sexta-feira, 10 de abril de 2026

Por que acordo de cessar-fogo com EUA não caiu bem entre a linha-dura do Irã

Apenas alguns dias atrás, setores mais "linha-dura" da República Islâmica do Irã colocaram uma faixa gigantesca em um dos cruzamentos mais movimentados de Teerã, a capital iraniana.

"O estreito de Ormuz permanecerá fechado", declarava.

A mensagem pretendia sinalizar um decreto do novo Líder Supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, que não foi visto em público desde que foi nomeado líder no mês passado.

Mas essa faixa pode agora ter de ser retirada depois que o Irã concordou com um cessar-fogo de duas semanas e com a reabertura do estreito, conforme solicitado pelo Paquistão, que vem mediando entre os EUA e o Irã.

Isso apesar de o Irã ter dito repetidamente que não concordaria com um cessar-fogo temporário e que queria um fim permanente da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.

Os linha-dura não estão satisfeitos. Eles se sentiram encorajados pela capacidade do Irã de fechar o estreito e causar caos aos países do Golfo com mísseis e drones — sustentando que o Irã deveria ter continuado a guerra, já que tinha vantagem contra os EUA e Israel.

Relatos de Teerã disseram que bandeiras dos EUA e de Israel foram vistas sendo incendiadas após o anúncio do acordo de cessar-fogo na terça-feira.

Um grupo de homens da milícia voluntária Basij, controlada pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), marchou até o Ministério das Relações Exteriores no meio da noite para se opor à decisão.

Algumas horas depois, o editor do jornal linha-dura Kayhan escreveu que concordar com o cessar-fogo foi "um presente para o inimigo", permitindo que ele se reabastecesse e continuasse a guerra.

A decisão de aceitar o pedido do primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e de seu chefe do Exército foi tomada pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional (SNSC, na sigla em inglês) — o mais alto órgão decisório do Irã sob o líder supremo, presidido pelo presidente moderado Masoud Pezeshkian.

O SNSC declarou que a passagem segura seria possível pelo estreito de Ormuz por um período de duas semanas em troca de um cessar-fogo dos EUA e de Israel, enquanto Washington e Teerã se engajariam em negociações.

Relatos dizem que a China desempenhou um papel significativo ao convencer o Irã, seu aliado próximo, a concordar com o pedido do Paquistão.

<><> Alívio temporário?

O Irã teve de amargar um considerrável nível de destruição nos 40 dias de guerra.

Mais de 3 mil pessoas morreram, dizem ativistas de direitos humanos, e o presidente dos EUA, Donald Trump, havia ameaçado novas mortes e destruição em uma escala ainda maior.

Mesmo entre os linha-dura, estava ficando claro que uma saída precisava ser encontrada antes que a infraestrutura crítica do Irã fosse ainda mais destruída.

Apenas horas antes do anúncio do cessar-fogo, o chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei, tido como linha-dura, disse à TV estatal iraniana que o Irã buscava o fim da guerra mantendo ainda uma posição de vantagem.

Ele estava, em linhas gerais, repetindo o que o ex-ministro das Relações Exteriores do país, Mohammad Javad Zarif, um moderado, havia escrito alguns dias antes em um artigo na publicação americana Foreign Affairs.

O SNSC retratou o acordo de cessar-fogo como uma vitória para o Irã, conclamando os apoiadores do regime a permanecerem unidos.

Segundo a mídia iraniana, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, deverá liderar a delegação iraniana nas negociações com os EUA em Islamabad, no Paquistão, negociando diretamente com o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance.

Isso representa um distanciamento do roteiro linha-dura. As negociações diretas com os EUA sempre haviam sido proibidas pelo antigo Líder Supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que foi morto em um ataque israelense à sua casa no início da guerra.

Esse contato direto parece ter sido autorizado pelo novo líder, que é seu filho.

Apesar do cessar-fogo, Irã e EUA permanecem longe de uma paz duradoura.

