sexta-feira, 10 de abril de 2026

Samuel Kilsztajn: Pesadelo judeu - o verdadeiro inimigo de Israel não é o oponente externo

A identidade, tanto de um indivíduo como de um povo, é uma construção atualizada historicamente. Nomes, então, são variáveis aleatórias. No Leste Europeu, onde meus antepassados viveram por um milênio, as fronteiras moviam-se quase que por encanto – ia-se dormir em um país e acordava-se em outro. O idioma oficial variava entre o polonês, o alemão falado na Prússia, no Império Austro-húngaro, o russo etc. Meu nome poderia variar, ir e vir, entre Szmil Kilsztajn, Samuel Külstein ou Самуил Кильштейн.

Nasci em Jaffa, uma cidade que, mesmo de acordo com o despótico Plano de Partilha das Nações Unidas, estava reservada aos palestinos. Para me manter íntegro, hoje me identifico como palestino budista e assumi o nome Samy El Khalili. E como, além de budista, sou anarquista, não vou me dar ao trabalho de alterar o nome no registro civil. Para todos os efeitos, sou eu que determino a minha identidade e o meu nome – e não os outros. Então é como humanista, internacionalista e pacifista que me atrevo a discorrer sobre o pesadelo judeu que ora se descortina diante de nós.

Com a aprovação do Plano de Partilha da Palestina em novembro de 1947, enquanto o pai de Amós Oz comemorava a profecia de Herzl, “o Estado Judeu bate à porta”, sua mãe dizia, “não bate, não há porta alguma, o que há é um precipício.” Em 1948, às vésperas da criação do Estado de Israel, Hannah Arendt publicou um artigo prenunciando a possibilidade de uma ruptura entre os judeus israelenses e os da diáspora. As relações dos israelenses “com o judaísmo mundial se tornariam problemáticas, já que seus interesses de defesa poderiam entrar em conflito a qualquer momento com os de outros países onde vivem grandes contingentes de judeus. O judaísmo palestino acabaria por se separar do corpo maior do judaísmo mundial e, em seu isolamento, se desenvolveria em um povo inteiramente novo.” Mas a realidade foi muito mais cruel – o sionismo capturou o judaísmo e se transformou oficialmente em sua nova identidade tanto em Israel quanto na diáspora, apesar dos protestos de algumas organizações judaicas antissionistas.

O artigo reflete o clima entre os judeus anterior à criação do Estado de Israel, em que “o terrorismo e o crescimento de métodos totalitários são tolerados silenciosamente e secretamente aplaudidos”. Hannah Arendt, embora considere que os palestinos “em vez de concluir pelo menos acordos de trégua locais, decidiram evacuar cidades e vilas inteiras a permanecer em território dominado por judeus”, cita, no decorrer do texto, o lançamento de uma bomba contra uma fila de trabalhadores árabes em Haifa, o ataque a Jaffa e o massacre de Deir Yassin, em que aldeões, embora tenham feito acordos com os judeus, foram atacados e assassinados, “incutindo na população árabe o medo aos judeus” (episódios anteriores a 14 de maio de 1948).

Por ocasião da criação do Estado de Israel, as autoridades acharam por bem que seus cidadãos esquecessem a Segunda Guerra Mundial e se desfizessem da cultura da diáspora e de seu “jargão”, o Yiddish. O Holocausto exterminou os pais dos sobreviventes; mas como Israel poderia exterminar a sua língua materna? Como poderiam eles se desfazer de sua língua, a língua na qual expressavam seus sentimentos, a língua em que pensavam, a língua na qual sonhavam? Em Israel, falar yiddish nas ruas era mal visto, quase uma contravenção. O poeta Menke Katz, depois de ter sido conduzido à prisão em Israel por falar yiddish com seu filho na rua, fez as malas mais uma vez e remigrou para os Estados Unidos.

No início dos anos 1950, milhares de sobreviventes do Holocausto, que foram levados a acreditar que a Palestina era uma terra sem povo para um povo sem terra, começaram a abandonar a Terra Prometida. Para estancar esse êxodo, os Estados Unidos, a Alemanha e Israel arquitetaram um escândalo internacional em Munich. O Brasil, na época, foi chamado a cooperar e abrir os portos para esses refugiados indesejados tanto na Europa como nos Estados Unidos. E lá estavam eu e meus pais, encalhados em Munich, alcunhados como Returnees e presos como imigrantes ilegais – testemunhas oculares dessa história. Ancoramos em Santos sem nunca ter ouvido falar que existisse um país com o nome de Brasil.

