energia. Quantas vezes a gente viaja pelo Brasil e
a gente chega de volta em Brasília todo mundo estropiado, como se diz numa
linguagem nordestina, e o presidente Lula segue com todo o vigor. Ele faz
exercícios, se alimenta bem, busca dormir uma quantidade boa de horas por dia e
é alguém muito antenado com o que acontece no mundo.
·
O governo vai conseguir aprovar o fim da escala 6x1?
Wellington
Dias - Eu
espero que seja aprovado e digo o porquê. O Brasil é uma das maiores potências
econômicas do mundo. A gente admira países da Europa e de outras regiões. O que
eles têm de diferente? Em primeiro lugar: mais igualdade — e maior igualdade
passa por termos um tempo maior para as várias atividades humanas.É mais humano
colocar uma carga horária em que se tenha mais tempo para a família, para
inclusive ter um melhor aproveitamento do trabalho. Isso significa mais
oportunidade de emprego.
·
Muitos empresários e entidades de classe dizem que se o
fim da escala 6x1 for aprovada o efeito será reverso.
Wellington
Dias - O
que me alegra é que, enquanto uns poucos dizem isso, são muitas as empresas que
já estão adotando antes da aprovação. O setor bancário já atua com 30 horas
semanais. Várias empresas e vários setores trabalham assim e quem é que mais
lucra no país? Os bancos. É preciso ser muito desumano e não olhar para os
avanços da humanidade. Os lugares do mundo mais avançados há muito tempo estão
com jornada de 30 horas semanais. Estamos falando, no Brasil, em uma jornada de
40 horas semanais e isso significa reconhecer que a tecnologia avançou.
·
Muitos assessores próximos ao presidente não descartam
uma possível intervenção dos EUA nas eleições. A campanha do presidente teme
uma interferência externa nas eleições?
Wellington
Dias – Não
vamos tolerar interferência de ninguém. O Brasil não se mete, do ponto de vista
eleitoral, com nenhum país. Podemos até ter simpatia por este ou aquele
candidato, mas não nos metemos. O Brasil exige respeito dos outros países
porque isso é soberania. É bom lembrar que, faz pouco tempo, tentaram
interferir nas formas de comunicação interna do Brasil e na nossa democracia...
inclusive chegaram aqui a perseguir líderes do STF por conta disso. O Brasil
tem três poderes e vamos buscar respeito. A nossa Constituição tem como um dos
seus primeiros pilares a soberania, a democracia, o respeito ao outro país,
sejam os Estados Unidos, seja quem for. Queremos respeito e vamos usar tudo o
que for possível para que tenhamos aqui uma eleição livre e limpa e que vença o
melhor. É isso que é bom na democracia.
Fonte:
BBC News Brasil

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