A guerra pode ser retomada se as negociações fracassarem. Essa é uma perspectiva que alguns iranianos que apoiaram a guerra, vendo-a como uma forma de remover o que consideram um regime vil, podem estar esperando.

Para muitos outros, o cessar-fogo oferece um alívio muito necessário diante da morte e da destruição ao seu redor.

¨      Trump expõe condições e ministro iraniano acusa violações a cessar-fogo firmado com os EUA; o que acontece no conflito

Passadas pouco mais de 24 horas desde que o presidente Donald Trump anunciou um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, o acordo já começa a dar sinais de fragilidade.

Na quarta-feira (8/4), Israel lançou uma grande onda de ataques no Líbano, que já deixaram ao menos 182 mortos.

O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Saeed Khatibzadeh, disse à BBC que que o Irã enviou uma mensagem ao Salão Oval na noite de quinta dizendo que "não se pode ter tudo". "Não se pode pedir um cessar-fogo e depois aceitar os termos e condições...e então seu aliado [Israel] simplesmente inicia um massacre."

Já o presidente americano, Donald Trump, alertou que as forças americanas continuam de prontidão no Oriente Médio para o caso do "acordo real" não ser cumprido. "Se, por qualquer motivo, isso não acontecer (o acordo ser cumprido), o que é altamente improvável, então os tiroteios começarão, maiores, melhores e mais fortes do que qualquer um jamais viu", postou ele na rede social Truth Social.

Ainda não está claro se Israel está incluído no acordo de cessar-fogo.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmam ter realizado os "maiores ataques" desde o início de sua operação terrestre contra o Hezbollah, partido político islâmico xiita e grupo paramilitar apoiado pelo Irã.

Segundo Israel, cem alvos foram atingidos em apenas dez minutos no Líbano.

A Guarda Revolucionária do Irã (IRGC) ameaçou retaliar e disse que vai dar uma "resposta que vai causar arrependimento" caso os ataques não sejam interrompidos imediatamente.

"Se as agressões contra o querido Líbano não forem imediatamente encerradas, cumpriremos nosso dever e daremos uma resposta que causará arrependimento aos agressores mal-intencionados na região", publicou a agência de notícias estatal iraniana (IRNA, na sigla em inglês), citando uma autoridade da IRGC.

"Qualquer ataque ao orgulhoso Hezbollah é um ataque ao Irã. O campo [militar] está se preparando para uma resposta pesada aos crimes selvagens do regime [de Israel]."

Nas primeiras horas de quinta-feira (8/4), o Hezbollah afirmou, em um comunicado publicado nas redes sociais, ter disparado foguetes contra o norte de Israel em resposta às violações do cessar-fogo.

Mais cedo, o presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou em uma publicação no X que três pontos da proposta iraniana de dez itens foram "claramente violados" e que, nessas condições, um "cessar-fogo bilateral ou negociações" seriam "irracionais".

Ghalibaf disse que o Líbano estava incluído no acordo — algo que a Casa Branca nega.

Durante a tarde de quarta-feira, Trump indicou que Israel não está violando os termos do acordo com o Irã, classificando o Líbano como um "confronto à parte".

Já o vice-presidente americano, J.D. Vance, afirmou que os EUA "nunca prometeram incluir o Líbano no cessar-fogo".

A afirmação contradiz a declaração do primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, que vinha mediando as negociações. Segundo Sharif, o cessar-fogo também passaria a valer no Líbano.

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Seyed Abbas Araghchi, afirmou que os Estados Unidos devem escolher entre um cessar-fogo ou a continuidade da guerra "via Israel".

Em uma publicação no X, Araghchi disse que os termos estabelecidos no cessar-fogo são "claros e explícitos". "A bola está no campo dos Estados Unidos, e o mundo observa se eles cumprirão seus compromissos", afirmou.