Neste período, os sionistas, que achavam que os sobreviventes deveriam se esquecer de sua cultura humanista, internacionalista e pacifista, resolveram ainda instrumentalizar o Holocausto em favor do Estado de Israel. Em 1960, o Mossad capturou e contrabandeou o nazista Eichmann. Seu julgamento foi amplamente divulgado, televisionado e transmitido internacionalmente para mostrar ao mundo os crimes dos nazistas durante o Holocausto. Em 1963, tanto os israelenses como os judeus da diáspora amaldiçoaram Hannah Arendt por seu texto publicado em The New Yorker, Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal.

Seguiu-se a ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia em 1967 e, depois do Massacre de Sabra e Chatila de 1982, o militante sobrevivente Primo Levi declarou que Israel foi um erro em termos históricos e que “Como judeu da diáspora, que se sente muito mais italiano do que judeu, eu preferiria que o centro de gravidade do judaísmo ficasse fora de Israel… acredito que a principal corrente do judaísmo está mais bem preservada em outros lugares do que em Israel.” Contudo, efetivamente, o judaísmo da diáspora foi oficialmente capturado pelo sionismo.

Em Pesadelo palestino, mencionei que a Torah e a história do povo judeu foram moldadas e redigidas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos, e que qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios. O artigo foi postado em 23 de fevereiro de 2026, às vésperas da atual ofensiva de Israel contra o Iran, em conjunto com os Estados Unidos, que já transformou o genocídio palestino em guerra regional e corre ainda o risco de se alastrar para além do Oriente Médio.

O verdadeiro inimigo de Israel e do povo judeu não é o Hamas, o Hezbollah, o povo palestino ou os iranianos. O verdadeiro inimigo não é um oponente externo, é aquele que vive dentro de nós. A última vez que estive na Palestina foi em abril de 2023, seis meses antes da investida de Israel em 7 de outubro do mesmo ano. Em Jaffa, redigido em maio e publicado em junho de 2023, escrevi que os israelenses vivem no primeiro mundo, presos a uma armadilha, ricos, alegres, orgulhosos, arrogantes, escravos de sua opulência e de seu “poder” militar, refestelando-se e rindo-se da pobreza de seus arcaicos vizinhos palestinos e maldizendo os muçulmanos “sanguinários que vivem se esfaqueando uns aos outros em todas as partes do mundo”. Como não achei ninguém que pudesse fazer a apresentação, apresentei o livro eu mesmo, usando como autor o pseudônimo Shmuel e o sobrenome Yored, que significa traidor em hebraico.

•        Donald Trump será deposto? Por Liszt Vieira

Ao ameaçar extinguir a civilização persa do Irã, Donald Trump ameaçou um genocídio, acusação até então reservada a Israel pelo massacre de mais de 60 mil civis palestinos, dos quais cerca de 20 mil crianças. Donald Trump aceitou a proposta do Paquistão de adiar por duas semanas esse massacre da civilização do Irã que tornaria os Estados Unidos um país definitivamente bárbaro.

Donald Trump age como ditador que despreza a democracia, viola a Constituição sem que nada aconteça. O Judiciário nos EUA tradicionalmente entende que assuntos militares são da alçada do Executivo e do Congresso.

A demissão de militares de alta patente, ocupando cargos de grande importância, alimentou a especulação de que Donald Trump poderia sofrer deposição ou impeachment. Além disso, a saúde mental de Donald Trump voltou a ser questionada nos Estados Unidos. Está aumentando o movimento para seu afastamento, abrindo caminho para assumir o vice presidente D. J. Vance que é contra a guerra no Irã.

Vejam o que diz o jornal Le Monde de 8 de abril de 2026: “O presidente dos Estados Unidos é um louco: a escalada verbal de Donald Trump alimenta questionamentos sobre sua saúde mental. Parlamentares do Congresso, chocados com a linguagem vulgar e genocida empregada pelo ocupante da Casa Branca, começam a evocar a 25ª. Emenda da Constituição, que permite declarar um chefe de Estado inapto e transferir seus poderes ao vice-presidente”.