<><> As últimas declarações

Nesta quinta, Trump publicou na rede Truth Social um alerta ao Irã de que "os tiros começarão, maiores, melhores e mais fortes do que qualquer um jamais viu" se o "acordo real" não for totalmente cumprido.

"Todos os navios, aeronaves e militares dos EUA, com munição, armamento e tudo o mais que for apropriado e necessário para a perseguição e destruição letal de um inimigo já substancialmente enfraquecido, permanecerão em suas instalações no Irã e arredores até que o acordo real seja totalmente cumprido. Se, por qualquer motivo, isso não acontecer, o que é altamente improvável, então os tiroteios começarão, maiores, melhores e mais fortes do que qualquer um jamais viu."

"Foi acordado, há muito tempo, e apesar de toda a retórica falsa em contrário, que não haverá armas nucleares e o estreito de Ormuz permanecerá aberto e seguro. Enquanto isso, nossas grandes Forças Armadas estão se reabastecendo e descansando, ansiosas, na verdade, por sua próxima conquista. A América está de volta!"

Enquanto isso, o programa Today, da BBC, na manhã desta quinta, trouxe uma entrevista com o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Saeed Khatibzadeh, na qual ele disse que o Irã enviou uma mensagem ao Salão Oval na noite anterior, dizendo que "não se pode ter tudo".

"Não se pode pedir um cessar-fogo e depois aceitar os termos e condições, aceitar todas as áreas às quais o cessar-fogo se aplica, mencionar o Líbano, e então seu aliado [Israel] simplesmente inicia um massacre."

Ele acrescentou que os EUA "devem escolher" se querem guerra ou paz. "Eles não podem ter as duas coisas ao mesmo tempo."

Questionado se o Irã vai se retirar das negociações caso os ataques israelenses continuem, ele afirmou que o país "está muito focado no bem-estar de todo o Oriente Médio".

Ele ainda foi questionado se o Irã pedirá ao seu aliado militante, o Hezbollah, que pare de disparar foguetes contra Israel a partir do Líbano. Khatibzadeh respondeu que o acordo inclui o Líbano e que o Irã e seus aliados estavam dispostos a "aceitar o cessar-fogo".

O ministro afirmou que o Irã "garantirá a segurança da passagem" pelo estreito de Ormuz, mas a reabertura só ocorrerá "depois que os Estados Unidos de fato retirarem essa agressão", aparentemente referindo-se aos ataques de Israel ao Líbano.

<><> Ataques ao Líbano

Apesar de reconhecer o cessar-fogo temporário, Israel insiste que a trégua não inclui o Hezbollah.

"Estamos continuando a atingi-los com força", disse o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmando que desferiou o maior golpe contra o grupo.

Netanyahu também sugeriu que Israel está preparado para retomar o conflito com o Irã, se "necessário", e afirmou que "nosso dedo" permanece no gatilho.

Segundo o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, o país insiste em "separar os cenários entre o Irã e o Líbano para mudar a realidade no Líbano e remover ameaças aos moradores do norte de Israel [fronteira com o Líbano]".

A liderança de Israel tem afirmado que não deixará o país vizinho até que a ameaça representada pelo Hezbollah seja eliminada.

A agência de notícias árabe Lebanon 24 informou que os hospitais no Líbano estão superlotados de vítimas e que o Ministério da Saúde está pedindo aos cidadãos que evitem sair às ruas para liberar espaço para as ambulâncias.

O canal de TV pró-Hezbollah Al Manar relatou múltiplas mortes e feridos em decorrência dos ataques aéreos nos subúrbios do sul de Beirute, no Vale do Bekaa e nas montanhas.

Segundo o Ministério de Saúde do Líbano, mais de 180 pessoas morreram nos ataques de Israel desta quarta-feira.

O primeiro-ministro libanês pediu a "todos os amigos do Líbano" que impeçam a ação militar israelense no país "por todos os meios disponíveis", após a grande onda de ataques aéreos.

Em uma publicação no X, Nawaf Salam afirmou: "Israel continua a expandir suas agressões, que têm como alvo bairros residenciais densamente povoados, ceifando a vida de civis desarmados em várias partes do Líbano, particularmente na capital, Beirute".

Salam disse que as ações da IDF demonstraram um "total desrespeito" pelo direito internacional, acrescentando: "Todos os amigos do Líbano são convocados a nos ajudar a impedir essas agressões por todos os meios disponíveis".

Após os novos ataques de Israel, um grupo de países ocidentais pediu uma "paz rápida e duradoura" no Irã e que "todas as partes" cumpram o cessar-fogo de duas semanas — inclusive no Líbano.

A declaração é assinada por líderes do Reino Unido, França, Itália, Alemanha, Canadá, Dinamarca, Países Baixos, Espanha, Comissão Europeia e Conselho Europeu.

Durante a tarde, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, esteve na Casa Branca para se reunir com Trump e deixou o encontro afirmando que o presidente americano está "claramente desapontado" com os aliados da aliança.

Pouco depois, Trump fez uma publicação nas redes sociais dizendo que "a Otan não esteve ao nosso lado quando precisamos — e não estará se precisarmos novamente".

<><> A situação no estreito de Ormuz

Ainda não está claro quantos navios conseguem atravessar o estreito de Ormuz, em meio a informações conflitantes sobre a abertura da passagem marítima.

Na quarta-feira, a mídia iraniana afirmou que o estreito foi novamente fechado e petroleiros pararam de passar pela rota após Israel ampliar seus ataques ao Líbano.

O cessar-fogo de duas semanas foi acordado com a condição de que o tráfego marítimo pelo estreito de Ormuz fosse reestabelecido. É por essa via que passa cerca de 20% do petróleo global.

Durante a tarde, dois veículos iranianos divulgaram dados de um site de rastreamento marítimo mostrando um navio com bandeira do Panamá que se aproximou da região, mas acabou retornando.

A publicação foi acompanhada da mensagem: "O estreito de Ormuz foi totalmente fechado, forçando petroleiros a recuar".

Após a divulgação do fechamento, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que a informação é "falsa".

Em coletiva de imprensa, ela afirmou que o que está sendo dito publicamente é diferente do que está sendo dito em privado — dizendo que houve um "aumento" no tráfego de navios nesta quarta-feira.

Ela reiterou que a expectativa de Trump é de que o estreito seja aberto "imediatamente", acrescentando que foi comunicado ao presidente em caráter privado que é isso que está acontecendo.

A agência de notícias Fars, filiada à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), força de segurança de elite com ligação direta com o líder supremo do país, informou que, embora dois petroleiros tenham conseguido passar pelo estreito com permissão do Irã na manhã desta quarta, a passagem foi interrompida.

A Agência de Notícias da República Islâmica (IRNA) também relatou que os navios foram impedidos de passar, com ambos os veículos de comunicação fazendo referência aos contínuos ataques de Israel ao Líbano.

A corretora de navios SSY confirmou ao BBC Verify, serviço de checagem da BBC, que embarcações no Golfo Pérsico receberam a seguinte mensagem:

"Atenção a todas as embarcações no Golfo Pérsico e no Mar de Omã. Esta é a Estação Naval da Guarda Revolucionária Islâmica. A travessia do Estreito de Ormuz permanece fechada e é necessária autorização da IRGC para navegar pelo estreito. Qualquer embarcação que tentar entrar no mar será alvejada e destruída."

Claire Grierson, chefe de pesquisa de navios-tanque da SSY, disse que a empresa está ciente de que as tripulações das embarcações ouviram essa mensagem em um canal de rádio usado para alertas marítimos internacionais.

O acordo veio mais de um mês após EUA e Israel lançarem ataques coordenados contra o Irã e poucas horas depois de Trump, ameaçar que "uma civilização inteira morreria na noite de terça "para nunca mais ser ressuscitada" caso o Irã não reabrisse o estreito de Ormuz.

 

Fonte: BBC News Persa

 

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