A 25a. Emenda à Constituição dos EUA foi criada para lidar com incapacidade física ou mental do presidente. O dispositivo mais relevante é a Seção 4, que permite ao vice-presidente, junto com a maioria do gabinete, declarar o presidente “incapaz de exercer os poderes e deveres do cargo”.

O Congresso decide: são necessários 2/3 em ambas as casas para manter o afastamento. A via da 25ª. Emenda é juridicamente possível, mas politicamente remota, salvo em caso de deterioração evidente e consensual da capacidade do presidente. No caso de impeachment, a Câmara dos Representantes aprova por maioria simples. O Senado julga, exigindo 2/3 dos votos para condenação e remoção. Donald Trump já sofreu dois impeachments (2019 e 2021), ambos sem condenação no Senado.

Depois das eleições de novembro, a viabilidade de um novo impeachment depende diretamente da correlação de forças. Se a oposição controlar a Câmara, aumenta a probabilidade de abertura de processo, especialmente se houver investigações, denúncias ou crises políticas relevantes. No Senado, a barreira dos 2/3 continua sendo o principal obstáculo.

Quanto à acusação de loucura, sua estupidez, maior que a inteligência, pode ser a causa de seu comportamento tresloucado. Louco ou não, Donald Trump caiu na armadilha que ele próprio montou por pressão de Israel e do lobby sionista: abriu guerra contra o Irã, o que só interessa a Israel e não interessa nada aos Estados Unidos.

Donald Trump tem duas opções e ambas significam derrota política. Se escalar a guerra e invadir com tropas o Irã, milhares de soldados americanos irão morrer e sua popularidade vai despencar ainda mais, perdendo condições de continuar no poder. Se recuar, será considerado derrotado. E ele não encontrou – pelo menos ainda – uma saída honrosa.

E, se continuar bombardeando o Irã, o Irã continuará bombardeando os países árabes do Golfo aliados dos EUA, com bases militares norte-americanas. Esses países verão sua economia destruída, deixarão de ser o paraíso do turismo e dos investimentos, o que já começou a ocorrer. Pode-se dizer que. literalmente, irão à falência.

Outro grande trunfo do Irã é o controle que mantém sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa de 20 a 25% do petróleo do mundo. A disparada nos preços do petróleo gera inflação no mundo todo, causando crise econômica global e redução drástica no apoio doméstico do governo de Donald Trump. A guerra no Irã, com ataques a infraestruturas estratégicas e o bloqueio do Estreito de Ormuz, provocou uma disparada nos preços do petróleo, seguida de baixas e novas elevações, aproximando o barril de US$ 120, gerando risco de crise energética global e inflação, especialmente com impacto nos combustíveis.

Segundo o Paquistão que mediou a trégua, o Líbano faz parte do acordo, mas Israel ignora e aumentou o bombardeio do Líbano, deixando 254 mortos e mais de mil feridos, após o anúncio de cessar fogo. O presidente do Irã diz que o cessar fogo foi rompido com ataque a ilhas iranianas. Após o ataque de Israel no Líbano, o Irã voltou a bloquear o Estreito de Ormuz.

Com perdas significativas na MAGA, seu próprio movimento de apoio, Donald Trump desce a ladeira e alimenta a possibilidade, embora remota, de ser destituído por aplicação da 25ª. emenda da Constituição dos Estados Unidos ou de um futuro impeachment. Quanto antes sair da guerra, melhor para ele. Mas isso abre conflitos com Israel que, segundo especulações não confirmadas, teria documentos preciosos sobre o envolvimento de Donald Trump nos arquivos de pedofilia de Jeffrey Epstein. De qualquer forma, poderia perder o apoio do lobby sionista nos Estados Unidos.

Assim, entre a Cruz e a Caldeirinha, Donald Trump caminha para uma derrota eleitoral nas eleições de mid term de novembro próximo. Conforme o resultado, isso poderia abrir caminho para o impeachment. Como já assinalado, dificilmente um impeachment seria aprovado no Senado, mas de qualquer forma Donald Trump seria no mínimo obrigado a mudar suas ações e sua postura de Rei do mundo que, lembrando William Shakespeare, não estaria mais em seu corpo.

 

Fonte: Le Monde/A Terra é Redonda

 

 

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